sexta-feira, 2 de maio de 2008

PERDIDA NA SELVA - 6º DIA

Ainda era noite quando acordamos com o barulho dos saquinhos plásticos que os peregrinos levam para guardar as roupas sujas. Ai, como eu queria dormir até meio-dia! O único incentivo para sair da cama era o delicioso cheirinho de café vindo da cozinha. Foi o primeiro albergue que nos ofereceu café da manhã. É claro que não desperdicei nem um pouquinho! O maior desafio para mim era deixar aquela mesa, mas tinha que sair e continuar meu Caminho. Fazer o quê?


Éramos quatro caminhando perto um do outro: Chico, Enrique, Björn e eu. Fui ficando um pouco para trás, pois as dores no joelho estavam voltando. Acho que com o frio ficavam piores. Fiquei poupando meu corpo e mandei que seguissem. O Enrique vinha logo depois de mim. Não demorou muito para que ele me alcançasse e continuássemos juntos por um tempo, conversando sobre as nossas dificuldades. De repente, deparamo-nos com uma bifurcação. Uma seta apontava para a direita e outra para a esquerda. Pelo jeito, qualquer uma delas, nos levaria à próxima cidade: Los Arcos. Eu teria seguido minha intuição e ido pela direita, mas surgiu um camponês, dizendo-nos que o certo era irmos pelo lado esquerdo. O Enrique parou para descansar e eu fui em frente, na direção apontada pelo camponês.


A fonte de Irache, onde podemos beber vinho à vontade, era um dos momentos mais aguardados por mim. Ficava logo na saída de Ayegui, um pueblo situado a 2 km de Estella. Estava doida para beber naquela fonte desde que comecei a pesquisar sobre o Caminho. Estranhei ao ver que já havia avançado mais de duas horas e nunca chegava lá. Passei por lugares de mata bem fechada, estradas de terra com muita lama e poucas setas, acompanhada de uma forte chuva. Não achava nunca a tal fonte, só terra e muito barro. Sabia que poderia estar perdida, mas já não tinha medo. Pensei comigo mesma que, o máximo que poderia acontecer se eu estivesse realmente perdida, era andar um pouco mais e, em algum momento, eu chegaria à uma cidade qualquer. Se esta cidade estava no roteiro do Caminho ou não, era irrelevante. No pior das hipóteses, eu gastaria um dinheiro extra com um táxi. Enfim, já não vestia mais a máscara fantasiosa de heroína e começava a ser uma pessoa normal novamente, simples e com os pés no chão.



Novamente passei por todas as estações do ano em um mesmo dia. Peguei sol, chuva, frio, vento, calor... A natureza pareceu ter percebido que estava sendo dura demais comigo e presenteou-me com um belo arco-íris. Eu o vi ao longe, no horizonte, colorindo o céu acinzentado. Lembrei-me das histórias que ouvia quando criança, onde no final de cada arco-íris havia um pote cheio de ouro! Aquela visão trouxe de volta toda uma pureza de sentimentos que deixei para trás junto com minha infância.



Àquela altura eu já sabia que estava perdida e segui então rumo ao tesouro no final do arco-íris. E ele não me enganou! Seguindo naquela direção, encontrei um pueblo. Parei para comer umas bananas e descansar em frente à igreja. Neste momento, ouvi alguém me chamar. Era o meu amigo Chico acompanhado de Björn. Os dois vinham felizes e acenando com garrafinhas cheias de vinho. Não acreditei! Onde estava a famosa fonte? Passei e não vi? E como foi que eles chegaram depois de mim, se eu estava bem atrás deles? Constatei que havia ido pela trilha errada. Puxa vida! Já havia me perdido no dia anterior, mas nem havia ficado chateada, mas deixar de provar aquele vinho... Me deu vontade de caminhar tudo de volta! Que pena! Talvez eu não estivesse preparada para beber...


Fiquei uns quinze minutos reclamando de tudo aquilo e os dois rindo de mim. Foi engraçado! Logo depois, chegou Enrique perguntando pela fonte. Acabei rindo também! Achei que tivesse sido a única perdida do dia, mas ele também havia seguido o mesmo trajeto maluco que eu. Estávamos confusos com o que tinha nos acontecido. Porque não encontramos a famosa fonte de Irache? Porque nos foi “tirado” o prazer de degustar o vinho que revigora os peregrinos? No meu caso, acabei entendendo que precisava enfrentar uma trilha sozinha, com todas as dificuldades que um peregrino poderia encontrar, tais como: chuva forte, os pés pesados, conseqüência do chão de terra molhada; e o mais temível de todos: a solidão. Descobri ainda, que eu havia seguido por uma variante do Caminho, por isso não encontrei a tal fonte de Irache. Por sorte, nossos amigos eram generosos e dividiram conosco o vinho.


Dali, continuei sozinha. Só encontrei o Chico já na entrada de Villamayor de Monjardin, metade da etapa prevista para aquele dia. Ainda teríamos três horas de um longo percurso sem infra-estrutura, ou seja: nada de fontes de água ou bares. Para esquecer a fome, comecei a cantar e dançar. O Chico ria muito de mim, mas depois entrou na minha onda. Mais a frente, juntamo-nos ao Björn que nos olhava com espanto, pois não entendia nada do que cantávamos. Ainda assim, arriscou umas notas de “Amor i love you...” Foi engraçado ouvir aquele alemão cantando, ou tentando, cantar Marisa Monte. E lá fomos nós, cantando e dançando no meio do nada.


Só havia a estrada de terra e uma imensa plantação de trigo ao nosso redor. O sol nos queimava com toda sua força e o vento era forte. Tão forte que quase me carregava. Isso fez com que eu forçasse mais ainda meu joelho. Tentei me desligar da dor, imaginando as pessoas na idade média atravessando aquele campo, com aquelas roupas pesadas, enfrentando o frio e o calor. De repente, senti uma energia diferente em mim. Eu me sentia como um guerreiro. Senti meu corpo altivo, forte, meus cabelos voando com o vento. Minhas roupas eram duras como uma armadura e ouvia o galopar dos cavalos ao meu lado. Uma voz me dizia para continuar:
“Tenha coragem, tudo ficará bem, na Santa paz de Deus, nosso pai. Você é um guerreiro e conseguirá vencer o medo e o Caminho.”
Era uma voz feminina. Olhei para os lados assustada para ver de onde ela vinha. Para minha surpresa, não havia ninguém. Tentei, em vão, conseguir uma explicação plausível para o que estava acontecendo. Quando parei de julgar o que acontecia comigo, comecei a sentir de verdade aquela energia que todos falavam sobre o Caminho. Não havia a barreira do tempo, era como se meu corpo e minha alma estivessem mesclados com alguma energia do passado. Talvez, a energia de alguém que fui em uma outra vida. O que sei, é que tudo aquilo me deu forças para continuar sem dores e com muito amor e felicidade no coração. Sem perceber, tinha atravessado a estrada, deixado Chico e Björn para trás e já estava em Los Arcos.


Continuei em frente, andando pelas estreitas ruas da cidade, meio fora do ar, sem saber direito o que fazer ou para onde seguir. Eis que surgiu, como havia acontecido anteriormente, “saltando” aos meus olhos, uma seta amarela. Ao lado dela, havia uma placa que dizia: Albergue de Los Arcos – massagem para peregrinos. Era tudo o que eu mais desejava ler naquela hora! Que reconfortante saber que a poucos metros dali, encontraria o merecido descanso e ainda por cima uma massagem!



Ao virar uma esquina, dei de cara com a linda Catedral de Los Arcos e pertinho dali, o albergue. Cheguei chorando muito e em frangalhos. Acho que se eu tivesse que dar mais um passo, cairia dura no chão. Um casal de holandeses fazia as honras da casa. Muito alegres e falantes. Receberam-me com todo o carinho do mundo e fizeram massagem no meu joelho. Ah, a maravilhosa massagem! Ofereceram-me ainda, hospedagem por uns dias, até que meu joelho melhorasse. Gostavam muito de brasileiros e disseram-me que o Calixto havia dormido lá no dia anterior. Fiquei feliz em saber que meu amigo estava conseguindo vencer. Toda vez que tinha notícias dele era um incentivo a mais para que eu não desistisse.


Limpei meus tênis e os coloquei para “dormir” ao lado de vários pares de bota. Era o único par de tênis do albergue. Deu uma saudade danada das minhas botas! Enquanto estava mergulhada em meus pensamentos, em meus amigos, Chico e Björn chegaram. Eu já tinha reservado duas camas, bem perto da minha para os dois. Contei ao Chico as notícias de Calixto e também, que estava com uma idéia louca na cabeça: resolvi que, no dia seguinte, pularia uma parte de ônibus. Meus joelhos estavam inchados e eu temia não chegar a tempo em Santiago se parasse por uns dias. Sua reação foi de total espanto! Não entendeu o motivo de tudo aquilo, mas respeitou minha decisão.


Foi uma decisão difícil, porque eu estaria matando o verdadeiro espírito peregrino ao embarcar em um ônibus e isso era imperdoável! Seria também uma grande oportunidade de aprender a não julgar-me com tanto rigor. Era importante que eu quebrasse as regras, assim deixaria de ser tão exigente comigo mesma! A vida toda sofri porque achava que tinha que salvar o mundo ou corrigir as pessoas. Que presunção a minha! Quem eu pensava que era para julgar ou dizer para os outros o que era certo ou errado? E quem foi que disse que pular um pedaço do Caminho de ônibus era pecado? Regras, regras e regras! Estava de saco cheio de tudo aquilo! Era hora de sair um pouco do convencional, do certinho. E seria duríssimo para mim, aceitar conscientemente, sem arrependimento e sem culpas, não seguir as “regras”. Novamente estava me colocando diante da situação conflitante de ser ou não heroína e isso seria decisivo para minha vida.

quinta-feira, 1 de maio de 2008

Vai, volta, reviravolta. Perdida, moída e feliz! - 5º dia

Acordei de bom humor!!! Tomei meu café da manhã, no meu ritmo, vi as notícias da tv e saí. Tinha apenas a companhia de minhas músicas, do sol, da natureza, da brisa gelada que insistia em acariciar meu rosto e, claro, do meu cajado! Durante muitas horas estive sozinha. Não havia ninguém ao meu lado para ditar o ritmo ou para interromper meus pensamentos. Sem o Chico, não havia também a companhia amiga e nem ajuda do seu guia e aí, em algumas vezes, julgava estar perdida, quando incrivelmente as setas amarelas pareciam saltar aos meus olhos.


Atravessei uma calçada romana muito conhecida por lá: Cirauqui (pronuncia-se “tiráuqui”), que significa ninho de víboras. Dias depois, este seria meu apelido. Não que eu seja uma víbora, mas este foi o jeito mais fácil encontrado por meu amigo francês, Jarc, de pronunciar meu nome (Tilara). Realmente, tenho que concordar com ele, pois meu nome é um pouco incomum. Antigamente eu ficava bem chateada quando alguém me chamava de Filara, Silara, Tiara e outras tantas “laras” que já não lembro mais. Eu perdia um tempo enorme tentando convencer as pessoas que meu nome era Tilara, repetindo-o por várias vezes, mas não adiantava. Acabava entregando os pontos e dizendo que me chamava Patricia e ponto final! Hoje dou boas risadas ao lembrar da minha criatividade. Mas, voltando ao Caminho, Cirauqui já era um recorde para mim! De Puente la Reina até lá, foram quase 8 km andando sem parar, mas meus joelhos começaram a sentir a esticada. Tentava esquecer a dor olhando a linda paisagem e ouvindo minhas músicas. Naquele dia minha trilha sonora era bem clássica. No repertório, Vivaldi. Nada mais perfeito para representar o clima totalmente imprevisível da Espanha do que “As Quatro Estações”.

CALÇADA ROMANA DE CIRAUQUI

Encontrei o “Trio cometa” fazendo um piquenique. Uma jovem alemã os fazia companhia. Acenei e desejei-lhes um bom Caminho. Alguns minutos depois, encontrei uma enorme escadaria. Parei diante daquele que seria meu maior desafio do dia. Respirei fundo e escolhi qual seria o joelho que pouparia de um esforço maior na descida. Não adiantou! A dor veio com tanta força, que quase desmaiei. Estava enraizada, parecia esmagar meus nervos. Não conseguia ficar de pé! Dei um grito de dor que deve ter sido ouvido aqui no Brasil. Sentei-me no chão e pus-me a chorar! Não havia o que fazer. Tinha que esperar a dor passar, para seguir adiante. Pensei em descer devagar até a beira da estrada e pedir uma carona, mas não consegui. A dor foi mais forte do que a vontade de lutar!


Meus amigos do “Trio cometa” vinham vindo e um deles até brincou comigo, perguntando se eu estava sentada ali admirando a paisagem e pensando em Copacabana. Quando viram meu sofrimento, pararam na hora! Deram-me remédios, fizeram massagem nos meus joelhos, perguntaram-me se eu queria continuar ou se queria um carro para ir ao hospital. Foram muito caridosos. Nunca esquecerei!!! Dispensei a idéia do carro e disse que podiam seguir seus Caminhos. Eu ficaria ali descansando e iria até onde meu corpo agüentasse.


A sensação era de total impotência. Só restava-me rezar para que a dor fosse embora, do contrário, meu Caminho estaria definitivamente ameaçado. Fiquei sentada ali por um bom tempo. Novamente vieram os pensamentos ruins. Eu já me via em um hospital, toda engessada e depois voltando para o Brasil sem completar o Caminho. Era o que eu precisava para levantar e seguir em frente! Imagine se eu me daria por vencida! Levantei em um impulso e desci gritando aos quatro ventos que nada me impediria de chegar, mesmo que fosse de muletas! E lá ia eu, mancando e gritando com ar de heroína! Ainda tinha muito que aprender...


Continuei andando mais preocupada com as dores do que com as setas amarelas que indicavam o Caminho. Quando percebi, estava perdida. Olhei para um lado e outro e nada de setas. Resolvi seguir em frente assim mesmo. Mais à frente, quando olhei para o outro lado da rua, em uma mureta, havia uma flecha apontando para o sentido oposto. Pronto!!! Estava perdida, andando em círculos, sozinha e, ainda por cima, começava a chover (o que seria péssimo para meus joelhos pois, com o barro, os pés ficavam mais pesados e o risco de torção aumentaria). Dei a volta e, alguns minutos depois, encontrei a jovem alemã que estava no piquenique com o “Trio cometa”. Ela parecia não ter forças para andar e ardia em febre. Era a minha vez de ser solidária. Como Deus faz tudo certinho! Acho que a dor me fez retardar a caminhada justamente para encontrá-la. Dei-lhe um antitérmico, vitamina C e prometi acompanhá-la até o albergue de Estella.


Ainda teríamos que achar o Caminho, pois estávamos perdidas. Ela conferiu seu guia e constatou que eu estava na direção certa e não sabia porque eu tinha voltado. Seguimos de acordo com o mapa e fiquei espantada ao ver que não havia seta amarela na mureta. Muito menos apontando para o sentido oposto, como eu vira antes. Teria sido alucinação? Prefiro acreditar que Deus colocou aquela seta ali, para que eu pudesse retribuir a ajuda recebida antes. Agradeci por ter tido a chance de ajudar alguém.


O dia nos surpreendia a cada instante. Ora chovia, ora o cansaço tomava conta de nossos corpos e às vezes, era o sol que teimava em queimar nossos rostos com toda sua força. A toda hora, eu pedia para dar uma olhada no guia da alemãzinha e via que, apesar de nossos esforços, havíamos avançado poucos km. Fiquei surpresa com a força de vontade daquela que, há poucos instantes, dependia de mim para continuar. Era um incentivo mútuo.


Fomos juntas até um pueblo a poucos km de Estella. Ela já estava cansada e não conseguia mais andar. Aproveitei para descansar junto com ela. Sentamos no banquinho da pracinha e ficamos mergulhadas em nossos pensamentos. De repente, uma buzina ensurdecedora acordou-nos. Olhamos em volta e vimos surgir um pequeno furgão, adentrando a rua da praça. Ele parou a poucos metros de nós e um homem saiu, abriu as janelas laterais do carro e nos convidou para provar o sorvete mais gostoso das redondezas. Àquela altura do campeonato, o calor já havia dado lugar ao frio, mas eu nem me importei. Comprei um sorvete enorme, com várias bolas coloridas, de sabores diferentes. Lambuzei-me inteira! Aos poucos, minha camiseta branca foi ganhando cores e ficou parecendo uma obra de arte. Eu estava feliz novamente! Voltava aos tempos de criança, onde os pipoqueiros, os sorveteiros, os vendedores de cuscuz e outras guloseimas passavam buzinando na porta da minha casa. Logo as dores foram esquecidas e eu já me sentia em condições de voltar ao caminho. A alemã percebeu que eu estava querendo seguir viagem e disse-me:
— “Siga seu Caminho. Já estou melhor e agradeço sua ajuda. Nos encontraremos em Estella.”
Foi quando nos separamos. Ela já estava sem febre, bem melhor e achei que poderia seguir tranqüila. Continuei marchando rumo à Estella. Não sem antes enfrentar mais uma daquelas horrorosas descidas. Até pensei em rolar morro abaixo, como um barril de cerveja. Já estava parecendo uma bola mesmo, depois de tanto sorvete!

IGREJA DE SAN PEDRO DE LA RUA

Alguns minutos depois, já estava na cidade de Estella! Venci mais um dia! Foi a segunda vez que senti a emoção da vitória. Muito parecido com o que senti ao chegar no Alto do Perdão, só que com uma diferença: Estella era o final de uma etapa. Era a sensação de vitória, misturada à emoção da chegada. Difícil explicar, mas é como alcançar um objetivo que, a principio, me parecia impossível. O Caminho é assim: cada dia é um obstáculo a ser superado, um sonho a ser conquistado.


O albergue era grande, bonito e limpo. Realmente muito acolhedor. Fui recepcionada pelo “Trio cometa”! Fizeram a maior festa quando cheguei! Ficaram espantados, porque não imaginaram que eu conseguiria andar até lá. Quando cheguei, cambaleando de tão cansada, os três já estavam arrumados e prontos para sair pela cidade. Eram realmente cheios de vida! Uma prova concreta de que as aparências enganam e a força de vontade independe da idade.


PONTE EM ESTELLA

Depois de um banho regenerador, fui dar um passeio pela cidade. O pôr do sol era magnífico. Cobria as casas de um tom pastel, quase como uma obra de arte. Havia uma ponte antiga cruzando o rio, onde parei para meditar. Fiquei ali admirando a paisagem e pensando em como estava feliz por ter superado sozinha a etapa do dia! Mas minha maior alegria daquele fim de tarde, ainda estava por vir. Senti muita falta do meu amigo Chico e, enquanto estava analisando meu dia sem ele, ouvi uma voz dizendo:
— “Tilara já está agitando a cidade!!!”
Olhei para trás e o vi chegando com seu amigo Enrique. Fiz a maior festa! Corri em sua direção e dei-lhe um abraço forte. Enchi-o de perguntas! Acho que ficou até tonto de tanto que eu falei! Estava extremamente feliz porque, de certa forma, era a minha “família” que estava chegando!

ENRIQUE E CHICO CHEGANDO EM ESTELLA

No Caminho, cada peregrino que passa acaba sendo parte de você, parte de sua história. Na vida é assim, são pessoas que passam e ficam por poucos minutos, outras ficam por mais tempo e aquelas que ficam para sempre. A diferença está na facilidade que temos no Caminho de virarmos amigos íntimos dos outros. É como se fôssemos parte de uma grande família, todos com o mesmo objetivo. Não havia motivo para discórdia, muito pelo contrário, havia motivação para a caridade, amor e união. A impressão que tive foi que, se um de nós falhasse na busca desse mundo utópico, todos os outros também falhariam. Era visível como um torcia pela vitória do outro e isso me enchia de segurança e paz.


Jantamos em um restaurante com mais dois peregrinos: Carla e Björn. Ela, uma sul-africana muito simpática e delicada. Reencontrar Björn seria a chance de descobrir o porquê da empatia mútua entre nós dois. Foi um jantar alegre! Eu, meu eterno amigo Chico e os dois peregrinos estrangeiros. Enfim, o Caminho começava a mostrar-me uma nova cara, cheia de vida e alegria!

quarta-feira, 30 de abril de 2008

Rumo ao Perdão - 4º dia

Por ter dormido muito mal, com medo dos ratos e dos roncos, acabei levantando cedo. Estava escuro e eu ainda tinha que pegar minhas roupas no varal, em um anexo do albergue. O Chico falou-me para esperar a hospitaleira acordar, pois ouvira dizer que havia um cachorro enorme naquele terreno. Mais uma vez, dominei meu medo e fui em busca de minhas roupas. Voltei carregando-as como se fossem troféus. E até hoje não sei se havia mesmo um cachorro ou se novamente meu amigo havia delirado.


AMANHECER EM CIZUR

Para meu desespero, a etapa seria mais difícil do que eu pensava. Além da forte subida ao Alto do Perdão, seriam 15 km sem fonte de água ou lugares para comer. E pelo amanhecer, o sol nos acompanharia o dia inteiro. Enchi meu cantil, tomei coragem e segui. Quase todos saíram ao mesmo tempo e caminhamos uma boa parte em grupo. Depois de alguns quilômetros, separei-me do Chico. Eu andava bem mais rápido que ele e pedi licença para seguir meu ritmo. E também queria testar a minha mais nova aquisição: meu CD player. Eu achava que era a peregrina mais “high tech” do Caminho, por estar usando um aparelhinho de som dos mais modernos, até que ouvi o toque de um celular. Pareceu-me tão fora de contexto! Imagina só: você fazendo o Caminho de Santiago, uma rota milenar, super mística e religiosa; um lugar para refletir, ver e analisar e, de repente, você acorda de seus pensamentos com aquela musiquinha chata que todo celular tem! Caminhando ao seu lado, uma pessoa atende com a maior naturalidade:
— “Estou aqui em Cizur...É Cizur, logo saindo de Pamplona...O que eu estou fazendo aqui?...Não cara!...É que estou caminhando...é...fazendo o Caminho de Santiago...isso mesmo!...Ah, você não sabe o que é isso? Não, não é no Chile! É um Caminho na Espanha que leva ao túmulo do Apóstolo Tiago...Não sabe? Deixa pra lá...Olha, resolve esse negócio aí, vê se eles fazem um desconto...você sabe...dá uma pechinchada e seja duro!...Daqui a algumas horas eu chego em uma cidade maior e te ligo de um hotel...”
Loucura, não? E que mal então meu toca CD’s poderia fazer? Pelo menos no meu caso, as pessoas não seriam incomodadas com algum barulho esquisito. Minto! Às vezes, eu me empolgava com as músicas que ouvia e soltava a voz...

SUBIDA AO ALTO DO PERDÃO - AO FUNDO CIZUR

A subida era forte, mas não tão íngreme como imaginei. Atravessei facilmente os pueblos em direção o monumento do Alto do Perdão. Ao chegar, parei por mais ou menos meia hora. Foi a primeira vez que chorei de emoção. Fiquei olhando o quanto havia caminhado para chegar até ali e tive a sensação da vitória, do dever cumprido. O Alto do Perdão é uma das partes mais famosas do Caminho. Existem fotos desse monumento em todos os guias do Caminho de Santiago. São vários peregrinos e seus animais de carga, esculpidos em ferro, no alto de uma montanha. De longe, parecem verdadeiros. E eu estava lá!!! Não era uma foto em um livro, era eu mesma!!! O que sentia era indescritível. Um momento único em minha vida.


ALTO DO PERDÃO

Depois de algum tempo curtindo a solidão, vi surgir meu amigo Chico. Estava emocionado também. Tiramos fotos e contamos nossas experiências daquelas horas que ficamos separados. Como ele sabia muito sobre cada parte do Caminho, explicou-me que aquele lugar era onde deveríamos pedir perdão, perdoar-se e perdoar. Deixaríamos todas as pendências para trás. Foi o que fiz. Ainda hoje, sinto dificuldade em perdoar-me, e cada vez que tenho que fazê-lo, penso naquele momento e aí, tudo fica mais fácil.


A descida foi a pior parte!!! Haviam muitas pedras soltas e um tombo era quase certo, se não tomássemos muito cuidado. Chico foi maravilhoso comigo. Apesar de sua dificuldade em descer a ladeira com todas as dores que sentia, emprestou-me seu cajado e acompanhou-me por todo o percurso. Em uma das cercas que passamos, encontramos, mais uma vez, uma marca deixada por nosso amigo Calixto, dizendo-nos para ter força e fé. Mais uma vez, lá estava ele! Sempre preocupado em nos deixar uma mensagem positiva!


Já na parte plana, paramos em mais um bar. Rimos bastante daquela nossa maneira particular de fazer o Caminho: “de bar em bar”. Sentamos um pouco do lado de fora, para sentir o calor do sol em nossos rostos. Era um dia maravilhoso de primavera e podíamos ver as flores desabrochando. Não havia uma nuvenzinha sequer no céu. Bebemos nossos refrigerantes e cafezinhos, fumei meu cigarro (eu e meu vício! Conseguiria largá-lo?) e seguimos juntos por um longo tempo. Passamos por um casal que apelidamos de “casal feiúra”. Cada vez que encontrava com eles, não podia olhar diretamente em seus olhos, que logo vinha uma vontade enorme de rir. E volta e meia, o casal passava por nós e acenava. Eu parava de andar, sentava-me no chão e dava gargalhadas! Nenhum dos dois podia imaginar o quanto era de mau gosto a nossa brincadeira. Estávamos julgando duas pessoas sem ao menos conhecê-las. No fundo, ao olhar para eles, de certa forma, eu os invejava. Senti falta de um companheiro que dividisse comigo aqueles momentos maravilhosos que eu estava vivendo. E afinal de contas, o que é a beleza? O embrulho não é a parte mais importante de um presente, por exemplo. Às vezes, até nos confunde um pouco, disfarçando um conteúdo não muito interessante. Os conceitos variam de pessoa para pessoa e acho que o mais importante é o que cada um tem de especial dentro de si. E logo eu, que muitas vezes na vida fiquei chateada porque as pessoas só olhavam o que eu tinha por fora; estava rindo de uma coisa supérflua, que é essa beleza imposta pela sociedade em que vivemos. Que dádiva de Deus eles estarem fazendo o Caminho juntos! Que presente poderem contar com o amor, o respeito, a amizade e o companheirismo um do outro!


Em Murazabal, aborreci-me com o Chico. Eu queria continuar e ele queria parar de novo. Eu comprei umas bananas e comi de pé mesmo, para não deixar o corpo esfriar. Ele queria ficar ali mais um pouco e disse-me que daquele jeito eu não completaria o Caminho, meu joelho iria estourar, etc... Aí quem estourou fui eu!
— “Você quer ficar? Então, tá! Eu vou seguir em frente, não estou com vontade de parar mais uma vez! Dane-se se meus joelhos não agüentarem! Eu sou forte e vou chegar até Santiago, mesmo que seja de muletas!” — gritei, sob o olhar espantado dos demais peregrinos.
Virei as costas e saí mancando, com um cigarro na boca, mas a cabeça erguida. A cena foi hilária! Quem visse saberia que o Chico tinha toda razão do mundo em alertar-me! Mas eu era cabeça dura e não queria dar o braço a torcer. Não era por ele, mas por mim! Eu não admitia perder! Por isso fui do jeito que deu. Logo depois a dor voltou e chorei muito, mas não deixei de dar um passo sequer. Por um lado foi bom, pois havia chegado a hora da separação. Aconteceria mais cedo ou mais tarde. Eu e o Chico tínhamos Caminhos diferentes pela frente! Tentar seguir juntos seria um erro fatal e eu não estava disposta a perder um grande amigo.


Segui caminhando, aos trancos e barrancos e passei como um cometa pela pequena cidade de Óbanos. Vi ao longe, a Ermita de Santa Maria de Eunate, cenário de uma importante e bonita história do Caminho. Diz a lenda que, Felícia e seu irmão Guillén, filhos de reis franceses; fizeram a peregrinação à Compostela. Ao voltarem, Felícia resolveu ficar trabalhando no Caminho como uma mera serviçal. Seu irmão continuou viagem até a corte e foi severamente advertido por seus pais, que ainda o obrigaram a buscá-la. Sua missão não foi bem sucedida, porque Felícia estava disposta a continuar seu trabalho, que já era reconhecido pelo povo local e considerado trabalho santo. No meio da discussão entre os dois, Guillén foi invadido por um sentimento de raiva incontrolável e golpeou a irmã com uma adaga, ocasionando sua morte. Arrependido, voltou a fazer o Caminho e na volta decidiu dar continuidade ao trabalho de Felícia. Ainda guardou o túmulo de sua irmã até os últimos momentos de sua vida. Tornou-se santo e seu crânio está guardado em um relicário de prata e só é retirado de lá, durante uma festa anual, onde o povo de Óbanos representa a lenda. Durante esta festa, o padre local oferece vinho aos peregrinos, não sem antes derramá-lo no crânio santo para consagrá-lo. Segundo a crença, este vinho tinha o poder de curar doenças. Eunate foi erguida no século XII pelos Templários, seguindo o desenho do templo de Jerusalém.

Se as condições físicas fossem diferentes, optaria por caminhar os dois km para visitá-la. O problema era que, para ir até lá, eu demoraria mais de uma hora caminhando e meus joelhos não agüentariam. A dor era insuportável. Eu mal conseguia caminhar. Novamente tirei forças não sei de onde e cheguei em Puente la Reina. Esta cidade é o ponto de encontro dos Caminhos Aragonês, que se inicia em Somport, e o Francês (o mais tradicional e o que eu estava percorrendo). O albergue estava fechado e havia uma reunião de peregrinos na porta decidindo o que fazer. Eu não estava disposta a pagar um hotel e não tinha condições de ir até a próxima cidade. Resolvi ficar e esperar para ver o que iria acontecer. Alguns diziam que o albergue abriria, outros, que haveria quartos extras em um hotel perto dali a preços populares. Fiquei descansando em meu colchonete até que as coisas se resolvessem. Um tempo depois, apareceu meu amigo Chico, acompanhado de um espanhol muito simpático chamado Enrique. Aproveitei para desculpar-me por ter sido tão mal educada com ele. Contei-lhes o que se passava e os dois resolveram seguir para uma pousada. Convidaram-me para seguir com eles, mas preferi esperar com os outros peregrinos. Foi uma tortura! Odeio esperar! Parece que cada minuto é uma eternidade. Comecei a ficar inquieta e voltou aquela sensação ruim de medo. Eu olhava para aquelas pessoas à minha volta e vinha à minha cabeça os mais loucos pensamentos. Quem eram aquelas pessoas? Será que eu podia confiar nelas? E que raios eu estava fazendo ali? Podia estar no Brasil dando uma voltinha no meu carro novo, fazendo algum teste para um comercial, dormindo na minha cama, saindo com os amigos, sei lá! O que me agoniava era a sensação de solidão, mesmo estando acompanhada. Resolvi levantar e sair um pouco. Ficar ali esperando, definitivamente não era a melhor solução.

PUENTE LA REINA

Dei uma volta pela cidade para comprar um cajado e antiinflamatórios. No início, julguei ser desnecessário caminhar com um cajado, mas logo vieram as dores e percebi que sem ele não poderia prosseguir. Alguns peregrinos compram o seu cajado em lojas, ou então, de artesãos que os vendem nos povoados por onde passamos; outros, procuram o cajado no próprio Caminho, aproveitando galhos secos que estão no chão. Não entendia muito bem o porquê de tanta fantasia em torno de um simples pedaço de madeira, mas ao entrar em uma lojinha, demorei mais de meia hora para escolher o meu. O vendedor mostrou-me inúmeros cajados, de diversas formas e tamanhos, mas nunca achava algum que tivesse a minha cara (“cara de pau” – brincadeirinha...). Quando já estava quase desistindo e seguindo rumo à uma outra loja, vi um cajado pendurado no canto da vitrine. Pensei comigo mesma “Lá está ele, meu companheiro, meu porto seguro! Passei por ele e não o vi! Que distração a minha!” Precisei perder um tempo enorme procurando-o, enquanto ele estava mais perto do que eu imaginava! Era ele! Com ele, nada me impediria!!! Chegaria até Santiago!!! Comecei a tomar gosto pelo meu sonho. Visualizei cada etapa, cada pedacinho, cada obstáculo a vencer.


Fomos juntos, eu e meu cajado, à farmácia comprar o antiinflamatório. Já estava pronta para seguir, sem medo até Santiago! Voltei mais estimulada para o albergue e encontrei um verdadeiro “acampamento” na porta. Os peregrinos foram chegando e abrindo suas mochilas ali mesmo. Juntei-me a eles, fiz massagem no joelho e esperei até às 19:00h, quando, enfim, liberaram um quarto extra no hotel ao lado. Era a certeza de que o albergue não abriria suas portas naquele dia. Apesar de improvisado, foi um ótimo lugar para pernoitar, com todo o conforto que um hotel pode oferecer. Tínhamos banho super quente, banheiros individuais e camas boas e limpas.


Fui para o restaurante jantar. Um brasileiro, Odair, fez-me companhia. Na mesa ao lado estava o “Trio Cometa” e mais um peregrino alemão: Björn. Não sei explicar, mas senti uma energia boa entre nós dois. Tentamos conversar um pouco, mas havia a dificuldade do idioma. Nenhum de nós falava muito bem inglês e, em algumas vezes, tivemos que apelar para a mímica. Quando acabei de jantar, chegou um pedaço enorme de pudim. Eu já não tinha mais espaço em meu estômago e deixei-o de lado. Percebi que Björn não desgrudava os olhos da minha sobremesa. Resolvi oferecê-la a ele. Ficou um pouco constrangido, mas depois aceitou o pudim e o devorou em questão de segundos. Rimos bastante de tudo aquilo, pois eu fiquei com receio de parecer mal educada em oferecer e ele ficou sem graça em aceitar o polêmico pudim. No final das contas, tudo se resolveu e ficamos muito amigos a partir daquele momento. Foi engraçado, parecia que eu já o conhecia há muito tempo!

terça-feira, 29 de abril de 2008

TOUROS, RATOS E DEVANEIOS - 3º DIA

Acordamos decididos a fazer algo por nossos corpos. Eu comprei uma tornozeleira e o Chico “pegou emprestado” algumas pomadas que estavam largadas no albergue. Nos dois dias de Caminho, devido à dor no dedão, apoiei meu pé de forma errada ao caminhar e aí, a dor resolveu mudar de lugar e foi parar no tornozelo. O Chico estava todo dolorido, cada hora uma dor diferente, em um lugar diferente, mas nenhuma tão intensa quanto a minha. Voltamos para tomar café no albergue e encontramos o mesmo padre que havia nos recebido. Disse para deixarmos de ser preguiçosos e fazermos o possível para andar mais do que no dia anterior. Saímos rindo daquela “gafe”. Éramos os peregrinos mais descansados do Caminho!


Não contava que fosse ficar tão impaciente com o Chico a partir daquele dia. Não que ele fosse chato ou inconveniente, mas porque eu já estava em outro estado de espírito. Cada um de nós tinha uma prioridade. Eu queria parar em uma loja para comprar um cd player (levei vários cds do Brasil escolhidos a dedo) e ele queria tomar seu café com leite. Acabei cedendo e fomos comer. Teria que tomar uma decisão rápida. Não podia mais aceitar depender de uma outra pessoa para fazer as coisas. Afinal de contas, eu escolhi fazer o Caminho sozinha! Havia deixado tudo e todos no Brasil, justamente para conhecer a mim mesma. Estava deixando de fazer minhas coisas por alguém e no final eu é que estava infeliz. Foi ali que percebi o quanto estava sendo dependente do Chico e ele de mim. Precisávamos nos separar, mas ainda não tinha coragem de deixar meu amigo e seguir sem ele.



Muralhas rodeavam Pamplona. Para entrarmos na cidade, tivemos que contorná-las, como se tivéssemos seguindo as paredes de um labirinto. Eram incrivelmente altas e belas! Uma das coisas mais lindas que já vi. Logo depois, subimos uma ladeira de pedras, não muito íngreme, cruzamos uma espécie de portal e entramos em Pamplona. Paramos um pouco para admirar a paisagem lá de cima e um senhor veio em nossa direção. Conversamos um pouco. Aquelas perguntas de praxe “De onde vocês são? Onde começaram o Caminho?”... Ouvíamos isso em todos os lugares por onde passávamos. Perguntamos onde ficava a catedral e o senhor fez questão de nos acompanhar. Mostrou-nos a igreja, os museus, os palácios do governo local. Contou-nos que naquelas ruas o povo faz corridas de touros em maio. A manada corre atrás de um bando de malucos dispostos a fugir dos ferozes animais! Fiquei imaginando como seria fugir de um touro arisco e nada simpático por aquelas ruelas e, ainda por cima, com uma mochila nas costas. Ainda bem que estávamos em abril!


Realmente Pamplona é uma cidade incrivelmente bela. Em volta da Plaza del Castillo, a principal da cidade, vários “cafés” onde as pessoas jogavam conversa fora ou simplesmente sentavam-se tranqüilamente para ler um jornal. Era tudo muito colorido, apesar do tempo nublado. Talvez fossem meus olhos que simpatizavam com aquele lugar, pois as árvores que rodeavam a praça estavam todas desfolhadas e com uma cor acinzentada. Eu já via magia e beleza em tudo! Todos muitos bem arrumados, com seus sobretudos e casacos de pele e, apesar de todo o frio, era quase impossível não encontrar alguém com um sorvete nas mãos. Tive a sorte de encontrar meu doce favorito: Gofres. É uma espécie de waffle, um pouco mais adocicado e crocante que o nosso, coberto com uma generosa porção de chantilly e calda de chocolate quente. Um manjar dos deuses!


Pedi licença ao meu amigo Chico e fui em busca de um novo companheiro de Caminho: um tênis! Tinha cismado com as botas e precisava de um calçado mais maleável. Havia muitas lojas ali perto e não foi muito difícil encontrá-lo. Mais uma vez tive sorte, porque depois de encontrar meu doce favorito, encontrei o calçado perfeito a um preço bem mais acessível. Consegui livrar-me de mais um problema e estava feliz.


Podemos enviar coisas para Santiago em nosso próprio nome e pegá-las na agência central dos correios no local de destino. Tinha que arranjar uma caixa onde pudesse colocar minhas botas e enviá-las para Santiago. Achei que estava bem familiarizada com a língua local e tentei, inúmeras vezes, comprar a bendita caixa. Tudo em vão! Então, pensei em pedir ajuda ao senhor que nos acompanhou pelas ruas da cidade quando chegamos. Consegui encontrá-lo no mesmo lugar, parado, talvez à espera de outros peregrinos. É claro que não encontraria mais ninguém, pois pelo jeito eu e o Chico éramos os últimos a passar por ali naquele dia. Imagina se a dupla mais boêmia e preguiçosa deixaria a “lanterna” para outros andarilhos! Pedi que me acompanhasse e ajudou-me com prazer a despachar as botas para Santiago e não deixou-me pagar a conta da papelaria, onde comprei a pequena caixa. Até hoje não sei seu nome, mas no fundo do coração eu o agradeço por sua amabilidade. Só faltava o meu cd player! Era impossível imaginar-me mais um dia sem minha “trilha sonora”.


Voltei à praça para encontrar o Chico e partirmos rumo à Cizur Menor, que é na outra extremidade de Pamplona. Passamos pelo campus da Universidade de Navarra, onde as pessoas se exercitavam e passeavam com seus filhos. Num desses lugares, vimos três peregrinos de cabelos brancos. Aqueles que julgávamos ser mais frágeis por serem mais velhos, eram justamente os que caminhavam mais rapidamente, nos fazendo comer poeira!!! Aquele trio nos acompanharia durante alguns dias. Foi o maior exemplo de força e determinação que tive no Caminho. Eram de uma solidariedade singular e super amorosos! Fico emocionada só de lembrá-los! Por não saber seus nomes, apelidei-os de “Trio Cometa”.


Quase chegando a Cizur, muitos peregrinos iam juntando-se à nossa marcha. A maioria deles era de algum lugar da Europa e estava começando o Caminho ali em Pamplona. O grupo foi crescendo e minha preocupação também. Durante a primeira semana, quase não curti o Caminho, com medo de não ter lugar para dormir nos albergues. Isso foi estragando a minha viagem, porque eu andava no ritmo das outras pessoas. Desde então, a dor no tornozelo passou para os dois joelhos com uma intensidade tão grande, que quase me impediu de continuar. Não imaginava ter tanta força para transpor aqueles obstáculos tão duros e que eu própria havia criado. Percebi que na vida, a maior parte de nossos problemas são criados por nós mesmos. Uma bela lição, mas difícil de ser seguida no nosso dia a dia.


Ao chegarmos no albergue, Chico, eu e uma peregrina escocesa, ocupamos as três últimas vagas existentes. O que me corroeu foi ver o “Trio Cometa” bater de cara na porta. Talvez por nossa culpa, talvez não. Aprendi então outra lição, um pouco cruel, é verdade, mas é a lei da vida, a lei do mais forte, do mais rápido. Mesmo assim, não me senti bem com todo o esforço que fiz para garantir uma vaga em um albergue. Será que valeu a pena ter corrido tanto? Meu corpo disse-me que não. E minha consciência concordou. Não era só o fato de três peregrinos terem ficado sem lugar para dormir, mas também o fato de não ter a mínima importância um lugar para dormir, se comparado a tudo que deixei passar em branco durante o percurso. Eu poderia ter seguido para um hotel ou até ter dormido no jardim do albergue. Foi ali que percebi o que geralmente buscava, erradamente, a vida inteira: chegar na frente, ser a melhor, ser perfeita. Ganhei a “corrida” daquele dia. Em compensação, meu dia poderia ter sido mais alegre e sem dores.


O albergue era particular e a hospitaleira um pouco rude. Bem diferente do espírito do Caminho de Santiago. Senti-me em um hotel, pagando caro e recebendo as chaves de meu quarto, se é que posso chamar aquilo de quarto! Mesmo assim, encontrei algo que valia a pena: um belo jardim, onde pude descansar, sentindo o sol em meu rosto.


No fim da tarde, depois de lavar as roupas do dia, resolvi voltar à cidade para comprar o meu CD player. Andei quase 5 km e a dor era insuportável. Valeu a pena! De quebra, achei uma lojinha com internet e escrevi para os meus amigos no Brasil. Voltei mancando muito, mas toda feliz porque, enfim, estava ouvindo minhas músicas. De certa forma, elas distraíam minha cabeça e eu acabava esquecendo as dores nos joelhos. Cheguei ao albergue com um sorrisão no rosto. Não encontrei ninguém. Todos os peregrinos já haviam saído para jantar. Segui então para o restaurante, na esperança de encontrá-los. Por sorte, só havia um lugar para comer ali perto e jantei com meu amigo Chico e um casal de argentinos.


Devidamente alimentados, voltamos para o albergue e fomos dormir, pois o dia seguinte seria muito duro, com uma subida forte ao Alto do Perdão. Nossa noite foi pavorosa!!! Difícil saber quem roncava mais naquele pequeno quarto. No meio da madrugada, deu-me vontade de ir ao banheiro e o Chico quase me matou de susto, dizendo que havia um rato circulando pelo chão. A vontade foi mais forte que o medo, e nada me aconteceu. Até hoje, eu não sei ao certo, se realmente havia um rato no quarto, ou se foi um devaneio do meu amigo.


segunda-feira, 28 de abril de 2008

Poucos km, muito tempo - o segundo dia.

A chuva nos esperava impacientemente naquele dia. Não sei o que foi pior: chuva no primeiro dia, para irmos nos acostumando, finíssima, preparada para nos dar um banho daqueles! Visibilidade zero! Temperatura, a meu ver, também! Antes de sair do albergue, deixei algumas coisas de lado, pois , ou no dia seguinte, com os músculos doendo e cansados pra chuchu! Ela estava lá, imponente minha mochila estava muita pesada. Imagem vocês que a louca aqui levou ao Caminho um guia que tinha ganhado de presente! Pois é, ainda bem que tinha discernimento para escolher o que era dispensável logo no segundo dia! Além do guia, ficaram também, o xampu, o creme hidratante e um moletom. Depois do pequeno desapego era hora de seguir em frente.

Chico e eu, os “lanterninhas solitários do Caminho”, paramos em uma padaria maravilhosa (para variar!!!) e tomei um dos cafés da manhã mais saborosos de toda a minha vida! Café com leite acompanhado de um croissant generosamente recheado de chocolate. Um não! Dois, porque eu não sou boba!!! Assim, devidamente alimentados, voltamos para nossa “rotina”. À medida que íamos caminhando, víamos o quanto seria mesmo impossível ter seguido até Larrasoaña na tarde anterior. Demos graças a Deus por termos dormido em Zubiri! Com a chuva, a dificuldade aumentava. Meus pés afundavam na lama, escorregavam a toda hora. Ainda tinha que equilibrar o corpo para não rolar uma ribanceira e cair dentro do rio. E havia também o “põe e tira capa de chuva” constantemente. Seria um passeio maravilhoso sem dúvida, e sem chuva, é claro!


Quando chegamos a Larrasoaña...bar aberto...parada na certa!!! O senhor que nos atendeu conversou muito conosco sobre o Brasil. Disse-nos ser Zangalo, primo de uma “cantante brasileira de Bahia”. Nada mais, nada menos que Ivete Sangalo (Aí Ivete: tens um primo no Caminho e aposto que você não sabia! Ou sabia?). Dessa vez não era o famoso Paulo Coelho o assunto da conversa. O homem era tão gentil e amoroso, que perdemos a noção do tempo (o que já era comum para nós) e ficamos enrolando, curtindo a preguiça.


Seguindo em frente, minutos depois, lembrei-me das rodovias de São Paulo, ao deparar com uma imensa área de descanso na beira da estrada. Algumas mesinhas e cadeiras, churrasqueira e até banheiro! Perfeito! A única diferença é que, aparentemente, na Espanha é seguro parar ali, já no Brasil... Vi alguns motoristas chegando com seus lanches e parando para comer. O café da manhã já estava fazendo efeito e deu-me uma dor de barriga daquelas! Não sou muito fã dos banheiros públicos, mas tive que apelar. Fiz todo aquele ritual: forrar bem o vaso com papel higiênico, sentar-me confortavelmente, acender um cigarrinho (que ajuda bastante!!!) e se tivesse um gibi, teria sido perfeito. Na falta de algo interessante para ler, concentrei-me nas mensagens deixadas na porta do banheiro e acabei encontrando uma assinatura do Calixto. Comecei a gritar como uma louca lá de dentro. O Chico foi correndo, apavorado, achando que eu estava em apuros. E eu, sentada no “trono”, dizia para o Chico:
- “Caramba, você não imagina o que eu estou vendo aqui dentro! Estou diante da assinatura do Calixto!
Coisa mais doida para se fazer em um lugar tão místico... Sentar-se na privada e ficar de conversa fiada com uma pessoa do lado de fora do banheiro, sobre a simples assinatura de um outro peregrino. Era intimidade demais para poucos dias de convivência. Só faltava abrir a porta para que ele entrasse e visse os rabiscos com os próprios olhos, enquanto eu fazia um “descarrego”. Como diz uma amiga minha: “A intimidade é um caminho sem volta”! Voltando à assinatura: fiquei feliz em saber que Calixto estava bem. Ele havia sofrido uma cirurgia nos dois joelhos, pouco antes de ir ao Caminho. Ainda devia estar em fase de recuperação. Achei que ele estava cometendo uma loucura, mas cada um sabe de si. Não podia julgá-lo, mesmo porque, eu também não estava em plena forma física, era fumante e estava lá no Caminho firme e forte.

Ponte na entrada de Trinidad de Arre

Quando chegamos à Trinidad de Arre, uma extensão da cidade de Pamplona (aquela do aeroporto cheio de executivos onde desembarcamos), não resistimos aos apelos daquele simpático albergue junto à ponte. Resolvemos bater na porta e entrar para dar uma olhadinha. Um padre apareceu e nos disse que o albergue ainda estava fechado, só abriria em 15 minutos. Esperamos um pouco ali por perto e voltamos. O mesmo padre nos recebeu. Perguntou de onde tínhamos vindo e ao responder que havíamos passado a noite anterior em Zubiri, (que ficava a apenas 16km dali) deu boas risadas e até nos chamou de preguiçosos! Disfarçamos um pouco, dizendo que íamos só descansar um pouquinho, mas acho que o padre não acreditou na gente. O conforto do albergue não nos deixou dúvidas, era tudo muito acolhedor e super equipado! Máquina disso, máquina daquilo, água quente à vontade...
...Altamente tentador! Resolvemos ficar, é claro! Voltamos para a recepção e o padre riu de novo, já desconfiando que iríamos pedir para ficar. Que vexame! Pelo andar da carruagem, levaríamos mais de um ano para chegar a Santiago.


Mais uma vez estávamos a sós. Conseguimos lavar as roupas cheias de barro, descansar, tomar chá, café, salgadinhos, curtir um banho bem quente e demorado, com direito a canções debaixo do chuveiro; tudo sem sair do albergue. Para completar a noite de regalias, resolvemos jantar dignamente em um restaurante. Exageramos um pouco na comida. A fartura era tanta que voltei para o albergue em “slow motion”. O peso da mochila era fichinha! O Chico deu muitas risadas quando eu disse que havia trocado a mochila pela “panchete”, mistura de pança com pochete. Estava feliz em ter encontrado um amigo especial como ele! Estávamos compartilhando tudo: os medos, a companhia, a alegria, os sonhos e a esperança.


Ficamos sentados na sala de estar, conversando sobre os dois dias de Caminho, o que buscávamos e os motivos que nos levaram a estar ali. Foi quando parei para ler as mensagens no caderno do albergue (quase todos os albergues têm um livro de mensagens). Gosto muito de ler essas coisas! Em casa, costumo ler cartas antigas de amigos e elas me fazem viajar no tempo e, em muitas vezes, enxergar melhor a vida. Esse caderno me fez ver que aquele sofrimento não era só meu e, apesar de toda e qualquer dificuldade, estar no Caminho era um grande prazer. Cada um que passava por ali contava o seu dia, seus sentimentos, deixava um alô para os amigos do mesmo país, desenhavam algo ou agradeciam a Deus e a Santiago por tudo.
Neste mesmo caderno li uma mensagem que dizia: “Não podemos evitar a dor, mas podemos ter uma atitude diferente perante ela.” É verdade! Podemos deixar que ela nos derrube ou simplesmente podemos ignorá-la e seguir adiante. E a vida é assim mesmo. Os problemas sempre estarão presentes, só nos resta mudar a maneira de encará-los. Para mim, era importantíssimo refletir sobre essa questão, pois sou a rainha da ansiedade. Meus problemas ficam muito maiores do que realmente são e acabo sendo a pessoa mais chata do mundo. Meu amigo Chico que o diga...


Depois da leitura, fomos dormir. Foi uma noite agradável e de muitos sonhos. Os pesadelos haviam me deixado em paz. Já não existia mais medo e sentia-me segura ao lado do Chico.
Trinidad de Arre

domingo, 27 de abril de 2008

DE BAR EM BAR - O PRIMEIRO DIA

Não demorou muito até que Chico e Calixto aparecessem para o café. Chico e eu combinamos desayunar[1] tranquilamente adiando, talvez, a hora do confronto. Calixto resolveu partir na frente, pois queria começar o Caminho sozinho. Antes, deixou-me seu maço de cigarros, dizendo que dali para frente não fumaria mais. Mesmo assim, resolvi guardá-lo em minha mochila, caso houvesse uma recaída da parte dele. Despediu-se de nós e caiu na estrada.


Depois de muito enrolar naquela mesa de café da manhã, Chico e eu tomamos coragem, ajustamos nossas mochilas e partimos. Minhas previsões estavam certas, realmente fomos presenteados com um dia de muito sol e com isso a paisagem mostrava-se bem mais bonita que no dia anterior. Passamos por cavalo branco “estacionado” em frente à outra pousada. Parecia o cavalo de um príncipe! Achei que pertencia a um homem do povoado, mas depois descobri que era de um peregrino. Ele estava fazendo o Caminho com seu cavalo, que já era bem velho, e essa talvez fosse a última viagem do fiel animal. Sem dúvida, uma despedida especial.


Ovelhinhas no pasto, árvores cheias de galhos secos e a névoa do amanhecer me faziam lembrar do filme “As brumas de Avalon”. Por um momento esqueci de que estava ali para caminhar e enfrentar uma etapa difícil, com longos trechos e subidas fortes. Fomos avançando floresta adentro, respirando o ar puro e gelado das montanhas Navarras. Eu estava acostumada com o clima tropical do Rio de Janeiro e aquele ar gelado fazia arder minhas narinas. Apesar de bem agasalhada, ao respirar, meu corpo todo parecia congelar e o frio corroía os ossos. Mesmo assim, estava feliz! Caminhamos por entre árvores enormes, que jogavam sobre nós suas folhas secas, tal qual uma chuva de confetes, como se estivessem nos saudando por estar entre elas.


Íamos encontrando, ao longo do Caminho, pequenas cercas que dividiam as fazendas da região. Lembrei da minha infância, quando ia com meus pais visitar meus avós na fazenda. A todo momento, tínhamos que descer do carro e abrir as porteiras da estradinha de terra para chegar em sua casa. Foi meu primeiro momento de nostalgia! Ao passar por uma delas, vi que muitos peregrinos haviam cravado seus nomes na madeira. Eram tantos rabiscos, alguns mais recentes, outros mais apagados, que não vi problema em acrescentar mais uma assinatura! Não poderia deixar de colocar minha marca! Era a forma de dizer para meus avós que lembrei dos dois. E de onde eles estivessem, no “Céu”, na “Terra do Verão”, no “Paraíso”, ou em outra “Dimensão”, estariam compartilhando aquelas memórias comigo.


Caminhamos até Zubiri. Fiquei fascinada com os pueblos que íamos passando. Já os tínhamos visto, quando fomos de táxi para Roncesvalles, mas entrar em um pueblo antigo foi uma experiência incrível! Caminhando, podíamos ver todos os detalhes, falar com as pessoas, sentir o perfume das flores e absorver a energia do lugar. O presente misturava-se ao passado. Nós representávamos o presente. Buscávamos a renovação da alma, no mesmo chão que os Celtas, os Templários, Carlos Magno e os seguidores de Santiago Apóstolo um dia pisaram. E isso era mágico!


O primeiro pueblo por onde passamos, chamava-se Burguete. Foi o mais bonito que vi naquele dia. Suas ruas eram estreitas e suas calçadas, pequeninas. Mal dava para andar com minha enorme mochila. Tudo muito organizado e limpo. Ao passar pela igreja local, encontramos dois peregrinos lanchando: Harrison e Paco. Um brasileiro e um Mexicano. Acenamos para eles, conversamos um pouco e fomos adiante. O segundo pueblo chamava-se Espinal. Não era tão bonito como o primeiro, mas também tinha seu encanto. Fizemos então, nossa primeira parada em um bar. Tive uma vontade enorme de beber um refrigerante e fumar um cigarro. Pelo visto o Caminho não resolveria vício, e eu ainda não percebia que a solução estava dentro de mim mesma. O Chico ficou no seu café com leite. Toda vez que parávamos era assim: eu e meus vícios e Chico e seus cafés com leite. Até brinquei com ele que deveríamos escrever um livro chamado “Guia do Caminho de Santiago de bar em bar”. Seria engraçado!


Para dar mais credibilidade ao “futuro livro”, teríamos que parar em todos os bares do Caminho. Foi exatamente o que fizemos no pueblo seguinte, Viscarret. Paramos em um bar e matamos a fome com um bocadillo[2]. Foi uma longa parada. Até então, não imaginávamos que as paradas deveriam ser breves, para que nossos músculos não esfriassem. Ao levantar da cadeira, quase caí. As pernas estavam bambas e doloridas. Não aguentava mais caminhar! E ainda nem tínhamos chegado na metade da etapa prevista para aquele dia. O pouco que andamos, pareceu-me uma eternidade. Foi a primeira vez que me perguntei o motivo de estar ali. Estava experimentando o mesmo sofrimento dos peregrinos que vi na TV, mas ainda não havia encontrado a minha fé, por isso o Caminho não era tão mágico quanto eu esperava. Queria a fantasia e o que encontrei foi uma grande dose de esforço físico, dores e o peso da mochila em minhas costas. Nada que justificasse ter atravessado o oceano. Espantei os maus pensamentos e segui buscando a magia.


Voltando para o campo, uma música nos fez parar. Olhamos em volta e não víamos ninguém. De onde viria a música? Seria um ermitão, um peregrino? Que instrumento teria aquele som tão gostoso? Acabamos descobrindo mais à frente. Eram apenas indefesas ovelhinhas no pasto, com sininhos no pescoço para afugentar os lobos. Já estávamos imaginando poder ser um homem, descrente na vida e desiludido no amor que havia abandonando sua casa e família e havia se isolado na floresta, tocando seu instrumento, símbolo de seu lamento; ou talvez, um ser de outra dimensão, um elfo ou uma fada. Não era nada disso! Tão simples! Nós é que buscávamos o lado encantado em tudo.


Um pouco antes da subida ao Alto de Erro, minha dor no dedão voltou (a mesma que senti no treinamento no Rio). Não acreditei que meu sonho estava ameaçado! Logo no primeiro dia? Fiquei arrependida de não ter investido em outra bota, mas já era tarde. Eu estava no Caminho e teria que resolver o problema de qualquer maneira e continuar a jornada. Felizmente, tive a louca ideia de colocar um protetor de calo no local da dor. Deu certo! É claro que ainda doía muito, mas dava para suportar. Logo depois, tive que enfrentar uma forte subida. Achei que não aguentaria chegar até Larrasoaña. Tirei forças não sei de onde, não sei como, mas o resultado foi que consegui enfrentar os obstáculos daquele dia. Experimentei pela primeira vez a tal fé inabalável que um dia inspirou-me a buscar aquela aventura. Essa era a verdadeira mágica do Caminho!


Quando chegamos ao Alto do Erro, encontramos uma casa abandonada. Era da época medieval. Defronte a casa, havia uma espécie de platô, de onde se via toda a cadeia de montanhas por onde passa o Caminho. Na falta de bares, tivemos que abrir uma exceção e descansar em um lugar alternativo. Paramos ali mesmo e deitados na grama e comemos o que restou dos lanches anteriores. De repente, o Chico ficou paralisado e gritou de dor. Marinheiro de primeira viagem, teve sua primeira câimbra. Por sorte eu estava ali para socorrê-lo!


Estiquei sua perna e depois massageei com uma pomada relaxante. Ficamos deitados ali durante muito tempo, olhando para o céu, calados, mergulhados em nossos pensamentos. Fiquei viajando, olhando as nuvens encobrindo o céu azul, imaginando mil formas para elas. Ficamos tanto tempo ali que não sentimos as horas passarem. Os músculos esfriaram e, consequentemente, senti novamente a dor no dedão do pé. Nesses momentos de dor e cansaço, vinha-me novamente a “famosa pergunta que não queria calar”: o que eu estava fazendo ali? Ainda era o primeiro dia. Seria assim durante todos os outros?


Um súbito mau humor tomou conta de mim. Àquela altura do campeonato, eu já não aguentava mais ouvir o Chico que vinha sempre andando devagar. Era um grande companheiro, uma pessoa maravilhosa. Raro encontrar amigo tão fiel quanto ele! Só que eu queria chegar, andar rápido e acabar com aquele tormento em que havia se transformado aquele dia. E o Chico foi vítima da minha impaciência. Apertei o passo, forçando-o a acompanhar-me. Para piorar, o tempo foi fechando, nuvens carregadas surgiram no céu e, a chuva, que antes era só uma ameaça, começou a cair sobre nós com toda força. A minha inexperiência com a capa de chuva fez com que eu ficasse totalmente ensopada e aí mesmo é que eu queria descarregar todo meu mau humor no primeiro que cruzasse minha frente. Imaginem quem foi...


Avançamos calados por um bom tempo. Já havíamos andado na chuva, no barro, subindo, descendo e nem sinal de Zubiri, muito menos de Larrasoaña. Ouvimos vozes de crianças ao longe e, de repente, as dores, o mau humor e as dificuldades sumiram. Que alegria! Ouvir as crianças ao longe nos dava a certeza de que estávamos, enfim, chegando a algum lugar habitado. O Chico fez uma observação feliz: se as crianças estavam ali para nos recepcionar, era sinal de boa sorte. E ele estava certo! Elas nos viram, vieram ao nosso encontro e nos acompanharam até o albergue.


Zubiri não era exatamente o lugar que eu sonhava para passar minha segunda noite, mas estava muito cansada para continuar e a chuva continuava com força total. Resolvemos ficar. O prédio onde estava o refúgio ficava junto à uma escola. Dentro, havia uns beliches velhos e bem sujos, uma mesa enorme e alguns objetos deixados por outros peregrinos. O banheiro ficava do lado de fora do quarto e não tinha cortina nos boxes. A água quente seria ligada naquela hora. Um verdadeiro pesadelo! Nos meus sonhos tudo era tão bonito e fácil... A única coisa boa foi que só estávamos eu e o Chico. Teríamos um pouco mais privacidade para tomar um longo banho quente e lavar as roupas. Depois disso, era alongar um pouco o corpo e cama! Mas, e a fome? "Ah não! Levantar e andar 1 km até o restaurante?"
Foi a única solução...


Cheguei no restaurante pedindo um "franguito". O garçom não me entendeu, eu repeti "franquito" e ele nada! Gesticulei, imitei uma galinha, mas ele não me entendeu. Foi aí que lembrei que tinha levado um dicionário. Lá se foi um mico! Frango na Espanha é Pollo. A gente pensa que espanhol se parece com português e passa essas vergonhas! Depois, ficamos conversando sobre as pessoas do Caminho e do meu mau humor. Dei boas risadas com o Chico me zoando. Aproveitei para pedir desculpas. E ficamos ali, rindo de nós mesmos lembrando que estávamos sozinhos naquele albergue (distante 1 km dali, diga-se de passagem!), porque éramos os mais lentos de todos os peregrinos.


Saímos do restaurante e voltamos para o albergue quase rastejando. Passos de formiguinha! Acho que demoramos mais tempo para ir do restaurante ao albergue, do que de Roncesvalles até Zubiri! O peso da mochila ainda parecia estar nas minhas costas. Os músculos teimavam em obedecer ao meu cérebro. No final das contas, apesar de moída, era a pessoa mais feliz do mundo!


[1] Desayuno – café da manhã. Desayunar – tomar café da manhã.[2] Bocadillo – sanduíche.

EU E MINHA CAPA DE CHUVA NA ENTRADA DE ZUBIRI


MEU GRANDE AMIGO E COMPANHEIRO CHICO E EU.