Apertei o passo e fui embora, sempre acompanhada das minhas músicas! Pegamos uma pequena rodovia de mão dupla e sem acostamento. Isso me deixou um pouco frustrada. O que salvou aquele trecho foi o lindo bosque que ladeava a estrada. As sucessivas subidas e descidas, sempre pelo asfalto e o sol forte batendo na “caixola” me fizeram ficar mal-humorada. Já sabendo que um Caminho pode nos reservar momentos como esse, fiquei pensando o que poderia tirar de positivo da dureza daquele caminhar. Claro que não consegui. A experiência de Santiago também me ensinou que, às vezes, não aprendemos na mesma hora em que caminhamos. Com o passar do tempo é que vamos assimilando e reconhecendo erros e acertos. Isso aconteceu comigo durante todo o Caminho do Sol.
O dia nos reservava mais surpresas. Algumas agradáveis e outras não. A constante “companhia” do asfalto não me agradava e, numa subida muito íngreme, veio à mente a famosa pergunta:
— “O que eu vim fazer aqui?”
Sentei no acostamento e, desolada, permaneci por mais de meia hora. Logo apareceram os outros peregrinos do grupo. Para eles, tudo era novidade, tudo era lindo! Lanchamos juntos, dei mais umas boas risadas com a Rosana e então, partimos.
De repente, surgiu uma seta apontando para uma estrada de terra. Me enchi de esperança! Enfim, começaria a reviver o caminho de Santiago! Como rapadura é doce, mas não é mole, logo iniciou-se uma subida sem fim. Seria um Cebreiro? Quase isso, a vista que tive lá no topo valeu muito a pena! Era a primeira surpresa agradável: um platô de onde se via a cidade de Pirapora, que parecia de brinquedo! As casinhas coloridas e o rio Tietê ao fundo, cheio de espumas enormes de poluição. Não fosse a beleza daquela cidadezinha, ficaria desolada por ver o que estamos fazendo com nosso planeta. Até quando vamos ter esses pensamentos imediatos e resolver cuidar do futuro?

Seguindo viagem, passei por um corredor de árvores que me lembrou muito Santiago. Queria que aquela paisagem perdurasse pelos mais de 200 km que ainda tinha pela frente. Mas, cada caminho é único e eu ainda não tinha percebido isso de fato.
Chegando em Pirapora, me deu uma vontade danada de ir as compras. Queria comprar qualquer coisa! Foi quando lembrei que não estava ali só de férias. Carregava comigo uma mochila. Tive então que adaptar minha ânsia de consumo. Passei numa farmácia e comprei uma escovinha de dentes e um “micro desodorante”. Na papelaria, um “micro caderno”, na lojinha de roupas, um par de meias, na vendinha, umas barrinhas de cereal e por aí foi...
Satisfeita com minhas comprinhas, voltei à pousada. O pessoal já se preparava para o almoço. Ah, como é bom saborear uma comidinha caseira do interior! As mulheres têm mãos de fada! Tudo perfeito! Dali, segui para o quarto, tomei um bom banho e descansei. Como ainda tinha muito tempo pela frente, sentei-me na entrada da pousada para ver o movimento de Pirapora. Ao cair da tarde, dei mais uma volta pela cidade, contendo a vontade de comprar lembrancinhas, mas não resisti ao pastel e ao sorvete artesanais! Eu e meus caminhos gastronômicos!
Hora de descansar para enfrentar o primeiro grande dia de caminhada, pois de Santana à Pirapora, foram somente 13 km.
