sexta-feira, 25 de abril de 2008

PONTO DE PARTIDA

Dormi como um anjo no vôo até Pamplona. Não havia ninguém ao meu lado para deixar a mão boba escorregar por entre minhas pernas. Estava tão cansada que nem percebi o avião aterrissar. Pegamos nossas mochilas e fomos para o ponto de táxi. Estava um dia maravilhoso! Muito sol e um friozinho delicioso. Como eu adoro dias frios ensolarados! Perfeito!


Tivemos que esperar bastante por um táxi em uma fila enorme. Foi uma estranha sensação. Senti-me na ponte aérea Rio – São Paulo. Os homens de terno e gravata e suas malas de James Bond, as mulheres arrumadíssimas em seus saltos “agulha” e todos, sem exceção, muito apressados! E nós três, Chico, Calixto e eu, de mochila nas costas, cara amassada, remela nos olhos e totalmente tranqüilos. Eu, particularmente, já tinha adotado a idéia de abandonar a vaidade. Já tinha passado a vida inteira me preocupando com a aparência e, a partir do momento em que embarquei para o Caminho, levei essa história muito a sério, a ponto de desembarcar com os cabelos em pé e assustar quem estava à minha volta. Enfim, destoávamos das pessoas. Todos nos olhavam espantados, como se fôssemos seres de outro planeta. E aos olhos deles, deveríamos ser mesmo! Fazer o quê? Não tínhamos horários para cumprir ou problemas para serem resolvidos. Nosso negócio era pensar na vida!


O táxi passou por alguns povoados (em espanhol: pueblos) do Caminho. No dia seguinte, atravessaríamos aquelas ruas. Fiquei calada quase toda a viagem, imaginando cada cantinho daquelas cidadelas, sentindo-me na idade média. Viajei no tempo, sonhando com os vestidos, os cavalos, as tabernas repletas de mulheres da vida e homens bêbados. Enquanto isso, o Calixto perguntava tudo ao motorista. Como era o Caminho, como eram as pessoas, quantas horas de caminhada de um povoado ao outro, se o taxista já havia feito o Caminho, se tinham muitos peregrinos nessa época, etc... E é claro que escutamos a mais famosa pergunta feita a nós brasileiros: “Brasil! Paulo Coelho...Vocês conhecem o Paulo Coelho?”


Todos os espanhóis deviam ter a idéia de que o Brasil era uma pequena vila, ou algo parecido, porque ao dizer que conhecíamos o Paulo Coelho (claro! E quem nunca ouviu falar nele?), todos achavam que ele era nosso amigo mais íntimo! E quando eu não queria estender a conversa, dizia que não conhecia o Paulo Coelho. De nada adiantava. Olhavam-me com reprovação dizendo: “Não conheces o Paulo Coelho? O escritor, o peregrino?” Diante de uma resposta negativa, acabavam contando-me tudo sobre ele. No final das contas, ainda hoje, não sei qual seria a melhor coisa para se dizer diante de tal pergunta. De uma forma ou de outra, Paulo Coelho, Ronaldo, Guga ou qualquer outro brasileiro ilustre, era sempre um pretexto para um longo bate-papo.


Durante a viagem de carro do aeroporto até nosso ponto de partida, eu ainda tinha dúvida de onde começaria o meu Caminho. Chico e Calixto tinham decidido começar de Roncesvalles. Havia boatos de que nevaria na próxima noite. Por insegurança, resolvi continuar grudada nos dois e não seguir até Saint Jean para enfrentar os Pireneus[1] sozinha. Este foi o primeiro dos erros que cometi. Ainda voltaria a cometê-los muitas vezes durante o Caminho. Um dia eu aprenderia a ter coragem de tomar minhas decisões sem depender de ninguém.


Ao chegarmos em Roncesvalles, não acreditei no que vi! Senti-me um pouco decepcionada, esperava ao menos uma cidadezinha um pouco mais animada. Era apenas um simples povoado, com uma igreja, um edifício baixo com alguns apartamentos, onde era também o albergue, uma lojinha e duas pequenas pousadas. Íamos passar o dia sem ter o que fazer e sem disposição o bastante para iniciar o Caminho! Foi um verdadeiro desafio controlar a ansiedade e o pânico que tomaram conta de mim. Circulei pela cidadezinha várias vezes, tomei inúmeros cafés e o tempo não passava. O albergue só abria às 15:00h. A pousada só tinha quartos após às 12:00h, e ainda tinha a famosa siesta[2]! Um horror! Acho que foi o dia mais longo da minha vida!


Quando soou o sino da pequena igreja, anunciando que já era meio-dia, fomos para a pousada. Muito a contragosto, pois eu não queria dormir em hotéis durante o Caminho. Em primeiro lugar, porque o espírito do Caminho era dormir nos albergues; em segundo lugar, porque não queria gastar meu dinheiro. Pão duro é pão duro em qualquer lugar do mundo! O Calixto ofereceu-se para pagar minha diária. Não quis aceitar, mas eles me fizeram uma proposta irrecusável: ele e o Chico dividiriam um quarto e eu ficaria em outro. O total dos dois quartos seria rachado entre nós três. Pareceu-me injusto, mas os dois insistiram e eu aceitei.


Achei que teria um tempo para descansar. Enganei-me! O que aconteceu comigo, deixou-me completamente pasma! Uma sensação muito ruim tomou conta de mim. Meu corpo não respondia aos meus comandos. Acho que fiquei tão ansiosa com tudo, que entrei em pânico. Meu coração disparou, meus olhos ficaram arregalados, um nó apertava a garganta, tinha vontade de sair e voltar para casa, mas não conseguia me mexer. Foram poucos minutos que mais pareceram uma eternidade. A cabeça girava, girava e meu corpo ali, imóvel. Imagino que seja assim quando uma pessoa fica em estado de choque.


Reuni forças e fui tomar um banho. Estava tonta e não conseguia manter-me de pé. Quase desmaiei. Sentei-me no chão do box, deixei a água bater suavemente em meu corpo e aos poucos fui “acordando”. Depois, deitei um pouco e as lágrimas desceram sem que eu tivesse um motivo concreto para chorar. Fiquei pensando o que estaria me fazendo ficar naquele estado. Meu sonho sendo realizado e eu não conseguia estar feliz! Parecia uma força maligna impedindo-me de ir em frente. Eu acredito que isso realmente tenha acontecido. Já estudei alguma coisa sobre assédio. Tenho certeza de que fui altamente assediada a não fazer o Caminho. Concentrei-me na imagem que tenho de Deus e comecei a meditar. Para mim, Deus é uma energia universal e cada um de nós é uma minúscula parte dessa energia. Libertei meus pensamentos e deixe-me levar por essa energia divina, e assim, em total união com Deus, voltei a viver meu sonho.


Quando me senti mais aliviada e calma, desci para a Missa dos peregrinos. A igreja era simples e pequena, mas aconchegante. Senti muita paz ali! Parecia que a Missa seria o marco inicial do meu Caminho. De repente, um homem sentou-se no banco ao lado e começou a rezar em voz alta. Depois, levantou-se e saiu para o fundo da igreja. Quando voltou, estava com roupa de padre. Não percebi, mas a Missa já havia começado naquela oração que ele fez. Assisti a tudo aquilo emocionada. Fomos abençoados em vários idiomas, inclusive em português. Foi ali que percebi que realmente estava lá, no Caminho de Santiago. Não era um sonho! Era a mais pura realidade!


Depois da Missa, o jantar! Foi uma festa! Era o primeiro de muitos do Caminho. Lá, as pessoas se reuniam em torno da mesa e ceiavam alegremente, dividindo com os companheiros as experiências e emoções vividas durante a caminhada daquele dia. A comida era farta e engordurada também. Não foi à toa que engordei uns quilinhos. Havia salada ou sopa de entrada, carne ou frango acompanhados de batatas fritas como prato principal, pudim de sobremesa e o melhor de tudo: água, pão e vinho à vontade!


Hora de descansar! O primeiro dia era aguardado ansiosamente por todos os peregrinos. Íamos pisar o chão sagrado. Com medo de passar por todo aquele temor novamente, estiquei ao máximo minha estada no hall da pousada. O tempo passou rapidamente e chegava a hora de enfrentar meus medos. E eles eram enormes, profundos e apavorantes. Não sabia o porquê de nenhum deles, mas estavam ali, atormentando minha alma. Passei a noite praticamente em claro. Nos poucos cochilos que dei, tive pesadelos horrorosos. Sonhei com guerras, tiros, sangue. Eu fugia de alguma coisa o tempo todo. Meus amigos morriam ao meu lado e sentia-me culpada por isso. Mais uma vez, não pude desfrutar de uma boa noite de descanso.


Ainda era madrugada em Roncesvalles e pela cor do céu, o dia prometia ser de muito sol. Nada como começar o Caminho com uma dificuldade a menos! Levantei-me e fui espiar o dia amanhecendo da janela do meu quarto. Alguns peregrinos já estavam na rua. É incrível como tem gente que adora acordar antes mesmo do sol! Imagine se eu ia começar a caminhar por entre os bosques naquela escuridão! Mesmo porque ainda continuava muito assustada com meus pesadelos. O coração voltava a bater descompassado, eu tinha que fazer alguma coisa para me distrair. Pensei em escrever no diário todos os acontecimentos que vivi desde o embarque, mas não conseguia me concentrar. A ansiedade era grande! Pensei então, que um bom banho seria perfeito para relaxar, mas lembrei-me de que os peregrinos mais experientes me aconselharam a não molhar os pés antes de caminhar, porque a pele ficaria sensível e haveria maior probabilidade de surgirem bolhas. Então, restou-me arrumar a mochila o mais devagar possível, para que o tempo passasse mais rápido e minha cabeça ficasse ocupada.


Ouvi barulho no quarto ao lado e fiquei um pouco mais aliviada ao constatar que meus amigos já estavam acordando. Desci e fiquei aguardando por eles no bar, fumando meu cigarro. Quem fuma sabe muito bem o que é ficar sentado esperando! Conforme o tempo passava, eu tentava aliviar a ansiedade aspirando aquela fumaça cinzenta. Lembrei da minha irmã dizendo que fumar era uma total falta de vergonha na cara, porque a gente só fuma quando não tem nada para fazer. Ela conseguiu deixar o cigarro e eu estava jogando todas as minhas esperanças no Caminho. Acontece que o Caminho não tira vícios. Quem os tira somos nós mesmos. Aprenderia com o tempo.


[1] Pireneus: Cadeia de Montanhas na fronteira da França e Espanha.
[2] Siesta – em português: Sesta – segundo o dicionário Aurélio: hora em que se descansa ou dorme após o almoço.



A DESPEDIDA



Minha despedida resumia-se a duas palavras: felicidade e medo. Estava feliz como nunca havia estado antes, porque era delicioso realizar um sonho com seu próprio esforço, mas ao mesmo tempo, estava apavorada! O que me deixava apreensiva era a mudança que estava por vir. Outro país, outra cultura, outra língua. Era preciso estar aberta a tudo e, de certa forma, havia em mim um bloqueio para enfrentar uma nova realidade. O que fazia tantas pessoas, inclusive eu, largarem tudo aqui no Brasil, atravessar o oceano para caminharem durante um mês? O que haveria de tão mágico naquele “Caminho Sagrado”? O que aconteceria na minha cabeça? E a volta? Será que o Caminho me ensinaria um jeito melhor de levar a vida? Ou será que eu voltaria mais confusa do que já estava? Sabia que era a minha hora de ir ao Caminho. Já estava tudo pronto e minha única opção era encarar com coragem o desafio que estava por vir.


Eu ainda não havia decidido se começaria o Caminho na França ou já na Espanha. Em Saint Jean ou Roncesvalles? Eram muitas dúvidas e isso me deixava cada vez com mais receio de levar a ideia do Caminho adiante. Quase desisti de tudo quando cheguei ao aeroporto, já na hora de embarcar. Minhas pernas tremiam e chorei como uma criança. Medo, alegria, desespero, ansiedade, vontade de fugir dali, enfim, uma mistura de sentimentos, bons e ruins, difíceis de controlar. Se eu tivesse ficado mais um minuto parada em frente ao portão de embarque, tenho certeza de que teriam me internado! Em questão de segundos, eu passava do choro intenso ao ataque de riso. Parecia uma doida varrida! E num impulso louco, entrei correndo como um furacão para a sala de espera. Era a melhor forma de tentar fugir da possibilidade de desistir!
Na antessala, encontrei um homem que aparentava ser um peregrino. Aproximou-se de mim e perguntou exatamente a mesma coisa que eu tinha em mente:
- “Você vai para o Caminho de Santiago?”
Que alívio encontrá-lo! Muito bom saber que eu não era a única maluca que estava embarcando para um mês de caminhada na Espanha! Seu nome era Calixto e estava indo fazer o Caminho sozinho, exatamente como eu. Fiquei olhando para ele, calada, até que ele perguntou de novo:
- “Então, você também vai para o Caminho de Santiago?”
Respondi que sim e já fiquei grudada nele. Foi a maneira que encontrei de sentir-me um pouco menos insegura. Se é que isso é possível quando estamos prestes a pular num abismo desconhecido! Pior foi que aquele homem enorme também aparentava estar morrendo de medo. O jeito era ficar apoiado um no outro, como dois bêbados saindo de um bar, e seguir em frente. Um tempo depois, chegou outro peregrino. Esse eu já conhecia! Era Chico, um doce de pessoa. Já o havia encontrado na Associação dos amigos do Caminho de Santiago, no dia em que peguei minha credencial de peregrino. Que alívio! Quanto mais peregrinos por perto, melhor!


Embarcamos. No voo, ao meu lado, sentou-se um senhor português. No início, foi muito simpático comigo, perguntava sobre o Caminho de Santiago, se eu estava indo sozinha, porque eu havia escolhido esse modo tão estranho de refletir na vida, contou-me histórias da família toda...
...enfim, era um tagarela! Mas, o pior ainda estava por vir! Ele comia de boca aberta, falava de boca cheia, abria os braços sem deixar espaço suficiente para eu comer e ainda ficou um pouco bêbado. Meu Deus! Como era inconveniente!
Após o jantar, escovei os dentes e voltei para a poltrona. Arrumei a melhor posição para descansar e cobri meu corpo, sempre rezando para que o velho não continuasse tagarelando no meu ouvido. Quando já estava quase dormindo, ainda naquele estado em que não sabemos direito o que é sonho e o que é realidade, senti um toque em minha perna. Não acreditei no que estava acontecendo!

"Será que ele seria tão abusado?" - pensei.

Simulei uma espreguiçada e recolhi-me um pouco, tirando minha perna do seu raio de ação. Não queria julgar o pobre. Ele devia estar dormindo e sua mão escorregou. Ledo engano. Senti de novo aquela mão peluda e gosmenta tirando proveito da minha coxa indefesa. Ah, em outra época, eu teria esbofeteado sua cara ou feito um escândalo! Mas, o Caminho já estava em mim e achei que devia ser compreensiva e relevar. Respirei fundo, contei até mil e levantei para um café. Passaria a noite toda em pé, enchendo o corpo de cafeína se fosse preciso! Tudo para não explodir de raiva e indignação!


Quando tudo parecia calmo, tentei voltar para a poltrona, mas ao chegar pertinho do meu santo lugar, o velho virou-se, quase caindo no corredor do avião, chamando-me com pinta de marido machão, fazendo caras e bocas como ninguém. Ah, não ia prestar! Eu já estava me preparando pra fazer um escândalo e, eis que surgiu uma mão segurando meu braço por trás. Já ia colocar na conta também! Ia virar e começar a gritar para esta  pessoa também! Alivio quando vi que era o Calixto, o  peregrino que eu conheci no aeroporto, antes de embarcar. Disse-me que havia percebido algo estranho, mas como eu não havia dado sinais de que estava em apuros, ficou só na moita esperando, um ato mais audacioso do velho para se manifestar. Enfim, teria uma noite de descanso! Se é que podemos descansar bem em aviões...


Já no aeroporto de Madrid, enquanto esperávamos o voo para Pamplona, paramos para um café e lá estava ele! O velho tarado português! Já tentando cercar sua próxima vítima. A vontade que me deu foi de ir até lá e falar poucas e boas para aquele velho! Encher a cara dele de tapas! Novamente respirei fundo e me segurei! Acho que foi uma das grandes lições que aprendi na vida! Respirar, recuar e ver outra maneira de resolver um problema. Mas, confesso, aqui só pra vocês, que me arrependi de não ter dado uns bons sopapos naquele velho sem vergonha!

segunda-feira, 21 de abril de 2008

O INÍCIO DE TUDO

Meu Caminho de Santiago começou há alguns anos, não lembro exatamente onde, nem o porquê, mas já tinha a idéia de fazê-lo, desde que assisti um documentário na televisão sobre o assunto. Durante o programa, muitos peregrinos foram entrevistados e todos afirmavam estar sentindo muitas dores, chorando e sofrendo muito, cheios de bolhas de sangue nos pés. Fiquei encantada! Não que eu fosse sádica, mas o fato é que eu percebi o que havia por trás de todos aqueles sofrimentos: uma fé inabalável. E fui deixando-me levar pela emoção que todos, sem exceção, deixavam transparecer. Meus olhos grudados na tela da tv, como se eu pudesse entrar em cada uma daquelas pessoas e sentir um pouco daquela loucura. Loucura essa, que eu estava disposta a experimentar! Tive a certeza de que valeria realmente a pena atravessar o oceano e ir ao encontro do mais profundo e verdadeiro ser que habitava em mim. Todos ao meu redor chamaram-me de louca, diziam que tudo aquilo era fanatismo religioso, mas já era tarde! O Caminho estava me chamando...


Foram cinco longos anos de espera, desde o dia em que tive a certeza de que iria ao Caminho. Nesse tempo, tive que me contentar em ler, assistir, pesquisar, ouvir tudo a respeito daquela história repleta de lendas e chuvas de estrelas, imaginando-me percorrendo aquele chão sagrado. Descobri que o Caminho fora trilhado pelos Druidas na idade média. Os Druidas eram os sacerdotes do povo Celta e viviam na região da Gália e na Irlanda. Eles faziam o Caminho para expulsar os maus espíritos e, ao chegar em Finisterre, onde julgavam ser o fim da Terra. Lá, queimavam suas vestes e jogavam-se ao mar, acreditando que, antes de morrer nas pedras, seus espíritos passavam para uma outra dimensão. Descobri também, que o Apóstolo Tiago, após a morte do Mestre Jesus, encarregou-se de levar a palavra de Deus àquela região. Ao voltar para Jerusalém, foi decapitado. Dois de seus seguidores, Teodoro e Atanásio, pegaram seu corpo e seguiram em um pequeno barco até a região hoje conhecida como Galícia. Seu corpo foi enterrado ali e seu túmulo ficou esquecido durante muitos séculos. No ano de 813, um pastor, de nome Pelayo, seguiu o que parecia uma “chuva de estrelas” e encontrou o túmulo do Apóstolo. A notícia espalhou-se rapidamente pelos quatro cantos do mundo e as pessoas saíam de suas casas peregrinando rumo ao Corpo Santo. Surgiram assim, as primeiras cidades, os primeiros hospitais (alguns deles, hoje, são grandes e luxuosos hotéis), as lendas e as primeiras igrejas. E a cada descoberta, aumentava a certeza de que eu iria ao Caminho.


No final de 2000 e início de 2001 minha vida deu uma maravilhosa guinada. Comecei a trabalhar como nunca. As coisas surgiam sem que eu fizesse esforço e as indicações de trabalho vinham de todos os lados. O telefone não parava. Enfim, depois de tanto tempo sonhando, eu teria dinheiro para ir à Espanha e aventurar-me por lugares até então desconhecidos para mim. É claro que a vida sempre nos põe diante de escolhas. E a minha foi bem cruel: o Caminho de Santiago ou a fama repentina e as conquistas materiais?


Fiquei indecisa durante muito tempo. Naquela época, meu objetivo maior na vida, indiscutivelmente, era conquistar fama, status e dinheiro. Trocar tudo o que eu tinha conquistado até ali por uma viagem, talvez fosse loucura, mas a vida não poderia ser só aquilo. Era muito pouco! Deveria haver um motivo maior para estarmos vivos. Minha família e meus amigos tinham a mesma opinião: eu deveria ficar e continuar o trabalho. Quando já estava quase convencida de que deveria ouvir os conselhos alheios, ouvi uma voz dentro de mim dizendo:
“As coisas materiais não duram para sempre! Elas se deterioram, podem ser roubadas. O Caminho não! Será eterno! Ninguém nunca poderá tirá-lo de você!”
Então, em um impulso, decidi trocar o material pelo espiritual e fui em busca do verdadeiro sentido de estar viva.


Pesquisando mais sobre o Caminho, descobri um grupo de e-mails na Internet, chamada Santiago. Entrei em contado com pessoas que já haviam feito o Caminho e com outras tantas, ainda sonhadoras como eu. Num daqueles dias, li uma mensagem de uma futura peregrina, que propunha uma caminhada-treino pelas ruas do Rio, saindo de Laranjeiras e subindo até o Corcovado. Por algum motivo, ela chamou minha atenção. Trocamos alguns e-mails e acabamos ficando amigas. Karina era uma peregrina super informada. Tinha lido vários livros e guias do Caminho de Santiago. Seu equipamento, como: mochila, botas, meias, saco de dormir, era o mais moderno e sofisticado. Ela já tinha coisas que eu nem pensava em comprar! Estava treinando há mais de um ano com o marido e com certeza estava preparada para enfrentar quaisquer obstáculos sem grandes dificuldades. Fiquei um pouco assustada com aquilo, porque minhas botas eram novas e há muito tempo eu não sabia o que era fazer exercícios. Não tinha condições físicas para agüentar um dia inteiro de caminhada e, por ser fumante, tampouco teria fôlego para enfrentar subidas fortes. E a cada dia eu tinha mais dúvidas sobre a hora certa de ir. Será que eu estava errada? Seria preciso esperar mais tempo para realizar a viagem?


Resolvi testar minha capacidade física. Coloquei algumas roupas pesadas na mochila e fiz a tal caminhada com a Karina e o pessoal da Associação dos Amigos do Caminho de Santiago. Neste dia mesmo, enfrentei meu primeiro grande obstáculo. Senti uma forte dor no dedão do pé esquerdo e era quase certo que o problema estava no tamanho das minhas botas. Descobri que geralmente os peregrinos as compravam em tamanhos maiores que o usual, porque usavam dois pares de meia para evitar as bolhas. As minhas, aparentemente, estavam no tamanho ideal, certinhas no pé. Mas, como sou cabeça dura, não admiti que podia estar errada e decidi que iria com minhas caríssimas botas. Além disso, ainda faltavam muitos acessórios para comprar (capa de chuva, saco de dormir, calça impermeável...) e não quis gastar mais dinheiro com o que julguei ser dispensável.
Apesar do cansaço e da dor, não me sentia mal e andaria tudo de novo no mesmo dia. Na volta, resolvemos passar em uma farmácia para pesar as mochilas. A minha estava com onze kg! Abusada a menina, não? Foi tranqüilo para um dia, mas era preciso lembrar que o Caminho duraria um mês ou mais e o indispensável precisaria ser deixado para trás. Talvez essa tenha sido a parte mais difícil da minha preparação. Passei dias e dias, arrumando e desarrumando a mochila e nunca chegava a uma conclusão do que realmente seria indispensável levar para o Caminho. Mais uma vez, estava diante de escolhas.


Tudo se passou em um piscar de olhos. Quando vi, faltavam apenas alguns dias para o embarque. Ainda teria que pegar minha credencial do peregrino[1], as roupas de tactel (que mandei fazer em outra cidade), comprar os remédios que os outros peregrinos recomendaram, deixar dinheiro para pagar as contas que chegariam, comprar dólares, esperar o cartão de crédito chegar, despedir-me de meus amigos e familiares... Ufa! Não havia tempo nem para respirar! Mesmo assim, esqueci de resolver muitas coisas, como programar o pagamento do cartão de crédito, para que não faltasse dinheiro, como realmente faltou, quando terminei o Caminho e cheguei em Madrid. Mas isso é outra história...


Ainda pensava em como poderia aliviar o peso da mochila. Já tinha tirado muitas coisas e tudo o que estava dentro dela pareceu-me indispensável. O que mais pesava eram os remédios e produtos de higiene pessoal. Esvaziei a embalagem de creme dental, deixando o suficiente para um mês, coloquei uma pequena quantidade de xampu em um pequeno recipiente e fui ao cabeleireiro cortar o cabelo. Só Comprei também uma dessas toalhas esportivas, que mais parecem um pano de pia. Enxuguei-me com ela dezenas de vezes, para ver se dava conta do recado e, por incrível que pareça, a danada não fez feio. Pronto! Faltava apenas esperar mais uns dias para o sonhado embarque.


Aos poucos, fui despedindo-me do mundo real e entrando em contato com aquela estranha energia do Caminho de Santiago, que dava aos seus peregrinos o tão desejado brilho nos olhos. Meu coração se apertava a cada dia. Minha vida estava mudando, eu estava mudando! Mesmo sem estar fisicamente no Caminho, já o sentia em mim. Era a minha vez de provar o elixir que vicia, a energia que renova, a fé inabalável, a perseverança...


Eu e o Caminho nos tornamos um só. Eu era o Caminho e o Caminho era eu.


[1] A Credencial do peregrino é nosso passaporte. É o documento que devemos apresentar nos albergues, onde recebemos um carimbo. Essa é a forma que temos de garantir o descanso, os descontos e comprovar que fizemos o Caminho.

Contos e Encantos no Caminho do Campo das Estrelas


Ouvi dizer muitas vezes que o Caminho de Santiago começa ao se chegar na Catedral de Compostela. Parece estranho, mas é a mais pura verdade! Só agora estou começando a entender tudo o que vivi. Quando voltei do Caminho, tentei inúmeras vezes revivê-lo em outras viagens, nos encontros com os demais peregrinos, mas nada era igual. Sofri bastante. Por meses fiquei contando as histórias que vivi, numa busca frenética de ainda estar lá. Ao perceber que ninguém me entendia, resolvi calar-me e guardá-lo dentro do meu coração. Comecei a viver na solidão, pois nada mais fazia sentido para mim. A saudade aumentava e o arrependimento por ter voltado para casa me angustiavam. Escrever era a única saída. As palavras tornaram-se minhas melhores amigas. Foram longas noites viradas, muitos dias sem ver a luz do sol. Nada me dava mais prazer do que ficar na frente da tela do computador, revivendo o Caminho, nas asas do pensamento. Algumas vezes, enquanto escrevia, as lágrimas caiam sobre o teclado, em outras, acordava a casa toda com minhas risadas.


Aos poucos fui voltando à vida normal. Já sentia-me preparada para enfrentar a “fogueira das vaidades” do mundo artístico. Continuava escrevendo, mas já voltava a fazer os testes de elenco para estrelar campanhas publicitárias. Claro que eu já não mais me encaixava naquele mundinho. Camarins, maquiagens, produtores estressados, modelos fúteis. Meus objetivos estavam muito além das pequenas participações em novelas, das fotos estampadas nas revistas ou dos comerciais de televisão. Eu tinha algo muito importante para dizer ao mundo e precisava encontrar uma maneira de fazê-lo! Não podia ficar esperando uma chance, teria que criá-la. As palavras escritas durante as noites mal dormidas seriam o primeiro passo. A partir dali, comecei a distribuir algumas páginas dos meus escritos e ficava observando a reação das pessoas. Era maravilhoso ver que eu estava conseguindo emocioná-las. Depois de lerem as poucas páginas, sempre me perguntavam como a história continuava, queriam saber das lendas, das pessoas, pediam que eu escrevesse mais e publicasse um livro. Fui ficando cada vez mais certa de que era esse o rumo que deveria seguir.


Hoje, nove anos depois, eis minha história. Convido você a embarcar comigo nessa aventura. Se em algum momento eu conseguir tocar seu coração, já fico satisfeita. Só não se esqueça de que cada um tem seu caminho e cada caminho tem sua hora. Está escrito no Campo das estrelas. Está escrito em Compostela.


Buen Camino amigos!