Com o coração transbordando de emoção e os olhos cheios de lágrimas, levei minha mochila para o lado de fora do quarto para não acordar meus companheiros. Minha preocupação era grande. Eu teria que andar quase 20km em plena madrugada, acompanhada somente de Deus. Verifiquei se haviam pilhas na lanterna, agasalhei o corpo, preparei uma xícara de café com leite bem quente, e sentei-me à mesa, degustando cada gole e cada momento; afinal, eram os últimos do Caminho e os mais importantes de toda minha vida.
Já estava saindo, quando ouvi uma voz me chamando. Era David! Pediu-me que o esperasse, pois iria comigo. Também queria experimentar a loucura de caminhar durante a noite. Finalmente ele estava deixando de lado a formalidade e tentando estreitar os laços de amizade comigo! Fiquei honrada com a proposta! Resolvi aceitar sua companhia e, com nossas lanternas em punho, saímos pelas ruas de Pedrouzo. Seria uma jornada bem difícil, pois a noite estava chuvosa e mal conseguíamos enxergar as setas amarelas no asfalto. Seguimos por uma pequena estrada de terra e a escuridão era assustadora! Parecia que, a qualquer momento, seríamos pegos de surpresa por algum “bicho papão”. Isso me fez lembrar novamente os tempos de criança, quando ia para cama com medo do escuro.
Foram horas andando no meio da floresta, debaixo de muita chuva e sem viva alma. David ficava assustado com o ruído dos pássaros nas árvores. A sensação era de estarmos sendo observados o tempo todo. Alguns quilômetros depois, vimos umas luzes ao longe. Alguma luz, enfim! Era uma estrada asfaltada que cortava a trilha. Mas depois de atravessá-la, entramos novamente no breu da floresta, dessa vez bem mais fechada e mais escura que a anterior. Até ali, estava tudo relativamente fácil. Até ali...
Mais adiante, nos deparamos com um grande problema: uma bifurcação. Bifurcações no caminho da vida! Mais uma vez eu estava diante de uma escolha importante. Nossas lanternas tentavam iluminar as pedras, mas não conseguíamos achar nenhuma seta que nos apontasse a direção correta. Estávamos perdidos! Tínhamos duas opções: descansar ali mesmo e esperar amanhecer, ou arriscar alguma das duas direções. Escolhemos a primeira. Apagamos as lanternas e, enquanto arrumávamos as mochilas no chão, vi algumas luzes ao longe. Mudei de idéia! Propus seguirmos até lá e ver se encontrávamos uma estrada que nos levasse em direção a Santiago. Nada! A pequena cidade ainda dormia! Ninguém para nos dar uma informação, nenhuma seta amarela, nenhuma “luz no fim do túnel”.
Resolvemos seguir pelo asfalto, beirando o acostamento, enfrentando o vento forte que vinham dos carros em alta velocidade. Era a minha sina! Estradas asfaltadas! Um dia descobriria o porquê de tudo isso! Para que os motoristas não nos atropelassem, apontávamos as lanternas acesas em direção aos nossos rostos. Lá se foram três horas de caminhada! Sem nenhuma certeza, somente a intuição de que seguíamos na direção correta. Como em um passe de mágica, uma seta surgiu em minha frente! Como eu adorava aquelas setinhas saltitantes! Pude respirar aliviada! Já estava começando a me arrepender de ter tido a idéia maluca de caminhar na escuridão. Logo depois, ouvimos o som dos aviões cruzando o céu, acima de nós. Era a confirmação de que havia uma cidade grande e civilizada ali por perto! É claro que ainda pudemos contar com a sorte porque, uns metros adiante, encontramos uma placa, que indicava os quilômetros restantes até Santiago: treze! Número de azar? Não! A sorte estava realmente ao nosso lado!
Devido à dificuldade de caminhar na escuridão, perdemos bastante tempo e, conseqüentemente, ficamos mais cansados que o normal. Eu ainda tinha um pequeno probleminha: a vontade de fazer xixi! O pior é que eu estava desprevenida! Esqueci-me de levar um pedaço de papel higiênico na mochila. O jeito era agüentar! Ao passar pelo aeroporto, o céu ainda estava escuro. A chuva também dificultava bastante, porque não conseguíamos ver quase nada e, para piorar, o barulho da água caindo no chão, deixava-me cada vez mais apertada. Quando David pediu licença, retirou-se para um cantinho escuro e começou a fazer xixi, foi demais! Àquela altura, eu já não suportava mais a vontade de ir ao banheiro e tive que correr para o matinho mesmo! Ah, como fazia falta o balde da velhinha...
Caminhamos um pouco mais até chegarmos a um pueblo, cheios de esperança em encontrar um lugar para comer e descansar, mas estava tudo deserto. Decidimos seguir viagem. Voltei a achar que tudo aquilo era uma loucura! Caminhar no meio da madrugada, sem comida, sem visibilidade alguma; ora perdidos, ora “achados”... Que diachos estávamos fazendo ali? Poderíamos ter dormido um pouco mais e esperado o dia nascer! Pensando bem, se não fosse assim, hoje eu não teria histórias tão engraçadas para contar...
Continuamos em frente. Já não tínhamos nenhum incômodo de ordem fisiológica e, tampouco, motivos para desistir depois de tanto esforço. Amanhecia e ainda não estávamos nem perto de alcançar a cidade de Santiago de Compostela. Os passos foram ficando mais lentos, arrastados. O corpo doído, a cabeça a mil! Ainda caminhamos por mais de uma hora até chegarmos ao Monte do Gozo, uma colina situada a apenas 5 km de Santiago. Nenhum de nós dois arriscava-se a dizer uma palavra sequer! Durante todo o percurso, desde que deixei Roncesvalles, sabia que chegaria ao final do Caminho um dia, mas a realidade da caminhada era tão maravilhosamente bela, que tornava-se quase que uma fantasia e eu já não tinha mais vontade de chegar!

Uma ansiedade enorme invadiu meu coração. Estávamos a pouco menos de uma hora do fim. Desviamo-nos para a estrada, e logo avistamos a Catedral, em meio aos prédios da cidade, imponente. Enfim, lá estava nosso destino, nossa meta cumprida, nosso sonho realizado! Era uma emoção indescritível! As lágrimas desceram sem controle, o coração disparou, a cabeça deu voltas e voltas. Todo o Caminho percorrido veio como um filme em minha memória. O embarque, o primeiro dia, Chico, Calixto, o “Trio Cometa”, as setas que não existiam, as setas que saltavam aos meus olhos, os encontros, os desencontros, Carla, Björn, as dores, as alegrias, a magia, a família peregrina, Fresia, Juan Andrés, os devaneios, Tuiv, a solidão, as pessoas especiais, Jus, Jesus, Acacio, Balbino, as igrejas, os pueblos, os Monastérios, Mônica, os jantares, Diego, Harrison, Klauss, David (o companheiro naquela madrugada) e tantas outras maravilhas. Todas as lembranças deixaram-me triste, nostálgica. Quanto mais perto de Santiago, mais longe eu estava do Caminho.
Não consegui cumprir a promessa feita à minha amiga Mônica: esperar por ela e pernoitar no Monte do Gozo. Estava ansiosa demais para chegar a Santiago e faltavam apenas 5 km! Quando David e eu começamos a descer o Monte do Gozo, lembrei-me de ter lido que os peregrinos medievais ao avistar dali, pela primeira vez, a Catedral de Santiago, caíam de joelhos e cantavam uma música como forma de agradecimento. Antes de embarcar naquela aventura, fiquei imaginando qual seria minha reação ao chegar tão perto da Catedral, e qual seria a música que eu escolheria para aquela ocasião especial. O mais estranho foi que, depois de ter percorrido a maior parte do Caminho ao embalo de minhas músicas, na descida do Monte eu não tinha vontade nenhuma de cantar. Em lugar da música, uma oração:
“Mãe Lua,
Que surge através das nuvens, atrás de montanhas,
Do fundo infinito,
Iluminando parte de um escuro oceano,
Reina soberana na noite, sobre mares e lares,
Proteja-nos! Assim como fazes com as estrelas!
Ascenda tua bola de fogo no céu e apague no horizonte, prateada,
Conduzindo o começo ao fim,
De sol a sol,
Representando no céu, nossa vida na Terra.
Tu, que és madrinha dos românticos,
Prometa nunca deixar-nos,
Seja no Rio, no frio ou qualquer lugar,
Porque estamos sempre esperando pelo teu espetáculo,
Onde teu palco é a natureza terrestre,
E tua luz é a nossa fé,
De que ela nunca se acabe.
Mãe Lua, Pai Sol,
Mulher noite, Homem dia,
Que teus horizontes nunca se apaguem!”
Esta oração foi escrita por mim aos doze anos de idade, em um momento de total sintonia com a energia maior que chamamos de Deus, Deusa, Buda, Alá, Rá...ou sei lá!
A partir dali, nada mais nos tirava do Caminho. Ou quase nada! A fome e o cansaço foram maiores que a vontade de chegar. Paramos em um luxuoso hotel, na entrada da cidade. Senti-me como uma mendiga, sendo observada com desdém pelos hóspedes e funcionários, mas já estava vacinada! Sentamos confortavelmente nas poltronas do bar e pedimos nosso último café da manhã. Estava tudo tão bom, que não sentimos o tempo passar. Quando saímos, vimos nosso grupo de amigos descendo o Monte do Gozo: Diego, Klaus, Harrison, Luis Miguel, Edward e Michaela. Mesmo, David e eu, saindo de Pedrouzo no meio da madrugada, horas antes deles, a magia do Caminho acabara de nos unir novamente e acabaríamos chegando todos juntos à Catedral. Exatamente como sonhei!
A emoção era forte. As lágrimas guiavam meus passos. Já não controlava o corpo, minhas pernas seguiam por conta própria, meus pensamentos confundiam a realidade e a fantasia. Parecia um sonho! Não conseguia acreditar que tudo pudesse realmente estar acontecendo. Desliguei-me do mundo e já não sabia mais se havia algum amigo ao meu lado. Caminhava por entre os becos chorando muito, totalmente fora de órbita. Às vezes, era preciso sentar, pois não tinha forças para continuar caminhando, tamanha emoção! Minha cabeça girava, os pensamentos não tinham mais nenhum sentido. De repente, a mochila não tinha mais peso, o caminhar era leve; a alma, lavada! Aos poucos, venci os metros que distanciavam-me da Praça do Obradoiro, onde estava meu destino final: a Catedral de Santiago de Compostela. Desci uma rua, passei por um músico que tocava sua gaita de foles e ao som de sua gaita, desci algumas escadas e, alguns passos depois, deparei-me com a tão sonhada Catedral. Não sei explicar exatamente o que senti naquele dia! Sei que sentei-me no meio da praça e pus-me a chorar copiosamente. Era como se todas as emoções sentidas em todos os dias de Caminho estivessem ali presentes ao mesmo tempo. Chorei, pulei como uma criança, dancei, cantei, enfim, gritei bem alto:
E senti uma mão amiga puxando-me para um abraço. Era Diego! E cada um que chegava, juntava-se a nós naquele abraço apertado e sem fim. De repente, todos estavam sentados, olhando admirados para a Catedral, sem saber qual seria nosso próximo passo. Talvez, devêssemos caminhar em busca da paz, do amor e da confraternização mundial. Talvez, devêssemos apenas levantar e caminhar até a igreja.
Foi difícil recompôr-me para entrar na Catedral. Graças ao meu cajado, meu companheiro das horas mais difíceis, tive um apoio extra para seguir caminhando. Subi os degraus da escadaria com orgulho, como se cada um deles representasse uma etapa vencida na minha vida. Quando cheguei ao portal, parei um pouco, respirei fundo e agradeci a Deus, do fundo do meu coração, por ter transformado-me, tal como uma Fênix ressurgida das cinzas, em uma pessoa melhor. Ao atravessar a porta, a glória! Eu estava ali, dentro da grandiosa Catedral, bem perto do túmulo de Tiago, o Apóstolo. Era o fim, o objetivo havia sido alcançado! Impossível conter as lágrimas! Impossível descrever a emoção!

Era domingo e a Catedral estava lotada! Fiquei um pouco perdida em meio à grande multidão de turistas no interior da igreja. Ia andando, esbarrando nas pessoas com a mochila, sem saber direito a direção certa para chegar até o altar. Àquela altura, já havia perdido-me de meus amigos. Confesso que fiquei perturbada com tanta gente! Achei que depois de tantos dias andando, enfrentando as dores e dificuldades do Caminho, teríamos um lugarzinho reservado para assistir à Missa. Pura ilusão! A realidade que encontrei era bem diferente! Tive que me contentar em assisti-la, ajoelhada em um cantinho, ouvindo as explicações dos guias de turismo que teimavam em atrapalhar o Sermão do Padre. Ao final da Missa, alguns padres juntaram-se em torno de um enorme incensário, chamado Botafumeiro. Eram uns dez homens a levantá-lo, fazendo com que percorresse o interior da Catedral como um pêndulo, de um lado a outro. O cheiro do incenso impregnava meu corpo e dava-me a sensação de paz. Lembrei-me do programa de TV que tanto me inspirou a estar lá. A repórter entrevistando os peregrinos, com um invejável brilho nos olhos e aquele incensário ao fundo. Não era sonho, não era mais o programa na televisão! Era a minha realidade! Eu era a protagonista daquela história, eu tinha o brilho nos olhos e na alma! Quando o espetáculo terminou, toda a magia se apagou com ele e eu estava novamente perdida.
Voltei para a Praça do Obradoiro e fiquei olhando os peregrinos que iam chegando, pouco a pouco, emocionados. Percebi que do lado de fora da Catedral ainda existia o espírito do Caminho de Santiago. Não ignoro a importância da Catedral, tampouco o corpo do Apóstolo, mas a magia havia se transformado em turismo. Lá na praça era diferente! Sentia-me à vontade. Eu podia assistir aos abraços apertados, aos reencontros ou simplesmente a cumplicidade entre os peregrinos. Isso era o Caminho! A chuva no rosto, o peso do corpo, as dores nos joelhos, a alegria no coração e a benção de ter amigos verdadeiros ao meu lado! No mais, tudo parecia sem sentido. Isso me fez refletir na busca definitiva à uma religião que me desse satisfação plena e, por mais que eu tenha percorrido uma trilha totalmente católica, senti que estava cada vez mais voltada para a Natureza e para uma energia feminina, materna. O Caminho ensinou-me que meu caminho era outro.

Depois de buscar minha Compostelana na Oficina de peregrinos, juntei-me aos amigos em um restaurante perto dali. Ainda lutávamos para preservar a alegria em nossa festa de despedida, mas era impossível. Todos nós sabíamos que, a partir dali, cada um seguiria seu rumo e nada mais seria como antes. Iniciava-se uma nova etapa no Caminho, onde não mais contaríamos com o apoio do cajado, das setas amarelas ou dos demais peregrinos. Chegaria o momento de confrontar-se com a dura realidade da vida. Voltariam os problemas, os conflitos, as contas, o trabalho e a falta de tempo. Ser peregrino no Caminho de Santiago é relativamente fácil. O difícil seria continuar com esse espírito diante dos desafios da vida e seguir adiante com força e fé inabaláveis. Essa era nossa missão a partir dali.