terça-feira, 10 de junho de 2008

CAMINHO DO SOL - CABREÚVA - CANA VERDE - 3º DIA


Nem preciso repetir que o café da manhã daquelas bandas era maravilhoso, né? A comidinha do interior tem mais sabor. Era o que me fazia ficar de bom humor. Naquela manhã, eu caminharia até a estrada e, de lá, seguiria com a Márcia até a rodoviária. Havia desistido do Caminho do Sol, mas queria fazer companhia ao resto do grupo. Por via das dúvidas, levei minha mochila comigo.

A saída do camping é bem dura. Não é qualquer pessoa que pode percorrê-la. Uma subida muito íngreme, com algumas pequenas escaladas segurando as raízes das árvores. Para piorar a situação, comecei a sentir cólicas insuportáveis. Coisas de mulher! E se tinha alguma coisa para enterrar de vez meu humor e minha vontade de continuar no Caminho, apareceu uma dor de barriga daquelas. Mais uma vez eu iria usar o pior dos banheiros! Por sorte, Márcia, a dona do camping, havia levado papel higiênico.

Consegui segurar todas as dores até a estrada. Me despedi do grupo e fui ao “toillete”. Voltando ao camping com a Márcia, me ocorreu que eu estava me entregando muito facilmente às dificuldades do Caminho do Sol. Resolvi que ia continuar. Tentei achar uma solução para chegar à Fazenda Cana Verde, porque aquele dia realmente eu não tinha a mínima condição de andar. Contei à Márcia minha decisão e, de repente, ela viu um carro com um casal passar passando por nós e acenou pedindo para que parassem. Era a mensagem que eu esperava do Universo para ter certeza de que deveria percorrer o caminho do Sol até o fim. O casal me deu uma carona até a Cana Verde.


Não passamos pelo mesmo trajeto dos peregrinos, portanto, ninguém do grupo sabia que eu estaria na Cana Verde. Chegando à fazenda, tive uma sensação enorme de paz. É um lugar maravilhoso. E para completar, um cheirinho delicioso vinha do fogão à lenha. Esse pessoal queria me matar! Em qual Caminho eu iria perder peso. Impossível! Tomei um belo banho, deitei-me numa rede, bebi um chá para a cólica e dormi. Acordei com a voz dos peregrinos chegando. Havia chovido muito e todos pareciam pintos molhados. Quando me viram, não entenderam nada, mas Zico me pareceu feliz.


Jantamos todos juntos, conversamos bastante e fomos dormir. A noite foi de muito frio. As senhoras de Holambra alugaram cobertores e roupas de cama. Aliás, elas estavam fazendo isso em todos os albergues e, consequentemente, levavam pouco peso nas mochilas. Eu ficava incomodada com isso, elas não tinham o espírito peregrino, mas eu não podia julgar ninguém, até mesmo porque eu tinha acabado de pular uma etapa de carona. Bem aquecida, tive uma noite maravilhosa.

segunda-feira, 9 de junho de 2008

CAMINHO DO SOL - PIRAPORA À CABREÚVA - 2º DIA


Café da manhã delicioso, como era de se esperar! Devidamente alimentados e descansados, na neblina que cobria a cidade, partimos. Zico, é claro, já tinha ido muito antes de nós. A saída era pela ponte que passava por sobre o rio Tietê. A espuma era tanta, que cobria a pequena ponte. Numa tinha visto coisa igual! Diante de nossa indignação, um morador que passava na hora nos contou que, certa vez, a poluição havia invadido Pirapora. Pensei novamente até quando estragaríamos o planeta em que vivemos?


Atravessando a ponte, ganhamos novamente o asfalto, mas logo a estrada foi ganhando vida e chegamos em um ponto onde o rio Tietê ficava do lado esquerdo, as árvores eram frondosas e do lado direito tinham algumas propriedades. Parei para tirar algumas fotos da poluição do rio, porque apesar de triste, a cena era impressionante demais para passar sem registro. À frente, encontrei uma mesinha de pedra e parei para descansar. Do outro lado da estrada havia uma bica. Molhei a cabeça e o boné. Quando mergulhei em meus pensamentos, aproveitando o silêncio do lugar, apareceram os outros caminhantes. Aquilo me aborreceu um pouco, mas detive minha impaciência e deixei a conversa fluir.

Rosana era uma moça bem falante e engraçada. Dei boas risadas com ela. Em alguns aspectos ela me lembrava a Mônica, pois era meio “patricinha”. Achei que dali sairia uma grande amizade. O resto do grupo ainda estava bem fechado e não se entregavam totalmente. Não podia fazer um pré-julgamento, pois eu também não estava à vontade com eles. Ficamos ali conversando durante uma meia hora, em seguida colocamos nossas mochilas nas costas e partimos. Após alguns metros, encontramos Zico descansando. Tentei puxar conversa, mas ele parecia querer ficar sozinho. Aquilo me incomodava, porque ele era o único do grupo que havia feito Santiago e eu julgava que tínhamos um laço que nos unia. Mas eu não desistiria! Iria conquistar a amizade dele a qualquer custo! Sabia que aquele não era o momento apropriado e segui viagem.

Finalmente entrei em um chão de terra batida. Adiante, encontrei uma mercearia e lá estava um bar! Na mesma hora me lembrei do meu amigo Chico! Ele certamente tiraria calmamente a mochila e as botas, se sentaria em uma cadeira, colocaria os pés apoiados em outra para esticar as pernas e pediria um café com leite. Que falta ele me fazia! Sentei-me no chão, pedi um refrigerante e comi uma banana. De repente, achei que merecia uma “gelada”. E porque não? Eu mesma me espantei coma idéia, pois não sou de beber (tirando os ótimos vinhos da Espanha). Resolvi dar-me esse prazer. Como sou fraquinha para bebida, fiquei um pouco alegre e tudo ficou mais bonito.

O dia ainda reservava muita dificuldade. Eu estava desacostumada a caminhar e com o passar das horas, o corpo começou a reclamar. Fui diminuindo o passo e parei inúmeras vezes para descansar. O sol não dava tréguas e a cidade de Cabreúva não chegava nunca! Quando vi a primeira placa sinalizando a entrada da cidade, entrei em êxtase! Mal sabia eu que teria mais de uma hora de caminhada até alcançar o camping.

Com o tempo, percebi que tudo era bom demais para ser verdade e comecei a cansar novamente. Dessa vez, o emocional também pesou bastante e a famosa pergunta “O que estou fazendo aqui” insistia em latejar na minha cabeça. Para piorar a situação, quando senti uma fisgadinha no meu pé, descobri uma bolha. No segundo dia?! Em Santiago tive uma bolhinha insignificante no penúltimo dia de Caminho! Que diachos!!! Bom, o jeito era sentar e tentar contornar a situação, mas à minha volta estava um grupo de mendigos mal-encarados que impediu-me de parar. Se é que ainda tinha como piorar, a estrada que dava acesso ao camping era uma enorme ladeira e, chegando ao camping, tinha outra subida ainda mais íngreme. Resultado: cheguei em frangalhos!

Depois do banho, do jantar e do descanso à beira da piscina, pensei seriamente em desistir. Eu não conseguia reviver Santiago e não achava nada agradável a idéia de gastar meu dinheiro para caminhar por entre canaviais! Nessa hora, conversei com Zico, que não quis me aconselhar. Apenas me disse que nada seria como Santiago. E ele tinha toda razão. O Caminho do Sol ainda me surpreenderia.