sábado, 31 de maio de 2008

FALAR PARA QUEM? - A VOLTA

Logo que cheguei ao Rio, em todos os lugares que ia, me perguntavam sobre a viagem. Eu ficava toda boba, contava cada detalhe e demorei a perceber que as pessoas perguntavam por educação. Quase ninguém queria saber realmente como era estar no Caminho de Santiago. Restava-me encher o saco dos que me perguntavam ou voltar para a lista de discussão na internet. Lá era minha casa, meu ambiente. Eu podia das dicas, contar as histórias, trocar informações. E foi numa dessas conversas que fiz uma grande amiga, que seria minha companheira nas madrugadas: Ana.

Na semana seguinte da minha volta ao Rio, fui à reuniçao da AACS na Casa de Espanha. Eu era uma das convidadas especiais, porque estava "fresquinha" e podia contar tudo sobre Compostela. Fui uma emoção enorme poder reviver por alguns minutos o Caminho de novo. Cada episódio que eu contava, eu via nos olhos dos espectadores aquela vontade de viver a mesma experiência. Naquele dia, eu estava do outro lado. Era eu que inspirava as pessoas a fazer o Caminho. Mesmo encontrando os amigos sa AACS, enturmada com quem queria ouvir sobre a minha viagem, ainda não estava satisfeita. Eu queria voltar ao Caminho.

Eu não tinha dinheiro para voltar, tampouco um projeto mirabolante que alguém patrocinasse. Tive que me contentar com as noites na internet e com o relato que comecei a escrever. Fiquei pensando que nós deveríamos ser preparados para lidar com os sentimentos na volta. É a parte mais difícil da caminhada. Como viver o que foi aprendido no Caminho na vida atribulada e prática do dia a dia? Como lidar com a tristeza de estar longe da rotina de colocar a mochila nas costas e caminhar sem preocupações? De não ter setas, nem cajado para nos apoiarmos?

Quantas madrugadas perdi conectada à camêra na Fonte de Irache, vendo os peregrinos passarem. A Ana sempre comigo, através do messenger. Aquela que visse o peregrino primeiro, passava logo uma mensagem para avisar à outra. Foi muito divertido!

Dois anos se passaram e eu resolvi que era hora de voltar a caminhar. Escolhi um Caminho no Brasil, que era novo e considerado o caminho de Santiago Brasileiro - Caminho do Sol. Será que eu conseguiria reviver Santiago? Encontraria amigos como o Chico, Mônica, Fresia e Calixto? Veria tantas obras de arte e história?

quinta-feira, 29 de maio de 2008

AMIGOS, MAIS UMA VEZ, OBRIGADA POR ACOMPANHAR MINHA PEREGRINAÇÃO A COMPOSTELA.

O BUSCAAPÉ CONTINUA! CONTAREI COMO FOI MEU ANO APÓS O CAMINHO E, EM BREVE O CAMINHO DO SOL.

AOS QUE QUISEREM, AVISAREI ASSIM QUE POSTAR O PRIMEIRO CAPÍTULO DO RELATO AO CAMINHO DO SOL. É SÓ MANDAR SEU E-MAIL PARA TISERPA@BOL.COM.BR

VISITEM TAMBÉM O BLOG DA LETÍCIA SOBRE O CAMINHO PORTUGUÊS: vejaportugal.blog.terra.com.br

ULTREYA!

EM BUSCA DO CAMINHO - A VOLTA


Da janela do avião, avistei o Cristo Redentor, emocionada. Estava de volta em casa! Era o único lugar, fora o Caminho de Santiago, que me deixava feliz naquele momento. Imaginava que em poucos minutos encontraria minha família e meus amigos me esperando no saguão do aeroporto, com faixas de parabenização, banda (daquelas de cidade do interior, tocando marchinhas de carnaval), muita festa e todos ávidos para ouvir minhas aventuras. Não havia ninguém. Depois de um mês longe de casa, cansada, louca por um ombro amigo, encontrei um mundo vazio à minha espera. A decepção tomou conta de mim e senti um grande medo deste conhecido mundo desconhecido. Quando comecei a pensar porquê não havia ninguém me esperando, me dei conta de que eu mesma havia feito confusão com o horário de chegada do meu vôo.


Coloquei a mochila nas costas e segui até a lanchonete mais próxima para matar a saudade do nosso delicioso cafézinho. No trajeto até praça de alimentação, percebi que algumas pessoas olhavam-me espantadas. E com razão! Porque uma mulher tão magrinha e aparentemente fraca continuava carregando uma enorme mochila? Porque não colocá-la em um carrinho de bagagens? A todos que me ofereciam um carrinho eu respondia com um sorriso maroto nos lábios:
— “Obrigada, mas aqui dentro está toda minha vida e eu tenho que carregá-la sozinha!”
Claro que ninguém entendi nada! Andei durante algumas horas dentro do aeroporto, sem saber o que fazer. Decidi que seria melhor telefonar para casa. Para minha surpresa, estavam todos tomando café e sairíam em caravana para me buscar. Como eu pude estragar a minha própria festa de recepção? Ficaram todos surpresos e um pouco decepcionados também. O melhor então, seria pegar um táxi e chegar a tempo de acompanhá-los no desjejum. Foi o que fiz.


A vida é mesmo engraçada. Ao chegar no estacionamento reservado aos táxis, um dos motoristas veio em minha direção.
— “Peregrina de Santiago?” – perguntou-me.
— “Sim, como você sabe?” – respondi.
— “Pelo sorriso nos olhos e a mochila nas costas.” – ele disse.
Ele também havia feito o Caminho e ficou tão feliz ao ver-me, que fez questão de levar-me para casa “desde que eu enchesse seu coração de alegria com as histórias do Caminho”. Nunca mais o vi, mas o guardarei sempre em meu coração.


O reencontro com a família foi estranho. Eram as pessoas que eu mais amava e, ao mesmo tempo, pareciam distantes e desconhecidas para mim. Entrar em casa, desfazer a mochila e retomar a rotina pareceram-me sem sentido. As reuniões da Associação dos Amigos do Caminho de Santiago, que poderiam, de alguma forma, remeter-me de volta àqueles momentos felizes, não me satisfaziam plenamente. Os meses que se seguiram, foram muito difíceis. Tive que encarar o término do meu namoro, os trabalhos eram escassos, os problemas continuavam os mesmos e eu não sabia como agir. Estava sempre angustiada, à procura das setas amarelas, que um dia indicaram-me o rumo certo.


Arrisquei uma outra viagem, desta vez a trabalho, buscando sempre o espírito peregrino e aventureiro de antes. Até o nome da cidade que escolhi para passar uns tempos era o mesmo: Santiago. Passei um mês no Chile, tentando encontrar o Caminho. Não deu certo! Pensei que o Encontro Internacional de Peregrinos, programado para novembro, no Brasil, fosse a chance de revivê-lo. Não pensei duas vezes em deixar o Chile e voltar para o Rio de Janeiro, antes mesmo da hora prevista. Novamente enganei-me! Nem mesmo a presença de Jesus Jato e sua esposa, Acácio e outros hospitaleiros em minha casa, remetiam-me de volta ao Caminho de Santiago. Foi uma grande agonia! Tudo era totalmente diferente do que eu sonhara encontrar. Definitivamente, nada mais seria igual na minha vida! Pensei estar louca, mas no fundo, eu estava perdida.


Ainda hoje, sigo em busca do meu Caminho.
Quando sinto-me perdida, deixo que as setas amarelas da intuição me mostrem o rumo certo;
Quando chega o cansaço, paro nos bares da alma e tomo um cafézinho;
Quando o desânimo toma conta, eu abro a mochila da fé e sigo em frente;
Quando o corpo padece, eu me apoio no cajado dos anjos e me levanto;
Quando surge a geada repentina, eu uso a capa de chuva da experiência e protejo-me;
Quando a chuva passa, eu abro os olhos do coração para apreciar o arco-íris;
Quando surge um amigo, eu abro um bom vinho!
Quando a vida parece não mais fazer sentido, eu lembro que eu e o Caminho nos tornamos um só.
Eu sou o Caminho e o Caminho sou eu.

quarta-feira, 28 de maio de 2008

A DESPEDIDA, REENCONTROS E TURISMO


Depois da festa de despedida, tudo me pareceu sem sentido. Eu não tinha mais uma grande meta a alcançar. Não tinha mais etapas a cumprir. Minha vontade era voltar até Roncesvalles e começar tudo de novo. Talvez até recomeçar de Saint Jean e cumprir a parte que, por comodidade ou falta de coragem, eu não havia percorrido. E talvez transformar minha vida em uma eterna peregrinação. Um ir e vir constante, ou ainda, viver em um albergue recebendo e prestando solidariedade aos peregrinos. Como seria viver sem a vaidade, o orgulho e a ambição? Faltava-me ainda a coragem de largar tudo para trás e viver aquela utopia, mas era uma idéia que não saía da minha mente.


Voltei para o albergue no Monte do Gozo. Tinha certeza que lá encontraria minha amiga Monica e com ela dividiria minha emoção. Foi muito emocionante reencontrá-la depois de viver a emoção da chegada. Duro foi ouvir o sermão dela por eu ter quebrado a promessa de esperar por ela no Monte do Gozo. Não resisti! Não conseguiria dormir tão perto do fim e, de quebra, ficar admirando a tão desejada cidade de Santiago de Compostela lá de cima! Tentação demais para uma simples mortal! No final das contas, acabou ficando tudo bem e prometi acompanhá-la no dia seguinte.


Sentamos todos: eu, Mônica e nossos amigos em uma das mesas do refeitório e demos seqüência à “bebemoração”. Ficamos ali até tarde da noite, com exceção dos peregrinos “calouros”, que ainda teriam mais uma noite de descanso pela frente, até receber as bênçãos de Santiago. Deviam ser umas onze horas da noite, quando abriram a pista de dança. Já turbinados, nós “veteranos”, deixamos nossos corpos maltratados por tantos dias de peregrinação, relaxarem ao som das músicas. Sem pudores e sem regras. Cada um na sua viagem interior.

Olha a cara das meninas!!! rsrsrs

No dia seguinte, acordei cedinho para acompanhar minha amiga Mônica até a Catedral. Fui um pouco na frente, fotografando as emoções dela. Dessa vez ela teria fotos mais decentes para colocar em seu álbum. E não seriam fotos de paisagem! A cada passo, parecia que eu estava chegando em Santiago pela primeira vez. Sentia as mesmas emoções, o mesmo choro, a mesma satisfação! Passamos pelo jovem da gaita e chegamos na Praça do Obradoiro. De novo o riso, o choro, os abraços. O cenário era um pouco diferente. A Catedral parecia mais bonita ainda, com os raios iluminando suas torres. Aos poucos, todos foram chegando. Meus amigos vinham repetir a dose e os outros festejavam o grande momento de suas vidas. Entramos todos juntos na Catedral, que por sorte estava bem mais vazia do que no dia anterior. Pude dar continuidade aos rituais do peregrino: abraçar a enorme imagem de Santiago no altar, ajoelhar-me diante de seu túmulo, agradecendo por ter realizado meu maior sonho e o mais importante de tudo: assistir à Missa em paz!


Acompanhei a Mônica até a Oficina de peregrinos para que ela pegasse sua Compostelana. Depois disso, a magia do Caminho se perdeu novamente e tudo se transformou em uma grande visita turística. Hora de ir às compras, escolher os presentes dos amigos e familiares, pegar o que enviamos pelo correio (as tais coisas supérfluas, entre elas, minhas botas!) e decidir o que fazer com os dias que sobraram. Eu queira muito ir até Finisterre. Podíamos até continuar a peregrinação, mas fomos alertadas de que o Caminho até lá, não estava muito bem sinalizado. Era a hora de andar sobre rodas!


Tivemos uma grande surpresa enquanto seguíamos de volta à Catedral. Vimos um peregrino subindo a rua, acompanhado de seu cajado com a bandeira do Brasil. Era Calixto! Corremos para abraçá-lo! Vinha caminhando com os olhos cheios de lágrimas, muito emocionado e pelo jeito, uns 15kg mais magro! Fizemos a maior festa! Era tanto escândalo, que formou-se uma multidão ao nosso redor! Flashs para todo o lado e muitos aplausos. Depois dos abraços, era a vez da enxurrada de perguntas! Eu queria saber do Chico, a Mônica queria notícias do Emerson, o Calixto perguntava por seu amigo Paco, enfim, ninguém se entendia!


Fomos com ele até o Parador dos Reyes Católicos, um luxuosíssimo hotel, bem ao lado da Catedral. Calixto sempre falava que queria hospedar-se no melhor hotel de Santiago, assim que terminasse o Caminho. E foi o que fez! Quando chegamos, fomos direto à recepção, seguidos por aqueles olhares cheios de preconceito. Logo de cara, o funcionário foi dizendo que não havia vagas para peregrinos, mas quando Calixto sacou de sua pochete um cartão de crédito douradinho, a expressão do tal funcionário mudou na mesma hora! Para comemorar (tudo era motivo para um drink!) seguimos até o bar (não é que eu terminei o Caminho em um bar? Só faltava o Chico!). Encontramos Leonardo (o homem do cavalo branco do primeiro dia) e juntos fizemos outra grande festa!


E assim terminava meu sonho. Ao lado dos amigos, sempre rindo e comemorando, com fé de que a vida devia seguir com aquele espírito peregrino. Ainda encontraria outros amigos antes de voltar ao Brasil, mas se eu fosse contar cada um dos encontros e desencontros detalhadamente, este relato não teria fim. Deixei ainda um recado para meu amigo Chico, na entrada do albergue do Monte do Gozo e segui meu destino.


No dia seguinte, fui com a Mônica para Finisterre, um lugar maravilhoso, cheio de histórias. Era lá que todos imaginavam ser o fim da terra. Dormimos no albergue local, caminhamos até o farol e tentamos fazer o ritual de queimar as roupas, mas havíamos esquecido o álcool. Que roupa pegaria fogo só com fósforo? Achei que isso era um sinal de que deveria guardar minhas roupas para uma futura volta ao Caminho. Quando voltávamos do farol, encontramos David, meu amigo inglês. Almoçamos juntos, trocamos contatos e desde então, só nos falamos por e-mail. À noite, quando chegamos no albergue para descansar, encontramos Carla, minha amiga Sul Africana. Ela resolveu descansar um dia em Finisterre, para só depois voltar ao Monte do Gozo e fazer a etapa final até Santiago. Curioso, não?
Carla e eu em Finisterre

De Finisterre, Mônica e eu pegamos um ônibus até Santiago e, de lá, até Madrid. Em 1994, eu havia passado dois meses lá, trabalhando como modelo. Conhecia bastante a cidade e estava com vontade de rever os lugares. Ficamos hospedadas na Porta do Sol. Passeamos por todos os pontos turísticos: Parque do Retiro, Museu do Prado, Palácio Real e também fomos até Toledo, um dos lugares mais bonitos que já vi na vida! Pude então, matar a saudade de Madrid e, de quebra, depois que a Mônica voltou ao Brasil, fiquei uns dias hospedada na casa da minha amiga Fresia, contando o que havia acontecido nos dias que se seguiram após sua despedida em Burgos, mas nada se comparava à magia de estar no Caminho. Era hora de voltar para casa!

Mônica e eu na Plaza Mayor, MADRI

terça-feira, 27 de maio de 2008

QUERIDOS AMIGOS,
O BUSCAAPÉ AINDA NÃO TERMINOU. OS PRÓXIMOS POSTS CONTARÃO MINHA DESPEDIDA DOS AMIGOS PEREGRINOS, REENCONTROS, A VOLTA AO BRASIL E, EM BREVE, RELATO DO CAMINHO DO SOL.
NÃO PERCAM!

segunda-feira, 26 de maio de 2008

CHEGANDO AO CAMPO DAS ESTRELAS - 24º DIA


Com o coração transbordando de emoção e os olhos cheios de lágrimas, levei minha mochila para o lado de fora do quarto para não acordar meus companheiros. Minha preocupação era grande. Eu teria que andar quase 20km em plena madrugada, acompanhada somente de Deus. Verifiquei se haviam pilhas na lanterna, agasalhei o corpo, preparei uma xícara de café com leite bem quente, e sentei-me à mesa, degustando cada gole e cada momento; afinal, eram os últimos do Caminho e os mais importantes de toda minha vida.


Já estava saindo, quando ouvi uma voz me chamando. Era David! Pediu-me que o esperasse, pois iria comigo. Também queria experimentar a loucura de caminhar durante a noite. Finalmente ele estava deixando de lado a formalidade e tentando estreitar os laços de amizade comigo! Fiquei honrada com a proposta! Resolvi aceitar sua companhia e, com nossas lanternas em punho, saímos pelas ruas de Pedrouzo. Seria uma jornada bem difícil, pois a noite estava chuvosa e mal conseguíamos enxergar as setas amarelas no asfalto. Seguimos por uma pequena estrada de terra e a escuridão era assustadora! Parecia que, a qualquer momento, seríamos pegos de surpresa por algum “bicho papão”. Isso me fez lembrar novamente os tempos de criança, quando ia para cama com medo do escuro.


Foram horas andando no meio da floresta, debaixo de muita chuva e sem viva alma. David ficava assustado com o ruído dos pássaros nas árvores. A sensação era de estarmos sendo observados o tempo todo. Alguns quilômetros depois, vimos umas luzes ao longe. Alguma luz, enfim! Era uma estrada asfaltada que cortava a trilha. Mas depois de atravessá-la, entramos novamente no breu da floresta, dessa vez bem mais fechada e mais escura que a anterior. Até ali, estava tudo relativamente fácil. Até ali...


Mais adiante, nos deparamos com um grande problema: uma bifurcação. Bifurcações no caminho da vida! Mais uma vez eu estava diante de uma escolha importante. Nossas lanternas tentavam iluminar as pedras, mas não conseguíamos achar nenhuma seta que nos apontasse a direção correta. Estávamos perdidos! Tínhamos duas opções: descansar ali mesmo e esperar amanhecer, ou arriscar alguma das duas direções. Escolhemos a primeira. Apagamos as lanternas e, enquanto arrumávamos as mochilas no chão, vi algumas luzes ao longe. Mudei de idéia! Propus seguirmos até lá e ver se encontrávamos uma estrada que nos levasse em direção a Santiago. Nada! A pequena cidade ainda dormia! Ninguém para nos dar uma informação, nenhuma seta amarela, nenhuma “luz no fim do túnel”.


Resolvemos seguir pelo asfalto, beirando o acostamento, enfrentando o vento forte que vinham dos carros em alta velocidade. Era a minha sina! Estradas asfaltadas! Um dia descobriria o porquê de tudo isso! Para que os motoristas não nos atropelassem, apontávamos as lanternas acesas em direção aos nossos rostos. Lá se foram três horas de caminhada! Sem nenhuma certeza, somente a intuição de que seguíamos na direção correta. Como em um passe de mágica, uma seta surgiu em minha frente! Como eu adorava aquelas setinhas saltitantes! Pude respirar aliviada! Já estava começando a me arrepender de ter tido a idéia maluca de caminhar na escuridão. Logo depois, ouvimos o som dos aviões cruzando o céu, acima de nós. Era a confirmação de que havia uma cidade grande e civilizada ali por perto! É claro que ainda pudemos contar com a sorte porque, uns metros adiante, encontramos uma placa, que indicava os quilômetros restantes até Santiago: treze! Número de azar? Não! A sorte estava realmente ao nosso lado!


Devido à dificuldade de caminhar na escuridão, perdemos bastante tempo e, conseqüentemente, ficamos mais cansados que o normal. Eu ainda tinha um pequeno probleminha: a vontade de fazer xixi! O pior é que eu estava desprevenida! Esqueci-me de levar um pedaço de papel higiênico na mochila. O jeito era agüentar! Ao passar pelo aeroporto, o céu ainda estava escuro. A chuva também dificultava bastante, porque não conseguíamos ver quase nada e, para piorar, o barulho da água caindo no chão, deixava-me cada vez mais apertada. Quando David pediu licença, retirou-se para um cantinho escuro e começou a fazer xixi, foi demais! Àquela altura, eu já não suportava mais a vontade de ir ao banheiro e tive que correr para o matinho mesmo! Ah, como fazia falta o balde da velhinha...


Caminhamos um pouco mais até chegarmos a um pueblo, cheios de esperança em encontrar um lugar para comer e descansar, mas estava tudo deserto. Decidimos seguir viagem. Voltei a achar que tudo aquilo era uma loucura! Caminhar no meio da madrugada, sem comida, sem visibilidade alguma; ora perdidos, ora “achados”... Que diachos estávamos fazendo ali? Poderíamos ter dormido um pouco mais e esperado o dia nascer! Pensando bem, se não fosse assim, hoje eu não teria histórias tão engraçadas para contar...


Continuamos em frente. Já não tínhamos nenhum incômodo de ordem fisiológica e, tampouco, motivos para desistir depois de tanto esforço. Amanhecia e ainda não estávamos nem perto de alcançar a cidade de Santiago de Compostela. Os passos foram ficando mais lentos, arrastados. O corpo doído, a cabeça a mil! Ainda caminhamos por mais de uma hora até chegarmos ao Monte do Gozo, uma colina situada a apenas 5 km de Santiago. Nenhum de nós dois arriscava-se a dizer uma palavra sequer! Durante todo o percurso, desde que deixei Roncesvalles, sabia que chegaria ao final do Caminho um dia, mas a realidade da caminhada era tão maravilhosamente bela, que tornava-se quase que uma fantasia e eu já não tinha mais vontade de chegar!


Uma ansiedade enorme invadiu meu coração. Estávamos a pouco menos de uma hora do fim. Desviamo-nos para a estrada, e logo avistamos a Catedral, em meio aos prédios da cidade, imponente. Enfim, lá estava nosso destino, nossa meta cumprida, nosso sonho realizado! Era uma emoção indescritível! As lágrimas desceram sem controle, o coração disparou, a cabeça deu voltas e voltas. Todo o Caminho percorrido veio como um filme em minha memória. O embarque, o primeiro dia, Chico, Calixto, o “Trio Cometa”, as setas que não existiam, as setas que saltavam aos meus olhos, os encontros, os desencontros, Carla, Björn, as dores, as alegrias, a magia, a família peregrina, Fresia, Juan Andrés, os devaneios, Tuiv, a solidão, as pessoas especiais, Jus, Jesus, Acacio, Balbino, as igrejas, os pueblos, os Monastérios, Mônica, os jantares, Diego, Harrison, Klauss, David (o companheiro naquela madrugada) e tantas outras maravilhas. Todas as lembranças deixaram-me triste, nostálgica. Quanto mais perto de Santiago, mais longe eu estava do Caminho.


Não consegui cumprir a promessa feita à minha amiga Mônica: esperar por ela e pernoitar no Monte do Gozo. Estava ansiosa demais para chegar a Santiago e faltavam apenas 5 km! Quando David e eu começamos a descer o Monte do Gozo, lembrei-me de ter lido que os peregrinos medievais ao avistar dali, pela primeira vez, a Catedral de Santiago, caíam de joelhos e cantavam uma música como forma de agradecimento. Antes de embarcar naquela aventura, fiquei imaginando qual seria minha reação ao chegar tão perto da Catedral, e qual seria a música que eu escolheria para aquela ocasião especial. O mais estranho foi que, depois de ter percorrido a maior parte do Caminho ao embalo de minhas músicas, na descida do Monte eu não tinha vontade nenhuma de cantar. Em lugar da música, uma oração:

“Mãe Lua,
Que surge através das nuvens, atrás de montanhas,
Do fundo infinito,
Iluminando parte de um escuro oceano,
Reina soberana na noite, sobre mares e lares,
Proteja-nos! Assim como fazes com as estrelas!
Ascenda tua bola de fogo no céu e apague no horizonte, prateada,
Conduzindo o começo ao fim,
De sol a sol,
Representando no céu, nossa vida na Terra.
Tu, que és madrinha dos românticos,
Prometa nunca deixar-nos,
Seja no Rio, no frio ou qualquer lugar,
Porque estamos sempre esperando pelo teu espetáculo,
Onde teu palco é a natureza terrestre,
E tua luz é a nossa fé,
De que ela nunca se acabe.
Mãe Lua, Pai Sol,
Mulher noite, Homem dia,
Que teus horizontes nunca se apaguem!”

Esta oração foi escrita por mim aos doze anos de idade, em um momento de total sintonia com a energia maior que chamamos de Deus, Deusa, Buda, Alá, Rá...ou sei lá!


A partir dali, nada mais nos tirava do Caminho. Ou quase nada! A fome e o cansaço foram maiores que a vontade de chegar. Paramos em um luxuoso hotel, na entrada da cidade. Senti-me como uma mendiga, sendo observada com desdém pelos hóspedes e funcionários, mas já estava vacinada! Sentamos confortavelmente nas poltronas do bar e pedimos nosso último café da manhã. Estava tudo tão bom, que não sentimos o tempo passar. Quando saímos, vimos nosso grupo de amigos descendo o Monte do Gozo: Diego, Klaus, Harrison, Luis Miguel, Edward e Michaela. Mesmo, David e eu, saindo de Pedrouzo no meio da madrugada, horas antes deles, a magia do Caminho acabara de nos unir novamente e acabaríamos chegando todos juntos à Catedral. Exatamente como sonhei!


A emoção era forte. As lágrimas guiavam meus passos. Já não controlava o corpo, minhas pernas seguiam por conta própria, meus pensamentos confundiam a realidade e a fantasia. Parecia um sonho! Não conseguia acreditar que tudo pudesse realmente estar acontecendo. Desliguei-me do mundo e já não sabia mais se havia algum amigo ao meu lado. Caminhava por entre os becos chorando muito, totalmente fora de órbita. Às vezes, era preciso sentar, pois não tinha forças para continuar caminhando, tamanha emoção! Minha cabeça girava, os pensamentos não tinham mais nenhum sentido. De repente, a mochila não tinha mais peso, o caminhar era leve; a alma, lavada! Aos poucos, venci os metros que distanciavam-me da Praça do Obradoiro, onde estava meu destino final: a Catedral de Santiago de Compostela. Desci uma rua, passei por um músico que tocava sua gaita de foles e ao som de sua gaita, desci algumas escadas e, alguns passos depois, deparei-me com a tão sonhada Catedral. Não sei explicar exatamente o que senti naquele dia! Sei que sentei-me no meio da praça e pus-me a chorar copiosamente. Era como se todas as emoções sentidas em todos os dias de Caminho estivessem ali presentes ao mesmo tempo. Chorei, pulei como uma criança, dancei, cantei, enfim, gritei bem alto:

— “Venci! Venci!”

E senti uma mão amiga puxando-me para um abraço. Era Diego! E cada um que chegava, juntava-se a nós naquele abraço apertado e sem fim. De repente, todos estavam sentados, olhando admirados para a Catedral, sem saber qual seria nosso próximo passo. Talvez, devêssemos caminhar em busca da paz, do amor e da confraternização mundial. Talvez, devêssemos apenas levantar e caminhar até a igreja.


Foi difícil recompôr-me para entrar na Catedral. Graças ao meu cajado, meu companheiro das horas mais difíceis, tive um apoio extra para seguir caminhando. Subi os degraus da escadaria com orgulho, como se cada um deles representasse uma etapa vencida na minha vida. Quando cheguei ao portal, parei um pouco, respirei fundo e agradeci a Deus, do fundo do meu coração, por ter transformado-me, tal como uma Fênix ressurgida das cinzas, em uma pessoa melhor. Ao atravessar a porta, a glória! Eu estava ali, dentro da grandiosa Catedral, bem perto do túmulo de Tiago, o Apóstolo. Era o fim, o objetivo havia sido alcançado! Impossível conter as lágrimas! Impossível descrever a emoção!


Era domingo e a Catedral estava lotada! Fiquei um pouco perdida em meio à grande multidão de turistas no interior da igreja. Ia andando, esbarrando nas pessoas com a mochila, sem saber direito a direção certa para chegar até o altar. Àquela altura, já havia perdido-me de meus amigos. Confesso que fiquei perturbada com tanta gente! Achei que depois de tantos dias andando, enfrentando as dores e dificuldades do Caminho, teríamos um lugarzinho reservado para assistir à Missa. Pura ilusão! A realidade que encontrei era bem diferente! Tive que me contentar em assisti-la, ajoelhada em um cantinho, ouvindo as explicações dos guias de turismo que teimavam em atrapalhar o Sermão do Padre. Ao final da Missa, alguns padres juntaram-se em torno de um enorme incensário, chamado Botafumeiro. Eram uns dez homens a levantá-lo, fazendo com que percorresse o interior da Catedral como um pêndulo, de um lado a outro. O cheiro do incenso impregnava meu corpo e dava-me a sensação de paz. Lembrei-me do programa de TV que tanto me inspirou a estar lá. A repórter entrevistando os peregrinos, com um invejável brilho nos olhos e aquele incensário ao fundo. Não era sonho, não era mais o programa na televisão! Era a minha realidade! Eu era a protagonista daquela história, eu tinha o brilho nos olhos e na alma! Quando o espetáculo terminou, toda a magia se apagou com ele e eu estava novamente perdida.


Voltei para a Praça do Obradoiro e fiquei olhando os peregrinos que iam chegando, pouco a pouco, emocionados. Percebi que do lado de fora da Catedral ainda existia o espírito do Caminho de Santiago. Não ignoro a importância da Catedral, tampouco o corpo do Apóstolo, mas a magia havia se transformado em turismo. Lá na praça era diferente! Sentia-me à vontade. Eu podia assistir aos abraços apertados, aos reencontros ou simplesmente a cumplicidade entre os peregrinos. Isso era o Caminho! A chuva no rosto, o peso do corpo, as dores nos joelhos, a alegria no coração e a benção de ter amigos verdadeiros ao meu lado! No mais, tudo parecia sem sentido. Isso me fez refletir na busca definitiva à uma religião que me desse satisfação plena e, por mais que eu tenha percorrido uma trilha totalmente católica, senti que estava cada vez mais voltada para a Natureza e para uma energia feminina, materna. O Caminho ensinou-me que meu caminho era outro.


Depois de buscar minha Compostelana na Oficina de peregrinos, juntei-me aos amigos em um restaurante perto dali. Ainda lutávamos para preservar a alegria em nossa festa de despedida, mas era impossível. Todos nós sabíamos que, a partir dali, cada um seguiria seu rumo e nada mais seria como antes. Iniciava-se uma nova etapa no Caminho, onde não mais contaríamos com o apoio do cajado, das setas amarelas ou dos demais peregrinos. Chegaria o momento de confrontar-se com a dura realidade da vida. Voltariam os problemas, os conflitos, as contas, o trabalho e a falta de tempo. Ser peregrino no Caminho de Santiago é relativamente fácil. O difícil seria continuar com esse espírito diante dos desafios da vida e seguir adiante com força e fé inabaláveis. Essa era nossa missão a partir dali.

A ÚLTIMA CEIA - 23º DIA E NOITE


Encontrei Diego, Klaus, Harrison, Luís e Edgard (dois peregrinos espanhóis muito simpáticos) correndo em direção ao restaurante. Essa foi a cena que vi ao chegar em Pedrouzo, onde pernoitaríamos pela última vez, antes de chegar a Santiago. Gritaram para que eu deixasse minha mochila no albergue:


— “O mais rápido possível! O restaurante vai fechar para a siesta!”


Segui fielmente a ordem e fui encontrá-los no restaurante para acompanhá-los no almoço, mas a ansiedade impedia-me de comer. A emoção de estar tão perto de Santiago era forte demais para que eu pensasse em outra coisa, que não fosse a chegada. Pedi licença e voltei para o albergue aos prantos. Ao entrar no quarto, dei de cara com David, meu amigo inglês. Aí mesmo é que desatei a chorar! Contei que não estava mais conseguindo controlar a emoção. Abraçou-me com carinho e acalmou-me. Respirei fundo e parei de chorar. Só então conseguimos conversar um pouco. Já refeita da crise de choro, pedi licença e saí para tomar banho. Ele então me disse uma frase linda, que jamais esquecerei:


— “Vá ao segundo andar! Tem um banheiro individual, com uma banheira enorme e bastante água quente. Você poderá acalmar seu coração.”


É ou não é uma frase maravilhosa para se ouvir depois de quase trinta dias tomando banhos com uma só mão, banhos mornos, banhos de lencinhos umedecidos, banhos de gato, enfim, todo o tipo de banho?


Me senti uma princesa! Acendi uma vela, um incenso e coloquei o restinho do meu xampu na água. Não fez espuma como esperava, mas, para mim, aquele foi o banho mais gostoso de toda minha vida! Fiquei horas dentro da banheira! Só saí de lá quando minha pele murchou. Parecia uma uva passa ambulante! Neste banho, resolvi que faria a próxima etapa durante a noite. Se minha família aqui no Brasil sonhasse com tal possibilidade, certamente hoje estaria internada em algum manicômio! Loucura sair perambulando sozinha no meio da madrugada? Talvez sim, mas já não ficava mais incomodada com minhas loucuras. Eu era livre e feliz! Estava prestes a concretizar meu sonho e cheia de esperança em uma nova vida! Isso era o mais importante!


Esperei um pouco na porta do albergue, para ver se minha amiga Mônica chegava e nada! Nem sinal da danadinha! Com certeza, devia estar caminhando ao lado de Irene, devagar, quase parando. Sentia falta dela, sempre me chamando de “véio do rio”. Estava doida que ela aparecesse logo, para mostrá-la a banheira que havia no segundo andar do albergue. Ela não ia acreditar! Já até ouvia sua voz dizendo:
— “Véio do rio, conseguiu descobrir uma banheira neste albergue? Tô boba! Por isso é que eu não desgrudo ”de ocê”! Na minha próxima viagem, te levarei junto! Mas só se você se comportar direitinho! Com essa descoberta você ganha um pontinho...”


Saudade também do meu amigo Chico. Ele iria adorar a banheira. Se eu soubesse da existência dela antes, teria deixado um recado em algum albergue para que ele usufruísse daquele pequeno paraíso. Onde será que ele estaria? Talvez em algum bar, bebendo seu café com leite, acompanhado de seu amigo Enrique.


Na ausência dos meus dois melhores amigos do Caminho, resolvi fazer uma surpresa para os demais, que mereciam um agrado. Fui ao mercado e comprei bastante comida e vinho. Fui para a cozinha e comecei a preparar o jantar e lá estava David, fazendo uns tremoços apimentados! Quando viu a quantidade de comida que eu trazia, perguntou se haveria um banquete. Eu respondi que sim, mas que ainda era uma surpresa. Então, propôs-me juntarmos nossas comidas. O pedido foi aceito na hora! Aos poucos, guiados pelo cheirinho vindo da cozinha, foram aparecendo os outros peregrinos. Contei que estávamos preparando um jantar de despedida. Logo, cada um foi contribuindo da sua maneira. Uns fizeram a salada, outros compraram a sobremesa e o pão.


Foi nossa última ceia. Todos pareciam estar sentindo o mesmo que eu. A tristeza estava visível no rosto de cada um. Tenho certeza de que se pudéssemos escolher, pararíamos o tempo ali e viveríamos este sonho por toda a eternidade! O Caminho de Santiago não é apenas uma estrada a seguir, não é apenas um lugar cheio de monumentos. É um chão realmente sagrado! Uma escola de vida! É onde aprendemos a ser verdadeiros, amorosos, caridosos, disciplinados e, acima de tudo, felizes e em paz com o mundo. Não seria exagero dizer que está no espírito do Caminho, o segredo do mundo perfeito. Quem o percorreu sabe muito bem o que estou dizendo! Infelizmente, é difícil explicar para as pessoas o que sentimos lá. Eles sempre pensarão que somos doidos por andar à pé quase 800km, com uma mochila nas costas. E, ao voltar para a vida “real”, o Caminho estará lá presente em nossas ações. Tentaremos pôr em prática a caridade, o não julgamento, a simplicidade, o amor e a paz. Essa é a grande lição do Caminho! Eu acabara de descobrir que ele estava apenas começando. O Caminho de Santiago era eterno e ninguém nunca o roubaria de mim! Bendita hora em que troquei o carro novo pela aventura!

Da Esquerda par direita: Klaus, Diego, Luis Miguel, Diego, Harrison, Michaela e David

domingo, 25 de maio de 2008

QUASE LÁ - 22 E 23º DIA


De Palas de Rei em diante, caminhei quase o tempo todo sozinha, envolvida em meus pensamentos, segura em saber que tinha minha “família peregrina” por perto. Nas horas de descanso, todos se reuniam e cantavam, dividiam experiências e ajudavam uns aos outros. Num desses encontros, senti a falta da minha amiga Mônica. Esperei um pouco, mas nada dela chegar! Decidi continuar sem ela. Certamente a veria no albergue de Árzua. Mas, ao encontrar meus amigos em um bar, um pouco mais adiante, Harrison e Diego disseram-me que seria melhor ficarmos em Ribadiso da Baixo. O que eu faria? Seguiria com o grupo que no dia anterior andou mais que o previsto só para me acompanhar, ou esperaria por minha amiga que estava junto comigo há dias? Fiquei no bar meditando um pouco a respeito, enquanto meus amigos seguiam viagem. Cheguei à conclusão de que cometeria o mesmo erro do início do Caminho, se retardasse meu ritmo para esperar a Mônica. Era hora de seguir meu rumo, sem amarras, sem dependências. Segui, portanto, em direção à Ribadiso da Baixo.

No meio da natureza exuberante, segui meu caminho, meditando. Parecia um filme! Minha vida toda passou diante dos meus pensamentos. A trilha sonora do dia era o cantar dos passarinhos. De repente, ouvi o que parecia ser batidas na madeira. Quando olhei para a árvore ao lado, vi um pica-pau. Que maravilha! Achei que nunca veria um pássaro desses ao vivo. Pensei no desenho animado, que eu acho um tanto cruel e achei que o bichinho não merecia levar a fama de espertinho. Mais à frente, adentrei um pueblo, onde tinha uma simpática igreja. Desde Roncesavalles, eu havia entrado em poucas durante o Caminho, mas aquela me chamou a atenção. Ainda bem que entrei! Foi a imagem de Jesus mais bonita que vi na vida. O nome do pueblo era Leboreiro e crucificado na cruz, aquele Jesus parecia estender a mão direita aos peregrinos. Muito interessante.



Logo depois, parei para descansar em uma pedra à beira de um rio. Senti uma picadinha entre os dedos mindinhos e “seu vizinho” do pé esquerdo. Tirei o tênis para ver o que era. Parecia picada de formiga, mas acabei me deparando com a minha primeira bolha! Ah, eu tinha que perder a virgindade, né?! Sorte minha, ela era bem pequena, fiz um curativo e continuei sem problemas.


Na descida para Ribadiso, avistei Harrison e Klaus sentados à beira do rio, com os pés dentro d’água. Uma cena incomum até aquele momento. Que delícia passar o resto do dia descansando os pés na água de um rio! Juntei-me a eles e passamos ali o final de tarde, assistindo o espetáculo do pôr do sol, na mais santa paz. Fiquei esperando pela passagem da minha amiga Mônica, mas ela deve ter parado para dormir em Melide. Mais tarde, já ao cair da noite, juntamos a comida que cada um trazia consigo e fizemos um grande jantar. Tudo se transformou em uma grande festa novamente! As canções, os brindes, as histórias, as risadas, a felicidade. Diferentes nacionalidades, diferentes idiomas e um só objetivo: confraternizar, celebrar a paz e o amor. Este era o espírito do Caminho!


No dia seguinte, saímos bem cedo, logo ao amanhecer. Tirei várias fotos do nascer do sol e deixei-me contagiar por sua energia. O céu tinha cor alaranjada e os primeiros raios solares acariciavam meu rosto. Apesar do sono, conseguíamos manter a alegria e seguíamos cantando. Como boa brasileira, arrisquei até uns passos de samba, meio desequilibrados, devido ao peso da mochila em minhas costas. Tudo era motivo para que um sorriso tomasse conta de nossos rostos.

Já em Árzua, paramos para o café da manhã. Dali em diante, o grupo se separou. Tive meus momentos de solidão, de alegria, de tristeza. As emoções estavam à flor da pele. Era o penúltimo dia da jornada de um mês. O que encontraria em Santiago? Será que todo o esforço teria valido a pena? A minha vontade era de parar o tempo ou de começar tudo de novo. Talvez porque eu não tenha vivido plenamente o caminho ou porque o caminho é infinito? Mil perguntas povoavam meus pensamentos. Não queria que meu sonho terminasse. Eu ainda nem tinha outro sonho para buscar! Sentei no meio da trilha e chorei. Era um choro diferente, um mix de sentimentos: saudade, vontade de chegar a Santiago, nenhuma vontade de chegar a Santiago. Mesmo assim continuei, afinal, o caminho é para ser trilhado e tudo na vida tem início, meio e fim.

A paisagem era linda e me reconfortava. Aos poucos, voltei a curtir minha peregrinação, sem pensar na chegada. Realmente, a Galícia é a parte mais bonita do caminho. Passei por lugares encantados, saídos de conto de fadas. De repente, comecei a ouvir vozes e risos. Depois de uma curva, surgiu uma pequena cabana, onde estavam lanchando Mônica, Irene, Marc e os demais. Ah, nunca pensei que reencontraria a minha amiga antes de Santiago. Certamente ela deve ter dormido em Árzua, ou seja, a danada havia caminhado mais do que eu no dia anterior. Novamente foi uma festa! Combinamos, eu e Mônica, de dormir no Monte do Gozo, para chegarmos juntas a Santiago. Para variar, saí na frente deles e segui viagem sozinha novamente.

Marc, Mônica, eu e Irene