segunda-feira, 16 de novembro de 2009

ARTEMIS - ÁGUAS DE SÃO PEDRO - 11º DIA

O dia amanheceu com aquele friozinho típico das regiões serranas. Dei uma espiadinha na paisagem antes de colocar o pé na estrada. Uma neblina forte impedia-me ver mais de 5 metros à frente. Voltei para o café da manhã. Ah, como é bom tomar um cafezinho quente feito nos coadores de pano! Sentirei saudade das comidinhas das fazendas e seus fogões à lenha! Mais uma vez, depois da gula, a estrada.

Não lembro de ter dormido naquela noite. Meus pensamentos voavam, iam até Santiago, aos amigos peregrinos, às últimas conversas antes da chegada, à caminhada noturna até o Monte do Gozo. Queria poder contar a todos a aventura de ter percorrido um outro Caminho, bem diferente daquele cheio de fantasia. Queria poder expressar a alegria de estar chegando novamente ao destino sonhado, ao mesmo tempo, sentia-me mal por não estar dividindo aqueles sentimentos com os companheiros que estavam na mesma jornada. E eu entendi, finalmente, que eles sempre estiveram abertos para viver o Caminho do Sol e eu não. Daí, resolvi que no último dia, torcendo para que não fosse tarde demais, abriria meu coração para todos, verdadeiramente.


Tomamos café em companhia do Seu Egydio e seu espírito alegre e saímos todos juntos. Tivemos que partir juntos, pois a travessia do Rio Piracicaba era feita numa balsa e ela não estava à nossa disposição. Tínhamos horário a cumprir!!! Já acomodada na balsa, avistei a terra firme, Seu Egídio e e sua caminhonete azul ficando para trás. De certa forma, a Tilara de antes também ficava por ali, mais uma vez o Caminho me transformava! Enquanto o balanço do Rio nos guiava, eu ia observando as reações de todos do grupo. Os extrovertidos estavam quietos, os quietos estavam excitados, tirando fotos e falando todo o tempo. Sem exceção, todos relembravam os dias de caminhada até ali. De repente, um silêncio, um vazio! A balsa atracava na margem oposta do Rio. Era a última etapa daquele sonho. Quem seríamos depois daqueles passos?

Acenamos para Seu Egydio lá ao longe e seguimos em frente. Dali pra frente, aconteceu de tudo um pouco! Com a neblina, ficava difícil enxergar as setas amarelas e, por isso, andei algumas horas de cabeça baixa, olhando onde pisava atentamente. Quando enfim o Sol deu o ar de sua graça, me vi na companhia das meninas e estávamos perdidas. Nada de setas! Nada de meninos! Tudo era cana! E das altas!!! Não se via nada ao longe. a dúvida era: voltar por onde achávamos ter vindo, ou tentar seguir uma das muitas entradinhas no meio do canavial? Podíamos ficar rodando um dia inteiro sem achar saída! Resolvemos arriscar uma das muitas trilhas e as demais peregrinas disseram que eu deveria guiar o grupo, pois era a mais experiente em Caminhos. Caramba! Que responsabilidade! Mas eu estava confiante e forte naquele dia e sem titubear, aceitei cumprir o proposto com muito amor!

Andamos por um bom tempo caladas. Depois de muito andar, por vezes abrindo caminho à força com meu cajado, chegamos à uma estradinha de terra. Intuí que deveríamos ir para a esquerda e eis que surgiu uma seta amarela! Estávamos de volta! Mais uma vez me perdi no último dia de peregrinação! E como a Arte, o Caminho também imita a vida! Eu sempre me perco nos meus caminhos rumo aos meus objetivos e tenho que fazer muita força para chegar lá! Ali foi igual! Juntei os cacarecos e segui firme e forte!

Dali em diante, tudo era festa! Fomos conversando alegremente, até que avistamos o posto de gasolina, última parada antes da entrada da cidade. Estávamos perto, muito perto mesmo! Uns 4km e chegaríamos a Águas de São Pedro. Tocaríamos o sino na entrada da Casa de Santiago! O Caminho chegava ao fim e o que seria dali pra frente? Toda aquela emoção de Santiago voltando, o frio na barriga, o fim que era o começo, tudo! Sei que nem dei bola para o lanche, água e demais prazeres gastronômicos que a lojinha de conveniência do posto poderia me oferecer. Queria mais era sentir o Caminho dentro de mim novamente, sentir o pé firme no chão, o prumo no rumo certo, a esperança de uma vida nova! Segui como diria meu amigo de escola Luri: "reto, direto e com força" ao encontro de Tiago, o Santo. Passei pelo portal de entrada de Águas e continuei pela simpática ruazinha paralela à grande avenida, seguindo as setas amarelas, "amigas velhas de guerra" (expressão muito usada pelo meu paizão). Depois de uma curva, passei em frente à Igreja da cidade e logo depois de subir uma pequena ladeira, lá estava eu, diante do meu destino. Toquei aquele sino freneticamente, como se fosse um grito preso há muito na garganta. Esse também foi liberado: "Ahhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhh, chegueiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiii, conseguiiiiiiiiiiiiiiiiii! Corri até a imagem de Santiago e fiquei ali por um bom tempo. As meninas chegaram, foram recepcionadas por suas famílias, tiraram fotos e eu ali. Nos despedimos e eu segui ali, parada. Percebi que, como eu, Zico também não teria sua família ou amigos para recepcioná-lo, então resolvi esperá-lo. Nunca pensei que esse gesto despertaria nele o peregrino perdido em Santiago. Isso fez com que ele visse o Caminho do Sol com outros olhos, assim como eu vi que cada caminho é único. Na saída da Casa de Santiago, a surpreendida fui eu! Lá estavam Ana Pupo, minha companheira de internet nas madrugadas pós-Santiago, Marisa, outra cyber amiga e Marilene, peregrina que morava em Piracicaba, todas esperando por mim! Não consigo descrever a emoção e felicidade que senti naquele momento! Fiquei tão pasma, que emudeci! E olha que isso é raríssimo!

Propus as meninas esperarem comigo pelo Zico. Na hora que ele nos viu, esperando-o perto da imagem de Santiago, de braços abertos, caiu em prantos. Parecia uma criança. Ainda hoje, anos depois (e muitas outras idas dele ao Caminho do Sol), Zico sempre escreve contando esse acontecimento aos amigos peregrinos na internet. Não serei modesta e confesso que, cada vez que leio isso, fico orgulhosa de ter tido essa ideia. E o faria mil outras vezes, por ele ou qualquer outro peregrino que viesse depois de mim naquele dia. Como fiz no ano seguinte na comemoração do aniversário do Caminho do Sol, mas isso é uma outra história que contarei brevemente...

Por enquanto, quero agradecer a todos as visitas ao blog, a paciência por terem lido meus relatos (que escrevi de peito aberto, contando os acertos e também os erros, sem medo de críticas!!!) e o carinho dos comentários.

Até breve! Ultreya y Suseya!

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2009

MONTE BRANCO – ARTEMIS – 10º DIA

O dia amanheceu com aquele friozinho típico das regiões serranas. Dei uma espiadinha na paisagem antes de colocar o pé na estrada. Uma neblina forte impedia-me ver algo que estivesse a mais de 5 metros à frente. Voltei para o café da manhã. Ah, como é bom tomar um cafezinho quente feito nos coadores de pano! Mais uma vez, depois da gula, a estrada.

Apesar de ter entendido de uma vez por todas que o Caminho do Sol era diferente de Santiago, aquela paisagem encoberta pela neblina, o clima de montanha e o verde da mata me remeteram à Galícia. Quando me dei conta de que os caminhos eram diferentes, vi que também eram iguais! Irônico, não?


Foi o dia mais bonito de toda a caminhada. As casinhas que beiravam a estradinha de terra, a igrejinha do bairro espanhol Floresta, o Monte Branco que dava nome ao lugarejo, tudo era lindo! A única coisa que me deixou triste foi encontrar um cavalo deitado na beira da estradinha, gemendo de dor. Fiquei pensando se eu teria coragem de aliviar seu sofrimento. Admiro quem consegue ter sangue frio para tal coisa. Daquele momento em diante, só pra variar, minha cabeça começou a “viajar” nas mais loucas idéias:
— “Será que os animais são espíritos em evolução? E, se algum dia fui um bichinho, trago nessa encarnação algum tipo de resquício animal? E de qual animal seria?”
A única resposta que tive foram os latidos insistentes dos cachorros. Dava até medo! Parece que todas as casas na beira da estrada tinham cachorro e nenhum deles estava para brincadeiras. Vai ver eu tinha algum resquício felino que os incomodava (risos!).

Depois de algum tempo caminhando sozinha, encontrei a Adriana de carro com mais dois peregrinos do grupo. Por razões que vocês verão a seguir, não poderei citar seus nomes. Pois bem, essas duas pessoas pegaram carona com Adriana para o centro de Ártemis, dizendo que era impossível pernoitar na fazenda do Seu Egydio Mauro. Era tudo que eu queria evitar! O dia estava incrivelmente maravilhoso e eu não precisava passar por mais essa! Resolvi entrar no carro para conversar melhor com eles e ver se realmente estavam certos de suas decisões. No caminho até o centro, não faltaram reclamações. Me diziam que passaríamos frio e que os banheiros não tinham tampas nas privadas. Achei graça de tudo aquilo. Mais uma vez a história das tampas! Eles achavam que assim era mais higiênico, o que poderíamos fazer?! Percorremos todo o lugar sem encontrar um lugar diferente para passar a noite. Resolvemos voltar. Eu pedi para que me deixassem no mesmo lugar onde havia parado de caminhar e continuei à pé rumo à fazenda “quenãotinhatampanaprivada”.

Depois que o carro de Adriana sumiu na poeira, uma cobra atravessou o meu caminho. Em Santiago também aconteceu a mesma coisa! Seria mau presságio sinal de sabedoria? Sempre cheia de esperança, preferi acreditar que era sabedoria. Tenho certeza que cada passo que damos na vida nos ensina alguma coisa e nos dá a oportunidade de crescer, mudar e corrigir falhas. Claro que tudo isso só acontece quando estamos abertos ao mundo que está à nossa volta. O Caminho do Sol me ensinou a colocar os pés no chão, ver a realidade com verdade, nua e crua. Só assim pude ver meus defeitos mais profundamente escondidos e mudar.

Caminhei por aproximadamente uma hora até chegar na Fazenda do Seu Egydio. Tenho que confessar que cheguei ali no dia certo. As acomodações eram bem simples mesmo, mas o importante era curtir a hospitalidade da família e a boa prosa do Seu Egydio. Ele me contou que uma vez fez uma peregrinação até Pirapora, mas que não tinha nada “dessas parafernálias” que usamos. Ele tinha ido de calça jeans e que as botas que usava na fazenda logo encheram seus pés de bolhas e ele acabou o percurso descalço! Ele era uma figura! Um sotaque caipira bem forte, uma simpatia sem tamanho e milhões de histórias para contar! Adorei passar a tarde batendo papo com ele, bebendo uma gelada para espantar o calor. Depois, descemos de carro até o lugar que ele chamava de rancho. Uma senhora casa feita de tijolos e bem antiga na beira do Rio Piracicaba. Perguntei a ele porque não podíamos ficar ali. Ele me respondeu que ainda iria reformar o rancho para receber os peregrinos. Prometi que um dia voltaria para comer um churrasco quando a obra estivesse concluída.

À noite, após o maravilhoso jantar feito no fogão à lenha, Zico e eu ficamos de papo com Seu Egydio até tarde. Era a última noite no Caminho. No dia seguinte tudo terminaria. Cada um seguiria para sua casa, sua vida. Mais uma vez a vontade de continuar andando, conhecendo caminhos, pessoas, dando a cara à tapa, encarando defeitos, crescendo, mudando, vivendo!

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2009

CLUBE ARAPONGAS – MONTE BRANCO – 9º DIA

Acordei super bem, apesar da noite mal dormida. Tomei um café da manhã rápido e parti. O dia estava agradável e eu, enfim, estava me rendendo ao Caminho do Sol. Já tinha percebido que não adiantava mais compará-lo ao Caminho de Santiago. Foi uma ótima descoberta, pois só assim, pude curtir o clima, os demais integrantes do grupo, a paisagem e a energia do Caminho.

A etapa foi tranqüila, sem nenhuma mudança de humor (da minha parte). Era hora de curtir a viagem que eu havia programado! Atravessei as plantações de cana, tive minha primeira bolha no pé, passei um calor danado sem água, mas mesmo assim não me deixei levar. Segui sempre alegre naquele dia. Quando cheguei a Monte Branco, encontrei a casa de Adriana. Uma casinha simples, mas cheia de hospitalidade. Os demais peregrinos foram chegando e alguns comentaram que não haviam gostado de lá. Eu estava maravilhada com tudo! Era outra pessoa. Lavei roupas no tanque, tomei banho frio, fiquei de papo com Adriana na cozinha. Eu voltava a ser eu!

Quando a noite caiu, o grupo se reuniu para bater papo na varanda. Foi muito bom! Minhas más impressões se desfizeram e eu, enfim, começava a me relacionar de verdade com os demais peregrinos. Consegui perceber que as senhoras de Holambra não poderiam agir como peregrinas de Santiago e isso era muito bom! Elas não tinham compromisso religioso e tampouco o de fazer todo o percurso à pé, carregando o peso dos “pecados” nas costas. Era isso que me incomodava: a liberdade e a leveza com que percorriam o Caminho do Sol. Uma pena que eu tenha deixado de me cobrar perfeição somente no penúltimo dia.

A noite foi maravilhosa, com bons sonhos e esperança renovada.