
Não demorou muito tempo até chegarmos a Samos. É um lugar maravilhoso, cheio de energia e de história. O Monastério ficava logo na entrada da cidade. Suas paredes eram cheias de arte, com pinturas das passagens bíblicas que, de tão perfeitas, muitas vezes, tínhamos a impressão de que eram reais. Depois de conhecer o seu interior, assistimos uma Missa com Canto gregoriano. Foi uma das coisas mais bonitas e tocantes que já vi em toda minha vida! A igreja que ficava do lado de fora era linda e aconchegante. Possuía muita riqueza também, o que me fez refletir se há a necessidade de ter tanto ouro em suas esculturas, enquanto no mundo, existem milhares de seres humanos passando fome. Mas, achei melhor seguir meu Caminho, sem julgamentos.
De repente, ouvi uma voz de mulher chamando por mim. Virei-me e dei de cara com a brasileira mais engraçada de todo o Caminho: Mônica. Foi uma festa!!! Os gritinhos devem estar ecoando pelos corredores tranqüilos do Monastério de Samos até hoje. Bem coisa de mulher mesmo! A corridinha meio sem jeito, de braços abertos e as mãos abanando, o abraço apertado, e uns projetos de lágrimas quase rolando pelo rosto, unidos a muito escândalo, “pero no mucho”... Agora, imagine tudo isso, com uma mochila peregrina nas costas! É como se fosse um grande acidente envolvendo duas carretas, carregadas de mercadorias. As ruas de Samos nunca mais seriam as mesmas.
Mônica era super animada, engraçada e uma grande companhia. Tinha um jeitinho todo especial de reclamar de tudo. O que ela mais odiava nos peregrinos era a simplicidade exagerada, principalmente daqueles que não eram chegados a um banho. A danadinha estava sempre impecável! Usar a mesma roupa do dia anterior, nunca! Muito menos sair sem usar um creminho no rosto! Ainda hoje dou boas risadas ao lembrar dela.
O Caminho é uma maravilhosa fonte de informações da vida alheia! É incrível como sempre descobríamos onde estavam as pessoas que conhecíamos, o que faziam, quem continuou, quem parou, quem namorou quem... E olha que muita gente arranjou um caso de amor por lá. Infelizmente não aconteceu comigo. Adoraria encontrar minha alma gêmea, mas já é tão difícil encontrar a si próprio... Mônica contou-me as últimas notícias que teve do Calixto e do Emerson. Aparentemente, o Calixto tinha parado em algum albergue e estava prestes a abandonar a peregrinação, devido às fortes dores no joelho. O Emerson vinha devagar, mas bem. Sobre meu amigo Chico, ela nada sabia. Senti uma saudade danada daquele companheiro tão cheio de humor e energia. Tive vontade de parar em algum lugar (leia-se bar), à espera de todos que conheci, para nos reunirmos e chegarmos juntos a Santiago. Seria interessante.
Apresentei Mônica aos meus amigos espanhóis e voltamos para o albergue. O combinado era almoçarmos e seguirmos caminho, mas depois de tanto comer, fiquei novamente com preguiça e minha amiga Mônica também não era das mais animadas para caminhar. Não poderia ter outro resultado, que não fosse desistirmos de continuar o Caminho naquele dia. Decidimos, Mônica e eu, ficar ali mesmo no albergue do Monastério e seguir no dia seguinte. Despedimo-nos dos meus amigos espanhóis e fomos fazer turismo pela pequena cidade. Nosso “tour” não durou cinco minutos e ficamos sem ter o que fazer para ocupar o resto do nosso dia. Quase me arrependi de não ter seguido adiante! Não gosto de ficar sem fazer nada, esperando a vida passar por mim. Porém, a amizade foi mais importante que a vontade de chegar. Mais uma lição do Caminho. Às vezes deixamos para trás todas as pessoas que fizeram parte de nossas vidas, com o objetivo de alcançar um porto seguro, mas esse porto está justamente nos amigos, na família e no amor que eles nos proporcionam. E o melhor de tudo é que eu não estava deixando de caminhar por causa dela, e sim, por querer desfrutar de sua companhia.
O banho foi a parte mais engraçada do dia. A Mônica estava em um chuveiro ao lado do meu, reclamando sem parar que a água vinha em pouca quantidade, que estava fria, que não dava para tomar um banho decente e, a todo o momento, fazia questão de lembrar o maravilhoso banho que tomou em um hotel de Estella. Disse-me que, quando chegasse em Santiago, ficaria no melhor hotel da cidade para compensar todos os banhos mal tomados. Cômico foi vê-la arrumando a cama. Saía tudo de dentro daquela mochila! Protetor de colchão (segundo ela, comprados na lojinha de R$1,99), lenço de seda (que era usado como fronha)... Só faltou o ursinho de pelúcia! O saco de dormir, transformou-se em cobertor, porque ela não admitia dormir naquele “casulo” e logo depois vieram os cremes. Creme para as mãos, para os pés, para o rosto, para as dores. Nesse ponto, acho que eu era uma peregrina bem prática e desprovida de vaidade. Quando comentei com ela sobre o exagero de coisas em sua mochila, tinha a resposta na ponta da língua:
— “Isso não é nada Fofolete! O pior foi uma gringa que levava um secador de cabelos e fazia escova todos os dias antes de sair caminhando por aí!”
Diante de tal argumento, tive que concordar e calar-me. Cada um tem noção do que realmente é essencial para si próprio.
Só conseguimos dormir depois de terminarmos nosso repertório de fofocas. O albergue era extremamente gelado e a noite para ela foi um terror. Graças à minha intuição, meu “casulo de dormir” agüentava temperaturas de até –5º, portanto, não tive problemas com as noites frias. Minha noite foi tranqüila, já a da minha amiga Monica, parece não ter sido das melhores. Seu “casulo” não devia suportar temperaturas baixas. Acordou de mau humor, reclamou do frio, do albergue, enfim, de tudo! Para compensar, só mesmo um delicioso café da manhã numa padaria em frente ao Monastério. Tivemos sorte. Na minha opinião, aquela foi a torrada mais gostosa que já comi, bem quentinha e com aquela manteiga derretendo...humm... Ainda assim, Monica conseguiu achar alguma coisa para reclamar: a conta!
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