
Nem preciso repetir que o café da manhã daquelas bandas era maravilhoso, né? A comidinha do interior tem mais sabor. Era o que me fazia ficar de bom humor. Naquela manhã, eu caminharia até a estrada e, de lá, seguiria com a Márcia até a rodoviária. Havia desistido do Caminho do Sol, mas queria fazer companhia ao resto do grupo. Por via das dúvidas, levei minha mochila comigo.
A saída do camping é bem dura. Não é qualquer pessoa que pode percorrê-la. Uma subida muito íngreme, com algumas pequenas escaladas segurando as raízes das árvores. Para piorar a situação, comecei a sentir cólicas insuportáveis. Coisas de mulher! E se tinha alguma coisa para enterrar de vez meu humor e minha vontade de continuar no Caminho, apareceu uma dor de barriga daquelas. Mais uma vez eu iria usar o pior dos banheiros! Por sorte, Márcia, a dona do camping, havia levado papel higiênico.
Consegui segurar todas as dores até a estrada. Me despedi do grupo e fui ao “toillete”. Voltando ao camping com a Márcia, me ocorreu que eu estava me entregando muito facilmente às dificuldades do Caminho do Sol. Resolvi que ia continuar. Tentei achar uma solução para chegar à Fazenda Cana Verde, porque aquele dia realmente eu não tinha a mínima condição de andar. Contei à Márcia minha decisão e, de repente, ela viu um carro com um casal passar passando por nós e acenou pedindo para que parassem. Era a mensagem que eu esperava do Universo para ter certeza de que deveria percorrer o caminho do Sol até o fim. O casal me deu uma carona até a Cana Verde.

Não passamos pelo mesmo trajeto dos peregrinos, portanto, ninguém do grupo sabia que eu estaria na Cana Verde. Chegando à fazenda, tive uma sensação enorme de paz. É um lugar maravilhoso. E para completar, um cheirinho delicioso vinha do fogão à lenha. Esse pessoal queria me matar! Em qual Caminho eu iria perder peso. Impossível! Tomei um belo banho, deitei-me numa rede, bebi um chá para a cólica e dormi. Acordei com a voz dos peregrinos chegando. Havia chovido muito e todos pareciam pintos molhados. Quando me viram, não entenderam nada, mas Zico me pareceu feliz.
Jantamos todos juntos, conversamos bastante e fomos dormir. A noite foi de muito frio. As senhoras de Holambra alugaram cobertores e roupas de cama. Aliás, elas estavam fazendo isso em todos os albergues e, consequentemente, levavam pouco peso nas mochilas. Eu ficava incomodada com isso, elas não tinham o espírito peregrino, mas eu não podia julgar ninguém, até mesmo porque eu tinha acabado de pular uma etapa de carona. Bem aquecida, tive uma noite maravilhosa.


