Estávamos na cozinha, Mônica e eu, tomando uma xícara de café com leite. O albergue já estava todo na escuridão. A maioria das pessoas já dormia. Falávamos alegremente das nossas passagens do caminho, quando vi Mônica paralisada, com os olhos arregalados. Apontou para a cadeira ao lado, onde havia um gato preto, olhando fixamente para nós. Como adoro gatos, chamei-o para perto de mim, com grande reprovação por parte dela, que estava assustadíssima. Dei-lhe um pouco de leite e alguns pedacinhos de pão. A Mônica insistiu tanto para eu tirar o bichinho dali, que não pude recusar. Levei o gato para a rua e fechei a porta. Resolvido! Éramos só nós duas a fofocar. Um peregrino desavisado, que chegou mais tarde, deixou a porta entreaberta e o gato voltou. Mais uma vez, levei-o para fora e deixei no chão um pequeno pires cheio de leite, para que ele pudesse se distrair e não mais voltar. Só então fomos para cama em paz.
Escolhemos o “andar térreo” dos beliches, para facilitar uma possível ida ao banheiro no meio da madrugada (fiquei traumatizada com baldes e pinicos!!!). Nossas camas ficavam uma ao lado da outra. Havia uma mesinha, encostada na cama da Mônica, onde coloquei minha mochila. Abri meu “varal” e aproveitei para estender as roupas, ainda úmidas, no estrado da cama. Eu havia levado um elástico e uma canga, com isso, montava um varal nas camas onde dormia. Dessa forma, além de minhas roupas secarem durante a noite, eu tinha um pouco de privacidade, pois ninguém conseguia me ver. Sem mais fofocas para pôr em dia, pus-me a dormir como um anjo. No auge do sono, uma luz forte pairou sobre meu rosto, acordando-me. Junto a essa luz, uma voz trêmula e suspirante dizia:
— “Tilaaaaaaraa... Tilaaaaaaraa... O gaaaaaatooo... O gaaaaaaatooo... Ele está na sua mochilaaaaaaaa!!! Eu estou com meeeedoo...”
Nem preciso dizer quem é, não é? Era a minha amiga Mônica com a lanterna apontada para mim. Segundo ela, o gato estava plantado, com os olhos arregalados a encará-la.
— “Ah, Mônica... Deixa ele! Vai dormir e deixa o bichinho em paz! Ele só quer uma cama quentinha e confortável e não me importo se essa cama for a minha mochila!” — argumentei em vão.
Foi a coisa mais engraçada do mundo! Um mulherão daqueles, cismada que o gato iria atacá-la a qualquer momento. E o medo dela era tanto, que me contagiou. E eu não podia “amarelar”, pois foi minha a idéia de mimar o gato.
Reuni força e coragem, e saí pelo quarto a assobiar chamando o gato. Graças a Deus, ele seguiu-me até a rua. Ao voltar, fechei a porta do quarto, segura de que o bichano não mais voltaria. Um peregrino, que voltava do banheiro, deixou a porta novamente entreaberta. Eu avisei a Monica de que minha parte estava feita e que se o gato voltasse, a culpa era do tal peregrino. É claro que ela quase me matou! Restou-me torcer para que o gato não encontrasse o caminho de volta, ou então, seria outro escândalo daqueles!
Depois de tanta confusão, custei a pegar no sono de novo. Eu comecei a pensar no gato voltando, subindo na minha cama e me atacando. Tomei coragem e fui conferir se o bichinho estava mesmo do lado de fora. Para meu desespero, não encontrei nada. Nem sinal de gato! Voltei para a cama e passei a noite em claro. No final das contas, eu é que acabei sem dormir com medo do gato, enquanto a Mônica dormia como um anjinho. Coisas do caminho...
quinta-feira, 22 de maio de 2008
NEGRO GATO - 20ª NOITE
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Um comentário:
Caramba, Tilara, neste mesmo albergue, um gato entrou e ficou embaixo de uma das camas. Com medo q alguém q tivesse pavor de gatos desse um ataque, enrolei o gato com meu anorak, puxando-o pois não atendia meu chamado. Segurei-o no colo (era muito maior e mais pesado q minha gatinha), coloquei-o pra fora do albergue, fechei a porta da casa e do quarto e fui dormir. Nem pensei mais no gato... Deve ter sido o mesmo gato pois estive lá em maio/2000.
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