segunda-feira, 19 de maio de 2008

"VÉIO DO RIO" - 19º DIA

Foi um longo e chuvoso dia até Sarria. Para piorar, continuávamos beirando a estrada, sentindo o vento forte dos carros. Já não tínhamos mais novidades para contar uma à outra e o jeito foi seguir em silêncio. Andamos por mais de três horas seguidas! Não havia lugar para descansar, devido à forte chuva. Os poucos pontos de ônibus com cobertura que encontramos, estavam totalmente alagados. Logo percebi que minha amiga não agüentaria o tranco por muito tempo. Então, tratei de apressar o passo, para que pudéssemos chegar rápido em algum lugar para descansar.


A Mônica estava um trapo quando chegamos à Sarria. Serei justa e não vou negar que eu também já não tinha quase mais forças para caminhar naquele dia. Faltavam alguns metros para a chegada, quando nos demos conta de que era hora da “siesta”. Foi difícil encontrar um bar aberto. Também ao encontrar, foi a glória! Sentamos confortavelmente à mesa e pedimos algo bem quente para beber. Combinamos descansar um pouco e depois continuar a jornada. Claro que nenhuma de nós conseguiu resistir ao pecado da gula e pedimos bolinhos de chocolate. Desde o começo, meu Caminho foi um eterno “come e descansa”. Enquanto nosso pedido não chegava, nossos corpos deslizavam delicadamente pela cadeira, até ficarmos quase deitadas. Se não fosse feio, juro que teria pedido para deitar-me um pouco no chão!


Resolvi sair para comprar um cigarro. Até aquela hora não tinha sentido vontade de fumar, mas diante de tantos bolinhos e cafézinhos, foi impossível segurar meus instintos. Não sei se estava sob algum efeito alucinógeno, provocado talvez, pelos bolinhos de chocolate, mas ao retornar ao bar, imaginei ter visto o ator Claudio Marzo atravessando a rua onde eu estava. Quando contei isso à Monica, ela não perdeu tempo em tirar um sarro da minha cara:
— “O que ele estaria fazendo aqui nessa cidade? Você deve é ter fumado alguma coisa um pouco mais forte do que esse cigarro e está delirando! Vai ver você viu o ‘véio do rio’!” – referindo-se à famosa personagem interpretada por ele na novela Pantanal.
Daí para chamar-me o tempo todo de ‘véio do rio’, foi um pulo. Ainda mais que minha capa de chuva estava sempre amarrada ao meu pescoço, voando com o vento, deixando-me parecida com o tal ‘véio’. O apelido pegou e não consegui nenhum à altura para dar a ela.

RELEMBRANDO: FOTO TIRADA EM ZUBIRI - NÃO PAREÇO O "VÉIO DO RIO"?

Quando entramos em Barbadelos, ficamos assustadas com a simplicidade exagerada do lugar. Parecia uma fazenda, mas depois vi que era um pueblo. Embora a cidadezinha não tivesse infra-estrutura, o seu albergue era grande e confortável. Todos os albergues da Galícia o são, mas os hospitaleiros são meros carimbadores de credencial. Não me recordo de nenhum que tenha sido simpático e de boa vontade. O espírito do Caminho havia se perdido. Tudo parecia ter virado um grande comércio. Pouco tempo depois de nos acomodarmos, um peregrino apareceu. Era David! O amigo inglês que eu havia encontrado em Burgos. Mas não fui só eu que tive surpresas. Alguns amigos da Mônica também chegaram: Linda, Irene e Mark. Realmente eram alegres e simpáticos como ela havia descrito. Enfim, reencontros e muita alegria.


Éramos só nós cinco no albergue. Estávamos confraternizando, quando um ônibus de turismo parou na entrada do refúgio. Desceram umas 30 pessoas, todas “fantasiadas” de peregrinos, com cajados, roupas e mochilas iguais às nossas, porém, não havia sinal de uso. Pareciam recém tiradas do armário. Perguntaram pela hospitaleira para carimbar a credencial. Fiquei pensando em tudo aquilo. É como receber um diploma de curso superior sem ter estudado. Quando saí para informá-los de que a hospitaleira ainda não tinha chegado, vi o brilho nos olhos de uma senhora. Parei para conversar com ela. Perguntou-me tudo sobre o Caminho. Quantos quilômetros eu andava por dia, onde tinha iniciado a peregrinação, se eu estava sozinha, de onde eu era. Depois de terminar seu questionário, a senhora calou-se por uns instantes e algumas lágrimas desceram de seus olhos. Perguntei porque ela chorava.
— “Gostaria de estar experimentando esses sentimentos também. Minha saúde é frágil e tenho que me contentar em fazer o Caminho de ônibus.”
Por fim, pediu-me que não a esquecesse quando chegasse em Santiago. Fiquei comovida com aquilo! Não tinha percebido o tamanho da minha façanha. Eu estava realizando um sonho que não pertencia só a mim, era o sonho de muitos. Percebi que, em respeito a todos os peregrinos impossibilitados de percorrer o Caminho da forma tradicional, eu deveria agradecer a cada minuto, a benção que me foi concedida por Deus de estar ali, e doar-me de corpo e alma àquele sonho. E agradecer também pela humildade em reconhecer que estava errada novamente e que deveria para de julgar as pessoas.


Fui sozinha jantar. Eu tinha me prometido uma noite de fartura! A companhia de Carmen, a dona do restaurante, foi agradabilíssima. Conversamos bastante. Contou-me que no ano anterior, um grupo de brasileiros havia passado por ali e feito uma grande festa. Gostara tanto deles que, dias depois, lá estava ela em Santiago, na Praça do Obradoiro, em frente à Catedral, esperando por todos de braços abertos. Largou o restaurante e passou alguns dias com o grupo festeiro. Mostrou-me as fotos de meus compatriotas e, para minha surpresa, quando li uma das mensagens no seu livro, descobri que um deles morava perto de mim. Quando eu disse isso, ela deu um salto de alegria. Até aquele momento, não tinha recebido notícias de todos do grupo e justamente do meu “quase-vizinho”. Escreveu uma enorme carta e pediu-me que a entregasse ao rapaz, o que foi cumprido logo que cheguei ao Rio, mas isso já é um capítulo à parte.

Quando voltei ao albergue, os demais peregrinos estavam em festa. Quase no final da peregrinação e os corações estavam apertados, ansiosos. Aquela noite foi super agradável. Banho quente para todos, camas confortáveis e o silêncio total, sem os roncos de sempre.

Um comentário:

Mystik disse...

Amada qto tempo sem noticias
por acaso hj encontrei na comunidade do orkut o link do blog
vim correndo
ta lindo
e assim pude matar a saudades de ti
amo teeeeeeeeeeeeeeeeeee

beijos serenos