terça-feira, 22 de julho de 2008

VESÚVIO – ELIAS FAUSTO – 5º DIA

O DIA DA CACHORRADA
Acordei super bem disposta. A noite anterior tinha sido inspiradora e o visual da Fazenda Vesúvio no fim da tarde e ao amanhecer era incrível! Para completar (e variar um pouquinho – rsrsrs) o café da manhã estava delicioso. Muitas frutas, bolo e pães quentinhos, leite, queijo branco, manteiga, tudo muito fresco. Como é bom não ter comida industrializada na mesa, Tudo era muito mais saboroso! Nem preciso dizer que saí dali quase rolando, não é mesmo? Além disso, fui a última a deixar a casa.


Aquele dia reservava muitas surpresas para mim. Os primeiros momentos da caminhada, ainda na Vesúvio, tinham como cenário, um lago, um bosque e, ao final, uma casinha e um cachorro lindo. E muito bravo! A casa não era murada e o cachorro pôs-se a correr e latir na minha direção quando, de repente, ficou preso pela enorme coleira. Quase morri de susto! Mais adiante, perdi o rumo do Caminho, peguei a direção errada e após minutos caminhando, um senhor me avisou que eu estava na direção contrária. Lá ia eu, caminhando tudo outra vez. De resto, tudo bem, andava por entre estradinhas de terra, passando por casas e sítios. Muitas vezes, os cachorros vinham me receber “amigavelmente” no portal de suas casas. Eu fingia que nem era comigo, mas no fundo, rezava para que nenhum deles conseguisse pular o muro.

Mais a frente, encontrei o grupo fazendo um lanchinho. Juntei a eles. Todo mundo estava assustado com os cachorros. Todas as casas daquela região tinha um cachorro amigo no quintal. Dali, caminhamos juntos durante um longo tempo. Algumas vezes uns iam a frente, outras, todos conversando e curtindo o lindo dia de sol. Eu já estava mais solta, mas ainda existia um certo distanciamento da minha parte, porque, exceto Zico, todos viam o caminho de um jeito diferente. Eu tinha aquele “ideal peregrino compostelano”, que nos diz para não pegar carona, ter que carregar o peso da mochila, viver somente com o indispensável. Os outros levam o caminho mais “na flauta” curtindo a paisagem, os lanches, as conversas, mandando suas mochilas de táxi, alugando roupas de cama e banho. Para mim, era difícil engolir tudo aquilo.

O dia foi ficando cada vez mais quente e nem sinal da cidade de Elias Fausto. Era a hora da pergunta fatídica: “O que eu estou fazendo aqui?” Aquele grupo que nada tinha a ver comigo, o caminho duro, real e ainda por cima um sol de 40 graus! Nem sabia mais o que eu queria: voltar no tempo e decidir por outro caminho, ter viajado para alguma praia paradisíaca, ter comprado um bilhete só de ida para a Espanha...
Estava totalmente confusa. Enquanto eu fazia de tudo para reviver o Caminho de Santiago, mais o Caminho do Sol me colocava no rumo da vida real.

Por fim, depois do longo e cansativo dia, cheguei à cidade. É claro que ainda nada era tão fácil como parecia. O albergue do Serra ainda estava bem distante. Fui distraindo a minha cabeça, admirando as casinhas, a rua quase deserta, o comércio fechado, tentando imaginar como é viver em Elias Fausto. Quais seriam as opções de lazer? Teria uma boate com aquelas músicas tipo bate-estaca? Como era a juventude local? Os “playboyzinhos” eram aqueles caras vestidos de caubóis e montados em suas picapes? Será que eu conseguiria viver num lugar sem shoppings, cinemas e boates?

Mergulhada naqueles loucos pensamentos, cheguei ao albergue do Serra. Fui recebida por ele e a esposa com a maior simpatia. Eles me avisaram que o Zico já havia chegado e comentado que era aniversário dele. Pediram que eu guardasse segredo, pois estavam fazendo um bolinho para cantar parabéns após o jantar. Prometi ficar de “bico calado” e segui para o quarto. Aproveitei o dia quente e tomei um banho gelado. Lavei minhas roupas e fui para a casa do Serra bater papo. Conversamos bastante sobre o caminho de Santiago, misticismo, religião e quando me dei conta já era noite. Jantamos e terminamos o dia com a comemoração do aniversário do Zico, que ficou emocionadíssimo.