quarta-feira, 4 de junho de 2008

CAMINHO DO SOL - PÉ NA ESTRADA (LITERALMENTE) - 1º DIA

Nos despedimos de Palma e descemos a ruazinha da Pousada 1896 em direção à saída da cidade. Os novos peregrinos queriam que, Zico e eu, fôssemos à frente por sermos os mais experientes a seguir setas amarelas. Zico deve ter percebido a cilada que seria guiar as pessoas e saiu um pouco mais cedo que nós. Confesso que não gostei muito da idéia, mas diante do “sumiço” de Zico, não tive escolha. Logo na primeira curva, me perdi. Não vi seta nenhuma. Escolhi ir reto, mas grupo me chamou a atenção. Meu deslize não foi proposital, mas foi muito bem-vindo! Assim eu teria uma desculpa para soltar as amarras que me arranjaram e fazer meu Caminho em paz. Foi a primeira lição que aprendi no Caminho de Santiago e eu não queria que se repetisse no Sol.

Apertei o passo e fui embora, sempre acompanhada das minhas músicas! Pegamos uma pequena rodovia de mão dupla e sem acostamento. Isso me deixou um pouco frustrada. O que salvou aquele trecho foi o lindo bosque que ladeava a estrada. As sucessivas subidas e descidas, sempre pelo asfalto e o sol forte batendo na “caixola” me fizeram ficar mal-humorada. Já sabendo que um Caminho pode nos reservar momentos como esse, fiquei pensando o que poderia tirar de positivo da dureza daquele caminhar. Claro que não consegui. A experiência de Santiago também me ensinou que, às vezes, não aprendemos na mesma hora em que caminhamos. Com o passar do tempo é que vamos assimilando e reconhecendo erros e acertos. Isso aconteceu comigo durante todo o Caminho do Sol.

O dia nos reservava mais surpresas. Algumas agradáveis e outras não. A constante “companhia” do asfalto não me agradava e, numa subida muito íngreme, veio à mente a famosa pergunta:
— “O que eu vim fazer aqui?”
Sentei no acostamento e, desolada, permaneci por mais de meia hora. Logo apareceram os outros peregrinos do grupo. Para eles, tudo era novidade, tudo era lindo! Lanchamos juntos, dei mais umas boas risadas com a Rosana e então, partimos.

De repente, surgiu uma seta apontando para uma estrada de terra. Me enchi de esperança! Enfim, começaria a reviver o caminho de Santiago! Como rapadura é doce, mas não é mole, logo iniciou-se uma subida sem fim. Seria um Cebreiro? Quase isso, a vista que tive lá no topo valeu muito a pena! Era a primeira surpresa agradável: um platô de onde se via a cidade de Pirapora, que parecia de brinquedo! As casinhas coloridas e o rio Tietê ao fundo, cheio de espumas enormes de poluição. Não fosse a beleza daquela cidadezinha, ficaria desolada por ver o que estamos fazendo com nosso planeta. Até quando vamos ter esses pensamentos imediatos e resolver cuidar do futuro?


Seguindo viagem, passei por um corredor de árvores que me lembrou muito Santiago. Queria que aquela paisagem perdurasse pelos mais de 200 km que ainda tinha pela frente. Mas, cada caminho é único e eu ainda não tinha percebido isso de fato.

Chegando em Pirapora, me deu uma vontade danada de ir as compras. Queria comprar qualquer coisa! Foi quando lembrei que não estava ali só de férias. Carregava comigo uma mochila. Tive então que adaptar minha ânsia de consumo. Passei numa farmácia e comprei uma escovinha de dentes e um “micro desodorante”. Na papelaria, um “micro caderno”, na lojinha de roupas, um par de meias, na vendinha, umas barrinhas de cereal e por aí foi...

Satisfeita com minhas comprinhas, voltei à pousada. O pessoal já se preparava para o almoço. Ah, como é bom saborear uma comidinha caseira do interior! As mulheres têm mãos de fada! Tudo perfeito! Dali, segui para o quarto, tomei um bom banho e descansei. Como ainda tinha muito tempo pela frente, sentei-me na entrada da pousada para ver o movimento de Pirapora. Ao cair da tarde, dei mais uma volta pela cidade, contendo a vontade de comprar lembrancinhas, mas não resisti ao pastel e ao sorvete artesanais! Eu e meus caminhos gastronômicos!
Hora de descansar para enfrentar o primeiro grande dia de caminhada, pois de Santana à Pirapora, foram somente 13 km.

terça-feira, 3 de junho de 2008

CAMINHO DO SOL - PONTO DE PARTIDA


O tempo foi passando e dois anos após o Caminho de Santiago, surgiu a oportunidade de voltar a peregrinar. Eu até podia arriscar tudo e voltar para a Espanha, mas já estava novamente pensando "e se":
-E se eu fosse embora de vez, ser peregrina, depois hospitaleira, daria certo? E se eu não me adaptasse ao estilo de vida "viver de donativos"?


Resolvi ficar pelo Brasil, mas definitivamente faria outra peregrinação. Pesquisei várias opções e escolhi a mais acessível: Caminho do Sol. Era perto do Rio, daria para voltar rápido se surgisse algum trabalho. Não percebi que com esse tipo de pensamento, não estaria totalmente aberta à experiência do Caminho do Sol.


Numa ida a São Paulo para fazer um trabalho, aproveitei para assistir à palestra sobre o Caminho do Sol, com o seu idealizador: Palma. Eu já o conhecia pela internet e pelos encontros dos Amigos do Caminho. Confesso que não dei muita importância para o que ele falou naquele dia. Não registrei que o Caminho do Sol era duro, não havia a mesma beleza histórica de Santiago, tínhamos um roteiro pré-estabelecido para seguir, pois não havia opções de albergues entre uma parada e outra. Eu queria reviver Santiago e achava que qualquer Caminho poderia me oferecer a mesma satisfação. Criei essa expectativa na minha cabeça e mergulhei fundo!


Num domingo, refiz minha mochila com ansiedade. A mesma que vivi antes de ir a Santiago. Até aquele momento, tudo igual. As mesmas roupas, cajado, o tênis que comprei em Pamplona, as papetes, a mochila. Uma pequena diferença: o celular. Passei a noite em claro, imaginando todo o percurso. Será que os novos amigos matariam minha saudade do Chico, Calixto e Mônica? Encontraria alguém para me acompanhar nos cafézinhos, para me chamar de "véio do rio" ou me proteger de algum engraçadinho com as mãos bobas?


Segunda-feira cedinho, embarquei no ônibus que me levaria a São Paulo, onde encontraria Palma. Já no guichê, fiz amizade com Felipe, um peregrino de Santiago, que estava indo ao Consulado Espanhol pegar sua cidadania e embarcara para Barcelona. Não poderia ser mais inspirador! Nas seis horas seguintes, conversamos sobre Santiago. Tudo estava conspirando para que eu revivesse o Caminho! Estava muito feliz!


À noite, encontrei o Palma e seguimos para Santana de Parnaíba, onde começa o Caminho do Sol. Tentamos comer a pizza mais famosa da cidade, mas chegamos tarde e tudo estava fechado. Santana de Parnaíba é uma cidadezinha simpática. Aquelas com igreja, pracinha e casarões antigos. Fomos para a Pousada 1896, onde Emanoel nos recebeu. Um homem simpático, cheio de história para contar. Fui acomodada em um quarto com outras pessoas que pernoitavam na cidade. Não me importei em não ficar somente com peregrinos, mas deveria. A noite foi uma sinfonia de roncos! Tive que colocar meu Cd Player para trabalhar. Dormi ao som de Gil.


Pela manhã, como sempre fazia em Santiago, saboreei o café com leite e pão com manteiga. Enchi meu cantil e fiquei esperando pelo grupo de peregrinos: uma da capital, Rosana; um do interior, que já tinha feito Compostela, Zico; três mulheres do interior, da cidade de Holambra II, Petra, Cris e Shirley e Ney, também de São Paulo. Começava ali o meu Caminho do Sol.