quarta-feira, 11 de fevereiro de 2009

MONTE BRANCO – ARTEMIS – 10º DIA

O dia amanheceu com aquele friozinho típico das regiões serranas. Dei uma espiadinha na paisagem antes de colocar o pé na estrada. Uma neblina forte impedia-me ver algo que estivesse a mais de 5 metros à frente. Voltei para o café da manhã. Ah, como é bom tomar um cafezinho quente feito nos coadores de pano! Mais uma vez, depois da gula, a estrada.

Apesar de ter entendido de uma vez por todas que o Caminho do Sol era diferente de Santiago, aquela paisagem encoberta pela neblina, o clima de montanha e o verde da mata me remeteram à Galícia. Quando me dei conta de que os caminhos eram diferentes, vi que também eram iguais! Irônico, não?


Foi o dia mais bonito de toda a caminhada. As casinhas que beiravam a estradinha de terra, a igrejinha do bairro espanhol Floresta, o Monte Branco que dava nome ao lugarejo, tudo era lindo! A única coisa que me deixou triste foi encontrar um cavalo deitado na beira da estradinha, gemendo de dor. Fiquei pensando se eu teria coragem de aliviar seu sofrimento. Admiro quem consegue ter sangue frio para tal coisa. Daquele momento em diante, só pra variar, minha cabeça começou a “viajar” nas mais loucas idéias:
— “Será que os animais são espíritos em evolução? E, se algum dia fui um bichinho, trago nessa encarnação algum tipo de resquício animal? E de qual animal seria?”
A única resposta que tive foram os latidos insistentes dos cachorros. Dava até medo! Parece que todas as casas na beira da estrada tinham cachorro e nenhum deles estava para brincadeiras. Vai ver eu tinha algum resquício felino que os incomodava (risos!).

Depois de algum tempo caminhando sozinha, encontrei a Adriana de carro com mais dois peregrinos do grupo. Por razões que vocês verão a seguir, não poderei citar seus nomes. Pois bem, essas duas pessoas pegaram carona com Adriana para o centro de Ártemis, dizendo que era impossível pernoitar na fazenda do Seu Egydio Mauro. Era tudo que eu queria evitar! O dia estava incrivelmente maravilhoso e eu não precisava passar por mais essa! Resolvi entrar no carro para conversar melhor com eles e ver se realmente estavam certos de suas decisões. No caminho até o centro, não faltaram reclamações. Me diziam que passaríamos frio e que os banheiros não tinham tampas nas privadas. Achei graça de tudo aquilo. Mais uma vez a história das tampas! Eles achavam que assim era mais higiênico, o que poderíamos fazer?! Percorremos todo o lugar sem encontrar um lugar diferente para passar a noite. Resolvemos voltar. Eu pedi para que me deixassem no mesmo lugar onde havia parado de caminhar e continuei à pé rumo à fazenda “quenãotinhatampanaprivada”.

Depois que o carro de Adriana sumiu na poeira, uma cobra atravessou o meu caminho. Em Santiago também aconteceu a mesma coisa! Seria mau presságio sinal de sabedoria? Sempre cheia de esperança, preferi acreditar que era sabedoria. Tenho certeza que cada passo que damos na vida nos ensina alguma coisa e nos dá a oportunidade de crescer, mudar e corrigir falhas. Claro que tudo isso só acontece quando estamos abertos ao mundo que está à nossa volta. O Caminho do Sol me ensinou a colocar os pés no chão, ver a realidade com verdade, nua e crua. Só assim pude ver meus defeitos mais profundamente escondidos e mudar.

Caminhei por aproximadamente uma hora até chegar na Fazenda do Seu Egydio. Tenho que confessar que cheguei ali no dia certo. As acomodações eram bem simples mesmo, mas o importante era curtir a hospitalidade da família e a boa prosa do Seu Egydio. Ele me contou que uma vez fez uma peregrinação até Pirapora, mas que não tinha nada “dessas parafernálias” que usamos. Ele tinha ido de calça jeans e que as botas que usava na fazenda logo encheram seus pés de bolhas e ele acabou o percurso descalço! Ele era uma figura! Um sotaque caipira bem forte, uma simpatia sem tamanho e milhões de histórias para contar! Adorei passar a tarde batendo papo com ele, bebendo uma gelada para espantar o calor. Depois, descemos de carro até o lugar que ele chamava de rancho. Uma senhora casa feita de tijolos e bem antiga na beira do Rio Piracicaba. Perguntei a ele porque não podíamos ficar ali. Ele me respondeu que ainda iria reformar o rancho para receber os peregrinos. Prometi que um dia voltaria para comer um churrasco quando a obra estivesse concluída.

À noite, após o maravilhoso jantar feito no fogão à lenha, Zico e eu ficamos de papo com Seu Egydio até tarde. Era a última noite no Caminho. No dia seguinte tudo terminaria. Cada um seguiria para sua casa, sua vida. Mais uma vez a vontade de continuar andando, conhecendo caminhos, pessoas, dando a cara à tapa, encarando defeitos, crescendo, mudando, vivendo!