sexta-feira, 23 de maio de 2008

UMA LINDA SURPRESA - 21º DIA


Mônica e eu, continuamos nossa rotina peregrina. Café da manhã reforçado e pé na estrada. Logo na saída de Portomarin, entramos em uma mata fechada. Parei para ajeitar meu cd player e disse para Monica que seguir na frente. De repente, uma mão tocou meu ombro. Levei um enorme susto! Para minha sorte, era um peregrino. Para minha má sorte, era um cara bem chato! Perguntou-me se eu tinha algum problema e respondi que não, mas ficou parado, esperando até que eu continuasse a andar. Eu, doida para ficar sozinha um pouco, curtindo minhas músicas e o danado falava sem parar! Inocentemente, ainda abri a boca para falar que era brasileira. Pronto! Estava feita a besteira! Era o motivo que ele queria para puxar assunto! Ser brasileiro no Caminho rende muita história. Ele começou a falar da feijoada, das namoradas brasileiras que colecionou e que nós éramos as mulheres mais quentes do mundo.




— “Era tudo o que esperava ouvir nesse momento!” — pensei com meus botões...




Vi que não tinha escapatória e desisti. Deixei que falasse à vontade. De vez em quando, eu respondia com monossílabos ‘não’ e ‘sim’! Sabia que não devia julgar as pessoas. Devia tentar perceber o que cada uma delas tinha a me acrescentar, mas não aprendi nada de especial com aquela conversa, pelo contrário, só me fez perder o humor. Vai ver ele só apareceu para exercitar minha paciência...



Agradeci a Deus quando encontrei a Mônica mais à frente. Ela percebeu o que estava acontecendo, mas também não agüentou o papo e saiu em disparada. Era a vingança dela pela noite do gato! Talvez o homem tenha servido para dar uma forcinha ao seu caminhar (risos). Um tempo depois, chegamos a uma cidadezinha. O irmão do tagarela estava à sua espera em frente ao albergue. Foi aí que notei que não trazia consigo nenhuma mochila. Era um peregrino com carro de apoio, em busca de sua Compostelana[1]. Entrou no carro e seguiu seu Caminho. Com minha total aprovação, é claro! Fazia qualquer coisa para ver o rapaz bem longe de mim! Descansei os ouvidos e segui viagem.






Com passos largos, acabei alcançando Mônica um pouco mais adiante. Paramos em um bar, a 12 km de Palas de Rei, onde dormiríamos. Um a um, foram chegando nossos amigos. Eu ainda estava com aquele sentimento confuso de final de sonho e fui tomada por uma nostalgia misturada com angústia. Resolvi telefonar para o Brasil novamente. Liguei para toda minha família, para alguns amigos, mas nada me fazia ficar completamente feliz.




Àquela altura, os demais peregrinos já tinham voltado ao caminho e eu continuava ali, sem saber o que fazer com meus sentimentos, preparando o astral para continuar, quando ouvi vozes se aproximando. Era meu amigo Diego, o italiano que fazia parte do grupo que conheci em Sto. Domingo. Estava acompanhado de dois peregrinos. Um deles era o brasileiro Harrison, que já havia encontrado duas outras vezes, e o outro era um alemão chamado Klaus. Meu coração encheu-se de alegria! Uma surpresa maravilhosa!


Enfim, meu desejo de reencontrar “minha família”, ou parte dela, seria realizado, não fosse um pequeno detalhe: eles estavam vindo de Ferreiros, ou seja, já haviam percorrido quase 25 km e deviam estar muito cansados para seguir até Palas de Rei. Com meu irresistível charme, modéstia à parte, consegui convencê-los a caminhar uns quilômetros a mais. Aos poucos, fomos juntando os amigos para chegarmos juntos a Santiago.


O albergue de Palas de Rei transformou-se em uma festa! Eu com meus amigos, Mônica com os dela, e mais um batalhão de peregrinos, lotamos todos os leitos e acabamos com a água quente! Os boxes não tinham cortinas, mas isso não importava. Não havia maldade entre nós. Enquanto eu tomava meu banho, alguns peregrinos circulavam pelo banheiro e até me cumprimentavam. Era uma bagunça total! Claro que algumas mulheres ainda não estavam à vontade, então improvisei uma cortina com o meu poderoso “varal”, feito com um extensor (aquele elástico que usamos nos racks dos carros) e a canga de praia. Tudo na maior normalidade. Pelo menos para mim.


Durante o jantar, cada um cantou uma música de seu país. Foi divertidíssimo ouvir as mais estranhas músicas, nas mais estranhas línguas. Algumas eu já conhecia, como “Sole mio”, cantada em italiano por Diego; mas imaginem como foi ouvir a música mais popular da Alemanha! Depois de algumas taças de vinho, arrisquei cantar “Aquarela do Brasil” e outras canções brasileiras não tão populares para eles. Enfim, era como eu sonhava! Uma grande família dividindo alegrias e tristezas.
[1] Certificado de conclusão do Caminho de Santiago.

quinta-feira, 22 de maio de 2008

NEGRO GATO - 20ª NOITE

Estávamos na cozinha, Mônica e eu, tomando uma xícara de café com leite. O albergue já estava todo na escuridão. A maioria das pessoas já dormia. Falávamos alegremente das nossas passagens do caminho, quando vi Mônica paralisada, com os olhos arregalados. Apontou para a cadeira ao lado, onde havia um gato preto, olhando fixamente para nós. Como adoro gatos, chamei-o para perto de mim, com grande reprovação por parte dela, que estava assustadíssima. Dei-lhe um pouco de leite e alguns pedacinhos de pão. A Mônica insistiu tanto para eu tirar o bichinho dali, que não pude recusar. Levei o gato para a rua e fechei a porta. Resolvido! Éramos só nós duas a fofocar. Um peregrino desavisado, que chegou mais tarde, deixou a porta entreaberta e o gato voltou. Mais uma vez, levei-o para fora e deixei no chão um pequeno pires cheio de leite, para que ele pudesse se distrair e não mais voltar. Só então fomos para cama em paz.


Escolhemos o “andar térreo” dos beliches, para facilitar uma possível ida ao banheiro no meio da madrugada (fiquei traumatizada com baldes e pinicos!!!). Nossas camas ficavam uma ao lado da outra. Havia uma mesinha, encostada na cama da Mônica, onde coloquei minha mochila. Abri meu “varal” e aproveitei para estender as roupas, ainda úmidas, no estrado da cama. Eu havia levado um elástico e uma canga, com isso, montava um varal nas camas onde dormia. Dessa forma, além de minhas roupas secarem durante a noite, eu tinha um pouco de privacidade, pois ninguém conseguia me ver. Sem mais fofocas para pôr em dia, pus-me a dormir como um anjo. No auge do sono, uma luz forte pairou sobre meu rosto, acordando-me. Junto a essa luz, uma voz trêmula e suspirante dizia:
— “Tilaaaaaaraa... Tilaaaaaaraa... O gaaaaaatooo... O gaaaaaaatooo... Ele está na sua mochilaaaaaaaa!!! Eu estou com meeeedoo...”
Nem preciso dizer quem é, não é? Era a minha amiga Mônica com a lanterna apontada para mim. Segundo ela, o gato estava plantado, com os olhos arregalados a encará-la.
— “Ah, Mônica... Deixa ele! Vai dormir e deixa o bichinho em paz! Ele só quer uma cama quentinha e confortável e não me importo se essa cama for a minha mochila!” — argumentei em vão.
Foi a coisa mais engraçada do mundo! Um mulherão daqueles, cismada que o gato iria atacá-la a qualquer momento. E o medo dela era tanto, que me contagiou. E eu não podia “amarelar”, pois foi minha a idéia de mimar o gato.


Reuni força e coragem, e saí pelo quarto a assobiar chamando o gato. Graças a Deus, ele seguiu-me até a rua. Ao voltar, fechei a porta do quarto, segura de que o bichano não mais voltaria. Um peregrino, que voltava do banheiro, deixou a porta novamente entreaberta. Eu avisei a Monica de que minha parte estava feita e que se o gato voltasse, a culpa era do tal peregrino. É claro que ela quase me matou! Restou-me torcer para que o gato não encontrasse o caminho de volta, ou então, seria outro escândalo daqueles!


Depois de tanta confusão, custei a pegar no sono de novo. Eu comecei a pensar no gato voltando, subindo na minha cama e me atacando. Tomei coragem e fui conferir se o bichinho estava mesmo do lado de fora. Para meu desespero, não encontrei nada. Nem sinal de gato! Voltei para a cama e passei a noite em claro. No final das contas, eu é que acabei sem dormir com medo do gato, enquanto a Mônica dormia como um anjinho. Coisas do caminho...

quarta-feira, 21 de maio de 2008

PIPI ROOM - 20º DIA


Fomos todos: David, Mônica, Irene, Linda, Mark e eu, tomar café da manhã na casa de Carmem, que nos recebeu com muito amor. A comida era farta e, mais uma vez, deixei-me levar pelo olho grande. Fazer o quê? Era preciso muita energia para continuar (risos). Além disso, demorar-me um pouco mais no café da manhã significava retardar minha chegada a Santiago. Quanto mais tempo eu demorasse, mais duraria meu sonho. E porque não, fazê-lo durar para sempre? Era um pergunta que rondava meus pensamentos à toda hora. Infelizmente, ainda não estava pronta para deixar minhas vaidades, meu vícios e tampouco, deixar para trás toda uma vida. Seria uma mudança muito radical e, no fundo, eu ainda tinha medo de tentar.


Fui a última a deixar o restaurante de Carmem. Segui sozinha até o povoado de Ferreiros, onde estava o marco dos últimos 100 km. Foi a primeira vez que senti, de verdade, que o Caminho chegaria ao fim. Já estar acostumada àquela rotina e tinha esquecido que um dia chegaria a Santiago. O que seria de mim dali para frente? Eu encontraria as setas amarelas para me guiar por toda vida? Estava confusa, não queria mais chegar a Santiago, queria passar o resto da vida caminhando, conhecendo pessoas, compartilhando alegrias e dificuldades, sentindo-me em paz.


Em Ferreiros, juntei-me a Mônica novamente. A chuva dos dias anteriores deu uma trégua e já dava para ver melhor a paisagem da Galícia. Passamos por entre árvores imensas, beirando pequenos riachos. Era como estar no bosque da “Chapeuzinho Vermelho”. Realmente o verde galego é algo indescritível. Tudo parecia uma pintura. Se pudesse emoldurar tudo o que via, daria um ótimo quadro. Sei que gastei um filme inteiro tirando fotos daquele dia. A Mônica não gostava muito de fotografar lugares. Repetia a toda hora que, se fosse para fotografar as paisagens, era melhor comprar cartão postal. Gostava mesmo era de colocar a carinha na frente de uma câmera. Parecia até que eu era a agente de viagens, e ela, a modelo.


E continuamos clicando e andando pelos bosques encantados das histórias infantis. De repente, ao passar por uma casa, um filhote de pastor alemão veio em nossa direção. A Mônica quase infartou! Eu fiquei parada onde estava. Por mais fofinho que fosse o cão, não sabíamos se era amigo ou não. Por sorte, ele queria festa! Continuamos andando e o bichinho nos acompanhou por uns 10 km. Ora ia à frente, guiando nossos passos; ora ao lado, fiel escudeiro. Às vezes, espantava os passarinhos que, na visão dele, estavam a nos ameaçar. Só nos deixou, quando, ao cruzar uma estrada, um outro cachorro (esse nada amigável) o espantou. Cheguei a pensar na possibilidade de trazê-lo de volta ao Brasil comigo. Comentei com a Mônica que se ele nos seguisse até Portomarin, seria então meu mais novo bichinho de estimação. Foi uma lástima não ter dado um nome para meu amigo, por isso só posso referir-me a ele como “fiel”.


Senti que a Mônica andava mais devagar que eu. Para não desrespeitar meu ritmo, pedi licença e apertei o passo. De repente, caiu uma chuva de granizo. Que loucura! Minutos antes, um sol de rachar côco, logo depois, lá estava eu, toda encolhida, sentindo os “tiros” vindos do céu. Era o exemplo perfeito para o que os budistas chamam de impermanência. Nada é para sempre igual, tudo muda, morre ou se vai, inclusive nós. E a chuva, é claro! Se o céu da Espanha, particularmente o da Galícia, tivessem um signo, arriscaria dizer que seria gêmeos, tamanha facilidade em ir, com extrema rapidez, de um extremo a outro. Eu, como boa virginiana, fui salva pela famosa capa do “véio do rio”. Ao menos valeu de alguma coisa agüentar tanta brincadeira da Monica.


Depois de enfrentar chuva e granizo, avistei uma cidadezinha, ou melhor, um povoadinho. Rezei para que tivesse um bar por perto. Estava, de novo, à procura de um bar! Dessa vez, não era pela gula e sim, por um lugar decente onde eu pudesse usar o banheiro (leia-se: número 2). Ao longe, avistei uma senhora, sentada em cima de uma coisa azul que não pude identificar.
— “Que bom!” – pensei. “Posso perguntar se existe algum bar por aqui...”
De repente, essa senhora levantou-se e aí, pude ver o que havia debaixo dela. Era um enorme balde! Já fiquei meio “cabreira”, mas ainda não tinha visto o bastante. Ela vestiu as calças, sem ao menos limpar-se, pegou o tal balde e jogou o que havia dentro dele no meio do mato.
— “Nossa! Com certeza, não será aqui que encontrarei um banheiro!” — pensei.
Fui aproximando-me, meio receosa, formulando a melhor maneira de perguntar por um banheiro, sem que a velha desconfiasse disso. Eu não queria sentar naquele “trono”! Para não ser tão direta, perguntei-a:
— “A cidade mais próxima, onde eu possa encontrar um bar, está muito longe daqui?”
Não me deixou esperando um minuto sequer! Sem que eu tivesse tempo de responder, ela me agarrou pelo braço e saiu arrastando-me pela rua, dizendo:
— “Não se preocupe! Tenho bastante comida para você!”

Quando vi, já estava dentro de sua humilde casa. Bem modesta mesmo! O chão era de terra batida, havia um monte de roupas empilhadas em um canto, uma pequena mesa logo à direita, onde ficavam as comidas e utensílios de cozinha. O copo, onde me ofereceu vinho, era de plástico e estava bem sujo! Deu-me chorizo e pão para comer com o maior carinho do mundo, mas quando olhei suas mãos imundas, lembrei-me da cena que ela acabara de protagonizar. Tenho que confessar! Tive vontade de sair em disparada, com nojo de tudo aquilo! Pensei em como escapar daquela armadilha e percebi que o jeito era comer o mais depressa possível e correr até a cidade mais próxima. Foi o que fiz, mas, para meu desespero, ao ver-me comendo com tanta rapidez, a velha senhora pensou que eu ainda estivesse faminta. Não adiantava negar, pois ela achava que eu era tímida! Juro que desejei uma fralda descartável naquela hora! Entreguei os pontos. Ela havia vencido! Confessei estar com vontade de ir ao banheiro e aí ela me apresentou ao famoso?... Adivinhem!... Ao famoso... BALDE!!! É...depois de grande, voltei à fase do pinico...


Mais aliviada e bem alimentada (aliás, ficaria dias sem comer depois de tanto pão!), voltei a “rolar” pelo Caminho. Acabei encontrando Mônica mais à frente. Estava acompanhada de sua amiga Irene. Ela estranhou o fato de eu ter ficado para trás e então contei o motivo da minha demora. Claro que ela quase morreu de tanto rir da minha cara! E ainda por cima, disse que eu havia encontrado meu par perfeito: a “véia da rua”! Brincadeiras à parte, tínhamos um problema sério: Irene quase não andava de tanta dor nos pés. Eram as famosas bolhas! Não sei o que foi mais nojento naquele dia: ver a Irene costurando bolhas de sangue ou o ter usado o balde da gentil senhora!


Ainda fiquei um tempo com elas, mas meu ritmo continuava frenético e as duas estavam impossibilitadas de acompanhar-me. Mais uma vez disparei. Cheguei a Portomarin horas antes das duas. É uma cidade encantadora, diferente das demais, um pouco mais moderna e alegre. Para chegar até lá, atravessei uma enorme ponte sobre o rio Miño e, do outro lado, vi o albergue da juventude, construído quase sobre as águas do rio. O visual é maravilhoso! O albergue de peregrinos também era grande e confortável como o de Barbadelos, mas este estava bem cheio. Creio que quanto mais perto de Santiago, maior o número de peregrinos. Deu tempo de conhecer toda cidade antes que a Mônica chegasse com sua amiga Irene. Como de costume, arrumamos nossas camas e saímos para jantar. Passamos na igreja, onde peguei uma nova credencial. A outra estava repleta de carimbos de todos os bares do Caminho. Ainda acho que este livro deveria chamar-se “No Caminho de Santiago de bar em bar”...


Voltamos para o albergue para os tradicionais afazeres: lavar roupa, preparar tudo para o dia seguinte e ter uma ótima noite de descanso, mas não foi bem isso que aconteceu...

segunda-feira, 19 de maio de 2008

"VÉIO DO RIO" - 19º DIA

Foi um longo e chuvoso dia até Sarria. Para piorar, continuávamos beirando a estrada, sentindo o vento forte dos carros. Já não tínhamos mais novidades para contar uma à outra e o jeito foi seguir em silêncio. Andamos por mais de três horas seguidas! Não havia lugar para descansar, devido à forte chuva. Os poucos pontos de ônibus com cobertura que encontramos, estavam totalmente alagados. Logo percebi que minha amiga não agüentaria o tranco por muito tempo. Então, tratei de apressar o passo, para que pudéssemos chegar rápido em algum lugar para descansar.


A Mônica estava um trapo quando chegamos à Sarria. Serei justa e não vou negar que eu também já não tinha quase mais forças para caminhar naquele dia. Faltavam alguns metros para a chegada, quando nos demos conta de que era hora da “siesta”. Foi difícil encontrar um bar aberto. Também ao encontrar, foi a glória! Sentamos confortavelmente à mesa e pedimos algo bem quente para beber. Combinamos descansar um pouco e depois continuar a jornada. Claro que nenhuma de nós conseguiu resistir ao pecado da gula e pedimos bolinhos de chocolate. Desde o começo, meu Caminho foi um eterno “come e descansa”. Enquanto nosso pedido não chegava, nossos corpos deslizavam delicadamente pela cadeira, até ficarmos quase deitadas. Se não fosse feio, juro que teria pedido para deitar-me um pouco no chão!


Resolvi sair para comprar um cigarro. Até aquela hora não tinha sentido vontade de fumar, mas diante de tantos bolinhos e cafézinhos, foi impossível segurar meus instintos. Não sei se estava sob algum efeito alucinógeno, provocado talvez, pelos bolinhos de chocolate, mas ao retornar ao bar, imaginei ter visto o ator Claudio Marzo atravessando a rua onde eu estava. Quando contei isso à Monica, ela não perdeu tempo em tirar um sarro da minha cara:
— “O que ele estaria fazendo aqui nessa cidade? Você deve é ter fumado alguma coisa um pouco mais forte do que esse cigarro e está delirando! Vai ver você viu o ‘véio do rio’!” – referindo-se à famosa personagem interpretada por ele na novela Pantanal.
Daí para chamar-me o tempo todo de ‘véio do rio’, foi um pulo. Ainda mais que minha capa de chuva estava sempre amarrada ao meu pescoço, voando com o vento, deixando-me parecida com o tal ‘véio’. O apelido pegou e não consegui nenhum à altura para dar a ela.

RELEMBRANDO: FOTO TIRADA EM ZUBIRI - NÃO PAREÇO O "VÉIO DO RIO"?

Quando entramos em Barbadelos, ficamos assustadas com a simplicidade exagerada do lugar. Parecia uma fazenda, mas depois vi que era um pueblo. Embora a cidadezinha não tivesse infra-estrutura, o seu albergue era grande e confortável. Todos os albergues da Galícia o são, mas os hospitaleiros são meros carimbadores de credencial. Não me recordo de nenhum que tenha sido simpático e de boa vontade. O espírito do Caminho havia se perdido. Tudo parecia ter virado um grande comércio. Pouco tempo depois de nos acomodarmos, um peregrino apareceu. Era David! O amigo inglês que eu havia encontrado em Burgos. Mas não fui só eu que tive surpresas. Alguns amigos da Mônica também chegaram: Linda, Irene e Mark. Realmente eram alegres e simpáticos como ela havia descrito. Enfim, reencontros e muita alegria.


Éramos só nós cinco no albergue. Estávamos confraternizando, quando um ônibus de turismo parou na entrada do refúgio. Desceram umas 30 pessoas, todas “fantasiadas” de peregrinos, com cajados, roupas e mochilas iguais às nossas, porém, não havia sinal de uso. Pareciam recém tiradas do armário. Perguntaram pela hospitaleira para carimbar a credencial. Fiquei pensando em tudo aquilo. É como receber um diploma de curso superior sem ter estudado. Quando saí para informá-los de que a hospitaleira ainda não tinha chegado, vi o brilho nos olhos de uma senhora. Parei para conversar com ela. Perguntou-me tudo sobre o Caminho. Quantos quilômetros eu andava por dia, onde tinha iniciado a peregrinação, se eu estava sozinha, de onde eu era. Depois de terminar seu questionário, a senhora calou-se por uns instantes e algumas lágrimas desceram de seus olhos. Perguntei porque ela chorava.
— “Gostaria de estar experimentando esses sentimentos também. Minha saúde é frágil e tenho que me contentar em fazer o Caminho de ônibus.”
Por fim, pediu-me que não a esquecesse quando chegasse em Santiago. Fiquei comovida com aquilo! Não tinha percebido o tamanho da minha façanha. Eu estava realizando um sonho que não pertencia só a mim, era o sonho de muitos. Percebi que, em respeito a todos os peregrinos impossibilitados de percorrer o Caminho da forma tradicional, eu deveria agradecer a cada minuto, a benção que me foi concedida por Deus de estar ali, e doar-me de corpo e alma àquele sonho. E agradecer também pela humildade em reconhecer que estava errada novamente e que deveria para de julgar as pessoas.


Fui sozinha jantar. Eu tinha me prometido uma noite de fartura! A companhia de Carmen, a dona do restaurante, foi agradabilíssima. Conversamos bastante. Contou-me que no ano anterior, um grupo de brasileiros havia passado por ali e feito uma grande festa. Gostara tanto deles que, dias depois, lá estava ela em Santiago, na Praça do Obradoiro, em frente à Catedral, esperando por todos de braços abertos. Largou o restaurante e passou alguns dias com o grupo festeiro. Mostrou-me as fotos de meus compatriotas e, para minha surpresa, quando li uma das mensagens no seu livro, descobri que um deles morava perto de mim. Quando eu disse isso, ela deu um salto de alegria. Até aquele momento, não tinha recebido notícias de todos do grupo e justamente do meu “quase-vizinho”. Escreveu uma enorme carta e pediu-me que a entregasse ao rapaz, o que foi cumprido logo que cheguei ao Rio, mas isso já é um capítulo à parte.

Quando voltei ao albergue, os demais peregrinos estavam em festa. Quase no final da peregrinação e os corações estavam apertados, ansiosos. Aquela noite foi super agradável. Banho quente para todos, camas confortáveis e o silêncio total, sem os roncos de sempre.

domingo, 18 de maio de 2008

O REENCONTRO - 18º DIA

Na manhã seguinte, ao deixarmos Triacastela bem cedinho, Gema, Gabriel e eu, havia dois caminhos a seguir: um passava pelo Monastério de Samos e o outro, por San Xil. O primeiro nos daria a chance de conhecer a história; o segundo, a natureza. Optamos pelo Monastério de Samos, afinal, um pouco de história não faz mal a ninguém! Mais uma vez, o Caminho encontrou a dureza do asfalto. Fomos driblando os carros que passavam em alta velocidade, sem que isso nos estressasse. Eu, particularmente, conseguia novamente ver beleza até mesmo na artificialidade de andar no asfalto. Definitivamente eu havia mudado.


Não demorou muito tempo até chegarmos a Samos. É um lugar maravilhoso, cheio de energia e de história. O Monastério ficava logo na entrada da cidade. Suas paredes eram cheias de arte, com pinturas das passagens bíblicas que, de tão perfeitas, muitas vezes, tínhamos a impressão de que eram reais. Depois de conhecer o seu interior, assistimos uma Missa com Canto gregoriano. Foi uma das coisas mais bonitas e tocantes que já vi em toda minha vida! A igreja que ficava do lado de fora era linda e aconchegante. Possuía muita riqueza também, o que me fez refletir se há a necessidade de ter tanto ouro em suas esculturas, enquanto no mundo, existem milhares de seres humanos passando fome. Mas, achei melhor seguir meu Caminho, sem julgamentos.


De repente, ouvi uma voz de mulher chamando por mim. Virei-me e dei de cara com a brasileira mais engraçada de todo o Caminho: Mônica. Foi uma festa!!! Os gritinhos devem estar ecoando pelos corredores tranqüilos do Monastério de Samos até hoje. Bem coisa de mulher mesmo! A corridinha meio sem jeito, de braços abertos e as mãos abanando, o abraço apertado, e uns projetos de lágrimas quase rolando pelo rosto, unidos a muito escândalo, “pero no mucho”... Agora, imagine tudo isso, com uma mochila peregrina nas costas! É como se fosse um grande acidente envolvendo duas carretas, carregadas de mercadorias. As ruas de Samos nunca mais seriam as mesmas.


Mônica era super animada, engraçada e uma grande companhia. Tinha um jeitinho todo especial de reclamar de tudo. O que ela mais odiava nos peregrinos era a simplicidade exagerada, principalmente daqueles que não eram chegados a um banho. A danadinha estava sempre impecável! Usar a mesma roupa do dia anterior, nunca! Muito menos sair sem usar um creminho no rosto! Ainda hoje dou boas risadas ao lembrar dela.


O Caminho é uma maravilhosa fonte de informações da vida alheia! É incrível como sempre descobríamos onde estavam as pessoas que conhecíamos, o que faziam, quem continuou, quem parou, quem namorou quem... E olha que muita gente arranjou um caso de amor por lá. Infelizmente não aconteceu comigo. Adoraria encontrar minha alma gêmea, mas já é tão difícil encontrar a si próprio... Mônica contou-me as últimas notícias que teve do Calixto e do Emerson. Aparentemente, o Calixto tinha parado em algum albergue e estava prestes a abandonar a peregrinação, devido às fortes dores no joelho. O Emerson vinha devagar, mas bem. Sobre meu amigo Chico, ela nada sabia. Senti uma saudade danada daquele companheiro tão cheio de humor e energia. Tive vontade de parar em algum lugar (leia-se bar), à espera de todos que conheci, para nos reunirmos e chegarmos juntos a Santiago. Seria interessante.


Apresentei Mônica aos meus amigos espanhóis e voltamos para o albergue. O combinado era almoçarmos e seguirmos caminho, mas depois de tanto comer, fiquei novamente com preguiça e minha amiga Mônica também não era das mais animadas para caminhar. Não poderia ter outro resultado, que não fosse desistirmos de continuar o Caminho naquele dia. Decidimos, Mônica e eu, ficar ali mesmo no albergue do Monastério e seguir no dia seguinte. Despedimo-nos dos meus amigos espanhóis e fomos fazer turismo pela pequena cidade. Nosso “tour” não durou cinco minutos e ficamos sem ter o que fazer para ocupar o resto do nosso dia. Quase me arrependi de não ter seguido adiante! Não gosto de ficar sem fazer nada, esperando a vida passar por mim. Porém, a amizade foi mais importante que a vontade de chegar. Mais uma lição do Caminho. Às vezes deixamos para trás todas as pessoas que fizeram parte de nossas vidas, com o objetivo de alcançar um porto seguro, mas esse porto está justamente nos amigos, na família e no amor que eles nos proporcionam. E o melhor de tudo é que eu não estava deixando de caminhar por causa dela, e sim, por querer desfrutar de sua companhia.


O banho foi a parte mais engraçada do dia. A Mônica estava em um chuveiro ao lado do meu, reclamando sem parar que a água vinha em pouca quantidade, que estava fria, que não dava para tomar um banho decente e, a todo o momento, fazia questão de lembrar o maravilhoso banho que tomou em um hotel de Estella. Disse-me que, quando chegasse em Santiago, ficaria no melhor hotel da cidade para compensar todos os banhos mal tomados. Cômico foi vê-la arrumando a cama. Saía tudo de dentro daquela mochila! Protetor de colchão (segundo ela, comprados na lojinha de R$1,99), lenço de seda (que era usado como fronha)... Só faltou o ursinho de pelúcia! O saco de dormir, transformou-se em cobertor, porque ela não admitia dormir naquele “casulo” e logo depois vieram os cremes. Creme para as mãos, para os pés, para o rosto, para as dores. Nesse ponto, acho que eu era uma peregrina bem prática e desprovida de vaidade. Quando comentei com ela sobre o exagero de coisas em sua mochila, tinha a resposta na ponta da língua:
— “Isso não é nada Fofolete! O pior foi uma gringa que levava um secador de cabelos e fazia escova todos os dias antes de sair caminhando por aí!”
Diante de tal argumento, tive que concordar e calar-me. Cada um tem noção do que realmente é essencial para si próprio.


Só conseguimos dormir depois de terminarmos nosso repertório de fofocas. O albergue era extremamente gelado e a noite para ela foi um terror. Graças à minha intuição, meu “casulo de dormir” agüentava temperaturas de até –5º, portanto, não tive problemas com as noites frias. Minha noite foi tranqüila, já a da minha amiga Monica, parece não ter sido das melhores. Seu “casulo” não devia suportar temperaturas baixas. Acordou de mau humor, reclamou do frio, do albergue, enfim, de tudo! Para compensar, só mesmo um delicioso café da manhã numa padaria em frente ao Monastério. Tivemos sorte. Na minha opinião, aquela foi a torrada mais gostosa que já comi, bem quentinha e com aquela manteiga derretendo...humm... Ainda assim, Monica conseguiu achar alguma coisa para reclamar: a conta!