sábado, 10 de maio de 2008

ALEGRIA, ALEGRIA!!! - 12º DIA



Nos dois dias seguintes, a alegria era, mais do que nunca, minha marca registrada. Mesmo quando enfrentei uma chuva forte na saída de Astorga, estava feliz e sorridente. Passei cantando e dançando pelos pequenos pueblos, arrancando risadas das pessoas. Foi batendo um quê de brasilidade em mim. Assobiei músicas brasileiras de todo o tipo, de samba à MPB. Com o decorrer do dia, a paisagem ia mostrando-se cada vez mais bela. Notei que estava andando por entre campos e cidades no topo de uma cadeia de montanhas. Por conta disso, senti muito frio. Aos pouquinhos, o tempo foi melhorando.



Estava ansiosa para chegar ao famoso Bar Cowboy de El Ganso, que vi numa foto, no guia de um peregrino. Ao chegar, para minha surpresa, encontrei uma pequena bandeira do Brasil pendurada na entrada. O dono recebeu-me com um certo receio. Era um pouco reservado demais para o que eu esperava. Fui puxando conversa e ele foi ficando mais à vontade. Disse-me que não costumava ver mulheres jovens como eu, sozinhas no Caminho. Sempre estavam acompanhadas de alguém. Ah...como fazia falta uma cara metade! Disse-me ainda que queria muito conhecer o Brasil, pois o povo era alegre e hospitaleiro. Fiquei feliz ao lembrar que apesar de todas as dificuldades que nós brasileiros enfrentamos todos os dias, continuamos alegres. É um povo que deixa marcas eternas no coração de todos. Tenho certeza que a minha marquinha ficou por lá.




Continuei minha marcha, distraída, cantarolando músicas do Gil. Por conta disso, quase fui atropelada por um peregrino de bicicleta. Dei um grito tão alto, que deve ter sido ouvido pelos quatro cantos do mundo! Eu e “meu Gilberto Gil” quase acabamos assustando o pobre coitado, que quase caiu.




Mais à frente, avistei uma placa escrito: Rabanal del Camino. Para meu espanto, havia um par de botas na ponta da madeira que a sustentava. Lembrei-me das minhas botas, esperando-me ansiosamente nos correios de Santiago. Agora era uma questão de honra! Eu tinha que chegar lá para resgatar aquelas que um dia, foram meu maior incentivo para fazê-lo. Lembrei da peregrinação às lojas de calçados, das pesquisas de preço e a compra da bota ideal, que me acompanharia nessa doce loucura. Foi paixão à primeira vista. Até dei um nome para ela: Kimberly. Meio americanizado, mas era o mais próximo do nome da marca. Minha mochila era a Tika. Seríamos três mulheres no Caminho de Santiago, mas fui traída por Kimberly, que pegou muito no meu pé. Tive que substituí-la por um tênis, que apelidei de Pluma, mais um trocadilho com o nome da marca, que ao mesmo tempo dava a idéia de ser muito leve. Loucuras da minha cabeça! Delírios...




Enfim cruzei a entrada de Rabanal. Um pueblo medieval muito simpático. Havia dois albergues. Por sorte escolhi o Gaucelmo. Era lindo! Bem ao lado da igrejinha local. Um casal de holandeses muito alegre recepcionou-me. Eu era a peregrina de número 4.999 a ficar lá naquele ano. Um peregrino venezuelano, que estava fazendo o Caminho pela quarta vez, recebeu a medalhinha do peregrino de número 5.000. Foi uma festa! Tinha uma planilha na parede com a quantidade de peregrinos de cada país. Nós brasileiros ocupávamos o quarto lugar, atrás apenas dos espanhóis, dos franceses e dos italianos. Uma bela colocação para um povo que vive do outro lado do mundo. Logo, o hospitaleiro informou-me sobre os horários e normas do albergue. O que me deixou mais feliz foi saber que às 7:00h, um belo café da manhã seria servido a todos os peregrinos. Para variar, estava sempre pensando em comida!


Tomei um banho maravilhoso e fui jantar em um restaurante perto dali. Senti-me mais uma vez, em um filme antigo, comendo e bebendo naquela taberna, toda em pedra, escura e aconchegante. Imaginei até a trilha sonora. Um violão ou coisa parecida, as pessoas cantando e dançando em torno dele, batendo palmas alegremente. Para que meu “filme” parecesse mais verdadeiro, comi como louca. Só faltou ter devorado as coxas de galinha com as mãos e limpá-las na própria roupa.




O próximo passo era descansar bastante para, no dia seguinte, chegar bem à Cruz de Ferro. É um dos pontos mais especiais de toda a rota, e um dos mais altos também. Está situada a 1.504 metros de altitude. Só perde para uma antena de comunicações, que fica logo depois. Dizem que a Cruz de Ferro foi instalada em cima de um altar romano dedicado a Mercúrio, Deus dos caminhos. Coincidência ou não, Mercúrio é o planeta regente do meu signo solar, Virgem. Na manhã seguinte eu estaria reverenciando o deus do meu signo e também depositando ali todas as pedrinhas que porventura tenham atravessado os caminhos da minha vida.


RELATO DE 2015, NO LINK ABAIXO:
http://www.tiencamino.com.br/2016/04/18102015-de-astorga-rabanal.html

quinta-feira, 8 de maio de 2008

AS BELEZAS DO CAMINHO - 11º DIA


DESFILE DE PÁSCOA EM LEÓN

Entrei num albergue comum. Queria experimentar dormir num lugar sem peregrinos, conhecer pessoas novas, bater um papo diferente. Apesar da Páscoa, o albergue estava vazio e eu era a única peregrina do dia. Me colocaram num quarto especial, com todo o conforto. O banho era bem quente e a água farta. Troquei de roupa e fui conhecer a cidade. Era linda! Sua catedral era a mais bonita até então. A cidade estava repleta de gente e havia um desfile de Páscoa. Na volta ao albergue resolvi parar em um restaurante chinês. Me presenteei com um jantar bem chique! Afinal de contas, estava renascendo uma nova Tilara. Fechei minha noite com chave de ouro, com uma boa noite de sono e comecei meu dia com um maravilhoso café da manhã. Pronta para uma nova etapa no Caminho e na vida, reiniciei minha caminhada rumo a Santiago. A cidade de León era meu novo ponto de partida, como se o Caminho estivesse começando ali. Sem culpas e sem pressa. Tinha toda uma vida pela frente. Aprendi a aceitar melhor os momentos de solidão e estava gostando de conviver comigo mesma a cada passo, cada dia. Conseguia perceber melhor meu corpo e minha alma. Não havia máscaras. Era a versão mais verdadeira de mim mesma. Uma Tilara que eu desconhecia.



CATEDRAL DE LEÓN


A saída da cidade era longa, feia e vazia. Passei por bairros de periferia sem nada de interessante a oferecer. Mesmo assim, ainda consegui ver beleza nas pedras e na poeira da estrada. Nas coisas mais simples estava toda a essência do Caminho: nos acenos dos pedestres, nas buzinas dos motoristas, no gesto de incentivo daquelas pessoas, em cada etapa vencida, cada quilômetro andado. A mochila, os amigos do Caminho, o saco de dormir, os roncos, as dores; tudo me levava a ver a vida por um ângulo diferente, enchendo-me de satisfação.

Cheguei à Villadangos del Paramo bem cedo. Já haviam peregrinos deitados no gramado em frente ao albergue. Eram pessoas que eu ainda não tinha encontrado no Caminho. Seriam meus novos companheiros desde Burgos. Quanto ao albergue, não precisava ter chegado em um lugar tão feio e sujo. Foi o que estragou um pouco o meu dia. A hospitaleira nos recebeu rudemente. Cobrou-nos a “diária” e foi embora. Tudo estava conspirando para que eu mudasse de humor, mas a alegria era a minha marca registrada. Nem mesmo a falta de água quente, o pêlo branco misturado aos de tom marrom em minha sobrancelha ou o novo apelo aos lencinhos umedecidos deixavam-me chateada. Um banho a menos... um pêlo a mais... O importante era o reencontro comigo mesma.

Comprei pão, leite e café numa tenda próxima, mas esqueci o açúcar. O único jeito era ir até a casa da hospitaleira. Imaginei que ela me cobraria cada grão, mas acabei descobrindo que ela era uma mulher bondosa, porém triste. Não parecia a mesma pessoa que nos recepcionou. Contou-me que o marido era aposentado e vivia conversando com os amigos na rua. Seus filhos estavam casados e moravam em outra cidade. O albergue era sua única distração e os peregrinos, sua única companhia. No fundo, era uma mulher solitária e ao me ver, convidou-me para um chá. Quando percebi, tinha passado o resto da tarde divertindo-me bastante ouvindo suas histórias. Agradeci a Deus por ter esquecido de comprar o bendito açúcar, só assim pude notar que ainda tinha muito a aprender.

Apesar de pernoitar em um albergue cheio de problemas, tive um sono tranqüilo. Acordei bem cedinho e já coloquei o pé na estrada. Eu me prometera andar só 15 ou 16 km, dormir em alguma cidade que ficasse entre Villandangos e Astorga, pois essa distância era de mais ou menos 32 km. Achei que não agüentaria, ou talvez, não quisesse agüentar percorrê-la. Costumamos subestimar nossa força e eu o fiz naquele dia. Antes mesmo de chegar ao final da etapa, já estava convencida de que não conseguiria vencê-la. O engraçado, é que eu nunca havia me dado conta de que estava sempre duvidando de mim mesma. Já estava enraizado no subconsciente. Eu tinha arranjado um monte de desculpas para mascarar o medo de não conseguir vencer a etapa, mas meu corpo me traiu. Conforme ia avançando, percebi que queria mais e mais, tanto que andei 15 km em apenas três horas! Muito rápido, se comparado à minha média dos dias anteriores. Ainda eram dez da manhã, quando cheguei em Hospital de Órbigo, metade do percurso. Era mais uma lição do Caminho.

Era um pueblo lindo! Na entrada, havia uma ponte medieval, talvez a mais bonita de todo o Caminho. Essa ponte era especial e foi cenário de mais uma lenda:
“Dom Suero de Quiñones, desafiou para um torneio, todo e qualquer homem que quisesse passar por aquela ponte, devido à palavra que deu à uma dama. Durante um mês, Dom Suero e nove ajudantes lutaram contra 300 homens. Depois de terminada a luta, peregrinaram todos juntos a Santiago, para agradecer a vitória. Dom Suero ofereceu um bracelete de ouro de sua amada como oferenda ao Santo”. Ah, o amor...

Depois de passar por um lugar tão especialmente romântico, pensei em quanto gostaria de poder ter vivido uma história de amor e honra como aquela. Inspirada em minhas músicas, atravessei várias plantações de milho em um ritmo alucinante, imaginando-me uma personagem daquela lenda. Sou uma pessoa sonhadora. Eu poderia ter sido um dos guerreiros de Dom Suero ou até mesmo a mulher que ele amava tanto. Ia imaginando as cenas, tentando descobrir o que levava um homem a arriscar a própria vida em nome de um grande amor. Alguma vez já lhe ocorreu poder viver uma história como essa? Talvez sim! Eu sempre tenho essas idéias malucas, principalmente quando saio de uma sessão de cinema. Às vezes, demoro um pouco para voltar à realidade. Fico sonhando com um final feliz para minha vida, uma música romântica embalando minhas paixões e no final, subindo na tela, os nomes das pessoas que fizeram parte da minha história. Exatamente como nos filmes! Às vezes acho que sou maluca! No duro!

Depois de algumas horas, finalmente cheguei a Astorga. Fui carinhosamente recebida por Jus, o hospitaleiro. Ele parecia ter algum tipo de deficiência nas pernas e mãos, mas mesmo com suas dificuldades, levou-me para conhecer sua cidade, sua gente, a Igreja e sua fé. Falava-me de tudo com muito orgulho! Gosto quando as pessoas têm prazer em falar das suas origens. Quando me abraçam carinhosamente, sem preconceito e sem esperar nada em troca. Passeamos um pouco pela cidade. Conheci lugares fabulosos, inclusive um palácio episcopal, projetado por Gaudi[1] que abriga hoje um Museu do Caminho. Visitamos também a Catedral de Santa Maria, que demorou 300 anos para ser construída. Suas torres podem ser vistas à distância. Enfim, eu não sabia se estava mais feliz por conhecer uma pessoa linda como Jus ou pela oportunidade de admirar aquelas maravilhas.

PALÁCIO EPISCOPAL PROJETADO POR GAUDÍ.





MENSAGEM DO CAMINHO:
"PEREGRINO,
QUE O CANSAÇO DO CAMINHO NUNCA TE IMPEÇA DE PENSAR. O MAIS IMPORTANTE É A META?
NÃO SERÁ, ACASO, O ENCONTRO COM O MONTE, O RIO, COM O RUMO QUE PERDESTES...
...COM O MESMO DEUS QUIÇÁ?"

[1] Gaudi – famoso arquiteto espanhol, criador de obras geniais, como a Igreja da Sagrada Família, Casa Millá (La Pedrera), Parque Güel ( todas em Barcelona ), entre outras.

O CAMINHO DE 2015, COMEÇA AQUI:

http://www.tiencamino.com.br/2016/04/17102015-chegada-astorga-e-o-encontro.html

A MORTE, O PERDÃO E A RESSURREIÇÃO


ALBERGUE DE BURGOS



Burgos. Fui a primeira a deixar o albergue. Saí sem comer nada, andei meio sem rumo em direção à cidade. Era uma manhã diferente. Havia algo estranho no ar, mas nada mais me amedrontava. Continuei caminhando, ainda meio sem rumo, para o lado oposto do Caminho. Estava sendo levada para aquela direção. De repente, ouvi uma voz chamando meu nome. Olhei em volta e não vi ninguém. A voz continuava chamando e era cada vez mais forte. Procurei de novo e nada. Até que senti uma tontura, um arrepio, tudo rodou e caí. Ainda ouvi o som das pessoas aglomerando-se para me ajudar. Fiquei desacordada por muito tempo. Perdi o contato com o mundo e uma sensação de paz invadiu meu corpo. Imaginei ter tido um ataque fulminante do coração e alegrava-me a idéia da morte ser tão tranqüila. Então, ouvi a mesma voz chamando-me de novo. Voltei a sentir o corpo. Estava leve como uma pluma. Aos poucos, fui despertando e abri os olhos. Para minha surpresa, dei de cara com um campo infinitamente florido. O céu era de um azul muito claro, mas de intensidade forte. Meus sentidos estavam mais aguçados que o normal. Ouvia com mais facilidade e via tudo com mais cor. Meu corpo parecia bailar no ar. Meus pés não tocavam o chão. Ouvi mais uma vez aquela voz chamando-me. Olhei para trás e vi Tuiv.


Tuiv era o nome que eu dava para meu anjo protetor dos joelhos. Quando criança, toda vez que precisava correr, eu punha as mãos no joelho e dizia:
— “Tuiv, meu anjo protetor dos joelhos, faz eu correr mais rápido que um cometa! Em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo. Amém.”
E lá ia eu, cortando o espaço! Às vezes, antes de dormir, eu colocava uma música e ficava dançando no escuro do quarto com meus amigos imaginários. Eram todos anjos. E agora Tuiv estava ali ao meu lado. Não era uma criatura humana, mas sim um vulto, uma luz. Dentro de mim, sabia que era ele. Tantas vezes senti sua força! Senti meu corpo sendo abraçado, tomado por ele. Tornei-me tão grande e forte que pude ver o mundo lá de cima. E na velocidade do pensamento, voei. Era um cometa finalmente! Voei por sobre montanhas e desertos. Atravessei oceanos. A rapidez dos movimentos me fascinava. Tuiv começou a explicar-me o motivo de sua vinda. Trazia consigo minhas culpas e mágoas do passado, conseqüentes de coisas mal resolvidas, inacabadas. Algumas delas, ficaram tão enraizadas em meu interior, que fui incapaz de lembrá-las. E a vinda de Tuiv era a chance de resolvê-las.


Fomos viajando por lugares e momentos importantes da minha vida, onde ficaram os ressentimentos. Aterrissei em uma casa onde morava quando tinha dois anos apenas. Ficava em Pelotas, Rio Grande do Sul, terra natal da dos meus pais. Fiquei intrigada com a riqueza de detalhes dessa época, sempre presentes na minha memória e nos meus sonhos. A entrada da casa, o corredor, o quartinho onde ficava o berço do meu irmão recém-nascido. Lá estava eu, ajudando minha mãe a cuidar do bebê. Como eu ainda era muito pequena e fraquinha, ela nunca me deixava carregá-lo no colo. Com toda razão! Esse foi o motivo de uma de minhas culpas. Eu o peguei no colo, escondida da minha mãe, e ele caiu no chão. O pior foi que, mesmo com a queda, aquela criança, gordinha e calma, continuou calada. Foi como se ele estivesse acobertando meu erro, cúmplice da besteira que fiz. Acabei não sendo castigada por minha mãe, porque ela nunca soube o que aconteceu ali. O peso na consciência foi o maior castigo que eu poderia ter tido. Tuiv perguntou-me se eu estava arrependida. Respondi que sim.
— “Se estás arrependida do fundo do seu coração, então estás perdoada. Perdoe-se!”
Mais à frente lembrei da minha avó. Ela me escrevia cartas mesmo quando ainda estava no útero da minha mãe. Tenho todas essas cartas guardadas. Quando comecei a escrever, minha maior diversão era mandar cartas para ela. E quando chegava aquele envelope branquinho, com listras verdes e amarelas na borda, endereçados a mim, era a maior felicidade! Conforme os anos se passaram, fui descobrindo outras coisas na vida e deixei as cartas de lado. Ainda lembro dela falando que estava triste porque eu não escrevia com a mesma freqüência de antes. Era a mais pura verdade! E hoje, arrependo-me de tê-la deixado tão sozinha. Fiquei pensando no tempo que perdi, sem compartilhar com ela as alegrias de minha vida.


E fomos voando para outros lugares. Aterrissei em um estúdio de TV. Estava fazendo um teste para um comercial de refrigerante. Havia muitas crianças. Eu estava dentro do perfil que procuravam para o trabalho. Estava fascinada com tudo! As pessoas correndo de um lado para outro, as luzes, as câmeras. Quando chamaram meu nome, senti um frio na barriga. Entrei para o estúdio e gravei uma, duas, dezenas de vezes. Pude notar que gostavam da minha atuação. Fui aprovada na hora! Fizeram-me esperar um pouco, pois queriam gravar o comercial naquele momento. Era minha primeira grande conquista! Demorou um pouco até começarmos a filmagem. Já havia feito umas três vezes a mesma cena, quando adentrou o estúdio uma famosa atriz e sua filha. Depois disso, ouvi minha mãe chamar-me para irmos embora. Ela estava nervosa e revoltada. Em minha cabeça tudo estava confuso. Continuava feliz com tudo o que tinha acontecido e não havia me dado conta da real situação. Um dia, perguntei a ela porque tinha saído do estúdio tão chateada. A realidade caiu sobre mim como uma bomba! A tal menina, filha de pais influentes, havia roubado minha cena. Foi difícil admitir que fui aprovada no teste e tive que abandonar a filmagem, por causa de uma indicação.

Os anos se passaram e surgiu um teste para um programa de televisão. Fui aprovada! O medo da rejeição, que eu havia experimentado quando pequena, foi vencido. Cheguei em casa com o contrato para minha mãe assinar. Ela nem sabia do teste e ficou surpresa. Eu tinha apenas treze anos. Foi essa a maneira que encontrei de superar o episódio vivido ainda criança e dizer:
— “Consegui! E sem a ajuda de ninguém! Sou boa mesmo!”
Precisava provar para mim mesma que era capaz. Envolvi-me naquele meio tão diferente, cheio de vaidades. Era um trabalho duro, sem hora para acabar. Muitas vezes voltei para casa sozinha, de ônibus, morrendo de medo, mas feliz! Dizia para minha mãe que voltava de carona. Tinha pena de acordá-la no meio da madrugada para buscar-me. Eu era a mais nova de todos do elenco e fui muito bem acolhida. Trabalhei neste programa durante cinco anos. Pude ver as múltiplas faces do mundo artístico. Aprendi muito e também tive decepções. O trabalho, a separação dos meus pais, a falta de grana, a árdua tarefa de ajudar minha mãe e ainda, servir de exemplo aos meus irmãos menores, fizeram-me amadurecer muito rápido. Foi uma época com os pés fincados no chão e a cabeça nas nuvens. E com a velocidade de um cometa, deixei a infância e a adolescência.


Ouvi a voz de Tuiv chamando-me de volta ao Caminho. Antes de tudo, disse-me que eu teria que fazer um exercício de perdão. Refletir esses acontecimentos e identificar todas as pessoas que, de alguma forma, fizeram-me sofrer e então, perdoá-las. E acima de tudo, perdoar a mim mesma. Deveria aceitar minhas condições de ser humano imperfeito e tirar de minhas costas, toda e qualquer idéia de culpa. Eu não era a salvadora do mundo. Meus limites deveriam ser respeitados! Levou-me para o campo florido, onde passei dias e noites meditando isolada. Tuiv abraçou-me com suas asas e disse-me:
— “Chore, ponha para fora todos esses ressentimentos. Você não precisa provar nada para ninguém e também não tem a obrigação de consertar o mundo. Livre-se desse peso. Ele não é seu, nunca foi! Perdoe-se e perdoe sua família. Só assim uma nova vida surgirá para você!”
Quando já estava com tudo resolvido no fundo de minha alma, adormeci. Estava pronta para voltar com ele para o Caminho...


Senti meu corpo pesado novamente e comecei a despertar. Abri os olhos e havia um homem ao meu lado. Estava dentro de um carro. Perguntou-me se eu estava bem e o que havia acontecido. Disse-lhe que havia desmaiado na saída do albergue em Burgos e passado muitos dias em um lugar florido e isolado. Olhou-me com estranheza e falou:
— “Impossível! Eu vi quando você desmaiou. Você acordou com o olhar distante, falando León, León o tempo todo. Você agarrou o meu braço e falou de novo o mesmo nome León. Foi aí que achei que você queria ajuda para chegar até aqui. Desde então, você não falou mais nada. Entrou no carro, quase em transe. Durante toda a viagem permaneceu de olhos arregalados e fixos, sem falar mais.”
Fiquei sem reação! O que havia acontecido? Quem seria aquele homem ao meu lado falando absurdos? Olhei em volta e vi a placa: albergue de León. O homem ajudou-me a sair do carro, pois estava em estado de choque! Não podia acreditar no que me havia acontecido!


O bom homem perguntou-me se eu queria ir até um hospital. Eu disse que não, já estava mais calma. Como agradecimento, convidei-o para um café. Contei-lhe o que lembrava antes do desmaio e tudo sobre a viagem com meu anjo. Aquele homem olhava-me com ar de serenidade e paz. Sua voz era doce e sua aparência familiar. Despedimos-nos com um abraço caloroso e demorado e cada um seguiu para seu lado. Lembrei-me então, de que eu ainda não sabia seu nome. Quando virei-me para chamá-lo, ele ainda estava lá, parado, olhando para mim. Sorriu e perguntou-me:
— “Qual é o seu nome?”
— “Tilara” - respondi. — “E o seu?”
— “Muito bonito o seu nome Tilara! O meu é Tuiv.”

quarta-feira, 7 de maio de 2008

LONGO TRAJETO, DESPEDIDAS E ABRAÇOS - 10º DIA

Como bons boêmios que éramos, ficamos rolando na cama e levantamos fora do horário “normal” dos demais peregrinos. Foi uma manhã atípica. Três integrantes do grupo voltariam para casa e quase todo o restante andaria só até Burgos. Geralmente, os europeus aproveitam os feriados prolongados e fazem o Caminho por partes. Nós brasileiros temos que fazê-lo de uma só vez porque, além de longe, ficaria muito caro embarcar para a Europa mais de uma vez ao ano. Senti uma ponta de tristeza. Deixar os amigos para trás é sempre difícil. Pensar no restante da viagem era desanimador, mas a dificuldade de vencer os quase trinta quilômetros do dia, me fez esquecer um pouco a despedida.


Foram algumas horas caminhando por uma trilha que cortava uma floresta, até encontrarmos um lindo platô, todo gramado, de onde podíamos admirar a paisagem lá embaixo. Juan Andrés levou um rádio, onde ouvia uma música que me pareceu perfeita para a imagem que vi naquele momento. Vários peregrinos marchando em paz pelos campos, ao som de “Age of Aquarius”, tema do filme Hair. A música no ar e aquela imagem diante dos meus olhos, me fizeram sentir que o mundo poderia transformar-se em um lugar melhor, bastando apenas um pouco de boa vontade de cada um. Totalmente envolvida por aquela atmosfera, continuei meu caminho bailando ao som da música que inspirou uma geração de sonhadores como eu. E meu sonho se tornava cada vez mais real, me fazendo descobrir que os sonhos são feitos para serem vividos e que eu não devia nunca parar de lutar pelo que quero.


Age of Aquarius

Descemos em direção ao pueblo de Atapuerca. Sabia que ao final do dia alguns peregrinos terminariam sua jornada e seria improvável encontrar alguém do grupo novamente. Por isso, desfrutei de cada palavra, cada gesto, cada ato de amor e carinho de todos. Tentei corresponder ao máximo e tenho certeza de que consegui deixar um pedacinho de mim dentro de todos aqueles corações. Consegui separar o companheirismo da dependência, pois via a diferença das duas coisas. Simplesmente, voltei à primeira lição do Caminho: respeito.
Almas gêmeas

Do lindo campo para a feia entrada de Burgos. Nos sonhos também existe feiúra. Só assim podemos contemplar a beleza que eles nos trazem. De lá até o albergue seriam 9 exaustivos quilômetros. Uma eternidade! Paramos num restaurante logo no início da parte industrial da cidade. Estavam todos famintos, menos eu. Senti uma saudade incontrolável da minha família, o que justificava minha falta de apetite. Fico assim toda vez que estou um pouco nostálgica. Enquanto os outros sentaram-se para almoçar, corri para o telefone. Queria simplesmente ouvir a voz deles, saber como estavam as coisas. Não sabia o que dizer e não queria falar sobre o Caminho. É estranho, mas parecia que eu estava em uma prisão. De alguma forma, ficamos presos naquele mundo, sem notícias do que está se passando com as pessoas mais ligadas a nós. Despir-se do mundo real e entrar na utopia do Caminho não é uma tarefa fácil. Talvez por isso, o retorno seja tão difícil, porque acordamos do sonho bom e somos jogados de volta à realidade. Por isso, quem faz o Caminho, nunca conseguirá voltar a ser a mesma pessoa.


De volta ao sonho, depois de ter matado a saudade da família, juntei-me ao grupo a tempo de acompanhá-los no cafézinho. Desculpei-me pela ausência e expliquei tudo o que estava sentindo. Todos compreenderam o que se passava e aceitaram minhas desculpas. Saímos do restaurante e continuamos pela avenida, até que finalmente alcançamos a cidade. A sinalização era ruim, não havia setas ou placas, mas fomos perguntando a um e outro e conseguimos chegar até a Catedral. Afinal, “quem tem boca vai à Roma” e porque não à Burgos?!


Era Páscoa e a cidade estava repleta. Pessoas bonitas e bem vestidas, mas um pouco fechadas. Apesar de Burgos fazer parte do trajeto a Santiago, senti um preconceito grande no ar. Desdenhavam de nós peregrinos, como se fôssemos mendigos ou loucos. O Caminho encontrava o caos urbano. E como comportar-se diante do “mundo real” novamente? Como passear pela cidade grande, sem pensar em fazer compras, conhecer os lugares turísticos ou deixar-se contagiar pela energia estressante? Foi um grande choque para mim! Não sabia como enfrentar os olhares, os comentários e a desconfiança daquele povo.


Fazia muito frio e achei que precisava comprar um agasalho. Em frente à Catedral havia várias lojas de souvenirs. Escolhi uma e entrei. Fiquei muito indecisa, pois os preços eram salgados. Dei várias voltas entre as prateleiras, sem notar que estava sendo observada. Um segurança estava olhando para mim, como se eu fosse roubar alguma coisa a qualquer momento. Não dei importância para ele e continuei procurando meu agasalho. De repente, ele aproximou-se e disse-me:
— “Olha, se você não for comprar nada, vá embora logo, pois sua mochila está ocupando a passagem e atrapalhando os vendedores!”
— “Eu não quero atrapalhar senhor, mas estou escolhendo uma blusa para comprar.” — respondi.
— “Você não parece ter dinheiro suficiente para comprar nada nesta loja. Acompanhe-me até a porta.” — disse o brutamontes mal-encarado.
Senti-me ofendida com aquilo! Como aquele homem poderia desconfiar logo de um peregrino. Éramos a essência de toda a história da cidade. Fiquei calada por alguns segundos, até que a indignação deu lugar ao sangue latino e respondi-lhe à altura:
— “O senhor tem toda razão. Eu não tenho mesmo dinheiro para gastar neste estabelecimento. O que se vende aqui é de qualidade muito inferior ao que estou acostumada a vestir. Acho que devo retirar-me e comprar algo melhor em outra loja.”
Então virei as costas e saí, de cabeça erguida. Entrei na loja ao lado e comprei um casaco bem bonito. Pensei em voltar na loja e mostrá-lo ao segurança, mas achei que não valia a pena perder meu precioso tempo.

Na Praça dem Burgos: eu, Fresia e Juan Andrés

Segui até a praça da Catedral e reencontrei meus amigos. Era a vez de Fresia e Juan Andrés terminarem seus Caminhos ali. Mais uma despedida. São tantas no Caminho, assim como na vida. Alguns se vão, outros ficam e tantos outros ainda fariam parte da família peregrina. Foi muito triste, mas tive a certeza de que sempre teria o apoio e a amizade verdadeira de todos que estavam ali e se algum dia eu precisasse de um teto, um ombro para chorar, alguém para compartilhar os bons e maus momentos da vida, esses amigos sem dúvida estariam prontos a ajudar-me. Depois dos abraços, os que restaram do grupo ficaram olhando Fresia e Juan Andrés sumirem na multidão. Meu consolo era saber que poderia vê-los depois do Caminho, em Madri.


Ainda estávamos reunidos, quando um peregrino chegou com más notícias. Havia um boato de que o albergue estava lotado desde o dia anterior. O que faríamos? Os hotéis também estavam cheios e eu não tinha mais forças para chegar até a próxima cidade. Juntei-me a Mari José e seu marido à procura de uma pensão. Rodamos a cidade toda e nada! Quando estávamos quase desistindo, encontramos uma vizinha do casal. Não acreditei no que estava acontecendo! A cidade estava lotada e mesmo assim a encontramos? E a parte boa da história: ela tinha um apartamento vazio perto dali! Fez questão de nos emprestar. Melhor impossível! Justamente quando não tínhamos mais esperança, surgiu diante de nós, como um anjo caído do céu, aquela senhora bondosa, oferecendo-nos um teto. Coisas do Caminho...


Foi o banho mais gostoso, demorado e quente do Caminho. Sem a preocupação de deixar água quente para os outros peregrinos. Xampu, sabonete, perfume... Aproveitei também, para depilar-me, pois já parecia uma mulher das cavernas! Nunca agradeci tanto a Deus por um banho, porque na noite anterior eu havia apelado para os lencinhos umedecidos. Banho tomado, era hora de estrear o casaco novo e pronto! Estava produzida para a grande noite de Páscoa! Fomos a um restaurante super chique, pedimos um bom vinho, comemos peixe, torta de Santiago e tudo que tínhamos direito.


Ao acordar, resolvi que ficaria em Burgos mais um dia. Seria o meu dia de folga do Caminho. Meus últimos amigos, Mari José e o marido, despediram-se de mim durante o café da manhã. Lá estava eu, sozinha novamente. Me senti perdida, sem saber o que fazer. Sentei no banco da praça e fiquei admirando a Catedral. Sem perceber, passei o dia todo ali, escrevendo no meu bloquinho, tomando sorvete, tirando fotos e conversando com os idosos. Já era hora da siesta quando avistei alguns peregrinos chegando. Vi que um deles era brasileiro, pela bandeirinha costurada à roupa, e vinha acompanhando a Mônica, uma peregrina que conheci no primeiro dia, ainda em Roncesvalles. Mais uma vez foi aquela alegria! Notícias do Calixto e novidades de cada um. O tal brasileiro era um famoso mineiro, muito simpático, de quem todos falavam: Emerson. Uma graça de pessoa. Da Catedral, seguimos juntos para o albergue. A recepção foi ainda mais calorosa, pois a hospitaleira era brasileira também. Maria havia deixado tudo e todos no Brasil para dedicar sua vida aos peregrinos. A meu ver, um ato de muita coragem, porque eu não deixaria minha vida para ficar no Caminho. Pelo menos era isso que eu pensava naquele momento.


Comecei a sentir muito frio e percebi que estava com febre. Tomei um antitérmico, mas ela não baixava, então resolvi fazer uma “visita” ao hospital mais próximo. Fui muito bem atendida, mesmo tendo chegado depois do horário marcado para nós peregrinos. Era um hospital militar, muito limpo e bonito. Fiquei um pouco preocupada quando o médico disse-me que eu estava com uma gripe muito forte, que se mal curada, poderia transformar-se em pneumonia. Aconselhou-me a repousar por dois dias e só depois que a febre baixasse eu poderia seguir caminho. Fui medicada e voltei para o albergue.


A noite ainda reservava mais surpresas. Conforme foram chegando os peregrinos, encontrei meu amigo Björn. Mais tarde, foi a vez do David, um inglês que conheci em Los Arcos. Logo depois, chegou Cecília, uma peregrina escocesa que conheci em Cizur, quando eu ainda estava acompanhada do meu amigo Chico. Quando achei que estaria sozinha de novo, mais amigos vieram ao meu encontro. Eram os reencontros do Caminho!


Fui jantar em um restaurante perto dali, onde encontrei David e Cecília. Sentei-me com eles e compartilhamos nossas experiências. Para o David era difícil entender nosso jeito extrovertido de ser e da facilidade que temos em abraçar o próximo. No fundo, ele queria ser como nós, mas sua educação foi diferente, bastante fria e distante. Disse-me que conheceu muitas pessoas especiais no Caminho, mas queria aprender a exteriorizar seus sentimentos. Realmente, deve ser difícil não conseguir demonstrar o que sente com a mesma naturalidade que nós brasileiros. Agradeci a Deus por fazer parte desse povo feliz, simples, alegre, amoroso e patriota! Sim, patriota! As maiores demonstrações de patriotismo que encontrei no Caminho, vieram dos brasileiros que conheci. Odair, um peregrino de São Paulo, costurou uma bandeira brasileira na mochila; Calixto pendurou uma bandeira no cajado; eu andava com um chapéu do Brasil (que ganhei de presente, de “livre e espontânea pressão” do meu melhor amigo – Alex) e nos cadernos de mensagens, a bandeira mais desenhada era a nossa. O Caminho estava coberto de brasilidade! E viva o Brasil!!!



Na saída do restaurante, dei um forte abraço no David, deixando-o envergonhado. Disse-lhe que se quisesse aprender a exteriorizar os sentimentos, deveria aprender a abraçar as pessoas com mais freqüência. Chegando ao albergue, ele me retribuiu o abraço, desejando-me uma boa noite.

terça-feira, 6 de maio de 2008

Bumbum de “bebêbada” - 9º DIA


Saindo de Belorado

Acordamos todos bem cedo. Carla e eu distribuímos os sanduíches. Sabíamos que seria um dia muito puxado, cheio de subidas e sem lugares onde pudéssemos comprar comida ou descansar. Fiquei feliz em poder retribuir os jantares com os singelos lanches que havíamos preparado. Seria uma grande ajuda! Guardamos nossos sanduíches na mochila e partimos.


Era o mesmo grupo do dia anterior: Carla, Fresia, o menino Juan Andrés e eu. Os outros seguiram na frente. O dia estava bonito, mas, como sempre, o tempo por lá era imprevisível. E mais uma vez, a chuva nos pegou de surpresa! A cada momento, éramos colocados à prova. Chuva, barro, frio, sol forte, horas a fio sem comer, subidas horrorosas... Fomos em frente, persistentes! Paramos enfim, depois de muitas horas de uma longa e difícil caminhada. Conseguimos achar um bar recém aberto ao longo da jornada. Incrível como o caminho havia mudado de um ano para o outro! Os bares parecem brotar da terra já prevendo o lucro certo. Tiramos os sapatos e sentamos confortavelmente. Sem que percebêssemos, um cheiro horroroso foi tomando conta do lugar. Parecia queijo estragado. Depois de algum tempo reclamando e tentando descobrir de onde vinha o mau cheiro, Juan Andrés falou baixinho em meu ouvido:
- “Acho que esse cheiro está vindo dos nossos pés”.
Soltei uma indiscreta gargalhada. Ele estava certo. Nossos pés estavam realmente fedidos. Era uma mistura de chulé e suor insuportáveis. Resolvemos calçar os sapatos e sair de fininho para que ninguém percebesse que éramos os responsáveis pelo “quase-homicídio” por asfixia de todo o pessoal presente no bar. Mesmo que ninguém tivesse notado a “poluição”, minha cara delatou a culpa: mais vermelha que ela, só mesmo uma Ferrari.


Enquanto seguíamos, conversando alegremente, uma cobra passou rente ao meu pé. Carla disse-me que as cobras simbolizam a sabedoria. Tudo que sempre li sobre a simbologia das cobras, dizia exatamente o contrário, mas preferi ver o lado positivo e acreditar que pudessem representar realmente a sabedoria. E porque não? De vez em quando, precisamos de um estímulo externo para acreditar e lutar por certas coisas. Eu buscava justamente isso: sabedoria para uma vida mais serena. Apostei no que ela me dizia e sabia que chegaria o momento de mudar e tomar rumos diferentes em minha vida. E a sabedoria viria trazendo tranqüilidade para enfrentar os obstáculos que me seriam impostos. Mesmo assim, rezei para não encontrar a progenitora da pequena cobrinha. Não era bom arriscar tanto...

Ermita Virgen La Peña

Enfrentamos uma subida muito íngreme. Lembrei-me da mensagem, encontrada em um caderno de albergue, que dizia para termos uma atitude diferente diante da dor. Nada mais me pareceu tão difícil, justamente por não estar mais preocupada com os obstáculos que estavam por vir. Teria que superá-los de qualquer forma. Então, para quê a ansiedade? Tudo ficava tão mais simples quando tínhamos serenidade, paz, alegria. Deixar as dificuldades nos vencerem antes mesmo de enfrentá-las, definitivamente não era a melhor forma de viver a vida. O aprendizado do Caminho está exatamente nisso: simplesmente viver a vida, da melhor forma possível, sem se preocupar com o amanhã. Às vezes, ficamos tão cegos que não nos é possível enxergar a melhor saída, por isso, o melhor mesmo era confiar no destino e viver o presente. Era isso o que eu mais precisava aprender! Talvez esse tenha sido um dos maiores motivos da minha ida ao Caminho.


Encontramos o Jarc fazendo um pequeno piquenique no topo de uma montanha. Veio em nossa direção com lágrimas nos olhos agradecer o sanduíche que preparamos. Disse-nos que sem ele, teria ficado com fome até o final do dia. Este é o melhor presente que podemos ganhar na vida: a alegria no rosto de alguém que ajudamos! Muitas vezes, fazia algo por alguém, não pelo simples fato de fazer o bem, mas sim, para receber esse sorriso em troca, mesmo ficando incomodada por parecer uma forma de ostentação. Ajudar o próximo também faz bem ao nosso ego! E eu não seria hipócrita em afirmar que não gosto de sentir esse orgulho, pois tudo na vida é uma troca. Importante apenas que seja feita com amor e sem cobranças.


A chuva, que já tinha dado lugar ao sol, veio novamente atrapalhar nosso dia. Parecia estar sempre me perseguindo! O meu maior desejo no Caminho era descansar ao sol, deitada no campo. Nunca consegui! Achei que poderia ficar descansando um pouco no mesmo lugar onde encontrei meu amigo Jarc. Eu tinha acabado de tirar a mochila, estender uma canga em um gramado, sob a sombra de uma grande árvore. Abri o papel que embrulhava o sanduíche e bem na hora que eu ia comer o primeiro pedaço, senti uma gota de chuva enorme caindo no meu rosto. Fiquei sem reação por uns dois segundos, com cara de idiota, pensando se voltava a embrulhar o sanduíche e seguir em frente, ou se continuava comendo, mesmo debaixo de chuva. Como de costume, preferi sucumbir à gula. E assim, comi prazerosamente aquele sanduíche de atum. E estava delicioso! Nunca um sanduíche de atum foi tão gostoso! A verdade era que eu estava faminta e nessas horas qualquer comida é bem-vinda, mesmo com molho de chuva.


Naquele dia, quase todos os peregrinos estavam reclamando de bolhas nos pés. Agradeci a Deus por não ter tido uma bolha sequer até então. Sem esquecer, é claro, de pedir para continuar sem tê-las até Santiago. Já me bastavam as dores nos joelhos! Peguei uma estrada de terra rodeada de árvores altas e muito verdes. Estava feliz, pois sabia que a cidade de San Juan de Ortega estava logo no final desta estrada. Acho que andei por mais de uma hora e a danada da estrada nunca chegava ao fim. Aquilo foi me dando uma irritação danada! Foi quando me perguntei (de novo!) o que estava fazendo ali. Coisa doida! Há poucas horas estava amando o Caminho e, de repente, comecei a achar que tudo aquilo era loucura! Tive vontade de jogar tudo para o alto e passear pelas ruas de Madri, fazer compras, gastar o cartão de crédito até não ter mais limite e viajar pela Europa. Que Caminho, que nada! Coisa mais sem graça passar dificuldade, sofrer de dores nos joelhos e andar o dia inteiro até o corpo pedir socorro! Eu queria o glamour de volta! Onde estavam os holofotes, os maquiadores, as câmeras e a correria do dia a dia? Senti saudade até mesmo da falsidade do mundo da moda, das frases feitas, dos sorrisos hipócritas, seguidos de um:
— “Oi querida! Como você está bonita!”.
Aí era demais! Não podia estar sentindo falta das coisas que mais me irritavam neste mundo! É a mesma coisa que cantar aquela música que você mais odeia, mas nunca sai da sua cabeça! Não estava certo! Eu tinha que fazer alguma coisa para me livrar daqueles pensamentos. Graças a Santiago, encontrei alguns peregrinos logo à frente e puxei conversa para distrair a mente. Em poucos instantes eu já estava integrada novamente ao Caminho.


Quase tive um ataque de riso quando avistei, ao longe, a pequena igreja de San Juan. Sabe quando ficamos tão felizes que o nervosismo toma conta e não nos conseguimos nos controlar? Não sabia se ria ou chorava, enfim, era o fim daquela estrada que parecia interminável! Claro que nem tudo na vida é perfeito. O lugar resumia-se a uma igreja, um albergue, um bar e algumas casinhas que podíamos contar nos dedos das mãos. O refúgio não era nada confortável. Para piorar não havia água quente e estava um frio de rachar! Confesso que enforquei o banho neste dia. Dei uma “disfarçada básica” com as toalhinhas umedecidas. Pode parecer meio porco, mas foi o único jeito que encontrei de fazer a higiene do dia. Senti-me como bumbum de nenê. Literalmente!!!


Como de costume, fui conhecer o povoado e encontrei dois peregrinos brasileiros. Um deles, era o mesmo que conheci no primeiro dia, Harrison. O outro eu já havia encontrado em Cizur Menor. Sentei-me com eles no banquinho da praça em frente ao albergue para comemorar o encontro em verde e amarelo, regado a muito vinho!

Sopa de alho no albergue - no fundo da foto, a peregrina que vos escreve, sob a luz do sol.

Fomos chamados para provar a famosa sopa de alho, preparada pelo Padre José Maria, uma tradição de San Juan de Ortega. A sopa não é nenhum primor da culinária internacional, mas o importante era a reunião dos peregrinos para festejar. O Padre serviu todos, perguntou os nomes e países de cada um. Neste dia, havia pessoas de treze diferentes nacionalidades. Na verdade eram doze, mas o menino Juan Andrés disse que era do Nepal, arrancando gargalhadas dos demais peregrinos. De onde será que ele tirou a idéia de ser nepalês?


A sopa não matou minha fome de leão e fui para o bar com os brasileiros. Depois de me esbaldar, soube que um amigo de um dos peregrinos vinha vindo de Burgos, com comida para todos. Seria também a despedida dos meus amigos franceses Jarc, Emilie e Yolande. Voltei correndo para o refeitório da igreja e fartei-me com os maravilhosos frios, muito vinho e Orujo (um tipo de cachaça). Bebemos tanto, que fomos delicadamente expulsos pelo Padre. Já passavam de dez da noite e estávamos todos ligadíssimos e um pouco “alegres”. Tivemos uns contratempos por conta disso, porque aquele era o primeiro albergue onde tínhamos a companhia de outros peregrinos que não pertenciam ao nosso grupo e ninguém entendia nossa euforia. Naquela noite, os roncos deram lugar às risadas esporádicas de um lado e outro do quarto. Risos quase sem graça, abafados. Sempre acompanhados de um shshshshs...

Yolande, eu e Jarc

A vingança veio a cavalo. Antes mesmo de o sol nascer, os “estranhos” nos acordaram fazendo um barulho infernal com os saquinhos plásticos. Aliás, esse é um assunto interessante. Até hoje não descobri porquê levamos tudo separado em saquinhos plásticos. Uns diziam que é para proteger da chuva, mas havia a capa de chuva; outros diziam que era para separar a roupa suja da roupa limpa, mas, em geral, as mochilas são repletas de compartimentos. Acho que servem mesmo é para acordar os beberrões como nós.

FAMÍLIA PEREGRINA - 8º DIA

O grupo de peregrinos estava andando junto há dois dias e era muito unido e feliz. Haviam se conhecido ali mesmo, no Caminho, e já eram como uma família. Eu e Carla fazíamos parte dela agora. Era uma alegria constante. Cada um andava no seu ritmo, mas todos ficavam sempre atentos a seus companheiros. Sempre marcavam de encontrar-se no pueblo seguinte e ver se estavam todos bem. Saindo de Sto. Domingo, andamos juntos por algum tempo, e depois o grupo foi se separando. Quando cheguei no lugar marcado para a primeira parada, estava ardendo em febre e meus amigos me socorreram. Esperaram até que eu melhorasse um pouco para depois continuar a jornada. Fiquei emocionada com tudo aquilo. Senti-me amparada. Encontrei naquele grupo a força, o companheirismo, o real espírito da peregrinação. E o sonho pareceu-me muito mais colorido, mais vivo.


Um desses peregrinos era um menino de onze anos, chamado Juan Andrés e fazia o Caminho com uma amiga de sua mãe, Fresia. Ela, uma chilena muito politizada, culta e amorosa. Ele, muito calado e distante, mas quando deixava de lado a falsa timidez, mostrava sabedoria em suas frases. Tinha perdido o pai há pouco tempo e sua força me surpreendeu. Dificilmente um garoto da sua idade estaria tão inteiro, diante de uma situação difícil como a morte. Fiquei impressionada ao saber que ele próprio escolhera passar suas férias no Caminho de Santiago. Era realmente um menino especial.


A caminhada até Belorado foi alegre. Conversamos bastante sobre a situação de nossos países e dos motivos de peregrinação de cada um. Fazia sol e ao nosso redor podíamos ver as montanhas cobertas de neve, o que para mim foi uma novidade e tanto! Passando pelos pueblos, comecei a perceber novamente o mundo que estava à minha volta. O Caminho começava a despertar um interesse diferente em mim. Estranho dizer isso, mas deixei-me conhecer muito mais facilmente naquele momento. Com a companhia de gente tão especial, senti-me confortável em dar e receber carinho. Sou uma pessoa um tanto reservada e aprendi a doar-me sem preconceitos, sem desconfiança. A conversa fluía com naturalidade e os idiomas não atrapalhavam. A diversidade de objetivos, o poder, o dinheiro e a individualidade do ser humano, não existiam naquela utopia que estávamos experimentando.


Quando chegamos ao albergue, a hospitaleira nos esperava com uma mesa farta e um sorriso amigo no rosto. Tudo começava a fluir e fazer sentido para mim. Sentia-me à vontade e em família. Os amigos chegando, cheios de alegria, reunindo-se para providenciar um jantar para os demais. Fiquei um pouco constrangida quando não aceitaram minha colaboração. Eu me sentia na obrigação de agradecer todo o carinho e, de certa forma, me redimir da gafe do dia anterior, quando ofereci minha comida esperando que ninguém a aceitasse. Então, propus à Carla que fizéssemos lanches para o dia seguinte. Compramos pão, atum e queijo. Preparamos mais de vinte sanduíches. Embalamos tudo e guardamos na geladeira.


Mais uma vez, o jantar foi uma festa! Uma maravilhosa confraternização. Diego, um peregrino italiano, foi o responsável pela melhor massa que comi em minha vida. Costumes e nacionalidades diferentes interagiam entre si, com uma facilidade incomum. A exemplo da noite anterior, conversamos até tarde. Foi divertidíssimo! Cada um cantou uma música de seu país, contamos piadas e brindamos com muito vinho a felicidade de estarmos ali. Depois, deitei-me e dormi sob a luz do luar, que iluminava minha cama, através da janela.

QUEBRANDO AS REGRAS - 7º DIA

Acordei um pouco triste por deixar meus amigos. Já estava acostumada com os papos do Chico e com a solidariedade de Björn. Talvez não os visse mais, mas apesar de toda a tristeza, sabia que nossa amizade seria eterna. Tomamos um belo café da manhã como despedida. Rimos bastante, Chico e eu, de nossas aventuras pelos bares do Caminho, combinamos de nos vermos de novo quando chegássemos ao Brasil e choramos muito. Engraçado como já éramos tão íntimos! Tinha acabado de conhecê-lo e talvez eu nunca tenha sido tão verdadeira e transparente com alguém como fui com ele. Difícil explicar! Todas aquelas pessoas, especialmente o Chico, compartilharam comigo os momentos mais preciosos da minha vida e tornaram-se parte de mim. Nunca mais conseguirei lembrar de qualquer pedacinho daquele chão, sem lembrar com carinho e emoção de cada peregrino que conheci. Ao mesmo tempo, sentia-me aliviada por estar desabrochando para uma nova etapa. Dali para frente estaria sozinha e teria que reconquistar tudo de novo. Novos amigos, novos lugares, novas experiências. O Caminho é assim! Eternos encontros, desencontros e reencontros. Não podíamos planejar! Só nos restava vivenciar o que nos fora oferecido. E da melhor maneira possível.


O ônibus chegou e, com lágrimas nos olhos, dei um último adeus aos meus amigos e parti. Carla, a peregrina sul-africana foi comigo. Fomos juntas até a cidade de Logroño. De lá, cada uma seguiria seu destino. Eu pegaria outro ônibus até Sto. Domingo de La Calzada, e ela até Nájera. Em Logroño, acompanhei-a aos correios para despacharmos as “coisas supérfluas” que teimavam em permanecer nas nossas mochilas. Ficou tudo mais leve! Nossas mochilas e nossas vidas. Carla tinha muitas bolhas e sentia dores nos tornozelos e resolveu trocar as botas por tênis. Seguimos para uma sapataria, mas chegamos bem na hora da “siesta” e todo o comércio estava fechado. Ainda por cima essa! Tínhamos que nos programar baseadas naquele horário doido! Como não daria tempo de esperar as lojas reabrirem, voltamos para a rodoviária, tomamos um café juntas e nos separamos. Ela agradeceu-me várias vezes por tê-la ajudado. Às vezes, pequenos gestos, que para nós são insignificantes, tornam-se imprescindíveis para outra pessoa.


Cheguei em Sto. Domingo de la Calzada muito feliz e fui recebida com o calor do sol. Aquelas ruas pareciam-me familiares. Sentia-me em casa! Fui andando em direção ao albergue distraidamente, quando tive a sensação de estar sendo observada. Olhei em volta e vi que um homem estava me seguindo. Sua aparência não era nada boa e aquilo me deu medo. Tentei despistá-lo, andando um pouco mais rápido, até que percebi que não adiantava fugir. Tinha que enfrentá-lo! Sabia que não poderia travar uma luta corporal, porque era bem mais fraca que ele. Eu teria que agir com cautela e inteligência. Comecei a rezar e visualizar um desfecho feliz para aquela situação. Parei, olhei para trás, esperei-o vir ao meu encontro e perguntei se poderia ajudá-lo de alguma forma. Encarou-me calado por uns segundos e foi embora. Porque estava me seguindo afinal? Fiquei pensando o que poderia significar tudo aquilo, mas desisti e preferi achar que ele só estava me achando bonitinha.


Cheguei sã e salva ao albergue. Preenchi minha ficha, carimbei minha credencial e subi. Deixei a mochila em cima de uma cama e fui lavar as roupas sujas. Havia um casal lavando suas meias. Mari José e o marido, ambos de Pamplona. Esperei um pouco até que desocupassem o tanque. Disseram-me que a água estava congelando. E estavam certos! Realmente a água estava de matar! Coloquei em prática uma dica dada por um peregrino brasileiro: usar as meias nas mãos, como se fossem luvas para protegê-las do frio. Quem será que teve a feliz idéia de “trocar os pés pelas mãos”? E não é que deu certo?! Os brasileiros são doidos mesmo!


Depois de estender as roupas no varal, fui conhecer a cidade e a famosa Catedral, que curiosamente abriga um galinheiro com um galo e uma galinha em seu interior. Diz a lenda, que um casal de peregrinos alemães, acompanhado de seu filho, hospedou-se na pousada de Sto. Domingo. A criada apaixonou-se pelo rapaz, mas não foi correspondida. Para vingar-se dele, escondeu um objeto de prata entre seus pertences e depois o denunciou como ladrão. Ele foi preso, condenado e enforcado. Aflitos, seus pais, seguiram sua peregrinação até Santiago. Ao voltar, encontraram seu filho saudável e com vida. Foram contar ao corregedor e este não acreditou na história, dizendo: “Seu filho está tão vivo quanto esta galinha que estou comendo.” Naquele momento, a galinha, que estava morta e assada, levantou-se e cantou. Por isso existe uma frase muito conhecida por lá:
— “Sto. Domingo de la Calzada, onde cantou a galinha depois de assada.”
Dizem que quando cantam para você é sinal de sorte. Supersticiosa que sou, fiquei como uma louca dentro daquela igreja, fazendo cocoricós para que cantassem para mim. E os bichinhos nem aí! Parecia que eu era um ser inexistente! Mas não perdi as esperanças! Com canto ou sem canto, eu teria sorte mesmo assim!


Ao voltar para o albergue, tive uma surpresa! Carla estava lá. Disse-me que dormiu no ônibus e passou do ponto. Quando acordou, já estava em Sto. Domingo de la Calzada. Fiquei super feliz! Alguma coisa fez com que nos juntássemos outra vez. Fomos então, tentar comprar seu tênis. Eu a avisei que havia uma lojinha ali perto. Já tinha olhado alguns pares de tênis pensando nela, rezando para que ela encontrasse o melhor sapato e terminasse seu Caminho em paz. E por coincidência, ou não, ela ouviu meu recado. Foi uma verdadeira confusão dentro da loja. Carla falava em inglês, o vendedor não entendia, eu traduzia com meu “portunhol”; o vendedor falava em espanhol e eu tinha que traduzir de volta em “capeinglês” para ela. E põe sapato... E tira sapato... E anda com um... E anda com outro... Horas para escolher! Quase enlouqueci! Enfim, decidiu-se pelo primeiro par de tênis que havia experimentado. Vai entender as mulheres...


Decidimos que não iríamos comer em restaurantes naquele dia. Compramos comida e voltamos para o albergue. Preparamos uns sanduíches e ainda achei uma panela de macarrão na geladeira. Esquentei tudo e dividi em dois pratos, um para mim e outro para ela. Enquanto estávamos comendo, outros peregrinos foram aparecendo. Ofereci minha comida, torcendo para que ninguém a aceitasse, pois era pouca. Enquanto isso, foram abrindo suas mochilas e colocando comida na mesa. Um deles começou a cozinhar para todo o grupo e os outros saíram para comprar vinho. Depois, sentaram-se e nos convidaram para comer. Foi o jantar mais alegre e também a situação mais desagradável de toda a viagem. Foram extremamente generosos conosco, enquanto eu tinha sido egoísta e mal educada. Sem perceber, ensinaram-me a caridade. Agradeci a Deus por ter pulado aquelas etapas de ônibus e conhecido todos eles.