Como bons boêmios que éramos, ficamos rolando na cama e levantamos fora do horário “normal” dos demais peregrinos. Foi uma manhã atípica. Três integrantes do grupo voltariam para casa e quase todo o restante andaria só até Burgos. Geralmente, os europeus aproveitam os feriados prolongados e fazem o Caminho por partes. Nós brasileiros temos que fazê-lo de uma só vez porque, além de longe, ficaria muito caro embarcar para a Europa mais de uma vez ao ano. Senti uma ponta de tristeza. Deixar os amigos para trás é sempre difícil. Pensar no restante da viagem era desanimador, mas a dificuldade de vencer os quase trinta quilômetros do dia, me fez esquecer um pouco a despedida.
Foram algumas horas caminhando por uma trilha que cortava uma floresta, até encontrarmos um lindo platô, todo gramado, de onde podíamos admirar a paisagem lá embaixo. Juan Andrés levou um rádio, onde ouvia uma música que me pareceu perfeita para a imagem que vi naquele momento. Vários peregrinos marchando em paz pelos campos, ao som de “Age of Aquarius”, tema do filme Hair. A música no ar e aquela imagem diante dos meus olhos, me fizeram sentir que o mundo poderia transformar-se em um lugar melhor, bastando apenas um pouco de boa vontade de cada um. Totalmente envolvida por aquela atmosfera, continuei meu caminho bailando ao som da música que inspirou uma geração de sonhadores como eu. E meu sonho se tornava cada vez mais real, me fazendo descobrir que os sonhos são feitos para serem vividos e que eu não devia nunca parar de lutar pelo que quero.
Age of Aquarius
Descemos em direção ao pueblo de Atapuerca. Sabia que ao final do dia alguns peregrinos terminariam sua jornada e seria improvável encontrar alguém do grupo novamente. Por isso, desfrutei de cada palavra, cada gesto, cada ato de amor e carinho de todos. Tentei corresponder ao máximo e tenho certeza de que consegui deixar um pedacinho de mim dentro de todos aqueles corações. Consegui separar o companheirismo da dependência, pois via a diferença das duas coisas. Simplesmente, voltei à primeira lição do Caminho: respeito.
Almas gêmeas
Do lindo campo para a feia entrada de Burgos. Nos sonhos também existe feiúra. Só assim podemos contemplar a beleza que eles nos trazem. De lá até o albergue seriam 9 exaustivos quilômetros. Uma eternidade! Paramos num restaurante logo no início da parte industrial da cidade. Estavam todos famintos, menos eu. Senti uma saudade incontrolável da minha família, o que justificava minha falta de apetite. Fico assim toda vez que estou um pouco nostálgica. Enquanto os outros sentaram-se para almoçar, corri para o telefone. Queria simplesmente ouvir a voz deles, saber como estavam as coisas. Não sabia o que dizer e não queria falar sobre o Caminho. É estranho, mas parecia que eu estava em uma prisão. De alguma forma, ficamos presos naquele mundo, sem notícias do que está se passando com as pessoas mais ligadas a nós. Despir-se do mundo real e entrar na utopia do Caminho não é uma tarefa fácil. Talvez por isso, o retorno seja tão difícil, porque acordamos do sonho bom e somos jogados de volta à realidade. Por isso, quem faz o Caminho, nunca conseguirá voltar a ser a mesma pessoa.
De volta ao sonho, depois de ter matado a saudade da família, juntei-me ao grupo a tempo de acompanhá-los no cafézinho. Desculpei-me pela ausência e expliquei tudo o que estava sentindo. Todos compreenderam o que se passava e aceitaram minhas desculpas. Saímos do restaurante e continuamos pela avenida, até que finalmente alcançamos a cidade. A sinalização era ruim, não havia setas ou placas, mas fomos perguntando a um e outro e conseguimos chegar até a Catedral. Afinal, “quem tem boca vai à Roma” e porque não à Burgos?!
Era Páscoa e a cidade estava repleta. Pessoas bonitas e bem vestidas, mas um pouco fechadas. Apesar de Burgos fazer parte do trajeto a Santiago, senti um preconceito grande no ar. Desdenhavam de nós peregrinos, como se fôssemos mendigos ou loucos. O Caminho encontrava o caos urbano. E como comportar-se diante do “mundo real” novamente? Como passear pela cidade grande, sem pensar em fazer compras, conhecer os lugares turísticos ou deixar-se contagiar pela energia estressante? Foi um grande choque para mim! Não sabia como enfrentar os olhares, os comentários e a desconfiança daquele povo.
Fazia muito frio e achei que precisava comprar um agasalho. Em frente à Catedral havia várias lojas de souvenirs. Escolhi uma e entrei. Fiquei muito indecisa, pois os preços eram salgados. Dei várias voltas entre as prateleiras, sem notar que estava sendo observada. Um segurança estava olhando para mim, como se eu fosse roubar alguma coisa a qualquer momento. Não dei importância para ele e continuei procurando meu agasalho. De repente, ele aproximou-se e disse-me:
— “Olha, se você não for comprar nada, vá embora logo, pois sua mochila está ocupando a passagem e atrapalhando os vendedores!”
— “Eu não quero atrapalhar senhor, mas estou escolhendo uma blusa para comprar.” — respondi.
— “Você não parece ter dinheiro suficiente para comprar nada nesta loja. Acompanhe-me até a porta.” — disse o brutamontes mal-encarado.
Senti-me ofendida com aquilo! Como aquele homem poderia desconfiar logo de um peregrino. Éramos a essência de toda a história da cidade. Fiquei calada por alguns segundos, até que a indignação deu lugar ao sangue latino e respondi-lhe à altura:
— “O senhor tem toda razão. Eu não tenho mesmo dinheiro para gastar neste estabelecimento. O que se vende aqui é de qualidade muito inferior ao que estou acostumada a vestir. Acho que devo retirar-me e comprar algo melhor em outra loja.”
Então virei as costas e saí, de cabeça erguida. Entrei na loja ao lado e comprei um casaco bem bonito. Pensei em voltar na loja e mostrá-lo ao segurança, mas achei que não valia a pena perder meu precioso tempo.

Na Praça dem Burgos: eu, Fresia e Juan Andrés
Segui até a praça da Catedral e reencontrei meus amigos. Era a vez de Fresia e Juan Andrés terminarem seus Caminhos ali. Mais uma despedida. São tantas no Caminho, assim como na vida. Alguns se vão, outros ficam e tantos outros ainda fariam parte da família peregrina. Foi muito triste, mas tive a certeza de que sempre teria o apoio e a amizade verdadeira de todos que estavam ali e se algum dia eu precisasse de um teto, um ombro para chorar, alguém para compartilhar os bons e maus momentos da vida, esses amigos sem dúvida estariam prontos a ajudar-me. Depois dos abraços, os que restaram do grupo ficaram olhando Fresia e Juan Andrés sumirem na multidão. Meu consolo era saber que poderia vê-los depois do Caminho, em Madri.
Ainda estávamos reunidos, quando um peregrino chegou com más notícias. Havia um boato de que o albergue estava lotado desde o dia anterior. O que faríamos? Os hotéis também estavam cheios e eu não tinha mais forças para chegar até a próxima cidade. Juntei-me a Mari José e seu marido à procura de uma pensão. Rodamos a cidade toda e nada! Quando estávamos quase desistindo, encontramos uma vizinha do casal. Não acreditei no que estava acontecendo! A cidade estava lotada e mesmo assim a encontramos? E a parte boa da história: ela tinha um apartamento vazio perto dali! Fez questão de nos emprestar. Melhor impossível! Justamente quando não tínhamos mais esperança, surgiu diante de nós, como um anjo caído do céu, aquela senhora bondosa, oferecendo-nos um teto. Coisas do Caminho...
Foi o banho mais gostoso, demorado e quente do Caminho. Sem a preocupação de deixar água quente para os outros peregrinos. Xampu, sabonete, perfume... Aproveitei também, para depilar-me, pois já parecia uma mulher das cavernas! Nunca agradeci tanto a Deus por um banho, porque na noite anterior eu havia apelado para os lencinhos umedecidos. Banho tomado, era hora de estrear o casaco novo e pronto! Estava produzida para a grande noite de Páscoa! Fomos a um restaurante super chique, pedimos um bom vinho, comemos peixe, torta de Santiago e tudo que tínhamos direito.
Ao acordar, resolvi que ficaria em Burgos mais um dia. Seria o meu dia de folga do Caminho. Meus últimos amigos, Mari José e o marido, despediram-se de mim durante o café da manhã. Lá estava eu, sozinha novamente. Me senti perdida, sem saber o que fazer. Sentei no banco da praça e fiquei admirando a Catedral. Sem perceber, passei o dia todo ali, escrevendo no meu bloquinho, tomando sorvete, tirando fotos e conversando com os idosos. Já era hora da siesta quando avistei alguns peregrinos chegando. Vi que um deles era brasileiro, pela bandeirinha costurada à roupa, e vinha acompanhando a Mônica, uma peregrina que conheci no primeiro dia, ainda em Roncesvalles. Mais uma vez foi aquela alegria! Notícias do Calixto e novidades de cada um. O tal brasileiro era um famoso mineiro, muito simpático, de quem todos falavam: Emerson. Uma graça de pessoa. Da Catedral, seguimos juntos para o albergue. A recepção foi ainda mais calorosa, pois a hospitaleira era brasileira também. Maria havia deixado tudo e todos no Brasil para dedicar sua vida aos peregrinos. A meu ver, um ato de muita coragem, porque eu não deixaria minha vida para ficar no Caminho. Pelo menos era isso que eu pensava naquele momento.
Comecei a sentir muito frio e percebi que estava com febre. Tomei um antitérmico, mas ela não baixava, então resolvi fazer uma “visita” ao hospital mais próximo. Fui muito bem atendida, mesmo tendo chegado depois do horário marcado para nós peregrinos. Era um hospital militar, muito limpo e bonito. Fiquei um pouco preocupada quando o médico disse-me que eu estava com uma gripe muito forte, que se mal curada, poderia transformar-se em pneumonia. Aconselhou-me a repousar por dois dias e só depois que a febre baixasse eu poderia seguir caminho. Fui medicada e voltei para o albergue.
A noite ainda reservava mais surpresas. Conforme foram chegando os peregrinos, encontrei meu amigo Björn. Mais tarde, foi a vez do David, um inglês que conheci em Los Arcos. Logo depois, chegou Cecília, uma peregrina escocesa que conheci em Cizur, quando eu ainda estava acompanhada do meu amigo Chico. Quando achei que estaria sozinha de novo, mais amigos vieram ao meu encontro. Eram os reencontros do Caminho!
Fui jantar em um restaurante perto dali, onde encontrei David e Cecília. Sentei-me com eles e compartilhamos nossas experiências. Para o David era difícil entender nosso jeito extrovertido de ser e da facilidade que temos em abraçar o próximo. No fundo, ele queria ser como nós, mas sua educação foi diferente, bastante fria e distante. Disse-me que conheceu muitas pessoas especiais no Caminho, mas queria aprender a exteriorizar seus sentimentos. Realmente, deve ser difícil não conseguir demonstrar o que sente com a mesma naturalidade que nós brasileiros. Agradeci a Deus por fazer parte desse povo feliz, simples, alegre, amoroso e patriota! Sim, patriota! As maiores demonstrações de patriotismo que encontrei no Caminho, vieram dos brasileiros que conheci. Odair, um peregrino de São Paulo, costurou uma bandeira brasileira na mochila; Calixto pendurou uma bandeira no cajado; eu andava com um chapéu do Brasil (que ganhei de presente, de “livre e espontânea pressão” do meu melhor amigo – Alex) e nos cadernos de mensagens, a bandeira mais desenhada era a nossa. O Caminho estava coberto de brasilidade! E viva o Brasil!!!
Na saída do restaurante, dei um forte abraço no David, deixando-o envergonhado. Disse-lhe que se quisesse aprender a exteriorizar os sentimentos, deveria aprender a abraçar as pessoas com mais freqüência. Chegando ao albergue, ele me retribuiu o abraço, desejando-me uma boa noite.