sexta-feira, 12 de agosto de 2016

22/10/2015 - Ao Cebreiro, à Galícia!!!

Despertamos ao som de Ave Maria. Eu já havia sido informada que no albergue Pequeno Potala, teríamos uma surpresa ai acordar, mas não achei que fosse me emocionar tanto. Eu não sigo nenhuma religião, quase não entro em Igrejas e raramente assisto uma Missa. Mas aquela Ave Maria me tocou profundamente. Me fez voltar no tempo e sentir o Caminho novamente. Em sua plenitude, pureza, inspiração. Foi mais do que acordar com o barulhos dos demais peregrinos, mais do que perceber que mesmo lá, seguimos uma rotina. Deliciosa por sinal, mas continua sendo rotina. E, por isso mesmo, o Caminho nos serve de espelho, nos coloca frente a frente com tudo de bom e ruim que temos em nós e na nossa vida.



Naquele dia foi como acordar no céu. Leve. Linda. Feliz! Ainda era noite, fazia muito frio e teríamos pela frente a difícil, porém magnifica, subida ao Cebreiro. Viria a fronteira com a Galícia, a terra das Meigas, das Bruxas, da magia. Era o reencontro com o meu lugar, com o misticismo e com minha fase adulta. Em 2001, o Acacio me contou que o Caminho podia ser comparado às nossas vidas, com quatro fases diferentes, que correspondiam à nossa infância, adolescência, fase adulta e a sabedoria. E eu havia começado na parte relacionada à minha ida para São Paulo, com 18 anos. Final da adolescência e fase adulta. Eu já estou mais adulta que outrora, muito diferente da outra vez e, ao mesmo tempo, concordando que era hora de dar uma nova guinada na vida. De novo, o Caminho estava sendo um divisor de aguas para mim. Desta vez, depois de largar minha cidade natal, minha carreira e dedicar-me aos filhos e à casa, era chegada a hora de buscar uma nova identidade e uma nova profissão. Essa era a única certeza que eu tinha naquele momento. A outra era: viva o aqui e agora! E assim fiz!



Tomamos um delicioso café e, com o coração apertado, me despedi de Carlos e seu albergue Pequeno "Gigante" Potala. Seguimos, Camilla, Arthur e eu, pela mesma estradinha que tinha nos levado a Ruitellan. Ainda estava escuro e eu fui de lanternas acessas novamente. E o céu nos presenteou com outro amanhecer inspirador. Nenhuma nuvem. A noite dando lugar ao dia. Nuance de cores, ar gelado entrando frescamente em nossos corpos, o cheiro da terra, do bosque, o barulhinho das folhas secas no chão e uma máquina de lavar abandonada. Sim! Isso mesmo que você leu! Uma máquina de lavar roupas abandonada. Me fez pensar nas coisas mais inusitadas que nos acontecem na vida. Ela estava ali representando isso. 







Continuamos nosso Caminho. O sol já dava o ar de sua graça, iluminando aqueles bosques que pareciam ter saído de um quadro de Monet. E caminhando e subindo e caminhando e subindo até que encontramos aquela plaquinha na bifurcação entre o bosque e a estrada de asfalto,  que diz: "Por aqui solo para los fuertes". E eu fui forte. Dessa vez, escolhi o bosque. 




Foram dias e caminhadas completamente diferentes. A começar pelo cenário: pelo bosque era estrada de terra, com pedras, muita umidade, cheiro de mato. Pela estrada, quando subi ao Cebreiro em 2001, era eu e o Universo. Nenhum carro, sol a pino e a imensidão do vale. Ambos lindos e ambos me ensinaram coisas importantes. A estrada me ensinou a lidar com a solidão. O bosque me ensinou a ver a beleza da vida. E ambos me ensinaram a aproveitar o dia de hoje.





E fomos avançando, subindo e admirando aquele bosque. Nessas horas a gente percebe o quanto somos míseros insetos diante da beleza e grandeza da Natureza e do Universo. O bosque é bem fechado. Mesmo com o sol, sua umidade penetra na gente, nos mescla com a mata e nos faz sentir a plenitude de estarmos vivos e pulsantes, sendo parte principal da vida. É uma sensação inexplicável! Nenhuma palavra, nenhuma imagem, nenhum relato traduz a subida ao Cebreiro. Só indo conferir pessoalmente e se deixar envolver por tão mágica energia.


































Consegui transmitir um vídeo de lá de dentro da mata fechada, trilha acima. Muita gente critica os peregrinos que fazem o caminho conectados à internet. Eu já acho que se a pessoa se dispõe a compartilhar essa vivência através das redes sociais, pode levar inspiração e alegria a quem não tem a oportunidade de estar lá. Para mim, foi maravilhoso manter o contato com amigos que me assistiam no Brasil e pessoas de vários países que viveram comigo através da tela do computador aqueles momentos. Pessoas de vários países, como: Russia, México e até China conversaram comigo e viram online etapas maravilhosas do Caminho. Muitos me agradeceram imensamente por reviver isso. Outros me agradeceram por compartilhar essa experiência. E muitos me acompanhavam diariamente. Usei o aplicativo Periscope para fazer esses videos ao vivo e o chip da Vodafone de 1giga. 

Seguindo o bosque, passei por uma placa, pintada à mão, com uma frase muito simbólica, que escreverei adiante. Depois de um banho de beleza e natureza, respirar ar puríssimo e sentir a umidade daquele bosque, chegamos a um pequeno pueblo e paramos para comer. Estava faminta! Pedi um tortilla de batatas....hummm.....estava com saudade! Ia pedir um um refrigerante, mas ao sentar-me numa mesinha ao sol, resolvi trocar por uma cerveja! Eu estava ali para me divertir! Não fui fazer o caminho por punição, nem por promessa ou por religião. Fui de peito aberto para viver, ser feliz e compartilhar isso com quem quisesse me acompanhar! Fui sozinha sim! Deixei minha família em casa sim! Tirei umas férias para mim, sim! Meu tempo, minha vida, minha identidade! E bebi por isso! E bebi por minha família que me apoiou! E bebi pelos amigos peregrinos de 2001, pelos que ficaram no Brasil e por todos que me acompanharam através da internet! É aí que entra a frase da placa que tinha visto horas antes: "La felicidad no és un destino. La felicidad és la actitúd con que se mira la vida!"





Isto feito, segui meu rumo! Fui subindo e admirando a paisagem, conversando com os demais peregrinos que passavam, me emocionando por estar ali novamente e vivendo o momento! Fui no meu ritmo, curtindo tudo o que me invadia o ser: o sol, o ar fresco, o calor, as músicas que ouvia no celular, as palavras de quem passava, os "buen camino", e o verde do vale lá embaixo. Passei pela divisa de El Bierzo e Galícia. Era a última região da minha peregrinação. Terra das bruxas e do misticismo!!! A subida ao Cebreiro é algo inenarrável! Vale ir, mesmo que seja para fazer somente este trecho. Se eu morasse por lá, certamente aquele bosque seria meu parque, meu clube.







Depois de um longo dia de caminhada, a trilha foi chegando ao fim.  Já pude ver um muro de pedras à minha direita, os cavalos que antes passaram por mim e por fim, a estrada que anos antes havia sido minha companheira. Enfim, o Cebreiro! Um lugar mágico! Um lugar que dizem guardar o Santo Graal. Um pueblinho medieval situado no topo da montanha. Parecia ter saído de um filme da Távola Redonda! E o passado se mesclou com o presente. Me vi de novo ali! Me vi vencendo aquela bela e dura etapa! E gritei a plenos pulmões: CHEGUEI!!!







Postagem de 2001, etapa Villafranca del Bierzo - Cebreiro: 

http://www.tiencamino.com.br/2008/05/acordei-feliz-porm-com-vontade-de.html

















segunda-feira, 23 de maio de 2016

21/10/2015 - Villafranca a Ruitellan - Inspiração!

Rumo a Ruitellan

   Diferentemente de 2001, resolvi que não subiria o Cebreiro partindo de Villafranca. Como ainda tinha dias sobrando, uma etapa de quase 19km até Ruitellán seria o suficiente. Chegaria cedo e conseguiria curtir o albergue que me fora muitíssimo bem recomendado por duas amigas: Marcia e Ana Luzia.
   
    O dia ainda não tinha raiado quando os demais peregrinos começaram a levantar. Fazia bastante frio. Sabia que teria que me vestir com quase todas as roupas que tinha levado. O famoso "efeito cebola". Confesso que foi difícil levantar da cama depois de tanto vinho na noite anterior. Ainda meio grogue, fui vestindo a camiseta, a blusa segunda pele, o fleece e o casaco corta-vento. Nas pernas, uma calça era o bastante pra mim. Tentei usar a calça térmica num dia de frio e passei muito calor e tive um trabalhão para trocar de roupa no meio da trilha. Peregrina escolada é outra coisa.

    Devidamente vestida, com a mochila arrumada, desci para o café da manhã. Thayse estava com sua família, dividindo algumas coisas que tinham comprado no dia anterior. Tomei café, comi bananas e pão. Disse a eles que queria parar em Ruitellan e eles concordaram que seria muito bom quebrar a etapa ao meio e dormir antes da subida do Cebreiro. Conversamos um pouco e nos aprontamos para seguir nossos caminhos.

     Saímos do albergue juntos. Um grupo grande. Acendi a lanterna, não porque estava demasiado escuro, mas para justificar o peso extra que eu havia levado e também para gastar bateria, pois não a tinha usado ainda. Eu estava muito feliz. Lembrei muito do meu Caminho em 2001. Era um das etapas que eu ainda tinha muito clara na memória. Porém, conforme fomos caminhando, apesar de ser tudo muito familiar, me parecia também bastante diferente. Começando pela cidade que estava repleta de bares, albergues, pousadas e hotéis. Depois, não lembrava da ponte sobre o rio Burbia na saída da parte urbana de Villafranca e, por fim, eu não tinha nenhuma recordação da serrinha que estávamos prestes a subir, beirando a estradinha. 

    Conforme fomos avançando, o grupo se dispersou. Cada um no seu caminho. Cada um no seu ritmo. Segui caminhando com a Thayse. No início, ainda em silêncio, percebendo a paisagem que ia se revelando conforme o sol chegava com seus primeiros raios de luz. Aos, poucos, a neblina deu lugar às montanhas, às árvores e o céu rosa foi se transformando em azul, num tom que só se vê lá no Caminho. Pode ser que seja a mesma cor do que vemos aqui no Brasil, mas lá é diferente. Lá é visto com a alma! Nossa alma que, aquela altura do Caminho, já estava extasiada de tanta energia boa, de tantas novas amizades, tantas paisagens belíssimas e experiências enriquecedoras. É um azul que não estamos acostumados a ver no nosso dia a dia corrido, onde mal temos tempo para respirar. Um azul genuíno, sem a poluição, sem a nossa pressa, sem admirar as coisas belas da vida por estar distorcida pela rotina.




      Fui subindo a serrinha e sentindo o frescor do ar gelado invadir meu corpo. Era um dia como o do meu Caminho de 2001: frio e sol! Meu clima preferido. E também o da minha Tia Iara. Lembrei dela agora (ou ela está aqui do meu ladinho - pra quem acredita em vidas após a morte, vida paralela, espiritismo, etc), ao escrever essas linhas e lembrar que, outrora, quando escrevi meu diário de 2001, descrevi este dia da mesma forma e ela concordou comigo e me disse que eram os dias que ela mais tinha saudade de Portugal: os dias frios e ensolarados. Pronto! Esta etapa ficará para sempre e nos meus futuros caminhos em homenagem à ela!



   
   Realmente é um dos dias mais bonitos do Caminho. Mesmo beirando a estradinha e, depois,  o caminho era beirando uma rodovia, aprendi uma lição das mais preciosas! Descobri que, ao olhar para o outro lado, havia um rio. O rio Valcarce. E o caminho era entre a rodovia e o rio Valcarce. Me bastou olhar para o outro lado, ver por outro angulo, imaginar de outra forma e o cenário mudou! Sempre há um lado positivo em todos os cenários! E sempre há uma forma de diferente e boa vencer uma situação difícil. Basta mudar o jeito de encarar os fatos. Mudar o jeito de encarar a vida! E pulamos, Thayse e eu, para aquele caminho do meio, para sentir o estalar das folhas secas no chão de terra, para sentir o cheiro do bosque úmido, para ver o colorido das árvores, para ouvir o barulhinho das águas e para sentir o coração se encher de alegria!

     Mais à frente, logo depois de atravessar a rodovia e entrar no pueblo de Pereje, paramos para um café. Era uma casa pequena, paredes de pedra, mesas, cadeiras e balcão de madeira rústica, como vemos nos cenários de filmes da idade média. Thayse me contou que da outra vez que fez o Caminho com seus pais, tinham pernoitado naquele pueblo. E me disse para olhar com atenção para as paredes do bar. Estavam lotadas de moedinhas! Cada peregrino que passava por ali, depositava uma moedinha em uma frestinha entre uma pedra e outra. E faziam pedidos. Procurei muito até achar a minha brecha! Mas consegui! E o meu pedido não poderia ser outro: voltar e voltar e voltar e ter saúde e ter disposição e poder levar meus filhos e voltar e voltar e voltar ao Caminho por muitas e muitas e infinitas vezes, enquanto eu puder, enquanto eu quiser e enquanto isso me inspirar!



   

     E os meus amigos foram chegando, sentando, tomando seus cafés e buscando suas frestas e fazendo seus pedidos. Estávamos muito felizes com aquele dia. Todos muito inspirados! Todos leves! Todos curados de seus males, de seus medos e de seus receios. Era a vida sendo vivida em sua plenitude! Vivendo o dia como deve ser vivido: como ÚNICO! Nenhum dia será mais como aquele e nenhum dia será como outro. E devemos viver da forma como aprendi ali, caminhando entre a estrada e o rio: olhando pro lado bom!

     Passando Pereje, seguimos juntos, depois nos separamos. Me vi sozinha por uns momentos e, em outro, colocando a conversa em dia com alguns peregrinos que iam passando por mim. Conhecendo gente nova, gente que pensa diferente e conhecendo a mim mesma. Eu era diferente daquela Tilara que havia passado por ali quase 15 anos antes. Já não era mais aquela menina, mas ela me acompanhava naquele dia. Por isso, me peguei cantando, dançando e fazendo coisas que muitos chamariam de mico! Mas, nunca me importei com isso. Sou artista. Levo comigo a alegria de ser várias e, ao mesmo tempo, uma só. E me permito ser ridícula e não me sinto culpada por isso. Danço mesmo, canto mesmo e vou "caminhando e cantando e seguindo a canção"....e o coração!


     E, Vega de Valcarce, me permiti uma parada na Panaderia Cerezales. Era uma casa muito florida e o aroma do pão era muito convidativo. Tirei a mochila, as botas, as meias e sentei-me nas mesinhas coloridas, ao sol, vendo o degelar da grama. Resolvi ligar para os meus filhos, mostrar para eles como estava lindo o dia e como aquela paisagem era inspiradora. E como foi bom poder fazer isso com a tecnologia! Não só ouvir suas vozes, mas também vê-los e poder compartilhar meu Caminho e minhas vivências. Às vezes, eles nem ligavam e falavam um "Tá bom mãe", meio de saco cheio. Outras vezes, se interessavam pelo lugar e perguntavam tudo, me pediam para mostrar mais coisas e me acompanhavam por vários minutos, vendo o mesmo que eu. Fazendo o Caminho comigo! Isso me motivou muito a ensiná-los a caminhar mais, fazer trilhas, mostrar a beleza da natureza. Incutir neles a prática das viagens introspectivas, viagem mochilão, viagens de coração aberto para conhecer o mundo como ele é de verdade. Viver a natureza, a beleza da vida aliada ao auto-conhecimento, saber ouvir seu corpo, saber como usá-lo, entender nosso propósito nesta vida. Acho que essa é a grande magia do Caminho! Pena que a tecnologia me permitiu naquele momento ouvir apenas o "Tá bom mãe! Mas o sorriso não saiu do meu rosto. Nem a alegria! E, ainda bem, que a espontaneidade deles continuava lá!


    E, por fim, depois daquele dia lindo, cheguei em Ruitellan. Era o destino que eu havia traçado para aquele dia: caminhar pouco, curtir tudo e descansar em um lugar típico do Caminho: Albergue Pequeno Potala. Lugar simples, acolhedor e eu saberia mais tarde que me remeteria ao espírito peregrino que encontrei em 2001 e andava perdido naqueles vários lugares novos que surgiram nesses quase 15 anos entre minhas peregrinações.


     As beliches, a sala comum, o banheiro, o tanque de lavar roupas com aquela agua gelada, o varal cheio de meias e roupas de todos os tipos de tamanhos, as botas enfileiradas na entrada e a recepção de Luiz e Carlos. Cada um com seu jeito: um mais reservado, outro bem extrovertido. Ambos amáveis! Jantar maravilhoso! Pão, vinho, massas e muito carinho em tudo que eles faziam. Às 10 da noite, se retiraram para descansar e nos aconselharam fazer o mesmo. Eu não me sentia cansada, apenas deitei-me para dar continuidade aquele sonho. E rever as flores, os bosques, os pueblos, os momentos e os aprendizados do dia.

Até a próxima!








    


terça-feira, 26 de abril de 2016

20/10/2015 - Reencontro com Jesus

REENCONTRO COM JESUS




Chegando em Villafranca, o taxi foi passando pelas ruelas estreitas da cidade. Não me recordava delas. Em minha memória havia ficado o albergue de Jesus e sua família, a recepção, a companhia que fiz a ele e ao Acacio ao voltar de Kombi até Ponferrada e a Queimada (link abaixo - Que todo sea luz). Estava cansada, mas feliz pela oportunidade de voltar ao Caminho e rever todos aqueles lugares que me fizeram mudar o modo de ver a vida. E Villafranca foi um dos lugares mais especiais do meu Caminho de 2001.

Pensei em dormir novamente no albergue Ave Fênix de Jesus Jato. Desisti, porque Isabel já tinha chegado e reservado meu lugar em outro local - Albergue do Léo. Sei que quando desistimos na última hora, eles deixam de receber por aquela cama e dificilmente conseguiriam outra pessoa para se hospedar no meu lugar. Já estava ficando tarde e a maioria dos peregrinos já tinha chegado.

Subi as escadas do albergue. Era bem novo, com calefação, cozinha, banheiros limpos e muito confortável. Ficamos em um quarto só de mulheres: Isabel, Thayse, Sonia e eu. Depois de alguns dias dormindo em quartos privativos, o albergue me vez voltar no tempo e reviver o banho no banheiro coletivo, enxugar o corpo na canga após o banho, ir ao banheiro de lanterna no meio da madrugada, acordar com o barulho dos saquinhos dos outros peregrinos...

Depois do banho, saí para passear pela cidade. Aproveitar o sol, a praça, beber uma cerveja, conversar com outros peregrinos e visitar Jesus. Ao sair do albergue, recebi uma mensagem do Artur e da Camila. Estavam na praça almoçando. Resolvi fazer companhia antes de seguir para o Albergue de Jesus. Sentei, pedi uma cerveja e comi umas fritas. Bem coisa de boteco mesmo! Artur e Camila foram descansar e se despediram dizendo que iriam dormir cedo e nos encontraríamos na manhã seguinte. Thayse chegou logo depois e juntou-se a mim. Ficamos batendo papo um tempão. Quando percebi que estava ficando tontinha, paguei a conta! Do contrário, me perderia por aquelas ruelas de Villafranca. E, de fato, foi o que aconteceu. Dei tantas voltas, subi tantas ladeiras, me peguei dando círculos, que pensei que seria melhor parar e perguntar pra que lado eu deveria seguir. E não tinha ninguém pra perguntar, nenhuma flecha amarela para eu seguir ao contrário, pois o Ave Fênix fica na entrada da cidade, nada!

Fiquei ali, tirando fotos, esperando a "alegria" passar, até que pensei em usar o celular! Ora bolas! Com tanta tecnologia e eu perdida! Fui de waze até a rua do albergue! Que coisa, não?! Cheguei tão feliz, com tantas expectativas, mas Jesus não estava. Perguntei ao rapaz que se apresentou como hospitaleiro voluntário e ele simplesmente me disse que ele não estava e ponto! Fiquei sem saber se ele voltaria e o que fazer depois disso. Sentar e esperar ou voltar pro albergue, jantar e ligar antes de subir me perdendo pelas ruelas, tudo de novo. Resolvi que iria embora. Não queria deixar de curtir aquele final de tarde.

Voltei capengando pelas ladeirinhas estreitinhas de Villafranca até a praça. Resolvi comprar pão e vinho, afinal, assim se faz o caminho. Completei com jamón, queijos e salada e desci com meu piquenique pro albergue do Léo, onde eu estava hospedada. Encontrei os brasileiros sentados diante da lareira, bebendo vinho e tocando violão. Dividi meus queijos e vinhos, fiquei um pouco ali com eles, quando meu celular tocou. Era Fatima que tinha mandado mensagem dizendo que estava com Jesus no Ave Fênix. Toca eu de novo subir aquilo tudo, alegrinha e perdidinha. E Thayse a tiracolo! 

Foi tão bom encontrá-lo ali na cozinha, preparando o jantar, já dizendo para a gente ajudar a descascar as batatas, cortar pão, colocar a mesa. No início, achei que ele não tinha se lembrado de mim, nem que tinha se hospedado em minha casa no Rio, quando foram ao 1º Encontro Internacional de Peregrinos. Fui conversando com ele, contando as histórias da cura com as mãos que eu tinha feito com ele em 2001, da kombi e dos peregrinos espanhóis que tinham ido junto com ele e Acacio ao Brasil, até que ele se lembrou. Creio que não foi tudo, mas pelo menos sabia quem eu era. 

Combinamos que ficaríamos para jantar. E lá estava eu! Novamente sentada naquelas mesas, confraternizando com os outros peregrinos e esperando a Queimada, que infelizmente ele não realizou. Senti que ele estava um pouco cansado de tudo aquilo. Havia passado por uma cirurgia nas pernas. As noticias que nos chegaram eram muito desanimadoras. Uns diziam que ele tinha amputado uma das pernas, outros contavam que ele tinha problemas de coração. Fato é que ele está ficando velhinho e eu fiquei muito feliz em vê-lo novamente.

Após o jantar, ele nos convidou para subirmos e conhecermos as instalações novas do albergue. As camas estavam todas forradas com proteção contra os chinches (bedbugs ou percevejos de camas), os banheiros haviam sido reformados e ele nos perguntou porque não estávamos hospedadas lá. Confesso que fiquei sem graça em não ter ficado lá, mas não pude deixar outro hospitaleiro na mão, já que tinham reservado outro lugar pra mim. Não sei se ele ficou muito contente com isso, mas entendeu que era assim mesmo que eu deveria agir, pois as pessoas costumam reservar o albergue e mudam de idéia sem avisar, deixando a cama inutilizada.


Nos despedimos de Jesus e descemos aquelas ruelas de novo. Àquela altura, depois de tantas idas e vindas, eu já estava familiarizada com o local e cheguei bem ao albergue. Feliz por ter reencontrado Jesus, o Jato. 





RELATO DE 2001: 

(http://www.tiencamino.com.br/2008/05/que-tudo-seja-luz-15-dia.html) 

segunda-feira, 18 de abril de 2016

20/10/2015 - Molinaseca a Villafranca

DEPOIS DO FRIO, O CALOR!!!


Uma coisa que eu nunca vou entender é o motivo de passarmos por determinado local no Caminho de forma penosa ou não. Logo no dia da Cruz de Ferro, um dos mais lindos, pegamos aquela chuva. Ao acordar na manhã seguinte (na Casa Rural San Nicholas, em Molinaseca) percebi que o dia seria de sol e céu aberto. Me deu vontade de pegar um taxi e voltar até rabanal para percorrer tudo de novo e poder curtir a etapa da Cruz de Ferro, Foncebadón e Manjarin. O que me deteve foi a experiência de ter tido um dia lindo no meu caminho de 2001. Eu agora já sabia como era aquele percurso com sol e com chuva e frio. Preferi seguir com o grupo. Estávamos nos entrosando mais e mais. 


Saímos todos juntos. Tirando fotos (coisa que no dia anterior não foi possível fazer!), sonhando em comprar as casas com placas de SE VENDE, brincando com as "sofrências" do dia anterior e já com o espírito do Caminho em nós. Estávamos entregues! Até ali, acho que ainda teve uma certa adaptação, um "estar não estando".  Até o Artur e a Camilla que estavam meio na deles, já estavam mais soltinhos. 

Seguimos unidos até Ponferrada. Uns mais à frente, outros mais atrás. Eu ia escutando minhas músicas, fazendo meus vídeos ao vivo para o pessoal que me acompanhava aqui no Brasil e fotografando tudo. Acho que até teia de aranha eu tirei foto! Ia cumprimentando todo mundo que passava por mim. Na entrada da cidade, parei para comprar uma banana, chocolate e água. Como eu comi chocolate dessa vez! Cada paradinha, um chocolate! 


Fomos percorrendo as ruas da cidade até chegar ao Castelo Templário. Que obra magnifica! Minha idéia era entrar e conhecer por dentro (coisa que não fiz da outra vez!). Sinceramente, não tive vontade! Estava ligada no caminhar, na troca, no aprendizado daquela peregrinação. Acho que valeria dormir lá e curtir um dia de programação turística. Decidido isso, segui. Caminhei aquele dia com a Thayse a maior parte do tempo. Ela também era peregrina veterana e, como tinha percorrido o Caminho mais recentemente que eu, lembrava de quase todos os lugares que íamos passando. Daquela etapa, eu me lembrava das casinhas na saída da cidade, a passagem pela Universidade e da chegada à Villafranca no albergue de Jesus Jato. Mais nada!

Fomos batendo papo de mulher. Besteiras mesmo! Falando de namoro, rotina, estudos e um monte de coisinhas que as mulheres gostam de conversar. E o tempo foi passando, fomos avançando, tirando fotos e numa bifurcação, continuamos em frente, super distraídas. Foi quando ouvimos uma mulher nos chamar. Eu estava com aquela história do assassinato da Denise na cabeça. Confesso que por segundos pensei que ela iria nos alertar sobre algo perigoso, pois iniciou a frase dizendo:
- "Não sigam por aí!"
E eu pensei mil abobrinhas! Achei que ela fosse dizer que era perigoso, que fossemos de taxi, que não caminhássemos sozinhas ou algo parecido. Nada disso! Simplesmente as flechas estavam apontando para outro lado e, distraídas em nossos papos, não vimos. 

Caminho certo, fomos em frente. Alguns minutos depois, vimos Artur e Camilla sentados em uma pracinha fazendo um lanche. Decidimos parar e acompanhá-los nas guloseimas. Pegamos refris na maquininha e uns doces numa pequena confeitaria. Lá fui eu de novo no chocolate e empanada de atum! Que coisa deliciosa!!! O ruim foi levantar pra caminhar novamente! 



Não tendo outra escolha, caminhamos! Mesmo que tivéssemos, caminharíamos! Peregrinar é maravilhoso para abrir os horizontes. Fazemos um paralelo com a vida. O peso exagerado nas costas, por exemplo. Muitas vezes, ele é carregado de vaidades que poderiam ser descartadas. O passo a passo, o dia após dia, coisas que não vivenciamos porque estamos sempre ansiosos em resolver o futuro que ainda nem chegou. Pensamos no dia em que chegaremos em Santiago e esquecemos de colocar os pés no chão e experimentar o presente, ultrapassar os obstáculos e no aprendizado de cada ato. Eu vejo no Caminho, um espelho da vida. Nada lá é bonito ou mágico ou alegre em sua totalidade. Por isso, faço questão de escrever meus medos, meus erros, minhas imperfeições. Assim, consigo passar um filme da minha vivência daquele dia e aplicar o que aprendi na vida pós Caminho.

O dia foi passando, o calor aumentando e o cansaço batendo. O sol na "lata" foi me dando um desânimo danado! Lembrava das pessoas falando que nessa época, colhiam frutas nos pés e iam comendo. E eu não tinha visto uma só fruta! A não ser na prateleira dos mercados. Ali por perto de Camponayara e Cacabellos, passamos por vinícolas, mas a uvas estavam secas. Mesmo assim, achei um cacho pra chamar de meu! Tinha que tirar uma foto com as uvas nas mãos! Apesar de pequenas, estavam deliciosas! Pena que não foram o suficiente para me dar animo para continuar até Villafranca. Eu estava super cansada, com o rosto vermelho de tanto sol, toda suada e com muita sede. Mesmo parando para beber água, continuei com sede. Sentia meus pés fritando dentro das botas. 











Resolvemos parar na Capela de San Roque em Cacabellos para retomar as forças. O Sr. Antônio, que cuida da Capela foi muito simpático! Contou que havia morado em São Paulo, perguntou se ainda tinha o bonde que ia pro centro. Ficou contando histórias de suas andanças por aqui. Tiramos umas fotos e resolvemos que não dava mais para enfrentar 10km de subida até Villafranca. E como tínhamos marcado de encontrar os demais brasileiros (Thayse estava acompanhada dos pais), resolvemos pegar um taxi. Novamente a "la Angélica".














Conforme o taxi foi subindo pela estrada, tive a certeza de que não aguentaria caminhar aquilo tudo debaixo daquele sol. E nem queria me penitenciar e me submeter ao sofrimento. Estava lá para curtir, para aprender, para entender os motivos da minhas escolhas e não deixar nenhum tipo de culpa interferir nelas. "Fui de taxi, você sabe..."

RELATO DE 2001 - EL ACEBO - PONFERRADA:
http://www.tiencamino.com.br/2008/05/sada-de-el-acebo-ainda-estava-escuro.html



domingo, 17 de abril de 2016

19/10/2015 - Rabanal - Molinaseca

Acordamos com o barulho da chuva forte. Ainda estava escuro lá fora. Apesar da preguiça,tínhamos que seguir. Coloquei todas as roupas que tinha levado: blusa segunda pele, camiseta, fleece, corta vento e, de quebra, a capade chuva. Fazia muito, muito frio. E ficava pior com a chuva e o vento cortante. Fomos até o restaurante do albergue e tomamos café. Era desanimador olhar lá pra fora e imaginar o dia difícil que teríamos pela frente. A única ideia que me ocorreu foi enviar minha mochila para Molinaseca de taxi. Seria menos penoso caminhar naquelas condições sem o peso nas costas. E isso não me fazia menos peregrina, nem tirava o brilho do meu Caminho. Já tinha aprendido isso em 2001! "E vamos que vamos, porque hoje é dia da Cruz de Ferro! Cruz dos Caminhos, Cruz de Mercúrio!"

E realmente o dia foi muito difícil. Começamos com chuva forte e muito frio. As trilhas, que eram estreitas e íngremes, mais pareciam uma corredeira. A agua descia com tudo! A bota, apesar de ter a tecnologia Goretex, ensopou em menos de uma hora. Conforme eu ia avançando, meu corpo suava naquela "sauna" embaixo da capa de chuva. Por causa disso, eu ia sentindo mais frio ainda. A solução era parar em algum lugar coberto e tirar o excesso de roupa. Mas, isso não foi possível. Simplesmente o único lugar coberto era a minha capa de chuva. Tive que me revirar inteira dentro dela para abrir o ziper do corta-vento e ir tirando a roupa ali embaixo mesmo. Um malabarismo!


No meio da trilha, passa os por um casal que levava seu cachorrinho. Aquele que carinhosamente chamamos de "linguiça". Eles vinham arrastando o bichinho pela trilha. Trilha não! Era um rio que vinha descendo por entre as pedras. Naquele frio!!! Coitado do cachorro! Não me contive e perguntei para a mulher:
- "Porque você não o leva no colo? Não está muito frio para ele ir andando no meio dessa agua?"
- "Ele está acostumado." - respondeu a cara de pau.
Me deu uma raiva dela! Insisti que ela o levasse no colo, me ofereci para carregá-lo e nada! Ela continuou caminhando e puxando o cachorrinho pela coleira. Infelizmente, naquele momento, fiz o que estava ao meu alcance. Acelerei o passo e deixei o casal para trás. Não queria ser cumplice daquela tortura.

Depois de alguns quilômetros, enfim chegamos a Foncebadon. Cheguei fazendo piada "só o cume interessa". Artur e Camilla riram e resolveram parar e tomar algo quente. Combinei que iria também, mas antes queria registrar em fotos a mudança do local. Foncebadón já não era mais um pueblo abandonado. Havia inúmeros bares, albergues e cafés. Algumas construções estavam finalizadas, diferentemente de 2001, quando eram ruínas.


Entrei para o café. Encontrei as cariocas Ana e Ana Paula. Ficamos ali conversando e tomando chocolate quente. Confesso que quase mandei buscar minha mochila para pernoitar ali. Estava tão quentinho e aconchegante! Artur e Camilla seguiram e eu resolvi curtir mais um pouco o conforto. Quando resolvi ir embora, encontrei o casal com o cachorro. O bichinho tremia de frio. Tirei minha blusa "segunda pele" e pedi licença à mulher e comecei a secá-lo e abraçá-lo junto ao meu corpo já aquecido. Ela sorriu e me agradeceu. Mas eu não me contive e dei uma chamada nela!
- "Você deveria levá-lo no colo, bem agasalhado e protegido da chuva! Esse bichinho não vai aguentar tanto frio!"
Ela pareceu aceitar seu erro. Preferi seguir em frente de novo. Pela segunda vez, eu fiz o que estava ao meu alcance.

Quando enfim, cheguei na Cruz de Ferro, não sabia se ficava emocionada em revê-la ou se ia direto para a capela coberta ao lado para ajeitar minhas roupas. Liguei minha câmera e fui filmando aquele momento mágico. Encontrei a Fatima emocionadíssima, Isabel e Thayse em cima do monte acenando para mim. Era tudo tão diferente! O frio, a chuva e o cansaço de caminhar no barro contrastava com o dia de sol que peguei em 2001. Desta vez, a névoa encobria a Cruz de Ferro e não pude avistá-la de longe. Fui invadida por uma felicidade sem fim! Subi o monte de pedras, tirei fotos, rezei, dancei, gritei, fiz tudo o que tinha direito. Deixei ali as pedras que estavam atravancando meu caminho. E dali pra frente, eu sabia que tudo seria diferente! Tive a certeza de que eu era capaz de mudar o rumo da minha vida! Com meu esforço. Com a minha garra! Eu estava viva! Estava de volta! Tinha minha identidade novamente! Eu era muito mais que a mãe que cuidava dos filhos e da casa. Assim seria! Que assim fosse! Que assim seja! Sempre!




Depois da cruz, fomos seguindo pela estrada rumo a Manjarin. Por estarmos em um dos pontos mais altos do Caminho, tivemos uma companhia extra: a neblina. Ela chegou de repente, deixando tudo muito mais frio que antes. E foi ficando tudo muito cansativo. A chuva não dava treguas, muito menos o frio. Não tinhamos lugar para descansarmos e nem beber algo quente. Pouco tempo depois chegamos em Manjarin. Achei que fosse encontrar o Thomás, porém ele estava em Madri. O lugar é pitoresco. Tudo muito rústico e simples. Só consegui parar para uma foto, pois estava congelando.




Continuei no meu ritmo, concentrada nos meus passos, prestando atenção na estrada (não dava para arriscar descer pela trilha com toda aquela agua) e tentando não desistir de caminhar naquele dia.
Realmente as condições eram péssimas! Comecei a sentir que minhas botas estavam frouxas nos pés e parei para amarrá-las. De repente, um carro branco parou um pouco à frente de onde eu estava. A Thayse se assustou e parou para ver quem era e me ajudar. Estávamos bem atentas, por conta do ocorrido com a peregrina Denise. Ainda havia um certo receio no ar. Não confiavamos mais com tanta facilidade nas pessoas. Sempre tínhamos um pé atrás

A porta do carro se abriu, um homem saiu de dentro dele e veio me minha direção. Fiquei tensa! Já estava preparada para gritar quando percebi que aquele semblante me era familiar. Acacio!!! Meu querido amigo, peregrino, hospitaleiro voluntário. Amigo de tantos caminhos! Que alegria! Não esperava grata suspresa naquele dia, muito menos no meio daquele toró! Nos abraçamos, nos emocionamos! Há anos não nos encontrávamos! Eu tive noticia de que ele estaria em Santigo naqueles dias, mas não pensei que fosse vê-lo antes de terminar meu caminho. Logo, os demais brasileiros perceberam que era ele e vieram todos confraternizar. Pena que foi muito rápido. Ele estava voltando pra casa e nós não podíamos ficar ali parados ou congelaríamos!


Pés na estrada novamente. A descida era forte e interminável! Curva pra cá, curva pra lá, fui ficando apertada para fazer xixi. O Caminho estava cheio de peregrinos, estávamos caminhando pela estrada. Não sabia que horas eu teria uma brecha para ir ao matinho. Não tinha outro jeito! Era o matinho ou fazia nas calças. A vontade foi ficando cada vez maior. Até que vi uma placa que sinalizava 3km para El Acebo. Imaginei que isso deveria ser uns 15 minutos de caminhada. No máximo, 20! Ah, mas a vontade era teimosa! Foi me vencendo, me torturando até que eu resolvi ficar um pouco para trás do grupo de peregrinos para entrar no mato. Entre um grupo e outro, vai dar tempo - pensei. E "záz"! Lá fui eu! Tinha que ser rápida! O mato era baixo e podiam me ver. E fui fazendo xixi com a máxima rapidez possível, só que com a força que fiz, soltei junto um pum. Não um pum qualquer! Um pum digno! Aqueles escandalosos, que se ouve "lá da esquina".
- Putz, e agora? Dá tempo Tilara! Dá tempo de sair daí sem ninguém te ver! Rápido! - conversei eu e eu mesmo.
Vesti a calça e saltei de trás do monte (não confundam com Trás-os-Montes!), certa de que ninguém me flagraria naquela situação vexatória. Foi tarde demais! Já ouvia os risos de um grupo de peregrinos. Não tinha pra onde correr. Viram a minha cara! Minha cara ficaria marcada para sempre na memória deles! Que vexame! Felizmente, levo essas coisas na esportiva. Ri de mim mesmo! Ainda falei pra eles que ali era um bom lugar para um xixi. Foi quando um deles me falou:
- "Você estava mesmo com vontade de ir ao banheiro ou não sabia que El Acebo está logo depois daquela curva?"
Pois é, assim foi minha chegada triunfal a El Acebo.

E logo depois daquela curva estava o Artur. Pálido, tremendo de frio, me esperando. Disse-me que havia chamado um taxi. Não aguentava mais o frio. Ele, Camilla e a maioria dos peregrinos tinham chegado ao limite. Resolvi que iria com eles. O dia já tinha sido muito difícil pra mim também. Estava doida para chegar na Casa Rural San Nicholas, em Molinaseca e conhecer a Mara. E assim seria: a la Angelica - Vou de taxi, você sabe...

Artur me falou que iríamos dividir o taxi com um casal. Para minha surpresa eram os donos do cachorro. Eles me agradeceram muito por ter cuidado do bichinho e resolveram poupá-lo de ficar mais tempo no frio. Enfim, minhas intervenções surtiram efeito! E nossa carona para Molinaseca ficou mais leve. E a chegada também.  Mara e sua familia nos recebram com bolo,  café  quentinho e muito amor! No jantar, arroz e feijão preto.  Ne lembro o que tinha de acompanhamento! Estava uma delícia!

E meu dia dificil parecia não acabar! Depois do jantar, desci para escovar os dentes e escorreguei. Levei um tombo. Não um tombo qualquer! Um super tombo. Teria quebrado o cox se não fosse o bumbum avantajado! Fiquei tensa! Achei que meu caminho tinha acabado! Felizmente, sou uma peregrina de muita sorte mesmo! Estava de meias e chinelo de dedo. Espero que você que está lendo isso agora, não se arrisque a descer uma escadaria de chinelo e meias!!!  Um erro!



RELATO DE 2001: RABANAL - EL ACEBO:
http://www.tiencamino.com.br/2008/05/acordei-com-aquele-delicioso-aroma-de.html