Meu Caminho de Santiago começou há alguns anos, não lembro exatamente onde, nem o porquê, mas já tinha a idéia de fazê-lo, desde que assisti um documentário na televisão sobre o assunto. Durante o programa, muitos peregrinos foram entrevistados e todos afirmavam estar sentindo muitas dores, chorando e sofrendo muito, cheios de bolhas de sangue nos pés. Fiquei encantada! Não que eu fosse sádica, mas o fato é que eu percebi o que havia por trás de todos aqueles sofrimentos: uma fé inabalável. E fui deixando-me levar pela emoção que todos, sem exceção, deixavam transparecer. Meus olhos grudados na tela da tv, como se eu pudesse entrar em cada uma daquelas pessoas e sentir um pouco daquela loucura. Loucura essa, que eu estava disposta a experimentar! Tive a certeza de que valeria realmente a pena atravessar o oceano e ir ao encontro do mais profundo e verdadeiro ser que habitava em mim. Todos ao meu redor chamaram-me de louca, diziam que tudo aquilo era fanatismo religioso, mas já era tarde! O Caminho estava me chamando...
Foram cinco longos anos de espera, desde o dia em que tive a certeza de que iria ao Caminho. Nesse tempo, tive que me contentar em ler, assistir, pesquisar, ouvir tudo a respeito daquela história repleta de lendas e chuvas de estrelas, imaginando-me percorrendo aquele chão sagrado. Descobri que o Caminho fora trilhado pelos Druidas na idade média. Os Druidas eram os sacerdotes do povo Celta e viviam na região da Gália e na Irlanda. Eles faziam o Caminho para expulsar os maus espíritos e, ao chegar em Finisterre, onde julgavam ser o fim da Terra. Lá, queimavam suas vestes e jogavam-se ao mar, acreditando que, antes de morrer nas pedras, seus espíritos passavam para uma outra dimensão. Descobri também, que o Apóstolo Tiago, após a morte do Mestre Jesus, encarregou-se de levar a palavra de Deus àquela região. Ao voltar para Jerusalém, foi decapitado. Dois de seus seguidores, Teodoro e Atanásio, pegaram seu corpo e seguiram em um pequeno barco até a região hoje conhecida como Galícia. Seu corpo foi enterrado ali e seu túmulo ficou esquecido durante muitos séculos. No ano de 813, um pastor, de nome Pelayo, seguiu o que parecia uma “chuva de estrelas” e encontrou o túmulo do Apóstolo. A notícia espalhou-se rapidamente pelos quatro cantos do mundo e as pessoas saíam de suas casas peregrinando rumo ao Corpo Santo. Surgiram assim, as primeiras cidades, os primeiros hospitais (alguns deles, hoje, são grandes e luxuosos hotéis), as lendas e as primeiras igrejas. E a cada descoberta, aumentava a certeza de que eu iria ao Caminho.
No final de 2000 e início de 2001 minha vida deu uma maravilhosa guinada. Comecei a trabalhar como nunca. As coisas surgiam sem que eu fizesse esforço e as indicações de trabalho vinham de todos os lados. O telefone não parava. Enfim, depois de tanto tempo sonhando, eu teria dinheiro para ir à Espanha e aventurar-me por lugares até então desconhecidos para mim. É claro que a vida sempre nos põe diante de escolhas. E a minha foi bem cruel: o Caminho de Santiago ou a fama repentina e as conquistas materiais?
Fiquei indecisa durante muito tempo. Naquela época, meu objetivo maior na vida, indiscutivelmente, era conquistar fama, status e dinheiro. Trocar tudo o que eu tinha conquistado até ali por uma viagem, talvez fosse loucura, mas a vida não poderia ser só aquilo. Era muito pouco! Deveria haver um motivo maior para estarmos vivos. Minha família e meus amigos tinham a mesma opinião: eu deveria ficar e continuar o trabalho. Quando já estava quase convencida de que deveria ouvir os conselhos alheios, ouvi uma voz dentro de mim dizendo:
“As coisas materiais não duram para sempre! Elas se deterioram, podem ser roubadas. O Caminho não! Será eterno! Ninguém nunca poderá tirá-lo de você!”
Então, em um impulso, decidi trocar o material pelo espiritual e fui em busca do verdadeiro sentido de estar viva.
Pesquisando mais sobre o Caminho, descobri um grupo de e-mails na Internet, chamada Santiago. Entrei em contado com pessoas que já haviam feito o Caminho e com outras tantas, ainda sonhadoras como eu. Num daqueles dias, li uma mensagem de uma futura peregrina, que propunha uma caminhada-treino pelas ruas do Rio, saindo de Laranjeiras e subindo até o Corcovado. Por algum motivo, ela chamou minha atenção. Trocamos alguns e-mails e acabamos ficando amigas. Karina era uma peregrina super informada. Tinha lido vários livros e guias do Caminho de Santiago. Seu equipamento, como: mochila, botas, meias, saco de dormir, era o mais moderno e sofisticado. Ela já tinha coisas que eu nem pensava em comprar! Estava treinando há mais de um ano com o marido e com certeza estava preparada para enfrentar quaisquer obstáculos sem grandes dificuldades. Fiquei um pouco assustada com aquilo, porque minhas botas eram novas e há muito tempo eu não sabia o que era fazer exercícios. Não tinha condições físicas para agüentar um dia inteiro de caminhada e, por ser fumante, tampouco teria fôlego para enfrentar subidas fortes. E a cada dia eu tinha mais dúvidas sobre a hora certa de ir. Será que eu estava errada? Seria preciso esperar mais tempo para realizar a viagem?
Foram cinco longos anos de espera, desde o dia em que tive a certeza de que iria ao Caminho. Nesse tempo, tive que me contentar em ler, assistir, pesquisar, ouvir tudo a respeito daquela história repleta de lendas e chuvas de estrelas, imaginando-me percorrendo aquele chão sagrado. Descobri que o Caminho fora trilhado pelos Druidas na idade média. Os Druidas eram os sacerdotes do povo Celta e viviam na região da Gália e na Irlanda. Eles faziam o Caminho para expulsar os maus espíritos e, ao chegar em Finisterre, onde julgavam ser o fim da Terra. Lá, queimavam suas vestes e jogavam-se ao mar, acreditando que, antes de morrer nas pedras, seus espíritos passavam para uma outra dimensão. Descobri também, que o Apóstolo Tiago, após a morte do Mestre Jesus, encarregou-se de levar a palavra de Deus àquela região. Ao voltar para Jerusalém, foi decapitado. Dois de seus seguidores, Teodoro e Atanásio, pegaram seu corpo e seguiram em um pequeno barco até a região hoje conhecida como Galícia. Seu corpo foi enterrado ali e seu túmulo ficou esquecido durante muitos séculos. No ano de 813, um pastor, de nome Pelayo, seguiu o que parecia uma “chuva de estrelas” e encontrou o túmulo do Apóstolo. A notícia espalhou-se rapidamente pelos quatro cantos do mundo e as pessoas saíam de suas casas peregrinando rumo ao Corpo Santo. Surgiram assim, as primeiras cidades, os primeiros hospitais (alguns deles, hoje, são grandes e luxuosos hotéis), as lendas e as primeiras igrejas. E a cada descoberta, aumentava a certeza de que eu iria ao Caminho.
No final de 2000 e início de 2001 minha vida deu uma maravilhosa guinada. Comecei a trabalhar como nunca. As coisas surgiam sem que eu fizesse esforço e as indicações de trabalho vinham de todos os lados. O telefone não parava. Enfim, depois de tanto tempo sonhando, eu teria dinheiro para ir à Espanha e aventurar-me por lugares até então desconhecidos para mim. É claro que a vida sempre nos põe diante de escolhas. E a minha foi bem cruel: o Caminho de Santiago ou a fama repentina e as conquistas materiais?
Fiquei indecisa durante muito tempo. Naquela época, meu objetivo maior na vida, indiscutivelmente, era conquistar fama, status e dinheiro. Trocar tudo o que eu tinha conquistado até ali por uma viagem, talvez fosse loucura, mas a vida não poderia ser só aquilo. Era muito pouco! Deveria haver um motivo maior para estarmos vivos. Minha família e meus amigos tinham a mesma opinião: eu deveria ficar e continuar o trabalho. Quando já estava quase convencida de que deveria ouvir os conselhos alheios, ouvi uma voz dentro de mim dizendo:
“As coisas materiais não duram para sempre! Elas se deterioram, podem ser roubadas. O Caminho não! Será eterno! Ninguém nunca poderá tirá-lo de você!”
Então, em um impulso, decidi trocar o material pelo espiritual e fui em busca do verdadeiro sentido de estar viva.
Pesquisando mais sobre o Caminho, descobri um grupo de e-mails na Internet, chamada Santiago. Entrei em contado com pessoas que já haviam feito o Caminho e com outras tantas, ainda sonhadoras como eu. Num daqueles dias, li uma mensagem de uma futura peregrina, que propunha uma caminhada-treino pelas ruas do Rio, saindo de Laranjeiras e subindo até o Corcovado. Por algum motivo, ela chamou minha atenção. Trocamos alguns e-mails e acabamos ficando amigas. Karina era uma peregrina super informada. Tinha lido vários livros e guias do Caminho de Santiago. Seu equipamento, como: mochila, botas, meias, saco de dormir, era o mais moderno e sofisticado. Ela já tinha coisas que eu nem pensava em comprar! Estava treinando há mais de um ano com o marido e com certeza estava preparada para enfrentar quaisquer obstáculos sem grandes dificuldades. Fiquei um pouco assustada com aquilo, porque minhas botas eram novas e há muito tempo eu não sabia o que era fazer exercícios. Não tinha condições físicas para agüentar um dia inteiro de caminhada e, por ser fumante, tampouco teria fôlego para enfrentar subidas fortes. E a cada dia eu tinha mais dúvidas sobre a hora certa de ir. Será que eu estava errada? Seria preciso esperar mais tempo para realizar a viagem?
Resolvi testar minha capacidade física. Coloquei algumas roupas pesadas na mochila e fiz a tal caminhada com a Karina e o pessoal da Associação dos Amigos do Caminho de Santiago. Neste dia mesmo, enfrentei meu primeiro grande obstáculo. Senti uma forte dor no dedão do pé esquerdo e era quase certo que o problema estava no tamanho das minhas botas. Descobri que geralmente os peregrinos as compravam em tamanhos maiores que o usual, porque usavam dois pares de meia para evitar as bolhas. As minhas, aparentemente, estavam no tamanho ideal, certinhas no pé. Mas, como sou cabeça dura, não admiti que podia estar errada e decidi que iria com minhas caríssimas botas. Além disso, ainda faltavam muitos acessórios para comprar (capa de chuva, saco de dormir, calça impermeável...) e não quis gastar mais dinheiro com o que julguei ser dispensável.
Apesar do cansaço e da dor, não me sentia mal e andaria tudo de novo no mesmo dia. Na volta, resolvemos passar em uma farmácia para pesar as mochilas. A minha estava com onze kg! Abusada a menina, não? Foi tranqüilo para um dia, mas era preciso lembrar que o Caminho duraria um mês ou mais e o indispensável precisaria ser deixado para trás. Talvez essa tenha sido a parte mais difícil da minha preparação. Passei dias e dias, arrumando e desarrumando a mochila e nunca chegava a uma conclusão do que realmente seria indispensável levar para o Caminho. Mais uma vez, estava diante de escolhas.
Tudo se passou em um piscar de olhos. Quando vi, faltavam apenas alguns dias para o embarque. Ainda teria que pegar minha credencial do peregrino[1], as roupas de tactel (que mandei fazer em outra cidade), comprar os remédios que os outros peregrinos recomendaram, deixar dinheiro para pagar as contas que chegariam, comprar dólares, esperar o cartão de crédito chegar, despedir-me de meus amigos e familiares... Ufa! Não havia tempo nem para respirar! Mesmo assim, esqueci de resolver muitas coisas, como programar o pagamento do cartão de crédito, para que não faltasse dinheiro, como realmente faltou, quando terminei o Caminho e cheguei em Madrid. Mas isso é outra história...
Ainda pensava em como poderia aliviar o peso da mochila. Já tinha tirado muitas coisas e tudo o que estava dentro dela pareceu-me indispensável. O que mais pesava eram os remédios e produtos de higiene pessoal. Esvaziei a embalagem de creme dental, deixando o suficiente para um mês, coloquei uma pequena quantidade de xampu em um pequeno recipiente e fui ao cabeleireiro cortar o cabelo. Só Comprei também uma dessas toalhas esportivas, que mais parecem um pano de pia. Enxuguei-me com ela dezenas de vezes, para ver se dava conta do recado e, por incrível que pareça, a danada não fez feio. Pronto! Faltava apenas esperar mais uns dias para o sonhado embarque.
Aos poucos, fui despedindo-me do mundo real e entrando em contato com aquela estranha energia do Caminho de Santiago, que dava aos seus peregrinos o tão desejado brilho nos olhos. Meu coração se apertava a cada dia. Minha vida estava mudando, eu estava mudando! Mesmo sem estar fisicamente no Caminho, já o sentia em mim. Era a minha vez de provar o elixir que vicia, a energia que renova, a fé inabalável, a perseverança...
Eu e o Caminho nos tornamos um só. Eu era o Caminho e o Caminho era eu.
[1] A Credencial do peregrino é nosso passaporte. É o documento que devemos apresentar nos albergues, onde recebemos um carimbo. Essa é a forma que temos de garantir o descanso, os descontos e comprovar que fizemos o Caminho.

Um comentário:
Tilara,
A sua chamada definitiva ao "Caminho", foi o "Globo repórter" em uma sexta, provavelmente em novembro de 1997. Foram 5 anos pensando no "Caminho".Vc é uma das mais autênticas peregrinas que conheci.
. . ."O Caminho será eterno, ninguém nunca poderá tirá-lo de você!
É a pura verdade, agora comprovada.
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