segunda-feira, 18 de abril de 2016

20/10/2015 - Molinaseca a Villafranca

DEPOIS DO FRIO, O CALOR!!!


Uma coisa que eu nunca vou entender é o motivo de passarmos por determinado local no Caminho de forma penosa ou não. Logo no dia da Cruz de Ferro, um dos mais lindos, pegamos aquela chuva. Ao acordar na manhã seguinte (na Casa Rural San Nicholas, em Molinaseca) percebi que o dia seria de sol e céu aberto. Me deu vontade de pegar um taxi e voltar até rabanal para percorrer tudo de novo e poder curtir a etapa da Cruz de Ferro, Foncebadón e Manjarin. O que me deteve foi a experiência de ter tido um dia lindo no meu caminho de 2001. Eu agora já sabia como era aquele percurso com sol e com chuva e frio. Preferi seguir com o grupo. Estávamos nos entrosando mais e mais. 


Saímos todos juntos. Tirando fotos (coisa que no dia anterior não foi possível fazer!), sonhando em comprar as casas com placas de SE VENDE, brincando com as "sofrências" do dia anterior e já com o espírito do Caminho em nós. Estávamos entregues! Até ali, acho que ainda teve uma certa adaptação, um "estar não estando".  Até o Artur e a Camilla que estavam meio na deles, já estavam mais soltinhos. 

Seguimos unidos até Ponferrada. Uns mais à frente, outros mais atrás. Eu ia escutando minhas músicas, fazendo meus vídeos ao vivo para o pessoal que me acompanhava aqui no Brasil e fotografando tudo. Acho que até teia de aranha eu tirei foto! Ia cumprimentando todo mundo que passava por mim. Na entrada da cidade, parei para comprar uma banana, chocolate e água. Como eu comi chocolate dessa vez! Cada paradinha, um chocolate! 


Fomos percorrendo as ruas da cidade até chegar ao Castelo Templário. Que obra magnifica! Minha idéia era entrar e conhecer por dentro (coisa que não fiz da outra vez!). Sinceramente, não tive vontade! Estava ligada no caminhar, na troca, no aprendizado daquela peregrinação. Acho que valeria dormir lá e curtir um dia de programação turística. Decidido isso, segui. Caminhei aquele dia com a Thayse a maior parte do tempo. Ela também era peregrina veterana e, como tinha percorrido o Caminho mais recentemente que eu, lembrava de quase todos os lugares que íamos passando. Daquela etapa, eu me lembrava das casinhas na saída da cidade, a passagem pela Universidade e da chegada à Villafranca no albergue de Jesus Jato. Mais nada!

Fomos batendo papo de mulher. Besteiras mesmo! Falando de namoro, rotina, estudos e um monte de coisinhas que as mulheres gostam de conversar. E o tempo foi passando, fomos avançando, tirando fotos e numa bifurcação, continuamos em frente, super distraídas. Foi quando ouvimos uma mulher nos chamar. Eu estava com aquela história do assassinato da Denise na cabeça. Confesso que por segundos pensei que ela iria nos alertar sobre algo perigoso, pois iniciou a frase dizendo:
- "Não sigam por aí!"
E eu pensei mil abobrinhas! Achei que ela fosse dizer que era perigoso, que fossemos de taxi, que não caminhássemos sozinhas ou algo parecido. Nada disso! Simplesmente as flechas estavam apontando para outro lado e, distraídas em nossos papos, não vimos. 

Caminho certo, fomos em frente. Alguns minutos depois, vimos Artur e Camilla sentados em uma pracinha fazendo um lanche. Decidimos parar e acompanhá-los nas guloseimas. Pegamos refris na maquininha e uns doces numa pequena confeitaria. Lá fui eu de novo no chocolate e empanada de atum! Que coisa deliciosa!!! O ruim foi levantar pra caminhar novamente! 



Não tendo outra escolha, caminhamos! Mesmo que tivéssemos, caminharíamos! Peregrinar é maravilhoso para abrir os horizontes. Fazemos um paralelo com a vida. O peso exagerado nas costas, por exemplo. Muitas vezes, ele é carregado de vaidades que poderiam ser descartadas. O passo a passo, o dia após dia, coisas que não vivenciamos porque estamos sempre ansiosos em resolver o futuro que ainda nem chegou. Pensamos no dia em que chegaremos em Santiago e esquecemos de colocar os pés no chão e experimentar o presente, ultrapassar os obstáculos e no aprendizado de cada ato. Eu vejo no Caminho, um espelho da vida. Nada lá é bonito ou mágico ou alegre em sua totalidade. Por isso, faço questão de escrever meus medos, meus erros, minhas imperfeições. Assim, consigo passar um filme da minha vivência daquele dia e aplicar o que aprendi na vida pós Caminho.

O dia foi passando, o calor aumentando e o cansaço batendo. O sol na "lata" foi me dando um desânimo danado! Lembrava das pessoas falando que nessa época, colhiam frutas nos pés e iam comendo. E eu não tinha visto uma só fruta! A não ser na prateleira dos mercados. Ali por perto de Camponayara e Cacabellos, passamos por vinícolas, mas a uvas estavam secas. Mesmo assim, achei um cacho pra chamar de meu! Tinha que tirar uma foto com as uvas nas mãos! Apesar de pequenas, estavam deliciosas! Pena que não foram o suficiente para me dar animo para continuar até Villafranca. Eu estava super cansada, com o rosto vermelho de tanto sol, toda suada e com muita sede. Mesmo parando para beber água, continuei com sede. Sentia meus pés fritando dentro das botas. 











Resolvemos parar na Capela de San Roque em Cacabellos para retomar as forças. O Sr. Antônio, que cuida da Capela foi muito simpático! Contou que havia morado em São Paulo, perguntou se ainda tinha o bonde que ia pro centro. Ficou contando histórias de suas andanças por aqui. Tiramos umas fotos e resolvemos que não dava mais para enfrentar 10km de subida até Villafranca. E como tínhamos marcado de encontrar os demais brasileiros (Thayse estava acompanhada dos pais), resolvemos pegar um taxi. Novamente a "la Angélica".














Conforme o taxi foi subindo pela estrada, tive a certeza de que não aguentaria caminhar aquilo tudo debaixo daquele sol. E nem queria me penitenciar e me submeter ao sofrimento. Estava lá para curtir, para aprender, para entender os motivos da minhas escolhas e não deixar nenhum tipo de culpa interferir nelas. "Fui de taxi, você sabe..."

RELATO DE 2001 - EL ACEBO - PONFERRADA:
http://www.tiencamino.com.br/2008/05/sada-de-el-acebo-ainda-estava-escuro.html



domingo, 17 de abril de 2016

19/10/2015 - Rabanal - Molinaseca

Acordamos com o barulho da chuva forte. Ainda estava escuro lá fora. Apesar da preguiça,tínhamos que seguir. Coloquei todas as roupas que tinha levado: blusa segunda pele, camiseta, fleece, corta vento e, de quebra, a capade chuva. Fazia muito, muito frio. E ficava pior com a chuva e o vento cortante. Fomos até o restaurante do albergue e tomamos café. Era desanimador olhar lá pra fora e imaginar o dia difícil que teríamos pela frente. A única ideia que me ocorreu foi enviar minha mochila para Molinaseca de taxi. Seria menos penoso caminhar naquelas condições sem o peso nas costas. E isso não me fazia menos peregrina, nem tirava o brilho do meu Caminho. Já tinha aprendido isso em 2001! "E vamos que vamos, porque hoje é dia da Cruz de Ferro! Cruz dos Caminhos, Cruz de Mercúrio!"

E realmente o dia foi muito difícil. Começamos com chuva forte e muito frio. As trilhas, que eram estreitas e íngremes, mais pareciam uma corredeira. A agua descia com tudo! A bota, apesar de ter a tecnologia Goretex, ensopou em menos de uma hora. Conforme eu ia avançando, meu corpo suava naquela "sauna" embaixo da capa de chuva. Por causa disso, eu ia sentindo mais frio ainda. A solução era parar em algum lugar coberto e tirar o excesso de roupa. Mas, isso não foi possível. Simplesmente o único lugar coberto era a minha capa de chuva. Tive que me revirar inteira dentro dela para abrir o ziper do corta-vento e ir tirando a roupa ali embaixo mesmo. Um malabarismo!


No meio da trilha, passa os por um casal que levava seu cachorrinho. Aquele que carinhosamente chamamos de "linguiça". Eles vinham arrastando o bichinho pela trilha. Trilha não! Era um rio que vinha descendo por entre as pedras. Naquele frio!!! Coitado do cachorro! Não me contive e perguntei para a mulher:
- "Porque você não o leva no colo? Não está muito frio para ele ir andando no meio dessa agua?"
- "Ele está acostumado." - respondeu a cara de pau.
Me deu uma raiva dela! Insisti que ela o levasse no colo, me ofereci para carregá-lo e nada! Ela continuou caminhando e puxando o cachorrinho pela coleira. Infelizmente, naquele momento, fiz o que estava ao meu alcance. Acelerei o passo e deixei o casal para trás. Não queria ser cumplice daquela tortura.

Depois de alguns quilômetros, enfim chegamos a Foncebadon. Cheguei fazendo piada "só o cume interessa". Artur e Camilla riram e resolveram parar e tomar algo quente. Combinei que iria também, mas antes queria registrar em fotos a mudança do local. Foncebadón já não era mais um pueblo abandonado. Havia inúmeros bares, albergues e cafés. Algumas construções estavam finalizadas, diferentemente de 2001, quando eram ruínas.


Entrei para o café. Encontrei as cariocas Ana e Ana Paula. Ficamos ali conversando e tomando chocolate quente. Confesso que quase mandei buscar minha mochila para pernoitar ali. Estava tão quentinho e aconchegante! Artur e Camilla seguiram e eu resolvi curtir mais um pouco o conforto. Quando resolvi ir embora, encontrei o casal com o cachorro. O bichinho tremia de frio. Tirei minha blusa "segunda pele" e pedi licença à mulher e comecei a secá-lo e abraçá-lo junto ao meu corpo já aquecido. Ela sorriu e me agradeceu. Mas eu não me contive e dei uma chamada nela!
- "Você deveria levá-lo no colo, bem agasalhado e protegido da chuva! Esse bichinho não vai aguentar tanto frio!"
Ela pareceu aceitar seu erro. Preferi seguir em frente de novo. Pela segunda vez, eu fiz o que estava ao meu alcance.

Quando enfim, cheguei na Cruz de Ferro, não sabia se ficava emocionada em revê-la ou se ia direto para a capela coberta ao lado para ajeitar minhas roupas. Liguei minha câmera e fui filmando aquele momento mágico. Encontrei a Fatima emocionadíssima, Isabel e Thayse em cima do monte acenando para mim. Era tudo tão diferente! O frio, a chuva e o cansaço de caminhar no barro contrastava com o dia de sol que peguei em 2001. Desta vez, a névoa encobria a Cruz de Ferro e não pude avistá-la de longe. Fui invadida por uma felicidade sem fim! Subi o monte de pedras, tirei fotos, rezei, dancei, gritei, fiz tudo o que tinha direito. Deixei ali as pedras que estavam atravancando meu caminho. E dali pra frente, eu sabia que tudo seria diferente! Tive a certeza de que eu era capaz de mudar o rumo da minha vida! Com meu esforço. Com a minha garra! Eu estava viva! Estava de volta! Tinha minha identidade novamente! Eu era muito mais que a mãe que cuidava dos filhos e da casa. Assim seria! Que assim fosse! Que assim seja! Sempre!




Depois da cruz, fomos seguindo pela estrada rumo a Manjarin. Por estarmos em um dos pontos mais altos do Caminho, tivemos uma companhia extra: a neblina. Ela chegou de repente, deixando tudo muito mais frio que antes. E foi ficando tudo muito cansativo. A chuva não dava treguas, muito menos o frio. Não tinhamos lugar para descansarmos e nem beber algo quente. Pouco tempo depois chegamos em Manjarin. Achei que fosse encontrar o Thomás, porém ele estava em Madri. O lugar é pitoresco. Tudo muito rústico e simples. Só consegui parar para uma foto, pois estava congelando.




Continuei no meu ritmo, concentrada nos meus passos, prestando atenção na estrada (não dava para arriscar descer pela trilha com toda aquela agua) e tentando não desistir de caminhar naquele dia.
Realmente as condições eram péssimas! Comecei a sentir que minhas botas estavam frouxas nos pés e parei para amarrá-las. De repente, um carro branco parou um pouco à frente de onde eu estava. A Thayse se assustou e parou para ver quem era e me ajudar. Estávamos bem atentas, por conta do ocorrido com a peregrina Denise. Ainda havia um certo receio no ar. Não confiavamos mais com tanta facilidade nas pessoas. Sempre tínhamos um pé atrás

A porta do carro se abriu, um homem saiu de dentro dele e veio me minha direção. Fiquei tensa! Já estava preparada para gritar quando percebi que aquele semblante me era familiar. Acacio!!! Meu querido amigo, peregrino, hospitaleiro voluntário. Amigo de tantos caminhos! Que alegria! Não esperava grata suspresa naquele dia, muito menos no meio daquele toró! Nos abraçamos, nos emocionamos! Há anos não nos encontrávamos! Eu tive noticia de que ele estaria em Santigo naqueles dias, mas não pensei que fosse vê-lo antes de terminar meu caminho. Logo, os demais brasileiros perceberam que era ele e vieram todos confraternizar. Pena que foi muito rápido. Ele estava voltando pra casa e nós não podíamos ficar ali parados ou congelaríamos!


Pés na estrada novamente. A descida era forte e interminável! Curva pra cá, curva pra lá, fui ficando apertada para fazer xixi. O Caminho estava cheio de peregrinos, estávamos caminhando pela estrada. Não sabia que horas eu teria uma brecha para ir ao matinho. Não tinha outro jeito! Era o matinho ou fazia nas calças. A vontade foi ficando cada vez maior. Até que vi uma placa que sinalizava 3km para El Acebo. Imaginei que isso deveria ser uns 15 minutos de caminhada. No máximo, 20! Ah, mas a vontade era teimosa! Foi me vencendo, me torturando até que eu resolvi ficar um pouco para trás do grupo de peregrinos para entrar no mato. Entre um grupo e outro, vai dar tempo - pensei. E "záz"! Lá fui eu! Tinha que ser rápida! O mato era baixo e podiam me ver. E fui fazendo xixi com a máxima rapidez possível, só que com a força que fiz, soltei junto um pum. Não um pum qualquer! Um pum digno! Aqueles escandalosos, que se ouve "lá da esquina".
- Putz, e agora? Dá tempo Tilara! Dá tempo de sair daí sem ninguém te ver! Rápido! - conversei eu e eu mesmo.
Vesti a calça e saltei de trás do monte (não confundam com Trás-os-Montes!), certa de que ninguém me flagraria naquela situação vexatória. Foi tarde demais! Já ouvia os risos de um grupo de peregrinos. Não tinha pra onde correr. Viram a minha cara! Minha cara ficaria marcada para sempre na memória deles! Que vexame! Felizmente, levo essas coisas na esportiva. Ri de mim mesmo! Ainda falei pra eles que ali era um bom lugar para um xixi. Foi quando um deles me falou:
- "Você estava mesmo com vontade de ir ao banheiro ou não sabia que El Acebo está logo depois daquela curva?"
Pois é, assim foi minha chegada triunfal a El Acebo.

E logo depois daquela curva estava o Artur. Pálido, tremendo de frio, me esperando. Disse-me que havia chamado um taxi. Não aguentava mais o frio. Ele, Camilla e a maioria dos peregrinos tinham chegado ao limite. Resolvi que iria com eles. O dia já tinha sido muito difícil pra mim também. Estava doida para chegar na Casa Rural San Nicholas, em Molinaseca e conhecer a Mara. E assim seria: a la Angelica - Vou de taxi, você sabe...

Artur me falou que iríamos dividir o taxi com um casal. Para minha surpresa eram os donos do cachorro. Eles me agradeceram muito por ter cuidado do bichinho e resolveram poupá-lo de ficar mais tempo no frio. Enfim, minhas intervenções surtiram efeito! E nossa carona para Molinaseca ficou mais leve. E a chegada também.  Mara e sua familia nos recebram com bolo,  café  quentinho e muito amor! No jantar, arroz e feijão preto.  Ne lembro o que tinha de acompanhamento! Estava uma delícia!

E meu dia dificil parecia não acabar! Depois do jantar, desci para escovar os dentes e escorreguei. Levei um tombo. Não um tombo qualquer! Um super tombo. Teria quebrado o cox se não fosse o bumbum avantajado! Fiquei tensa! Achei que meu caminho tinha acabado! Felizmente, sou uma peregrina de muita sorte mesmo! Estava de meias e chinelo de dedo. Espero que você que está lendo isso agora, não se arrisque a descer uma escadaria de chinelo e meias!!!  Um erro!



RELATO DE 2001: RABANAL - EL ACEBO:
http://www.tiencamino.com.br/2008/05/acordei-com-aquele-delicioso-aroma-de.html