sábado, 4 de outubro de 2008

MOMBUCA – CLUBE ARAPONGAS – 8º DIA

Pela manhã, fomos acordados ao som de uma música suave e aroma de incenso. Tudo muito delicado, ao estilo da hospitaleira Kátia. Arrumei a mochila, preparei o agasalho, pois estava com cara de bastante frio na rua. Subi a rampa em direção à cozinha para saborear o café da manhã. Kátia havia preparado pequenos potes de iogurte com frutas e cereais, café e pão com manteiga e queijo. Tudo muito caprichado e separado em embalagens individuais. Alguns resolveram comer ali mesmo, outros, seguiram em frente e guardaram tudo para um lanche no meio do trajeto. Eu não agüentava sair sem tomar um bom café da manhã! Era capaz de suportar um dia inteiro sem comida, mas nunca sair de casa sem comer como uma rainha. Despedi-me de Kátia e segui caminho.

Havia uma neblina forte na saída de Mombuca, o que me fez lembrar da descida do Cebreiro. Segui sozinha por um bom tempo. Sempre com o pensamento em Santiago. Já estava um pouco mais conformada, até porque, ao conversar com a Kátia, vi que ainda não estava preparada para voltar a Compostela. Ela me pareceu mais apaixonada e disposta a largar sua vida no Brasil e viver em prol do Caminho. Eu ainda tinha vaidades a serem superadas e o Caminho do Sol estava me ajudando a percebê-las. Só iria consertá-las com o tempo e ao reviver o Caminho do Sol e conviver com seus peregrinos, iria descobrir muitos outros defeitos e aprender a lidar da melhor forma possível com eles. Aquele dia foi o mais cruel para mim. A neblina foi embora e a paisagem era dura, pois a cana estava alta e não via nada pela frente a não ser estrada de terra e poeira. Além disso, o dia estava extremamente quente e, eu percebia por vezes que o sol ora batia de frente, ora de lado e, às vezes nas minhas costas. Tentava de todo o jeito entender porque estava dando voltas pela cana e não simplesmente seguindo para a mesma direção. Aquilo foi me deixando num estado de raiva e indignação tamanha, que comecei a pensar que se seguisse uma reta, chegaria em Arapongas em cinco minutos. Para completar, minha água estava acabando e o pouco que restava mais parecia um chá quente. Ao longo do dia, minha raiva foi aumentando e quando, enfim encontrei os demais peregrinos do meu grupo, pude descarregar meus pensamentos. Acho que acabei contagiando todos com aqueles pensamentos e o clima ficou mais quente. Ao caminhar, quando sentíamos a mudança da direção do sol, ficávamos bem tensos.

Lá pela metade do dia, um carro aproximou-se de nós. Era um rapaz trazendo água e dizendo que ainda faltavam uns 10 quilômetros até Arapongas. Perguntou se alguém queria carona ou que levasse a mochila e, juro que pensei em pular na caçamba daquele carro! Tentei conter meus desejos, porque queria cumprir todas as etapas com a mochila nas costas e sem pegar caronas. Devia isso a mim mesma, devido à culpa que sentia por ter “burlado” a peregrinação em Santiago. O que me deixou mais p. da vida foi a resposta que o rapaz em deu ao perguntar por que estávamos andando em círculos:
— “Acho que para a etapa poder ter a quilometragem ideal para o caminho”.
Como assim?! — pensei. Quer dizer que realmente Arapongas era mais perto e estávamos andando em círculos só para que a etapa tivesse X quilômetros? Nossa! Como fiquei macha naquela hora! Comecei a gritar um monte de palavrões, achei tudo aquilo um absurdo, comecei a desferir ofensas para todo o lado. Eu estava morta de sede, cansaço e caminhando horas no meio do matagal (porque aquela cana para mim era um mato sem fim!) à toa? A única coisa boa daquele episódio todo foi que apertei o passo de um jeito, que cheguei no albergue super rápido. Para completar o dia, Arapongas era um clube de campo de bocha e a escola que ficava apegada à sede era o lugar onde dormiríamos. Estava tudo muito bagunçado! Um monte de colchões no chão, mesas e cadeiras espalhadas por toda a sala e para completar o chuveiro que funcionava estava no banheiro do lado de fora da escola. Tomei um banho super rápido, pois estava ficando frio e a água que caía não dava conta de esquentar o corpo.

As coisas só melhoraram para o meu lado quando sentei para jantar. O casal hospitaleiro foi muito simpático e nos recebeu com muita alegria. A comida estava maravilhosa e eu até tomei umas cervejinhas para relaxar. De resto, a noite que nos esperava era de muito frio e dormi muito mal.
1- Hoje em dia, Arapongas deixou de ser escola e graças a um grupo maravilhosos conhecido por Anjos do Caminho, tornou-se um lugar aconchegante de pouso no caminho do Sol.

segunda-feira, 25 de agosto de 2008

FAZENDA MILHÃ – MOMBUCA – 7º DIA

Depois de uma noite mal dormida e sentindo muito frio, acordei mal humorada. Sabe aqueles dias que você não deseja olhar para a cara de ninguém? Pois é, a Cristina, dona da Milhã, apareceu para se despedir de nós. Quando ela perguntou se havíamos passado a noite bem, todos, sem exceção, “soltaram as bruxas”. Pelo jeito, eu não era a única que havia acordado com o pé esquerdo. Depois, ao conhecer melhor a Cristina, me arrependi de ter participado do motim. Isso só aconteceu quando retornei ao caminho do Sol como voluntária.


Saindo da Milhã “a milhão”, não queria passar mais nem um segundo sequer ali, segui me perguntando o porquê de não ter desistido daquele Caminho lá em Cabreúva. Bom, já estava ali mesmo, o negócio era continuar. O pior foi constatar que a poucos quilômetros dali, tinha uma cidade. Aí sim, fiquei muito brava! Eu havia perguntado ao pessoal da Milhã se não havia um hotel ou pousada para dormir perto dali e todos me disseram que não. Cheguei à cidade em menos de uma hora caminhando, o que significava uns dez minutos de carro! Ali eu juro que quase desisti! Minha vontade era entrar em todas as lojas, fazer compras, gastar o meu cartão de crédito e voltar para o Rio carregada de lembrancinhas da minha viagem turística pelo interior de São Paulo. Porém, mesmo contrariando meus instintos consumistas e supérfluos, refleti que faltava muito pouco para chegar ao final do Caminho e resolvi mais uma vez que não iria “amarelar”.


O Caminho resolveu dar uma forcinha e a saída de Capivari era bem bonitinha. Muito calor, sol forte, mas eu estava recuperando meu humor. Segui calada até a casa da família Bianchini, que conforme relatos, recebia os peregrinos com muito carinho. Naquele dia nada poderia dar muito certo. A família não se encontrava em casa, pois um parente havia falecido. Um rapaz nos recebeu e fez questão de nos mostrar o enorme alambique, as pingas produzidas por eles. Restou-me provar várias delas, até ficar meio tonta e seguir caminho “alegre”. Dali pra frente, nada mais me fez pensar em coisas ruins. Caminhei sozinha, calada e tentando descobrir por que aquele caminho me levava a enfrentar meus maiores defeitos. Ali estava eu: sem máscaras, totalmente nua, enxergando minha face mais horrenda. Logo eu, a simpática, a falante, a mais bem humorada da turma, a mais querida. Como as pessoas conseguiam gostar de mim e me achar legal? Nem eu estava me agüentando!


Mergulhada em meus defeitos, cheguei em Mombuca e fui recebida por Kátia, a hospitaleira. Logo vi as fotos na parede do albergue. Eram todas do caminho de Santiago. Era tudo que eu queria! Alguém para dividir minhas experiências do caminho espanhol! O albergue era super aconchegante, todo místico, colorido e arrumado. Não queria mais sair dali! Tomei um bom banho e subi para fazer um lanche. Kátia havia preparado bolo e outras guloseimas para acompanhar o cafezinho. Tudo delicioso! Saí para dar uma volta pela cidadezinha. É muito gostosa, daquelas que a gente tem vontade de passar os últimos anos de vida, acompanhada do companheiro, cheia de netinhos em volta.

Voltei para o albergue e fiquei conversando com a Kátia sobre o Caminho de Santiago. Ela me mostrou os álbuns das peregrinações pela Espanha. Senti-me em casa. Zico aproximou-se e participou animado da conversa. Acho que ambos estávamos buscando esse elo. O grupo estava dividido e eu me sentia excluída. Logo eu, a simpática e querida por todos. Isso foi um duro golpe na minha vaidade. E eu nunca havia percebido que precisava desse tipo exclusivo de atenção. O Caminho do Sol começava a me ensinar as coisas da vida real. Por isso era tão duro! Mas, como dizem por aí: “Não há crescimento sem sofrimento”.

sexta-feira, 8 de agosto de 2008

ELIAS FAUSTO – FAZENDA MILHÃ – 6º DIA

Ainda sobre a noite em Elias Fausto, na casa do Serra, uma coisa me chamou a atenção. Os vasos não tinham assento. O que para nós representava falta de higiene, para algumas pessoas do interior era justamente o contrário. Certa vez, visitei com o “Chefanjo” (um voluntário do Caminho do Sol) uma fazenda que poderia servir de albergue para o enorme número de peregrinos que fariam a caminhada de aniversário do Caminho do Sol e o dono do lugar nos contou que era anti-higiênico sentar-se num assento. Coisas do Caminho...


Voltando ao café da manhã, que por sinal estava demasiadamente gostoso, estávamos todos à mesa. O grupo começava a se unir um pouco mais. Ainda não era o companheirismo de Santiago. E eu sabia que era passada a hora de fazer comparações entre um caminho e outro, mas era inevitável. Naquele dia passaríamos pela casa que pertenceu a Assis Chateaubriant. Eu estava empolgada! Era um marco histórico no caminho.


Saindo do Serra, passamos por um pequeno comércio, um lago e lá estava ela: a famosa casa de Chateaubriant. Foi uma grande decepção! Eu havia criado uma grande expectativa, achando que encontraria uma espécie de museu ou, ao menos, uma casa com os móveis e um pedaço da vida do cara que pudesse ser visitada. Nada! Era apenas um lugar que pertenceu a ele, e só. Dali pra frente, a empolgação diminuiu. Para completar, adentramos o canavial, que estava bastante alto e não víamos nada além do caminho a seguir. Sem paisagens, sem história. Mas ainda seria pior. O sol começou a “rachar coco”, não agüentava mais de tanto calor! Tinha somente uma garrafinha de água e tive que fazer racionamento.


De repente, surgiu uma clareira na paisagem e o que vi me remeteu à música de Zé Ramalho que fala assim:
— “Ê, ô, ô, vida de gado, povo marcado, ê, povo feliz”.
Eram vários bóias-frias sentados na beira da estrada de terra, descansando da primeira jornada de trabalho. Havia todo o tipo de gente: mulher, homem, senhor, senhora, menos crianças. Ainda bem! Era menos de onze da manhã e eles já tinham trabalhado, almoçado e se preparavam para o segundo tempo de “ralação”. Ali eu vi que estava de mau humor à toa. Eu estava caminhando por entre os pés de cana, por vontade própria, preocupada apenas em chegar no próximo albergue. Eu fazia turismo, meditação, peregrinação, seja lá que nome daria a isso, mas eu não tinha a mínima razão em reclamar. Sei que dali em diante, mesmo sob sol forte, morrendo de sede e fome, continuei pelo canavial até a fazenda Milhã pensando na dureza de vida que o nosso povo leva. Nós da cidade grande não nos damos conta que, para termos aquele açúcar refinado, branquinho e docinho em casa, aquela gente trabalha duro!


Ainda dei mil voltas pela estrada de terra cortando o canavial e logo após contornar um lindo lago cheguei à fazenda Milhã. Estava exausta! Zico estava sentado na varanda, descansando os pés. Tirei a mochila e fui direto até a geladeira e peguei uma cerveja! Afinal de contas, eu merecia! Em seguida, um refrigerante bem gelado e dois copos de água! Antes de relaxar o corpo, ainda tomei um belo banho frio! Estava pronta para provar a comida típica da fazenda e curtir o fim do dia.


Devidamente alimentada, segui com D. Ondina (uma simpática senhora, mãe da Cristina, dona da Milhã) até o jardim japonês. Nunca tinha visto nada tão fascinante. Muito menos imaginar que tal lugar fosse ao redor de uma casa. Era enorme e lindo! Tinha de tudo, bonsais, ponte, riozinho...
Ainda visitando a fazenda, fomos até uma casa do século XVIII. Pé direito alto, aquelas janelas de madeira maciça e paredes grossas, tudo muito rústico e também um pouco abandonado. D. Ondina nos explicou que a casa seria reformada para breves “instalações peregrinas”. Era um lugar que eu gostaria de voltar. Ainda não sabia se caminhando ou de carro (risos).


Já era noite e nos arrumamos para dormir. Diferentemente do que aconteceu de dia, passamos muito frio. Quase todos estavam sem dormir, irritados, reclamando que a casa não tinha forro. Os sacos de dormir não serviram de nada e os cobertores alugados pelas senhoras de Holambra tampouco. A noite foi longa e gelada!

terça-feira, 22 de julho de 2008

VESÚVIO – ELIAS FAUSTO – 5º DIA

O DIA DA CACHORRADA
Acordei super bem disposta. A noite anterior tinha sido inspiradora e o visual da Fazenda Vesúvio no fim da tarde e ao amanhecer era incrível! Para completar (e variar um pouquinho – rsrsrs) o café da manhã estava delicioso. Muitas frutas, bolo e pães quentinhos, leite, queijo branco, manteiga, tudo muito fresco. Como é bom não ter comida industrializada na mesa, Tudo era muito mais saboroso! Nem preciso dizer que saí dali quase rolando, não é mesmo? Além disso, fui a última a deixar a casa.


Aquele dia reservava muitas surpresas para mim. Os primeiros momentos da caminhada, ainda na Vesúvio, tinham como cenário, um lago, um bosque e, ao final, uma casinha e um cachorro lindo. E muito bravo! A casa não era murada e o cachorro pôs-se a correr e latir na minha direção quando, de repente, ficou preso pela enorme coleira. Quase morri de susto! Mais adiante, perdi o rumo do Caminho, peguei a direção errada e após minutos caminhando, um senhor me avisou que eu estava na direção contrária. Lá ia eu, caminhando tudo outra vez. De resto, tudo bem, andava por entre estradinhas de terra, passando por casas e sítios. Muitas vezes, os cachorros vinham me receber “amigavelmente” no portal de suas casas. Eu fingia que nem era comigo, mas no fundo, rezava para que nenhum deles conseguisse pular o muro.

Mais a frente, encontrei o grupo fazendo um lanchinho. Juntei a eles. Todo mundo estava assustado com os cachorros. Todas as casas daquela região tinha um cachorro amigo no quintal. Dali, caminhamos juntos durante um longo tempo. Algumas vezes uns iam a frente, outras, todos conversando e curtindo o lindo dia de sol. Eu já estava mais solta, mas ainda existia um certo distanciamento da minha parte, porque, exceto Zico, todos viam o caminho de um jeito diferente. Eu tinha aquele “ideal peregrino compostelano”, que nos diz para não pegar carona, ter que carregar o peso da mochila, viver somente com o indispensável. Os outros levam o caminho mais “na flauta” curtindo a paisagem, os lanches, as conversas, mandando suas mochilas de táxi, alugando roupas de cama e banho. Para mim, era difícil engolir tudo aquilo.

O dia foi ficando cada vez mais quente e nem sinal da cidade de Elias Fausto. Era a hora da pergunta fatídica: “O que eu estou fazendo aqui?” Aquele grupo que nada tinha a ver comigo, o caminho duro, real e ainda por cima um sol de 40 graus! Nem sabia mais o que eu queria: voltar no tempo e decidir por outro caminho, ter viajado para alguma praia paradisíaca, ter comprado um bilhete só de ida para a Espanha...
Estava totalmente confusa. Enquanto eu fazia de tudo para reviver o Caminho de Santiago, mais o Caminho do Sol me colocava no rumo da vida real.

Por fim, depois do longo e cansativo dia, cheguei à cidade. É claro que ainda nada era tão fácil como parecia. O albergue do Serra ainda estava bem distante. Fui distraindo a minha cabeça, admirando as casinhas, a rua quase deserta, o comércio fechado, tentando imaginar como é viver em Elias Fausto. Quais seriam as opções de lazer? Teria uma boate com aquelas músicas tipo bate-estaca? Como era a juventude local? Os “playboyzinhos” eram aqueles caras vestidos de caubóis e montados em suas picapes? Será que eu conseguiria viver num lugar sem shoppings, cinemas e boates?

Mergulhada naqueles loucos pensamentos, cheguei ao albergue do Serra. Fui recebida por ele e a esposa com a maior simpatia. Eles me avisaram que o Zico já havia chegado e comentado que era aniversário dele. Pediram que eu guardasse segredo, pois estavam fazendo um bolinho para cantar parabéns após o jantar. Prometi ficar de “bico calado” e segui para o quarto. Aproveitei o dia quente e tomei um banho gelado. Lavei minhas roupas e fui para a casa do Serra bater papo. Conversamos bastante sobre o caminho de Santiago, misticismo, religião e quando me dei conta já era noite. Jantamos e terminamos o dia com a comemoração do aniversário do Zico, que ficou emocionadíssimo.

segunda-feira, 23 de junho de 2008

CANA VERDE À VESÚVIO - 4º DIA

Bosque de eucaliptos

O dia amanheceu e após o belo café (como sempre!), partimos. A estrada de terra, as fazendas e o lindo bosque de eucaliptos me inspiravam. Estava começando a gostar do caminho do Sol. O dia estava bem úmido, parecia ter chovido durante a madrugada e o cheirinho de terra molhada me delicioso. Depois de algumas horas caminhando, cheguei a uma cidadezinha. Resolvi que daria uma volta, comeria alguma coisa e veria o movimento. Rosana decidiu ir comigo. Fizemos mil comprinhas e caminhamos até o final da avenida. Quase nos arriscamos a entrar num salão de beleza, mas aí seria exagerado. Perderia o sentido nossa peregrinação. As pessoas nos olhavam espantadas. Quem seriam as loucas de mochila nas costas andando em nossa terra? Algumas nos pararam para matar a curiosidade e não entenderam muito bem o motivo de estarmos andando desde Santana de Parnaíba. Mesmo com a explicação de que o Caminho do Sol era similar ao Caminho de Santiago de Compostela, alguns diziam que conheciam ou que tinham ouvido falar, mas sempre com aquela cara de interrogação.

Na saída da cidade, nos perdemos e passamos a caminhar no acostamento da rodovia, seguindo as placas para Salto, onde ficava a Fazenda Vesúvio. Andamos em círculos. Chegamos ao mesmo ponto de onde havíamos partido. Resolvemos voltar à cidade, até o local aonde a estrada de terra chegava à asfaltada e nada de sinalização. Resolvemos perguntar sobre a Fazenda Vesúvio e ninguém sabia nos informar. Ficamos um pouco preocupadas, mas não desistimos de perguntar até que um senhor nos ensinou o caminho seguindo pela rodovia. Lá fomos nós novamente! O barulho dos carros passando não nos deixava conversar direito. Eu contava à Rosana meus momentos perdida no Caminho de Santiago e a frustração de não ter passado em alguns lugares devido a minha ansiedade. Por isso eu tinha resolvido dar uma volta pela cidadezinha.

Distraídas em nossos pensamentos em meio ao caos da estrada abarrotada de carros e caminhões, quase íamos passando pela entrada da Vesúvio. Já não agüentava mais caminhar e estava quase me arrependendo de ter desviado do caminho. Foi um alívio chegar ali. Porém, da entrada da fazenda até a casa onde ficaríamos, era uma bela distância. Me pareceu o “eterno bosque” antes de alcançar o pueblo de San Juan de Ortega no Caminho de Santiago. No fim, a recompensa: uma mesa farta, com bolo, suco, café e pães. Tudo fresquinho! Depois disso, era a hora do banho. Esse foi de matar! Já estava esfriando e a água do chuveiro mais parecia um conta-gotas! Quase apelei para os famosos lencinhos umedecidos!!!

Fazenda Vesúvio

O clima na casa era aconchegante. O pessoal da Vesúvio nos fez companhia e nos sentíamos em casa. Era uma família simpática. A sala também ajudou para que saísse a primeira conversa em grupo, pois as três amigas eram bem fechadas, Zico vivia um momento ermitão, Ney era quase mudo, eu estava concentrada em reviver o Caminho de Santiago e a coitada da Rosana, que falava pra chuchu, não tinha quem a ouvisse. Aquele momento ao redor da mesa nos fez deixar as armaduras e abrir o coração, afinal, estávamos no mesmo barco (leia-se: caminho).

terça-feira, 10 de junho de 2008

CAMINHO DO SOL - CABREÚVA - CANA VERDE - 3º DIA


Nem preciso repetir que o café da manhã daquelas bandas era maravilhoso, né? A comidinha do interior tem mais sabor. Era o que me fazia ficar de bom humor. Naquela manhã, eu caminharia até a estrada e, de lá, seguiria com a Márcia até a rodoviária. Havia desistido do Caminho do Sol, mas queria fazer companhia ao resto do grupo. Por via das dúvidas, levei minha mochila comigo.

A saída do camping é bem dura. Não é qualquer pessoa que pode percorrê-la. Uma subida muito íngreme, com algumas pequenas escaladas segurando as raízes das árvores. Para piorar a situação, comecei a sentir cólicas insuportáveis. Coisas de mulher! E se tinha alguma coisa para enterrar de vez meu humor e minha vontade de continuar no Caminho, apareceu uma dor de barriga daquelas. Mais uma vez eu iria usar o pior dos banheiros! Por sorte, Márcia, a dona do camping, havia levado papel higiênico.

Consegui segurar todas as dores até a estrada. Me despedi do grupo e fui ao “toillete”. Voltando ao camping com a Márcia, me ocorreu que eu estava me entregando muito facilmente às dificuldades do Caminho do Sol. Resolvi que ia continuar. Tentei achar uma solução para chegar à Fazenda Cana Verde, porque aquele dia realmente eu não tinha a mínima condição de andar. Contei à Márcia minha decisão e, de repente, ela viu um carro com um casal passar passando por nós e acenou pedindo para que parassem. Era a mensagem que eu esperava do Universo para ter certeza de que deveria percorrer o caminho do Sol até o fim. O casal me deu uma carona até a Cana Verde.


Não passamos pelo mesmo trajeto dos peregrinos, portanto, ninguém do grupo sabia que eu estaria na Cana Verde. Chegando à fazenda, tive uma sensação enorme de paz. É um lugar maravilhoso. E para completar, um cheirinho delicioso vinha do fogão à lenha. Esse pessoal queria me matar! Em qual Caminho eu iria perder peso. Impossível! Tomei um belo banho, deitei-me numa rede, bebi um chá para a cólica e dormi. Acordei com a voz dos peregrinos chegando. Havia chovido muito e todos pareciam pintos molhados. Quando me viram, não entenderam nada, mas Zico me pareceu feliz.


Jantamos todos juntos, conversamos bastante e fomos dormir. A noite foi de muito frio. As senhoras de Holambra alugaram cobertores e roupas de cama. Aliás, elas estavam fazendo isso em todos os albergues e, consequentemente, levavam pouco peso nas mochilas. Eu ficava incomodada com isso, elas não tinham o espírito peregrino, mas eu não podia julgar ninguém, até mesmo porque eu tinha acabado de pular uma etapa de carona. Bem aquecida, tive uma noite maravilhosa.

segunda-feira, 9 de junho de 2008

CAMINHO DO SOL - PIRAPORA À CABREÚVA - 2º DIA


Café da manhã delicioso, como era de se esperar! Devidamente alimentados e descansados, na neblina que cobria a cidade, partimos. Zico, é claro, já tinha ido muito antes de nós. A saída era pela ponte que passava por sobre o rio Tietê. A espuma era tanta, que cobria a pequena ponte. Numa tinha visto coisa igual! Diante de nossa indignação, um morador que passava na hora nos contou que, certa vez, a poluição havia invadido Pirapora. Pensei novamente até quando estragaríamos o planeta em que vivemos?


Atravessando a ponte, ganhamos novamente o asfalto, mas logo a estrada foi ganhando vida e chegamos em um ponto onde o rio Tietê ficava do lado esquerdo, as árvores eram frondosas e do lado direito tinham algumas propriedades. Parei para tirar algumas fotos da poluição do rio, porque apesar de triste, a cena era impressionante demais para passar sem registro. À frente, encontrei uma mesinha de pedra e parei para descansar. Do outro lado da estrada havia uma bica. Molhei a cabeça e o boné. Quando mergulhei em meus pensamentos, aproveitando o silêncio do lugar, apareceram os outros caminhantes. Aquilo me aborreceu um pouco, mas detive minha impaciência e deixei a conversa fluir.

Rosana era uma moça bem falante e engraçada. Dei boas risadas com ela. Em alguns aspectos ela me lembrava a Mônica, pois era meio “patricinha”. Achei que dali sairia uma grande amizade. O resto do grupo ainda estava bem fechado e não se entregavam totalmente. Não podia fazer um pré-julgamento, pois eu também não estava à vontade com eles. Ficamos ali conversando durante uma meia hora, em seguida colocamos nossas mochilas nas costas e partimos. Após alguns metros, encontramos Zico descansando. Tentei puxar conversa, mas ele parecia querer ficar sozinho. Aquilo me incomodava, porque ele era o único do grupo que havia feito Santiago e eu julgava que tínhamos um laço que nos unia. Mas eu não desistiria! Iria conquistar a amizade dele a qualquer custo! Sabia que aquele não era o momento apropriado e segui viagem.

Finalmente entrei em um chão de terra batida. Adiante, encontrei uma mercearia e lá estava um bar! Na mesma hora me lembrei do meu amigo Chico! Ele certamente tiraria calmamente a mochila e as botas, se sentaria em uma cadeira, colocaria os pés apoiados em outra para esticar as pernas e pediria um café com leite. Que falta ele me fazia! Sentei-me no chão, pedi um refrigerante e comi uma banana. De repente, achei que merecia uma “gelada”. E porque não? Eu mesma me espantei coma idéia, pois não sou de beber (tirando os ótimos vinhos da Espanha). Resolvi dar-me esse prazer. Como sou fraquinha para bebida, fiquei um pouco alegre e tudo ficou mais bonito.

O dia ainda reservava muita dificuldade. Eu estava desacostumada a caminhar e com o passar das horas, o corpo começou a reclamar. Fui diminuindo o passo e parei inúmeras vezes para descansar. O sol não dava tréguas e a cidade de Cabreúva não chegava nunca! Quando vi a primeira placa sinalizando a entrada da cidade, entrei em êxtase! Mal sabia eu que teria mais de uma hora de caminhada até alcançar o camping.

Com o tempo, percebi que tudo era bom demais para ser verdade e comecei a cansar novamente. Dessa vez, o emocional também pesou bastante e a famosa pergunta “O que estou fazendo aqui” insistia em latejar na minha cabeça. Para piorar a situação, quando senti uma fisgadinha no meu pé, descobri uma bolha. No segundo dia?! Em Santiago tive uma bolhinha insignificante no penúltimo dia de Caminho! Que diachos!!! Bom, o jeito era sentar e tentar contornar a situação, mas à minha volta estava um grupo de mendigos mal-encarados que impediu-me de parar. Se é que ainda tinha como piorar, a estrada que dava acesso ao camping era uma enorme ladeira e, chegando ao camping, tinha outra subida ainda mais íngreme. Resultado: cheguei em frangalhos!

Depois do banho, do jantar e do descanso à beira da piscina, pensei seriamente em desistir. Eu não conseguia reviver Santiago e não achava nada agradável a idéia de gastar meu dinheiro para caminhar por entre canaviais! Nessa hora, conversei com Zico, que não quis me aconselhar. Apenas me disse que nada seria como Santiago. E ele tinha toda razão. O Caminho do Sol ainda me surpreenderia.

quarta-feira, 4 de junho de 2008

CAMINHO DO SOL - PÉ NA ESTRADA (LITERALMENTE) - 1º DIA

Nos despedimos de Palma e descemos a ruazinha da Pousada 1896 em direção à saída da cidade. Os novos peregrinos queriam que, Zico e eu, fôssemos à frente por sermos os mais experientes a seguir setas amarelas. Zico deve ter percebido a cilada que seria guiar as pessoas e saiu um pouco mais cedo que nós. Confesso que não gostei muito da idéia, mas diante do “sumiço” de Zico, não tive escolha. Logo na primeira curva, me perdi. Não vi seta nenhuma. Escolhi ir reto, mas grupo me chamou a atenção. Meu deslize não foi proposital, mas foi muito bem-vindo! Assim eu teria uma desculpa para soltar as amarras que me arranjaram e fazer meu Caminho em paz. Foi a primeira lição que aprendi no Caminho de Santiago e eu não queria que se repetisse no Sol.

Apertei o passo e fui embora, sempre acompanhada das minhas músicas! Pegamos uma pequena rodovia de mão dupla e sem acostamento. Isso me deixou um pouco frustrada. O que salvou aquele trecho foi o lindo bosque que ladeava a estrada. As sucessivas subidas e descidas, sempre pelo asfalto e o sol forte batendo na “caixola” me fizeram ficar mal-humorada. Já sabendo que um Caminho pode nos reservar momentos como esse, fiquei pensando o que poderia tirar de positivo da dureza daquele caminhar. Claro que não consegui. A experiência de Santiago também me ensinou que, às vezes, não aprendemos na mesma hora em que caminhamos. Com o passar do tempo é que vamos assimilando e reconhecendo erros e acertos. Isso aconteceu comigo durante todo o Caminho do Sol.

O dia nos reservava mais surpresas. Algumas agradáveis e outras não. A constante “companhia” do asfalto não me agradava e, numa subida muito íngreme, veio à mente a famosa pergunta:
— “O que eu vim fazer aqui?”
Sentei no acostamento e, desolada, permaneci por mais de meia hora. Logo apareceram os outros peregrinos do grupo. Para eles, tudo era novidade, tudo era lindo! Lanchamos juntos, dei mais umas boas risadas com a Rosana e então, partimos.

De repente, surgiu uma seta apontando para uma estrada de terra. Me enchi de esperança! Enfim, começaria a reviver o caminho de Santiago! Como rapadura é doce, mas não é mole, logo iniciou-se uma subida sem fim. Seria um Cebreiro? Quase isso, a vista que tive lá no topo valeu muito a pena! Era a primeira surpresa agradável: um platô de onde se via a cidade de Pirapora, que parecia de brinquedo! As casinhas coloridas e o rio Tietê ao fundo, cheio de espumas enormes de poluição. Não fosse a beleza daquela cidadezinha, ficaria desolada por ver o que estamos fazendo com nosso planeta. Até quando vamos ter esses pensamentos imediatos e resolver cuidar do futuro?


Seguindo viagem, passei por um corredor de árvores que me lembrou muito Santiago. Queria que aquela paisagem perdurasse pelos mais de 200 km que ainda tinha pela frente. Mas, cada caminho é único e eu ainda não tinha percebido isso de fato.

Chegando em Pirapora, me deu uma vontade danada de ir as compras. Queria comprar qualquer coisa! Foi quando lembrei que não estava ali só de férias. Carregava comigo uma mochila. Tive então que adaptar minha ânsia de consumo. Passei numa farmácia e comprei uma escovinha de dentes e um “micro desodorante”. Na papelaria, um “micro caderno”, na lojinha de roupas, um par de meias, na vendinha, umas barrinhas de cereal e por aí foi...

Satisfeita com minhas comprinhas, voltei à pousada. O pessoal já se preparava para o almoço. Ah, como é bom saborear uma comidinha caseira do interior! As mulheres têm mãos de fada! Tudo perfeito! Dali, segui para o quarto, tomei um bom banho e descansei. Como ainda tinha muito tempo pela frente, sentei-me na entrada da pousada para ver o movimento de Pirapora. Ao cair da tarde, dei mais uma volta pela cidade, contendo a vontade de comprar lembrancinhas, mas não resisti ao pastel e ao sorvete artesanais! Eu e meus caminhos gastronômicos!
Hora de descansar para enfrentar o primeiro grande dia de caminhada, pois de Santana à Pirapora, foram somente 13 km.

terça-feira, 3 de junho de 2008

CAMINHO DO SOL - PONTO DE PARTIDA


O tempo foi passando e dois anos após o Caminho de Santiago, surgiu a oportunidade de voltar a peregrinar. Eu até podia arriscar tudo e voltar para a Espanha, mas já estava novamente pensando "e se":
-E se eu fosse embora de vez, ser peregrina, depois hospitaleira, daria certo? E se eu não me adaptasse ao estilo de vida "viver de donativos"?


Resolvi ficar pelo Brasil, mas definitivamente faria outra peregrinação. Pesquisei várias opções e escolhi a mais acessível: Caminho do Sol. Era perto do Rio, daria para voltar rápido se surgisse algum trabalho. Não percebi que com esse tipo de pensamento, não estaria totalmente aberta à experiência do Caminho do Sol.


Numa ida a São Paulo para fazer um trabalho, aproveitei para assistir à palestra sobre o Caminho do Sol, com o seu idealizador: Palma. Eu já o conhecia pela internet e pelos encontros dos Amigos do Caminho. Confesso que não dei muita importância para o que ele falou naquele dia. Não registrei que o Caminho do Sol era duro, não havia a mesma beleza histórica de Santiago, tínhamos um roteiro pré-estabelecido para seguir, pois não havia opções de albergues entre uma parada e outra. Eu queria reviver Santiago e achava que qualquer Caminho poderia me oferecer a mesma satisfação. Criei essa expectativa na minha cabeça e mergulhei fundo!


Num domingo, refiz minha mochila com ansiedade. A mesma que vivi antes de ir a Santiago. Até aquele momento, tudo igual. As mesmas roupas, cajado, o tênis que comprei em Pamplona, as papetes, a mochila. Uma pequena diferença: o celular. Passei a noite em claro, imaginando todo o percurso. Será que os novos amigos matariam minha saudade do Chico, Calixto e Mônica? Encontraria alguém para me acompanhar nos cafézinhos, para me chamar de "véio do rio" ou me proteger de algum engraçadinho com as mãos bobas?


Segunda-feira cedinho, embarquei no ônibus que me levaria a São Paulo, onde encontraria Palma. Já no guichê, fiz amizade com Felipe, um peregrino de Santiago, que estava indo ao Consulado Espanhol pegar sua cidadania e embarcara para Barcelona. Não poderia ser mais inspirador! Nas seis horas seguintes, conversamos sobre Santiago. Tudo estava conspirando para que eu revivesse o Caminho! Estava muito feliz!


À noite, encontrei o Palma e seguimos para Santana de Parnaíba, onde começa o Caminho do Sol. Tentamos comer a pizza mais famosa da cidade, mas chegamos tarde e tudo estava fechado. Santana de Parnaíba é uma cidadezinha simpática. Aquelas com igreja, pracinha e casarões antigos. Fomos para a Pousada 1896, onde Emanoel nos recebeu. Um homem simpático, cheio de história para contar. Fui acomodada em um quarto com outras pessoas que pernoitavam na cidade. Não me importei em não ficar somente com peregrinos, mas deveria. A noite foi uma sinfonia de roncos! Tive que colocar meu Cd Player para trabalhar. Dormi ao som de Gil.


Pela manhã, como sempre fazia em Santiago, saboreei o café com leite e pão com manteiga. Enchi meu cantil e fiquei esperando pelo grupo de peregrinos: uma da capital, Rosana; um do interior, que já tinha feito Compostela, Zico; três mulheres do interior, da cidade de Holambra II, Petra, Cris e Shirley e Ney, também de São Paulo. Começava ali o meu Caminho do Sol.

sábado, 31 de maio de 2008

FALAR PARA QUEM? - A VOLTA

Logo que cheguei ao Rio, em todos os lugares que ia, me perguntavam sobre a viagem. Eu ficava toda boba, contava cada detalhe e demorei a perceber que as pessoas perguntavam por educação. Quase ninguém queria saber realmente como era estar no Caminho de Santiago. Restava-me encher o saco dos que me perguntavam ou voltar para a lista de discussão na internet. Lá era minha casa, meu ambiente. Eu podia das dicas, contar as histórias, trocar informações. E foi numa dessas conversas que fiz uma grande amiga, que seria minha companheira nas madrugadas: Ana.

Na semana seguinte da minha volta ao Rio, fui à reuniçao da AACS na Casa de Espanha. Eu era uma das convidadas especiais, porque estava "fresquinha" e podia contar tudo sobre Compostela. Fui uma emoção enorme poder reviver por alguns minutos o Caminho de novo. Cada episódio que eu contava, eu via nos olhos dos espectadores aquela vontade de viver a mesma experiência. Naquele dia, eu estava do outro lado. Era eu que inspirava as pessoas a fazer o Caminho. Mesmo encontrando os amigos sa AACS, enturmada com quem queria ouvir sobre a minha viagem, ainda não estava satisfeita. Eu queria voltar ao Caminho.

Eu não tinha dinheiro para voltar, tampouco um projeto mirabolante que alguém patrocinasse. Tive que me contentar com as noites na internet e com o relato que comecei a escrever. Fiquei pensando que nós deveríamos ser preparados para lidar com os sentimentos na volta. É a parte mais difícil da caminhada. Como viver o que foi aprendido no Caminho na vida atribulada e prática do dia a dia? Como lidar com a tristeza de estar longe da rotina de colocar a mochila nas costas e caminhar sem preocupações? De não ter setas, nem cajado para nos apoiarmos?

Quantas madrugadas perdi conectada à camêra na Fonte de Irache, vendo os peregrinos passarem. A Ana sempre comigo, através do messenger. Aquela que visse o peregrino primeiro, passava logo uma mensagem para avisar à outra. Foi muito divertido!

Dois anos se passaram e eu resolvi que era hora de voltar a caminhar. Escolhi um Caminho no Brasil, que era novo e considerado o caminho de Santiago Brasileiro - Caminho do Sol. Será que eu conseguiria reviver Santiago? Encontraria amigos como o Chico, Mônica, Fresia e Calixto? Veria tantas obras de arte e história?

quinta-feira, 29 de maio de 2008

AMIGOS, MAIS UMA VEZ, OBRIGADA POR ACOMPANHAR MINHA PEREGRINAÇÃO A COMPOSTELA.

O BUSCAAPÉ CONTINUA! CONTAREI COMO FOI MEU ANO APÓS O CAMINHO E, EM BREVE O CAMINHO DO SOL.

AOS QUE QUISEREM, AVISAREI ASSIM QUE POSTAR O PRIMEIRO CAPÍTULO DO RELATO AO CAMINHO DO SOL. É SÓ MANDAR SEU E-MAIL PARA TISERPA@BOL.COM.BR

VISITEM TAMBÉM O BLOG DA LETÍCIA SOBRE O CAMINHO PORTUGUÊS: vejaportugal.blog.terra.com.br

ULTREYA!

EM BUSCA DO CAMINHO - A VOLTA


Da janela do avião, avistei o Cristo Redentor, emocionada. Estava de volta em casa! Era o único lugar, fora o Caminho de Santiago, que me deixava feliz naquele momento. Imaginava que em poucos minutos encontraria minha família e meus amigos me esperando no saguão do aeroporto, com faixas de parabenização, banda (daquelas de cidade do interior, tocando marchinhas de carnaval), muita festa e todos ávidos para ouvir minhas aventuras. Não havia ninguém. Depois de um mês longe de casa, cansada, louca por um ombro amigo, encontrei um mundo vazio à minha espera. A decepção tomou conta de mim e senti um grande medo deste conhecido mundo desconhecido. Quando comecei a pensar porquê não havia ninguém me esperando, me dei conta de que eu mesma havia feito confusão com o horário de chegada do meu vôo.


Coloquei a mochila nas costas e segui até a lanchonete mais próxima para matar a saudade do nosso delicioso cafézinho. No trajeto até praça de alimentação, percebi que algumas pessoas olhavam-me espantadas. E com razão! Porque uma mulher tão magrinha e aparentemente fraca continuava carregando uma enorme mochila? Porque não colocá-la em um carrinho de bagagens? A todos que me ofereciam um carrinho eu respondia com um sorriso maroto nos lábios:
— “Obrigada, mas aqui dentro está toda minha vida e eu tenho que carregá-la sozinha!”
Claro que ninguém entendi nada! Andei durante algumas horas dentro do aeroporto, sem saber o que fazer. Decidi que seria melhor telefonar para casa. Para minha surpresa, estavam todos tomando café e sairíam em caravana para me buscar. Como eu pude estragar a minha própria festa de recepção? Ficaram todos surpresos e um pouco decepcionados também. O melhor então, seria pegar um táxi e chegar a tempo de acompanhá-los no desjejum. Foi o que fiz.


A vida é mesmo engraçada. Ao chegar no estacionamento reservado aos táxis, um dos motoristas veio em minha direção.
— “Peregrina de Santiago?” – perguntou-me.
— “Sim, como você sabe?” – respondi.
— “Pelo sorriso nos olhos e a mochila nas costas.” – ele disse.
Ele também havia feito o Caminho e ficou tão feliz ao ver-me, que fez questão de levar-me para casa “desde que eu enchesse seu coração de alegria com as histórias do Caminho”. Nunca mais o vi, mas o guardarei sempre em meu coração.


O reencontro com a família foi estranho. Eram as pessoas que eu mais amava e, ao mesmo tempo, pareciam distantes e desconhecidas para mim. Entrar em casa, desfazer a mochila e retomar a rotina pareceram-me sem sentido. As reuniões da Associação dos Amigos do Caminho de Santiago, que poderiam, de alguma forma, remeter-me de volta àqueles momentos felizes, não me satisfaziam plenamente. Os meses que se seguiram, foram muito difíceis. Tive que encarar o término do meu namoro, os trabalhos eram escassos, os problemas continuavam os mesmos e eu não sabia como agir. Estava sempre angustiada, à procura das setas amarelas, que um dia indicaram-me o rumo certo.


Arrisquei uma outra viagem, desta vez a trabalho, buscando sempre o espírito peregrino e aventureiro de antes. Até o nome da cidade que escolhi para passar uns tempos era o mesmo: Santiago. Passei um mês no Chile, tentando encontrar o Caminho. Não deu certo! Pensei que o Encontro Internacional de Peregrinos, programado para novembro, no Brasil, fosse a chance de revivê-lo. Não pensei duas vezes em deixar o Chile e voltar para o Rio de Janeiro, antes mesmo da hora prevista. Novamente enganei-me! Nem mesmo a presença de Jesus Jato e sua esposa, Acácio e outros hospitaleiros em minha casa, remetiam-me de volta ao Caminho de Santiago. Foi uma grande agonia! Tudo era totalmente diferente do que eu sonhara encontrar. Definitivamente, nada mais seria igual na minha vida! Pensei estar louca, mas no fundo, eu estava perdida.


Ainda hoje, sigo em busca do meu Caminho.
Quando sinto-me perdida, deixo que as setas amarelas da intuição me mostrem o rumo certo;
Quando chega o cansaço, paro nos bares da alma e tomo um cafézinho;
Quando o desânimo toma conta, eu abro a mochila da fé e sigo em frente;
Quando o corpo padece, eu me apoio no cajado dos anjos e me levanto;
Quando surge a geada repentina, eu uso a capa de chuva da experiência e protejo-me;
Quando a chuva passa, eu abro os olhos do coração para apreciar o arco-íris;
Quando surge um amigo, eu abro um bom vinho!
Quando a vida parece não mais fazer sentido, eu lembro que eu e o Caminho nos tornamos um só.
Eu sou o Caminho e o Caminho sou eu.

quarta-feira, 28 de maio de 2008

A DESPEDIDA, REENCONTROS E TURISMO


Depois da festa de despedida, tudo me pareceu sem sentido. Eu não tinha mais uma grande meta a alcançar. Não tinha mais etapas a cumprir. Minha vontade era voltar até Roncesvalles e começar tudo de novo. Talvez até recomeçar de Saint Jean e cumprir a parte que, por comodidade ou falta de coragem, eu não havia percorrido. E talvez transformar minha vida em uma eterna peregrinação. Um ir e vir constante, ou ainda, viver em um albergue recebendo e prestando solidariedade aos peregrinos. Como seria viver sem a vaidade, o orgulho e a ambição? Faltava-me ainda a coragem de largar tudo para trás e viver aquela utopia, mas era uma idéia que não saía da minha mente.


Voltei para o albergue no Monte do Gozo. Tinha certeza que lá encontraria minha amiga Monica e com ela dividiria minha emoção. Foi muito emocionante reencontrá-la depois de viver a emoção da chegada. Duro foi ouvir o sermão dela por eu ter quebrado a promessa de esperar por ela no Monte do Gozo. Não resisti! Não conseguiria dormir tão perto do fim e, de quebra, ficar admirando a tão desejada cidade de Santiago de Compostela lá de cima! Tentação demais para uma simples mortal! No final das contas, acabou ficando tudo bem e prometi acompanhá-la no dia seguinte.


Sentamos todos: eu, Mônica e nossos amigos em uma das mesas do refeitório e demos seqüência à “bebemoração”. Ficamos ali até tarde da noite, com exceção dos peregrinos “calouros”, que ainda teriam mais uma noite de descanso pela frente, até receber as bênçãos de Santiago. Deviam ser umas onze horas da noite, quando abriram a pista de dança. Já turbinados, nós “veteranos”, deixamos nossos corpos maltratados por tantos dias de peregrinação, relaxarem ao som das músicas. Sem pudores e sem regras. Cada um na sua viagem interior.

Olha a cara das meninas!!! rsrsrs

No dia seguinte, acordei cedinho para acompanhar minha amiga Mônica até a Catedral. Fui um pouco na frente, fotografando as emoções dela. Dessa vez ela teria fotos mais decentes para colocar em seu álbum. E não seriam fotos de paisagem! A cada passo, parecia que eu estava chegando em Santiago pela primeira vez. Sentia as mesmas emoções, o mesmo choro, a mesma satisfação! Passamos pelo jovem da gaita e chegamos na Praça do Obradoiro. De novo o riso, o choro, os abraços. O cenário era um pouco diferente. A Catedral parecia mais bonita ainda, com os raios iluminando suas torres. Aos poucos, todos foram chegando. Meus amigos vinham repetir a dose e os outros festejavam o grande momento de suas vidas. Entramos todos juntos na Catedral, que por sorte estava bem mais vazia do que no dia anterior. Pude dar continuidade aos rituais do peregrino: abraçar a enorme imagem de Santiago no altar, ajoelhar-me diante de seu túmulo, agradecendo por ter realizado meu maior sonho e o mais importante de tudo: assistir à Missa em paz!


Acompanhei a Mônica até a Oficina de peregrinos para que ela pegasse sua Compostelana. Depois disso, a magia do Caminho se perdeu novamente e tudo se transformou em uma grande visita turística. Hora de ir às compras, escolher os presentes dos amigos e familiares, pegar o que enviamos pelo correio (as tais coisas supérfluas, entre elas, minhas botas!) e decidir o que fazer com os dias que sobraram. Eu queira muito ir até Finisterre. Podíamos até continuar a peregrinação, mas fomos alertadas de que o Caminho até lá, não estava muito bem sinalizado. Era a hora de andar sobre rodas!


Tivemos uma grande surpresa enquanto seguíamos de volta à Catedral. Vimos um peregrino subindo a rua, acompanhado de seu cajado com a bandeira do Brasil. Era Calixto! Corremos para abraçá-lo! Vinha caminhando com os olhos cheios de lágrimas, muito emocionado e pelo jeito, uns 15kg mais magro! Fizemos a maior festa! Era tanto escândalo, que formou-se uma multidão ao nosso redor! Flashs para todo o lado e muitos aplausos. Depois dos abraços, era a vez da enxurrada de perguntas! Eu queria saber do Chico, a Mônica queria notícias do Emerson, o Calixto perguntava por seu amigo Paco, enfim, ninguém se entendia!


Fomos com ele até o Parador dos Reyes Católicos, um luxuosíssimo hotel, bem ao lado da Catedral. Calixto sempre falava que queria hospedar-se no melhor hotel de Santiago, assim que terminasse o Caminho. E foi o que fez! Quando chegamos, fomos direto à recepção, seguidos por aqueles olhares cheios de preconceito. Logo de cara, o funcionário foi dizendo que não havia vagas para peregrinos, mas quando Calixto sacou de sua pochete um cartão de crédito douradinho, a expressão do tal funcionário mudou na mesma hora! Para comemorar (tudo era motivo para um drink!) seguimos até o bar (não é que eu terminei o Caminho em um bar? Só faltava o Chico!). Encontramos Leonardo (o homem do cavalo branco do primeiro dia) e juntos fizemos outra grande festa!


E assim terminava meu sonho. Ao lado dos amigos, sempre rindo e comemorando, com fé de que a vida devia seguir com aquele espírito peregrino. Ainda encontraria outros amigos antes de voltar ao Brasil, mas se eu fosse contar cada um dos encontros e desencontros detalhadamente, este relato não teria fim. Deixei ainda um recado para meu amigo Chico, na entrada do albergue do Monte do Gozo e segui meu destino.


No dia seguinte, fui com a Mônica para Finisterre, um lugar maravilhoso, cheio de histórias. Era lá que todos imaginavam ser o fim da terra. Dormimos no albergue local, caminhamos até o farol e tentamos fazer o ritual de queimar as roupas, mas havíamos esquecido o álcool. Que roupa pegaria fogo só com fósforo? Achei que isso era um sinal de que deveria guardar minhas roupas para uma futura volta ao Caminho. Quando voltávamos do farol, encontramos David, meu amigo inglês. Almoçamos juntos, trocamos contatos e desde então, só nos falamos por e-mail. À noite, quando chegamos no albergue para descansar, encontramos Carla, minha amiga Sul Africana. Ela resolveu descansar um dia em Finisterre, para só depois voltar ao Monte do Gozo e fazer a etapa final até Santiago. Curioso, não?
Carla e eu em Finisterre

De Finisterre, Mônica e eu pegamos um ônibus até Santiago e, de lá, até Madrid. Em 1994, eu havia passado dois meses lá, trabalhando como modelo. Conhecia bastante a cidade e estava com vontade de rever os lugares. Ficamos hospedadas na Porta do Sol. Passeamos por todos os pontos turísticos: Parque do Retiro, Museu do Prado, Palácio Real e também fomos até Toledo, um dos lugares mais bonitos que já vi na vida! Pude então, matar a saudade de Madrid e, de quebra, depois que a Mônica voltou ao Brasil, fiquei uns dias hospedada na casa da minha amiga Fresia, contando o que havia acontecido nos dias que se seguiram após sua despedida em Burgos, mas nada se comparava à magia de estar no Caminho. Era hora de voltar para casa!

Mônica e eu na Plaza Mayor, MADRI

terça-feira, 27 de maio de 2008

QUERIDOS AMIGOS,
O BUSCAAPÉ AINDA NÃO TERMINOU. OS PRÓXIMOS POSTS CONTARÃO MINHA DESPEDIDA DOS AMIGOS PEREGRINOS, REENCONTROS, A VOLTA AO BRASIL E, EM BREVE, RELATO DO CAMINHO DO SOL.
NÃO PERCAM!

segunda-feira, 26 de maio de 2008

CHEGANDO AO CAMPO DAS ESTRELAS - 24º DIA


Com o coração transbordando de emoção e os olhos cheios de lágrimas, levei minha mochila para o lado de fora do quarto para não acordar meus companheiros. Minha preocupação era grande. Eu teria que andar quase 20km em plena madrugada, acompanhada somente de Deus. Verifiquei se haviam pilhas na lanterna, agasalhei o corpo, preparei uma xícara de café com leite bem quente, e sentei-me à mesa, degustando cada gole e cada momento; afinal, eram os últimos do Caminho e os mais importantes de toda minha vida.


Já estava saindo, quando ouvi uma voz me chamando. Era David! Pediu-me que o esperasse, pois iria comigo. Também queria experimentar a loucura de caminhar durante a noite. Finalmente ele estava deixando de lado a formalidade e tentando estreitar os laços de amizade comigo! Fiquei honrada com a proposta! Resolvi aceitar sua companhia e, com nossas lanternas em punho, saímos pelas ruas de Pedrouzo. Seria uma jornada bem difícil, pois a noite estava chuvosa e mal conseguíamos enxergar as setas amarelas no asfalto. Seguimos por uma pequena estrada de terra e a escuridão era assustadora! Parecia que, a qualquer momento, seríamos pegos de surpresa por algum “bicho papão”. Isso me fez lembrar novamente os tempos de criança, quando ia para cama com medo do escuro.


Foram horas andando no meio da floresta, debaixo de muita chuva e sem viva alma. David ficava assustado com o ruído dos pássaros nas árvores. A sensação era de estarmos sendo observados o tempo todo. Alguns quilômetros depois, vimos umas luzes ao longe. Alguma luz, enfim! Era uma estrada asfaltada que cortava a trilha. Mas depois de atravessá-la, entramos novamente no breu da floresta, dessa vez bem mais fechada e mais escura que a anterior. Até ali, estava tudo relativamente fácil. Até ali...


Mais adiante, nos deparamos com um grande problema: uma bifurcação. Bifurcações no caminho da vida! Mais uma vez eu estava diante de uma escolha importante. Nossas lanternas tentavam iluminar as pedras, mas não conseguíamos achar nenhuma seta que nos apontasse a direção correta. Estávamos perdidos! Tínhamos duas opções: descansar ali mesmo e esperar amanhecer, ou arriscar alguma das duas direções. Escolhemos a primeira. Apagamos as lanternas e, enquanto arrumávamos as mochilas no chão, vi algumas luzes ao longe. Mudei de idéia! Propus seguirmos até lá e ver se encontrávamos uma estrada que nos levasse em direção a Santiago. Nada! A pequena cidade ainda dormia! Ninguém para nos dar uma informação, nenhuma seta amarela, nenhuma “luz no fim do túnel”.


Resolvemos seguir pelo asfalto, beirando o acostamento, enfrentando o vento forte que vinham dos carros em alta velocidade. Era a minha sina! Estradas asfaltadas! Um dia descobriria o porquê de tudo isso! Para que os motoristas não nos atropelassem, apontávamos as lanternas acesas em direção aos nossos rostos. Lá se foram três horas de caminhada! Sem nenhuma certeza, somente a intuição de que seguíamos na direção correta. Como em um passe de mágica, uma seta surgiu em minha frente! Como eu adorava aquelas setinhas saltitantes! Pude respirar aliviada! Já estava começando a me arrepender de ter tido a idéia maluca de caminhar na escuridão. Logo depois, ouvimos o som dos aviões cruzando o céu, acima de nós. Era a confirmação de que havia uma cidade grande e civilizada ali por perto! É claro que ainda pudemos contar com a sorte porque, uns metros adiante, encontramos uma placa, que indicava os quilômetros restantes até Santiago: treze! Número de azar? Não! A sorte estava realmente ao nosso lado!


Devido à dificuldade de caminhar na escuridão, perdemos bastante tempo e, conseqüentemente, ficamos mais cansados que o normal. Eu ainda tinha um pequeno probleminha: a vontade de fazer xixi! O pior é que eu estava desprevenida! Esqueci-me de levar um pedaço de papel higiênico na mochila. O jeito era agüentar! Ao passar pelo aeroporto, o céu ainda estava escuro. A chuva também dificultava bastante, porque não conseguíamos ver quase nada e, para piorar, o barulho da água caindo no chão, deixava-me cada vez mais apertada. Quando David pediu licença, retirou-se para um cantinho escuro e começou a fazer xixi, foi demais! Àquela altura, eu já não suportava mais a vontade de ir ao banheiro e tive que correr para o matinho mesmo! Ah, como fazia falta o balde da velhinha...


Caminhamos um pouco mais até chegarmos a um pueblo, cheios de esperança em encontrar um lugar para comer e descansar, mas estava tudo deserto. Decidimos seguir viagem. Voltei a achar que tudo aquilo era uma loucura! Caminhar no meio da madrugada, sem comida, sem visibilidade alguma; ora perdidos, ora “achados”... Que diachos estávamos fazendo ali? Poderíamos ter dormido um pouco mais e esperado o dia nascer! Pensando bem, se não fosse assim, hoje eu não teria histórias tão engraçadas para contar...


Continuamos em frente. Já não tínhamos nenhum incômodo de ordem fisiológica e, tampouco, motivos para desistir depois de tanto esforço. Amanhecia e ainda não estávamos nem perto de alcançar a cidade de Santiago de Compostela. Os passos foram ficando mais lentos, arrastados. O corpo doído, a cabeça a mil! Ainda caminhamos por mais de uma hora até chegarmos ao Monte do Gozo, uma colina situada a apenas 5 km de Santiago. Nenhum de nós dois arriscava-se a dizer uma palavra sequer! Durante todo o percurso, desde que deixei Roncesvalles, sabia que chegaria ao final do Caminho um dia, mas a realidade da caminhada era tão maravilhosamente bela, que tornava-se quase que uma fantasia e eu já não tinha mais vontade de chegar!


Uma ansiedade enorme invadiu meu coração. Estávamos a pouco menos de uma hora do fim. Desviamo-nos para a estrada, e logo avistamos a Catedral, em meio aos prédios da cidade, imponente. Enfim, lá estava nosso destino, nossa meta cumprida, nosso sonho realizado! Era uma emoção indescritível! As lágrimas desceram sem controle, o coração disparou, a cabeça deu voltas e voltas. Todo o Caminho percorrido veio como um filme em minha memória. O embarque, o primeiro dia, Chico, Calixto, o “Trio Cometa”, as setas que não existiam, as setas que saltavam aos meus olhos, os encontros, os desencontros, Carla, Björn, as dores, as alegrias, a magia, a família peregrina, Fresia, Juan Andrés, os devaneios, Tuiv, a solidão, as pessoas especiais, Jus, Jesus, Acacio, Balbino, as igrejas, os pueblos, os Monastérios, Mônica, os jantares, Diego, Harrison, Klauss, David (o companheiro naquela madrugada) e tantas outras maravilhas. Todas as lembranças deixaram-me triste, nostálgica. Quanto mais perto de Santiago, mais longe eu estava do Caminho.


Não consegui cumprir a promessa feita à minha amiga Mônica: esperar por ela e pernoitar no Monte do Gozo. Estava ansiosa demais para chegar a Santiago e faltavam apenas 5 km! Quando David e eu começamos a descer o Monte do Gozo, lembrei-me de ter lido que os peregrinos medievais ao avistar dali, pela primeira vez, a Catedral de Santiago, caíam de joelhos e cantavam uma música como forma de agradecimento. Antes de embarcar naquela aventura, fiquei imaginando qual seria minha reação ao chegar tão perto da Catedral, e qual seria a música que eu escolheria para aquela ocasião especial. O mais estranho foi que, depois de ter percorrido a maior parte do Caminho ao embalo de minhas músicas, na descida do Monte eu não tinha vontade nenhuma de cantar. Em lugar da música, uma oração:

“Mãe Lua,
Que surge através das nuvens, atrás de montanhas,
Do fundo infinito,
Iluminando parte de um escuro oceano,
Reina soberana na noite, sobre mares e lares,
Proteja-nos! Assim como fazes com as estrelas!
Ascenda tua bola de fogo no céu e apague no horizonte, prateada,
Conduzindo o começo ao fim,
De sol a sol,
Representando no céu, nossa vida na Terra.
Tu, que és madrinha dos românticos,
Prometa nunca deixar-nos,
Seja no Rio, no frio ou qualquer lugar,
Porque estamos sempre esperando pelo teu espetáculo,
Onde teu palco é a natureza terrestre,
E tua luz é a nossa fé,
De que ela nunca se acabe.
Mãe Lua, Pai Sol,
Mulher noite, Homem dia,
Que teus horizontes nunca se apaguem!”

Esta oração foi escrita por mim aos doze anos de idade, em um momento de total sintonia com a energia maior que chamamos de Deus, Deusa, Buda, Alá, Rá...ou sei lá!


A partir dali, nada mais nos tirava do Caminho. Ou quase nada! A fome e o cansaço foram maiores que a vontade de chegar. Paramos em um luxuoso hotel, na entrada da cidade. Senti-me como uma mendiga, sendo observada com desdém pelos hóspedes e funcionários, mas já estava vacinada! Sentamos confortavelmente nas poltronas do bar e pedimos nosso último café da manhã. Estava tudo tão bom, que não sentimos o tempo passar. Quando saímos, vimos nosso grupo de amigos descendo o Monte do Gozo: Diego, Klaus, Harrison, Luis Miguel, Edward e Michaela. Mesmo, David e eu, saindo de Pedrouzo no meio da madrugada, horas antes deles, a magia do Caminho acabara de nos unir novamente e acabaríamos chegando todos juntos à Catedral. Exatamente como sonhei!


A emoção era forte. As lágrimas guiavam meus passos. Já não controlava o corpo, minhas pernas seguiam por conta própria, meus pensamentos confundiam a realidade e a fantasia. Parecia um sonho! Não conseguia acreditar que tudo pudesse realmente estar acontecendo. Desliguei-me do mundo e já não sabia mais se havia algum amigo ao meu lado. Caminhava por entre os becos chorando muito, totalmente fora de órbita. Às vezes, era preciso sentar, pois não tinha forças para continuar caminhando, tamanha emoção! Minha cabeça girava, os pensamentos não tinham mais nenhum sentido. De repente, a mochila não tinha mais peso, o caminhar era leve; a alma, lavada! Aos poucos, venci os metros que distanciavam-me da Praça do Obradoiro, onde estava meu destino final: a Catedral de Santiago de Compostela. Desci uma rua, passei por um músico que tocava sua gaita de foles e ao som de sua gaita, desci algumas escadas e, alguns passos depois, deparei-me com a tão sonhada Catedral. Não sei explicar exatamente o que senti naquele dia! Sei que sentei-me no meio da praça e pus-me a chorar copiosamente. Era como se todas as emoções sentidas em todos os dias de Caminho estivessem ali presentes ao mesmo tempo. Chorei, pulei como uma criança, dancei, cantei, enfim, gritei bem alto:

— “Venci! Venci!”

E senti uma mão amiga puxando-me para um abraço. Era Diego! E cada um que chegava, juntava-se a nós naquele abraço apertado e sem fim. De repente, todos estavam sentados, olhando admirados para a Catedral, sem saber qual seria nosso próximo passo. Talvez, devêssemos caminhar em busca da paz, do amor e da confraternização mundial. Talvez, devêssemos apenas levantar e caminhar até a igreja.


Foi difícil recompôr-me para entrar na Catedral. Graças ao meu cajado, meu companheiro das horas mais difíceis, tive um apoio extra para seguir caminhando. Subi os degraus da escadaria com orgulho, como se cada um deles representasse uma etapa vencida na minha vida. Quando cheguei ao portal, parei um pouco, respirei fundo e agradeci a Deus, do fundo do meu coração, por ter transformado-me, tal como uma Fênix ressurgida das cinzas, em uma pessoa melhor. Ao atravessar a porta, a glória! Eu estava ali, dentro da grandiosa Catedral, bem perto do túmulo de Tiago, o Apóstolo. Era o fim, o objetivo havia sido alcançado! Impossível conter as lágrimas! Impossível descrever a emoção!


Era domingo e a Catedral estava lotada! Fiquei um pouco perdida em meio à grande multidão de turistas no interior da igreja. Ia andando, esbarrando nas pessoas com a mochila, sem saber direito a direção certa para chegar até o altar. Àquela altura, já havia perdido-me de meus amigos. Confesso que fiquei perturbada com tanta gente! Achei que depois de tantos dias andando, enfrentando as dores e dificuldades do Caminho, teríamos um lugarzinho reservado para assistir à Missa. Pura ilusão! A realidade que encontrei era bem diferente! Tive que me contentar em assisti-la, ajoelhada em um cantinho, ouvindo as explicações dos guias de turismo que teimavam em atrapalhar o Sermão do Padre. Ao final da Missa, alguns padres juntaram-se em torno de um enorme incensário, chamado Botafumeiro. Eram uns dez homens a levantá-lo, fazendo com que percorresse o interior da Catedral como um pêndulo, de um lado a outro. O cheiro do incenso impregnava meu corpo e dava-me a sensação de paz. Lembrei-me do programa de TV que tanto me inspirou a estar lá. A repórter entrevistando os peregrinos, com um invejável brilho nos olhos e aquele incensário ao fundo. Não era sonho, não era mais o programa na televisão! Era a minha realidade! Eu era a protagonista daquela história, eu tinha o brilho nos olhos e na alma! Quando o espetáculo terminou, toda a magia se apagou com ele e eu estava novamente perdida.


Voltei para a Praça do Obradoiro e fiquei olhando os peregrinos que iam chegando, pouco a pouco, emocionados. Percebi que do lado de fora da Catedral ainda existia o espírito do Caminho de Santiago. Não ignoro a importância da Catedral, tampouco o corpo do Apóstolo, mas a magia havia se transformado em turismo. Lá na praça era diferente! Sentia-me à vontade. Eu podia assistir aos abraços apertados, aos reencontros ou simplesmente a cumplicidade entre os peregrinos. Isso era o Caminho! A chuva no rosto, o peso do corpo, as dores nos joelhos, a alegria no coração e a benção de ter amigos verdadeiros ao meu lado! No mais, tudo parecia sem sentido. Isso me fez refletir na busca definitiva à uma religião que me desse satisfação plena e, por mais que eu tenha percorrido uma trilha totalmente católica, senti que estava cada vez mais voltada para a Natureza e para uma energia feminina, materna. O Caminho ensinou-me que meu caminho era outro.


Depois de buscar minha Compostelana na Oficina de peregrinos, juntei-me aos amigos em um restaurante perto dali. Ainda lutávamos para preservar a alegria em nossa festa de despedida, mas era impossível. Todos nós sabíamos que, a partir dali, cada um seguiria seu rumo e nada mais seria como antes. Iniciava-se uma nova etapa no Caminho, onde não mais contaríamos com o apoio do cajado, das setas amarelas ou dos demais peregrinos. Chegaria o momento de confrontar-se com a dura realidade da vida. Voltariam os problemas, os conflitos, as contas, o trabalho e a falta de tempo. Ser peregrino no Caminho de Santiago é relativamente fácil. O difícil seria continuar com esse espírito diante dos desafios da vida e seguir adiante com força e fé inabaláveis. Essa era nossa missão a partir dali.

A ÚLTIMA CEIA - 23º DIA E NOITE


Encontrei Diego, Klaus, Harrison, Luís e Edgard (dois peregrinos espanhóis muito simpáticos) correndo em direção ao restaurante. Essa foi a cena que vi ao chegar em Pedrouzo, onde pernoitaríamos pela última vez, antes de chegar a Santiago. Gritaram para que eu deixasse minha mochila no albergue:


— “O mais rápido possível! O restaurante vai fechar para a siesta!”


Segui fielmente a ordem e fui encontrá-los no restaurante para acompanhá-los no almoço, mas a ansiedade impedia-me de comer. A emoção de estar tão perto de Santiago era forte demais para que eu pensasse em outra coisa, que não fosse a chegada. Pedi licença e voltei para o albergue aos prantos. Ao entrar no quarto, dei de cara com David, meu amigo inglês. Aí mesmo é que desatei a chorar! Contei que não estava mais conseguindo controlar a emoção. Abraçou-me com carinho e acalmou-me. Respirei fundo e parei de chorar. Só então conseguimos conversar um pouco. Já refeita da crise de choro, pedi licença e saí para tomar banho. Ele então me disse uma frase linda, que jamais esquecerei:


— “Vá ao segundo andar! Tem um banheiro individual, com uma banheira enorme e bastante água quente. Você poderá acalmar seu coração.”


É ou não é uma frase maravilhosa para se ouvir depois de quase trinta dias tomando banhos com uma só mão, banhos mornos, banhos de lencinhos umedecidos, banhos de gato, enfim, todo o tipo de banho?


Me senti uma princesa! Acendi uma vela, um incenso e coloquei o restinho do meu xampu na água. Não fez espuma como esperava, mas, para mim, aquele foi o banho mais gostoso de toda minha vida! Fiquei horas dentro da banheira! Só saí de lá quando minha pele murchou. Parecia uma uva passa ambulante! Neste banho, resolvi que faria a próxima etapa durante a noite. Se minha família aqui no Brasil sonhasse com tal possibilidade, certamente hoje estaria internada em algum manicômio! Loucura sair perambulando sozinha no meio da madrugada? Talvez sim, mas já não ficava mais incomodada com minhas loucuras. Eu era livre e feliz! Estava prestes a concretizar meu sonho e cheia de esperança em uma nova vida! Isso era o mais importante!


Esperei um pouco na porta do albergue, para ver se minha amiga Mônica chegava e nada! Nem sinal da danadinha! Com certeza, devia estar caminhando ao lado de Irene, devagar, quase parando. Sentia falta dela, sempre me chamando de “véio do rio”. Estava doida que ela aparecesse logo, para mostrá-la a banheira que havia no segundo andar do albergue. Ela não ia acreditar! Já até ouvia sua voz dizendo:
— “Véio do rio, conseguiu descobrir uma banheira neste albergue? Tô boba! Por isso é que eu não desgrudo ”de ocê”! Na minha próxima viagem, te levarei junto! Mas só se você se comportar direitinho! Com essa descoberta você ganha um pontinho...”


Saudade também do meu amigo Chico. Ele iria adorar a banheira. Se eu soubesse da existência dela antes, teria deixado um recado em algum albergue para que ele usufruísse daquele pequeno paraíso. Onde será que ele estaria? Talvez em algum bar, bebendo seu café com leite, acompanhado de seu amigo Enrique.


Na ausência dos meus dois melhores amigos do Caminho, resolvi fazer uma surpresa para os demais, que mereciam um agrado. Fui ao mercado e comprei bastante comida e vinho. Fui para a cozinha e comecei a preparar o jantar e lá estava David, fazendo uns tremoços apimentados! Quando viu a quantidade de comida que eu trazia, perguntou se haveria um banquete. Eu respondi que sim, mas que ainda era uma surpresa. Então, propôs-me juntarmos nossas comidas. O pedido foi aceito na hora! Aos poucos, guiados pelo cheirinho vindo da cozinha, foram aparecendo os outros peregrinos. Contei que estávamos preparando um jantar de despedida. Logo, cada um foi contribuindo da sua maneira. Uns fizeram a salada, outros compraram a sobremesa e o pão.


Foi nossa última ceia. Todos pareciam estar sentindo o mesmo que eu. A tristeza estava visível no rosto de cada um. Tenho certeza de que se pudéssemos escolher, pararíamos o tempo ali e viveríamos este sonho por toda a eternidade! O Caminho de Santiago não é apenas uma estrada a seguir, não é apenas um lugar cheio de monumentos. É um chão realmente sagrado! Uma escola de vida! É onde aprendemos a ser verdadeiros, amorosos, caridosos, disciplinados e, acima de tudo, felizes e em paz com o mundo. Não seria exagero dizer que está no espírito do Caminho, o segredo do mundo perfeito. Quem o percorreu sabe muito bem o que estou dizendo! Infelizmente, é difícil explicar para as pessoas o que sentimos lá. Eles sempre pensarão que somos doidos por andar à pé quase 800km, com uma mochila nas costas. E, ao voltar para a vida “real”, o Caminho estará lá presente em nossas ações. Tentaremos pôr em prática a caridade, o não julgamento, a simplicidade, o amor e a paz. Essa é a grande lição do Caminho! Eu acabara de descobrir que ele estava apenas começando. O Caminho de Santiago era eterno e ninguém nunca o roubaria de mim! Bendita hora em que troquei o carro novo pela aventura!

Da Esquerda par direita: Klaus, Diego, Luis Miguel, Diego, Harrison, Michaela e David

domingo, 25 de maio de 2008

QUASE LÁ - 22 E 23º DIA


De Palas de Rei em diante, caminhei quase o tempo todo sozinha, envolvida em meus pensamentos, segura em saber que tinha minha “família peregrina” por perto. Nas horas de descanso, todos se reuniam e cantavam, dividiam experiências e ajudavam uns aos outros. Num desses encontros, senti a falta da minha amiga Mônica. Esperei um pouco, mas nada dela chegar! Decidi continuar sem ela. Certamente a veria no albergue de Árzua. Mas, ao encontrar meus amigos em um bar, um pouco mais adiante, Harrison e Diego disseram-me que seria melhor ficarmos em Ribadiso da Baixo. O que eu faria? Seguiria com o grupo que no dia anterior andou mais que o previsto só para me acompanhar, ou esperaria por minha amiga que estava junto comigo há dias? Fiquei no bar meditando um pouco a respeito, enquanto meus amigos seguiam viagem. Cheguei à conclusão de que cometeria o mesmo erro do início do Caminho, se retardasse meu ritmo para esperar a Mônica. Era hora de seguir meu rumo, sem amarras, sem dependências. Segui, portanto, em direção à Ribadiso da Baixo.

No meio da natureza exuberante, segui meu caminho, meditando. Parecia um filme! Minha vida toda passou diante dos meus pensamentos. A trilha sonora do dia era o cantar dos passarinhos. De repente, ouvi o que parecia ser batidas na madeira. Quando olhei para a árvore ao lado, vi um pica-pau. Que maravilha! Achei que nunca veria um pássaro desses ao vivo. Pensei no desenho animado, que eu acho um tanto cruel e achei que o bichinho não merecia levar a fama de espertinho. Mais à frente, adentrei um pueblo, onde tinha uma simpática igreja. Desde Roncesavalles, eu havia entrado em poucas durante o Caminho, mas aquela me chamou a atenção. Ainda bem que entrei! Foi a imagem de Jesus mais bonita que vi na vida. O nome do pueblo era Leboreiro e crucificado na cruz, aquele Jesus parecia estender a mão direita aos peregrinos. Muito interessante.



Logo depois, parei para descansar em uma pedra à beira de um rio. Senti uma picadinha entre os dedos mindinhos e “seu vizinho” do pé esquerdo. Tirei o tênis para ver o que era. Parecia picada de formiga, mas acabei me deparando com a minha primeira bolha! Ah, eu tinha que perder a virgindade, né?! Sorte minha, ela era bem pequena, fiz um curativo e continuei sem problemas.


Na descida para Ribadiso, avistei Harrison e Klaus sentados à beira do rio, com os pés dentro d’água. Uma cena incomum até aquele momento. Que delícia passar o resto do dia descansando os pés na água de um rio! Juntei-me a eles e passamos ali o final de tarde, assistindo o espetáculo do pôr do sol, na mais santa paz. Fiquei esperando pela passagem da minha amiga Mônica, mas ela deve ter parado para dormir em Melide. Mais tarde, já ao cair da noite, juntamos a comida que cada um trazia consigo e fizemos um grande jantar. Tudo se transformou em uma grande festa novamente! As canções, os brindes, as histórias, as risadas, a felicidade. Diferentes nacionalidades, diferentes idiomas e um só objetivo: confraternizar, celebrar a paz e o amor. Este era o espírito do Caminho!


No dia seguinte, saímos bem cedo, logo ao amanhecer. Tirei várias fotos do nascer do sol e deixei-me contagiar por sua energia. O céu tinha cor alaranjada e os primeiros raios solares acariciavam meu rosto. Apesar do sono, conseguíamos manter a alegria e seguíamos cantando. Como boa brasileira, arrisquei até uns passos de samba, meio desequilibrados, devido ao peso da mochila em minhas costas. Tudo era motivo para que um sorriso tomasse conta de nossos rostos.

Já em Árzua, paramos para o café da manhã. Dali em diante, o grupo se separou. Tive meus momentos de solidão, de alegria, de tristeza. As emoções estavam à flor da pele. Era o penúltimo dia da jornada de um mês. O que encontraria em Santiago? Será que todo o esforço teria valido a pena? A minha vontade era de parar o tempo ou de começar tudo de novo. Talvez porque eu não tenha vivido plenamente o caminho ou porque o caminho é infinito? Mil perguntas povoavam meus pensamentos. Não queria que meu sonho terminasse. Eu ainda nem tinha outro sonho para buscar! Sentei no meio da trilha e chorei. Era um choro diferente, um mix de sentimentos: saudade, vontade de chegar a Santiago, nenhuma vontade de chegar a Santiago. Mesmo assim continuei, afinal, o caminho é para ser trilhado e tudo na vida tem início, meio e fim.

A paisagem era linda e me reconfortava. Aos poucos, voltei a curtir minha peregrinação, sem pensar na chegada. Realmente, a Galícia é a parte mais bonita do caminho. Passei por lugares encantados, saídos de conto de fadas. De repente, comecei a ouvir vozes e risos. Depois de uma curva, surgiu uma pequena cabana, onde estavam lanchando Mônica, Irene, Marc e os demais. Ah, nunca pensei que reencontraria a minha amiga antes de Santiago. Certamente ela deve ter dormido em Árzua, ou seja, a danada havia caminhado mais do que eu no dia anterior. Novamente foi uma festa! Combinamos, eu e Mônica, de dormir no Monte do Gozo, para chegarmos juntas a Santiago. Para variar, saí na frente deles e segui viagem sozinha novamente.

Marc, Mônica, eu e Irene

sexta-feira, 23 de maio de 2008

UMA LINDA SURPRESA - 21º DIA


Mônica e eu, continuamos nossa rotina peregrina. Café da manhã reforçado e pé na estrada. Logo na saída de Portomarin, entramos em uma mata fechada. Parei para ajeitar meu cd player e disse para Monica que seguir na frente. De repente, uma mão tocou meu ombro. Levei um enorme susto! Para minha sorte, era um peregrino. Para minha má sorte, era um cara bem chato! Perguntou-me se eu tinha algum problema e respondi que não, mas ficou parado, esperando até que eu continuasse a andar. Eu, doida para ficar sozinha um pouco, curtindo minhas músicas e o danado falava sem parar! Inocentemente, ainda abri a boca para falar que era brasileira. Pronto! Estava feita a besteira! Era o motivo que ele queria para puxar assunto! Ser brasileiro no Caminho rende muita história. Ele começou a falar da feijoada, das namoradas brasileiras que colecionou e que nós éramos as mulheres mais quentes do mundo.




— “Era tudo o que esperava ouvir nesse momento!” — pensei com meus botões...




Vi que não tinha escapatória e desisti. Deixei que falasse à vontade. De vez em quando, eu respondia com monossílabos ‘não’ e ‘sim’! Sabia que não devia julgar as pessoas. Devia tentar perceber o que cada uma delas tinha a me acrescentar, mas não aprendi nada de especial com aquela conversa, pelo contrário, só me fez perder o humor. Vai ver ele só apareceu para exercitar minha paciência...



Agradeci a Deus quando encontrei a Mônica mais à frente. Ela percebeu o que estava acontecendo, mas também não agüentou o papo e saiu em disparada. Era a vingança dela pela noite do gato! Talvez o homem tenha servido para dar uma forcinha ao seu caminhar (risos). Um tempo depois, chegamos a uma cidadezinha. O irmão do tagarela estava à sua espera em frente ao albergue. Foi aí que notei que não trazia consigo nenhuma mochila. Era um peregrino com carro de apoio, em busca de sua Compostelana[1]. Entrou no carro e seguiu seu Caminho. Com minha total aprovação, é claro! Fazia qualquer coisa para ver o rapaz bem longe de mim! Descansei os ouvidos e segui viagem.






Com passos largos, acabei alcançando Mônica um pouco mais adiante. Paramos em um bar, a 12 km de Palas de Rei, onde dormiríamos. Um a um, foram chegando nossos amigos. Eu ainda estava com aquele sentimento confuso de final de sonho e fui tomada por uma nostalgia misturada com angústia. Resolvi telefonar para o Brasil novamente. Liguei para toda minha família, para alguns amigos, mas nada me fazia ficar completamente feliz.




Àquela altura, os demais peregrinos já tinham voltado ao caminho e eu continuava ali, sem saber o que fazer com meus sentimentos, preparando o astral para continuar, quando ouvi vozes se aproximando. Era meu amigo Diego, o italiano que fazia parte do grupo que conheci em Sto. Domingo. Estava acompanhado de dois peregrinos. Um deles era o brasileiro Harrison, que já havia encontrado duas outras vezes, e o outro era um alemão chamado Klaus. Meu coração encheu-se de alegria! Uma surpresa maravilhosa!


Enfim, meu desejo de reencontrar “minha família”, ou parte dela, seria realizado, não fosse um pequeno detalhe: eles estavam vindo de Ferreiros, ou seja, já haviam percorrido quase 25 km e deviam estar muito cansados para seguir até Palas de Rei. Com meu irresistível charme, modéstia à parte, consegui convencê-los a caminhar uns quilômetros a mais. Aos poucos, fomos juntando os amigos para chegarmos juntos a Santiago.


O albergue de Palas de Rei transformou-se em uma festa! Eu com meus amigos, Mônica com os dela, e mais um batalhão de peregrinos, lotamos todos os leitos e acabamos com a água quente! Os boxes não tinham cortinas, mas isso não importava. Não havia maldade entre nós. Enquanto eu tomava meu banho, alguns peregrinos circulavam pelo banheiro e até me cumprimentavam. Era uma bagunça total! Claro que algumas mulheres ainda não estavam à vontade, então improvisei uma cortina com o meu poderoso “varal”, feito com um extensor (aquele elástico que usamos nos racks dos carros) e a canga de praia. Tudo na maior normalidade. Pelo menos para mim.


Durante o jantar, cada um cantou uma música de seu país. Foi divertidíssimo ouvir as mais estranhas músicas, nas mais estranhas línguas. Algumas eu já conhecia, como “Sole mio”, cantada em italiano por Diego; mas imaginem como foi ouvir a música mais popular da Alemanha! Depois de algumas taças de vinho, arrisquei cantar “Aquarela do Brasil” e outras canções brasileiras não tão populares para eles. Enfim, era como eu sonhava! Uma grande família dividindo alegrias e tristezas.
[1] Certificado de conclusão do Caminho de Santiago.

quinta-feira, 22 de maio de 2008

NEGRO GATO - 20ª NOITE

Estávamos na cozinha, Mônica e eu, tomando uma xícara de café com leite. O albergue já estava todo na escuridão. A maioria das pessoas já dormia. Falávamos alegremente das nossas passagens do caminho, quando vi Mônica paralisada, com os olhos arregalados. Apontou para a cadeira ao lado, onde havia um gato preto, olhando fixamente para nós. Como adoro gatos, chamei-o para perto de mim, com grande reprovação por parte dela, que estava assustadíssima. Dei-lhe um pouco de leite e alguns pedacinhos de pão. A Mônica insistiu tanto para eu tirar o bichinho dali, que não pude recusar. Levei o gato para a rua e fechei a porta. Resolvido! Éramos só nós duas a fofocar. Um peregrino desavisado, que chegou mais tarde, deixou a porta entreaberta e o gato voltou. Mais uma vez, levei-o para fora e deixei no chão um pequeno pires cheio de leite, para que ele pudesse se distrair e não mais voltar. Só então fomos para cama em paz.


Escolhemos o “andar térreo” dos beliches, para facilitar uma possível ida ao banheiro no meio da madrugada (fiquei traumatizada com baldes e pinicos!!!). Nossas camas ficavam uma ao lado da outra. Havia uma mesinha, encostada na cama da Mônica, onde coloquei minha mochila. Abri meu “varal” e aproveitei para estender as roupas, ainda úmidas, no estrado da cama. Eu havia levado um elástico e uma canga, com isso, montava um varal nas camas onde dormia. Dessa forma, além de minhas roupas secarem durante a noite, eu tinha um pouco de privacidade, pois ninguém conseguia me ver. Sem mais fofocas para pôr em dia, pus-me a dormir como um anjo. No auge do sono, uma luz forte pairou sobre meu rosto, acordando-me. Junto a essa luz, uma voz trêmula e suspirante dizia:
— “Tilaaaaaaraa... Tilaaaaaaraa... O gaaaaaatooo... O gaaaaaaatooo... Ele está na sua mochilaaaaaaaa!!! Eu estou com meeeedoo...”
Nem preciso dizer quem é, não é? Era a minha amiga Mônica com a lanterna apontada para mim. Segundo ela, o gato estava plantado, com os olhos arregalados a encará-la.
— “Ah, Mônica... Deixa ele! Vai dormir e deixa o bichinho em paz! Ele só quer uma cama quentinha e confortável e não me importo se essa cama for a minha mochila!” — argumentei em vão.
Foi a coisa mais engraçada do mundo! Um mulherão daqueles, cismada que o gato iria atacá-la a qualquer momento. E o medo dela era tanto, que me contagiou. E eu não podia “amarelar”, pois foi minha a idéia de mimar o gato.


Reuni força e coragem, e saí pelo quarto a assobiar chamando o gato. Graças a Deus, ele seguiu-me até a rua. Ao voltar, fechei a porta do quarto, segura de que o bichano não mais voltaria. Um peregrino, que voltava do banheiro, deixou a porta novamente entreaberta. Eu avisei a Monica de que minha parte estava feita e que se o gato voltasse, a culpa era do tal peregrino. É claro que ela quase me matou! Restou-me torcer para que o gato não encontrasse o caminho de volta, ou então, seria outro escândalo daqueles!


Depois de tanta confusão, custei a pegar no sono de novo. Eu comecei a pensar no gato voltando, subindo na minha cama e me atacando. Tomei coragem e fui conferir se o bichinho estava mesmo do lado de fora. Para meu desespero, não encontrei nada. Nem sinal de gato! Voltei para a cama e passei a noite em claro. No final das contas, eu é que acabei sem dormir com medo do gato, enquanto a Mônica dormia como um anjinho. Coisas do caminho...