terça-feira, 6 de maio de 2008

QUEBRANDO AS REGRAS - 7º DIA

Acordei um pouco triste por deixar meus amigos. Já estava acostumada com os papos do Chico e com a solidariedade de Björn. Talvez não os visse mais, mas apesar de toda a tristeza, sabia que nossa amizade seria eterna. Tomamos um belo café da manhã como despedida. Rimos bastante, Chico e eu, de nossas aventuras pelos bares do Caminho, combinamos de nos vermos de novo quando chegássemos ao Brasil e choramos muito. Engraçado como já éramos tão íntimos! Tinha acabado de conhecê-lo e talvez eu nunca tenha sido tão verdadeira e transparente com alguém como fui com ele. Difícil explicar! Todas aquelas pessoas, especialmente o Chico, compartilharam comigo os momentos mais preciosos da minha vida e tornaram-se parte de mim. Nunca mais conseguirei lembrar de qualquer pedacinho daquele chão, sem lembrar com carinho e emoção de cada peregrino que conheci. Ao mesmo tempo, sentia-me aliviada por estar desabrochando para uma nova etapa. Dali para frente estaria sozinha e teria que reconquistar tudo de novo. Novos amigos, novos lugares, novas experiências. O Caminho é assim! Eternos encontros, desencontros e reencontros. Não podíamos planejar! Só nos restava vivenciar o que nos fora oferecido. E da melhor maneira possível.


O ônibus chegou e, com lágrimas nos olhos, dei um último adeus aos meus amigos e parti. Carla, a peregrina sul-africana foi comigo. Fomos juntas até a cidade de Logroño. De lá, cada uma seguiria seu destino. Eu pegaria outro ônibus até Sto. Domingo de La Calzada, e ela até Nájera. Em Logroño, acompanhei-a aos correios para despacharmos as “coisas supérfluas” que teimavam em permanecer nas nossas mochilas. Ficou tudo mais leve! Nossas mochilas e nossas vidas. Carla tinha muitas bolhas e sentia dores nos tornozelos e resolveu trocar as botas por tênis. Seguimos para uma sapataria, mas chegamos bem na hora da “siesta” e todo o comércio estava fechado. Ainda por cima essa! Tínhamos que nos programar baseadas naquele horário doido! Como não daria tempo de esperar as lojas reabrirem, voltamos para a rodoviária, tomamos um café juntas e nos separamos. Ela agradeceu-me várias vezes por tê-la ajudado. Às vezes, pequenos gestos, que para nós são insignificantes, tornam-se imprescindíveis para outra pessoa.


Cheguei em Sto. Domingo de la Calzada muito feliz e fui recebida com o calor do sol. Aquelas ruas pareciam-me familiares. Sentia-me em casa! Fui andando em direção ao albergue distraidamente, quando tive a sensação de estar sendo observada. Olhei em volta e vi que um homem estava me seguindo. Sua aparência não era nada boa e aquilo me deu medo. Tentei despistá-lo, andando um pouco mais rápido, até que percebi que não adiantava fugir. Tinha que enfrentá-lo! Sabia que não poderia travar uma luta corporal, porque era bem mais fraca que ele. Eu teria que agir com cautela e inteligência. Comecei a rezar e visualizar um desfecho feliz para aquela situação. Parei, olhei para trás, esperei-o vir ao meu encontro e perguntei se poderia ajudá-lo de alguma forma. Encarou-me calado por uns segundos e foi embora. Porque estava me seguindo afinal? Fiquei pensando o que poderia significar tudo aquilo, mas desisti e preferi achar que ele só estava me achando bonitinha.


Cheguei sã e salva ao albergue. Preenchi minha ficha, carimbei minha credencial e subi. Deixei a mochila em cima de uma cama e fui lavar as roupas sujas. Havia um casal lavando suas meias. Mari José e o marido, ambos de Pamplona. Esperei um pouco até que desocupassem o tanque. Disseram-me que a água estava congelando. E estavam certos! Realmente a água estava de matar! Coloquei em prática uma dica dada por um peregrino brasileiro: usar as meias nas mãos, como se fossem luvas para protegê-las do frio. Quem será que teve a feliz idéia de “trocar os pés pelas mãos”? E não é que deu certo?! Os brasileiros são doidos mesmo!


Depois de estender as roupas no varal, fui conhecer a cidade e a famosa Catedral, que curiosamente abriga um galinheiro com um galo e uma galinha em seu interior. Diz a lenda, que um casal de peregrinos alemães, acompanhado de seu filho, hospedou-se na pousada de Sto. Domingo. A criada apaixonou-se pelo rapaz, mas não foi correspondida. Para vingar-se dele, escondeu um objeto de prata entre seus pertences e depois o denunciou como ladrão. Ele foi preso, condenado e enforcado. Aflitos, seus pais, seguiram sua peregrinação até Santiago. Ao voltar, encontraram seu filho saudável e com vida. Foram contar ao corregedor e este não acreditou na história, dizendo: “Seu filho está tão vivo quanto esta galinha que estou comendo.” Naquele momento, a galinha, que estava morta e assada, levantou-se e cantou. Por isso existe uma frase muito conhecida por lá:
— “Sto. Domingo de la Calzada, onde cantou a galinha depois de assada.”
Dizem que quando cantam para você é sinal de sorte. Supersticiosa que sou, fiquei como uma louca dentro daquela igreja, fazendo cocoricós para que cantassem para mim. E os bichinhos nem aí! Parecia que eu era um ser inexistente! Mas não perdi as esperanças! Com canto ou sem canto, eu teria sorte mesmo assim!


Ao voltar para o albergue, tive uma surpresa! Carla estava lá. Disse-me que dormiu no ônibus e passou do ponto. Quando acordou, já estava em Sto. Domingo de la Calzada. Fiquei super feliz! Alguma coisa fez com que nos juntássemos outra vez. Fomos então, tentar comprar seu tênis. Eu a avisei que havia uma lojinha ali perto. Já tinha olhado alguns pares de tênis pensando nela, rezando para que ela encontrasse o melhor sapato e terminasse seu Caminho em paz. E por coincidência, ou não, ela ouviu meu recado. Foi uma verdadeira confusão dentro da loja. Carla falava em inglês, o vendedor não entendia, eu traduzia com meu “portunhol”; o vendedor falava em espanhol e eu tinha que traduzir de volta em “capeinglês” para ela. E põe sapato... E tira sapato... E anda com um... E anda com outro... Horas para escolher! Quase enlouqueci! Enfim, decidiu-se pelo primeiro par de tênis que havia experimentado. Vai entender as mulheres...


Decidimos que não iríamos comer em restaurantes naquele dia. Compramos comida e voltamos para o albergue. Preparamos uns sanduíches e ainda achei uma panela de macarrão na geladeira. Esquentei tudo e dividi em dois pratos, um para mim e outro para ela. Enquanto estávamos comendo, outros peregrinos foram aparecendo. Ofereci minha comida, torcendo para que ninguém a aceitasse, pois era pouca. Enquanto isso, foram abrindo suas mochilas e colocando comida na mesa. Um deles começou a cozinhar para todo o grupo e os outros saíram para comprar vinho. Depois, sentaram-se e nos convidaram para comer. Foi o jantar mais alegre e também a situação mais desagradável de toda a viagem. Foram extremamente generosos conosco, enquanto eu tinha sido egoísta e mal educada. Sem perceber, ensinaram-me a caridade. Agradeci a Deus por ter pulado aquelas etapas de ônibus e conhecido todos eles.

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