
Fomos todos: David, Mônica, Irene, Linda, Mark e eu, tomar café da manhã na casa de Carmem, que nos recebeu com muito amor. A comida era farta e, mais uma vez, deixei-me levar pelo olho grande. Fazer o quê? Era preciso muita energia para continuar (risos). Além disso, demorar-me um pouco mais no café da manhã significava retardar minha chegada a Santiago. Quanto mais tempo eu demorasse, mais duraria meu sonho. E porque não, fazê-lo durar para sempre? Era um pergunta que rondava meus pensamentos à toda hora. Infelizmente, ainda não estava pronta para deixar minhas vaidades, meu vícios e tampouco, deixar para trás toda uma vida. Seria uma mudança muito radical e, no fundo, eu ainda tinha medo de tentar.
Fui a última a deixar o restaurante de Carmem. Segui sozinha até o povoado de Ferreiros, onde estava o marco dos últimos 100 km. Foi a primeira vez que senti, de verdade, que o Caminho chegaria ao fim. Já estar acostumada àquela rotina e tinha esquecido que um dia chegaria a Santiago. O que seria de mim dali para frente? Eu encontraria as setas amarelas para me guiar por toda vida? Estava confusa, não queria mais chegar a Santiago, queria passar o resto da vida caminhando, conhecendo pessoas, compartilhando alegrias e dificuldades, sentindo-me em paz.
Em Ferreiros, juntei-me a Mônica novamente. A chuva dos dias anteriores deu uma trégua e já dava para ver melhor a paisagem da Galícia. Passamos por entre árvores imensas, beirando pequenos riachos. Era como estar no bosque da “Chapeuzinho Vermelho”. Realmente o verde galego é algo indescritível. Tudo parecia uma pintura. Se pudesse emoldurar tudo o que via, daria um ótimo quadro. Sei que gastei um filme inteiro tirando fotos daquele dia. A Mônica não gostava muito de fotografar lugares. Repetia a toda hora que, se fosse para fotografar as paisagens, era melhor comprar cartão postal. Gostava mesmo era de colocar a carinha na frente de uma câmera. Parecia até que eu era a agente de viagens, e ela, a modelo.
E continuamos clicando e andando pelos bosques encantados das histórias infantis. De repente, ao passar por uma casa, um filhote de pastor alemão veio em nossa direção. A Mônica quase infartou! Eu fiquei parada onde estava. Por mais fofinho que fosse o cão, não sabíamos se era amigo ou não. Por sorte, ele queria festa! Continuamos andando e o bichinho nos acompanhou por uns 10 km. Ora ia à frente, guiando nossos passos; ora ao lado, fiel escudeiro. Às vezes, espantava os passarinhos que, na visão dele, estavam a nos ameaçar. Só nos deixou, quando, ao cruzar uma estrada, um outro cachorro (esse nada amigável) o espantou. Cheguei a pensar na possibilidade de trazê-lo de volta ao Brasil comigo. Comentei com a Mônica que se ele nos seguisse até Portomarin, seria então meu mais novo bichinho de estimação. Foi uma lástima não ter dado um nome para meu amigo, por isso só posso referir-me a ele como “fiel”.
Senti que a Mônica andava mais devagar que eu. Para não desrespeitar meu ritmo, pedi licença e apertei o passo. De repente, caiu uma chuva de granizo. Que loucura! Minutos antes, um sol de rachar côco, logo depois, lá estava eu, toda encolhida, sentindo os “tiros” vindos do céu. Era o exemplo perfeito para o que os budistas chamam de impermanência. Nada é para sempre igual, tudo muda, morre ou se vai, inclusive nós. E a chuva, é claro! Se o céu da Espanha, particularmente o da Galícia, tivessem um signo, arriscaria dizer que seria gêmeos, tamanha facilidade em ir, com extrema rapidez, de um extremo a outro. Eu, como boa virginiana, fui salva pela famosa capa do “véio do rio”. Ao menos valeu de alguma coisa agüentar tanta brincadeira da Monica.
Depois de enfrentar chuva e granizo, avistei uma cidadezinha, ou melhor, um povoadinho. Rezei para que tivesse um bar por perto. Estava, de novo, à procura de um bar! Dessa vez, não era pela gula e sim, por um lugar decente onde eu pudesse usar o banheiro (leia-se: número 2). Ao longe, avistei uma senhora, sentada em cima de uma coisa azul que não pude identificar.
— “Que bom!” – pensei. “Posso perguntar se existe algum bar por aqui...”
De repente, essa senhora levantou-se e aí, pude ver o que havia debaixo dela. Era um enorme balde! Já fiquei meio “cabreira”, mas ainda não tinha visto o bastante. Ela vestiu as calças, sem ao menos limpar-se, pegou o tal balde e jogou o que havia dentro dele no meio do mato.
— “Nossa! Com certeza, não será aqui que encontrarei um banheiro!” — pensei.
Fui aproximando-me, meio receosa, formulando a melhor maneira de perguntar por um banheiro, sem que a velha desconfiasse disso. Eu não queria sentar naquele “trono”! Para não ser tão direta, perguntei-a:
— “A cidade mais próxima, onde eu possa encontrar um bar, está muito longe daqui?”
Não me deixou esperando um minuto sequer! Sem que eu tivesse tempo de responder, ela me agarrou pelo braço e saiu arrastando-me pela rua, dizendo:
— “Não se preocupe! Tenho bastante comida para você!”
Quando vi, já estava dentro de sua humilde casa. Bem modesta mesmo! O chão era de terra batida, havia um monte de roupas empilhadas em um canto, uma pequena mesa logo à direita, onde ficavam as comidas e utensílios de cozinha. O copo, onde me ofereceu vinho, era de plástico e estava bem sujo! Deu-me chorizo e pão para comer com o maior carinho do mundo, mas quando olhei suas mãos imundas, lembrei-me da cena que ela acabara de protagonizar. Tenho que confessar! Tive vontade de sair em disparada, com nojo de tudo aquilo! Pensei em como escapar daquela armadilha e percebi que o jeito era comer o mais depressa possível e correr até a cidade mais próxima. Foi o que fiz, mas, para meu desespero, ao ver-me comendo com tanta rapidez, a velha senhora pensou que eu ainda estivesse faminta. Não adiantava negar, pois ela achava que eu era tímida! Juro que desejei uma fralda descartável naquela hora! Entreguei os pontos. Ela havia vencido! Confessei estar com vontade de ir ao banheiro e aí ela me apresentou ao famoso?... Adivinhem!... Ao famoso... BALDE!!! É...depois de grande, voltei à fase do pinico...
Mais aliviada e bem alimentada (aliás, ficaria dias sem comer depois de tanto pão!), voltei a “rolar” pelo Caminho. Acabei encontrando Mônica mais à frente. Estava acompanhada de sua amiga Irene. Ela estranhou o fato de eu ter ficado para trás e então contei o motivo da minha demora. Claro que ela quase morreu de tanto rir da minha cara! E ainda por cima, disse que eu havia encontrado meu par perfeito: a “véia da rua”! Brincadeiras à parte, tínhamos um problema sério: Irene quase não andava de tanta dor nos pés. Eram as famosas bolhas! Não sei o que foi mais nojento naquele dia: ver a Irene costurando bolhas de sangue ou o ter usado o balde da gentil senhora!
Fui a última a deixar o restaurante de Carmem. Segui sozinha até o povoado de Ferreiros, onde estava o marco dos últimos 100 km. Foi a primeira vez que senti, de verdade, que o Caminho chegaria ao fim. Já estar acostumada àquela rotina e tinha esquecido que um dia chegaria a Santiago. O que seria de mim dali para frente? Eu encontraria as setas amarelas para me guiar por toda vida? Estava confusa, não queria mais chegar a Santiago, queria passar o resto da vida caminhando, conhecendo pessoas, compartilhando alegrias e dificuldades, sentindo-me em paz.
Em Ferreiros, juntei-me a Mônica novamente. A chuva dos dias anteriores deu uma trégua e já dava para ver melhor a paisagem da Galícia. Passamos por entre árvores imensas, beirando pequenos riachos. Era como estar no bosque da “Chapeuzinho Vermelho”. Realmente o verde galego é algo indescritível. Tudo parecia uma pintura. Se pudesse emoldurar tudo o que via, daria um ótimo quadro. Sei que gastei um filme inteiro tirando fotos daquele dia. A Mônica não gostava muito de fotografar lugares. Repetia a toda hora que, se fosse para fotografar as paisagens, era melhor comprar cartão postal. Gostava mesmo era de colocar a carinha na frente de uma câmera. Parecia até que eu era a agente de viagens, e ela, a modelo.
E continuamos clicando e andando pelos bosques encantados das histórias infantis. De repente, ao passar por uma casa, um filhote de pastor alemão veio em nossa direção. A Mônica quase infartou! Eu fiquei parada onde estava. Por mais fofinho que fosse o cão, não sabíamos se era amigo ou não. Por sorte, ele queria festa! Continuamos andando e o bichinho nos acompanhou por uns 10 km. Ora ia à frente, guiando nossos passos; ora ao lado, fiel escudeiro. Às vezes, espantava os passarinhos que, na visão dele, estavam a nos ameaçar. Só nos deixou, quando, ao cruzar uma estrada, um outro cachorro (esse nada amigável) o espantou. Cheguei a pensar na possibilidade de trazê-lo de volta ao Brasil comigo. Comentei com a Mônica que se ele nos seguisse até Portomarin, seria então meu mais novo bichinho de estimação. Foi uma lástima não ter dado um nome para meu amigo, por isso só posso referir-me a ele como “fiel”.
Senti que a Mônica andava mais devagar que eu. Para não desrespeitar meu ritmo, pedi licença e apertei o passo. De repente, caiu uma chuva de granizo. Que loucura! Minutos antes, um sol de rachar côco, logo depois, lá estava eu, toda encolhida, sentindo os “tiros” vindos do céu. Era o exemplo perfeito para o que os budistas chamam de impermanência. Nada é para sempre igual, tudo muda, morre ou se vai, inclusive nós. E a chuva, é claro! Se o céu da Espanha, particularmente o da Galícia, tivessem um signo, arriscaria dizer que seria gêmeos, tamanha facilidade em ir, com extrema rapidez, de um extremo a outro. Eu, como boa virginiana, fui salva pela famosa capa do “véio do rio”. Ao menos valeu de alguma coisa agüentar tanta brincadeira da Monica.
Depois de enfrentar chuva e granizo, avistei uma cidadezinha, ou melhor, um povoadinho. Rezei para que tivesse um bar por perto. Estava, de novo, à procura de um bar! Dessa vez, não era pela gula e sim, por um lugar decente onde eu pudesse usar o banheiro (leia-se: número 2). Ao longe, avistei uma senhora, sentada em cima de uma coisa azul que não pude identificar.
— “Que bom!” – pensei. “Posso perguntar se existe algum bar por aqui...”
De repente, essa senhora levantou-se e aí, pude ver o que havia debaixo dela. Era um enorme balde! Já fiquei meio “cabreira”, mas ainda não tinha visto o bastante. Ela vestiu as calças, sem ao menos limpar-se, pegou o tal balde e jogou o que havia dentro dele no meio do mato.
— “Nossa! Com certeza, não será aqui que encontrarei um banheiro!” — pensei.
Fui aproximando-me, meio receosa, formulando a melhor maneira de perguntar por um banheiro, sem que a velha desconfiasse disso. Eu não queria sentar naquele “trono”! Para não ser tão direta, perguntei-a:
— “A cidade mais próxima, onde eu possa encontrar um bar, está muito longe daqui?”
Não me deixou esperando um minuto sequer! Sem que eu tivesse tempo de responder, ela me agarrou pelo braço e saiu arrastando-me pela rua, dizendo:
— “Não se preocupe! Tenho bastante comida para você!”
Quando vi, já estava dentro de sua humilde casa. Bem modesta mesmo! O chão era de terra batida, havia um monte de roupas empilhadas em um canto, uma pequena mesa logo à direita, onde ficavam as comidas e utensílios de cozinha. O copo, onde me ofereceu vinho, era de plástico e estava bem sujo! Deu-me chorizo e pão para comer com o maior carinho do mundo, mas quando olhei suas mãos imundas, lembrei-me da cena que ela acabara de protagonizar. Tenho que confessar! Tive vontade de sair em disparada, com nojo de tudo aquilo! Pensei em como escapar daquela armadilha e percebi que o jeito era comer o mais depressa possível e correr até a cidade mais próxima. Foi o que fiz, mas, para meu desespero, ao ver-me comendo com tanta rapidez, a velha senhora pensou que eu ainda estivesse faminta. Não adiantava negar, pois ela achava que eu era tímida! Juro que desejei uma fralda descartável naquela hora! Entreguei os pontos. Ela havia vencido! Confessei estar com vontade de ir ao banheiro e aí ela me apresentou ao famoso?... Adivinhem!... Ao famoso... BALDE!!! É...depois de grande, voltei à fase do pinico...
Mais aliviada e bem alimentada (aliás, ficaria dias sem comer depois de tanto pão!), voltei a “rolar” pelo Caminho. Acabei encontrando Mônica mais à frente. Estava acompanhada de sua amiga Irene. Ela estranhou o fato de eu ter ficado para trás e então contei o motivo da minha demora. Claro que ela quase morreu de tanto rir da minha cara! E ainda por cima, disse que eu havia encontrado meu par perfeito: a “véia da rua”! Brincadeiras à parte, tínhamos um problema sério: Irene quase não andava de tanta dor nos pés. Eram as famosas bolhas! Não sei o que foi mais nojento naquele dia: ver a Irene costurando bolhas de sangue ou o ter usado o balde da gentil senhora!

Ainda fiquei um tempo com elas, mas meu ritmo continuava frenético e as duas estavam impossibilitadas de acompanhar-me. Mais uma vez disparei. Cheguei a Portomarin horas antes das duas. É uma cidade encantadora, diferente das demais, um pouco mais moderna e alegre. Para chegar até lá, atravessei uma enorme ponte sobre o rio Miño e, do outro lado, vi o albergue da juventude, construído quase sobre as águas do rio. O visual é maravilhoso! O albergue de peregrinos também era grande e confortável como o de Barbadelos, mas este estava bem cheio. Creio que quanto mais perto de Santiago, maior o número de peregrinos. Deu tempo de conhecer toda cidade antes que a Mônica chegasse com sua amiga Irene. Como de costume, arrumamos nossas camas e saímos para jantar. Passamos na igreja, onde peguei uma nova credencial. A outra estava repleta de carimbos de todos os bares do Caminho. Ainda acho que este livro deveria chamar-se “No Caminho de Santiago de bar em bar”...

Voltamos para o albergue para os tradicionais afazeres: lavar roupa, preparar tudo para o dia seguinte e ter uma ótima noite de descanso, mas não foi bem isso que aconteceu...
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