domingo, 17 de abril de 2016

19/10/2015 - Rabanal - Molinaseca

Acordamos com o barulho da chuva forte. Ainda estava escuro lá fora. Apesar da preguiça,tínhamos que seguir. Coloquei todas as roupas que tinha levado: blusa segunda pele, camiseta, fleece, corta vento e, de quebra, a capade chuva. Fazia muito, muito frio. E ficava pior com a chuva e o vento cortante. Fomos até o restaurante do albergue e tomamos café. Era desanimador olhar lá pra fora e imaginar o dia difícil que teríamos pela frente. A única ideia que me ocorreu foi enviar minha mochila para Molinaseca de taxi. Seria menos penoso caminhar naquelas condições sem o peso nas costas. E isso não me fazia menos peregrina, nem tirava o brilho do meu Caminho. Já tinha aprendido isso em 2001! "E vamos que vamos, porque hoje é dia da Cruz de Ferro! Cruz dos Caminhos, Cruz de Mercúrio!"

E realmente o dia foi muito difícil. Começamos com chuva forte e muito frio. As trilhas, que eram estreitas e íngremes, mais pareciam uma corredeira. A agua descia com tudo! A bota, apesar de ter a tecnologia Goretex, ensopou em menos de uma hora. Conforme eu ia avançando, meu corpo suava naquela "sauna" embaixo da capa de chuva. Por causa disso, eu ia sentindo mais frio ainda. A solução era parar em algum lugar coberto e tirar o excesso de roupa. Mas, isso não foi possível. Simplesmente o único lugar coberto era a minha capa de chuva. Tive que me revirar inteira dentro dela para abrir o ziper do corta-vento e ir tirando a roupa ali embaixo mesmo. Um malabarismo!


No meio da trilha, passa os por um casal que levava seu cachorrinho. Aquele que carinhosamente chamamos de "linguiça". Eles vinham arrastando o bichinho pela trilha. Trilha não! Era um rio que vinha descendo por entre as pedras. Naquele frio!!! Coitado do cachorro! Não me contive e perguntei para a mulher:
- "Porque você não o leva no colo? Não está muito frio para ele ir andando no meio dessa agua?"
- "Ele está acostumado." - respondeu a cara de pau.
Me deu uma raiva dela! Insisti que ela o levasse no colo, me ofereci para carregá-lo e nada! Ela continuou caminhando e puxando o cachorrinho pela coleira. Infelizmente, naquele momento, fiz o que estava ao meu alcance. Acelerei o passo e deixei o casal para trás. Não queria ser cumplice daquela tortura.

Depois de alguns quilômetros, enfim chegamos a Foncebadon. Cheguei fazendo piada "só o cume interessa". Artur e Camilla riram e resolveram parar e tomar algo quente. Combinei que iria também, mas antes queria registrar em fotos a mudança do local. Foncebadón já não era mais um pueblo abandonado. Havia inúmeros bares, albergues e cafés. Algumas construções estavam finalizadas, diferentemente de 2001, quando eram ruínas.


Entrei para o café. Encontrei as cariocas Ana e Ana Paula. Ficamos ali conversando e tomando chocolate quente. Confesso que quase mandei buscar minha mochila para pernoitar ali. Estava tão quentinho e aconchegante! Artur e Camilla seguiram e eu resolvi curtir mais um pouco o conforto. Quando resolvi ir embora, encontrei o casal com o cachorro. O bichinho tremia de frio. Tirei minha blusa "segunda pele" e pedi licença à mulher e comecei a secá-lo e abraçá-lo junto ao meu corpo já aquecido. Ela sorriu e me agradeceu. Mas eu não me contive e dei uma chamada nela!
- "Você deveria levá-lo no colo, bem agasalhado e protegido da chuva! Esse bichinho não vai aguentar tanto frio!"
Ela pareceu aceitar seu erro. Preferi seguir em frente de novo. Pela segunda vez, eu fiz o que estava ao meu alcance.

Quando enfim, cheguei na Cruz de Ferro, não sabia se ficava emocionada em revê-la ou se ia direto para a capela coberta ao lado para ajeitar minhas roupas. Liguei minha câmera e fui filmando aquele momento mágico. Encontrei a Fatima emocionadíssima, Isabel e Thayse em cima do monte acenando para mim. Era tudo tão diferente! O frio, a chuva e o cansaço de caminhar no barro contrastava com o dia de sol que peguei em 2001. Desta vez, a névoa encobria a Cruz de Ferro e não pude avistá-la de longe. Fui invadida por uma felicidade sem fim! Subi o monte de pedras, tirei fotos, rezei, dancei, gritei, fiz tudo o que tinha direito. Deixei ali as pedras que estavam atravancando meu caminho. E dali pra frente, eu sabia que tudo seria diferente! Tive a certeza de que eu era capaz de mudar o rumo da minha vida! Com meu esforço. Com a minha garra! Eu estava viva! Estava de volta! Tinha minha identidade novamente! Eu era muito mais que a mãe que cuidava dos filhos e da casa. Assim seria! Que assim fosse! Que assim seja! Sempre!




Depois da cruz, fomos seguindo pela estrada rumo a Manjarin. Por estarmos em um dos pontos mais altos do Caminho, tivemos uma companhia extra: a neblina. Ela chegou de repente, deixando tudo muito mais frio que antes. E foi ficando tudo muito cansativo. A chuva não dava treguas, muito menos o frio. Não tinhamos lugar para descansarmos e nem beber algo quente. Pouco tempo depois chegamos em Manjarin. Achei que fosse encontrar o Thomás, porém ele estava em Madri. O lugar é pitoresco. Tudo muito rústico e simples. Só consegui parar para uma foto, pois estava congelando.




Continuei no meu ritmo, concentrada nos meus passos, prestando atenção na estrada (não dava para arriscar descer pela trilha com toda aquela agua) e tentando não desistir de caminhar naquele dia.
Realmente as condições eram péssimas! Comecei a sentir que minhas botas estavam frouxas nos pés e parei para amarrá-las. De repente, um carro branco parou um pouco à frente de onde eu estava. A Thayse se assustou e parou para ver quem era e me ajudar. Estávamos bem atentas, por conta do ocorrido com a peregrina Denise. Ainda havia um certo receio no ar. Não confiavamos mais com tanta facilidade nas pessoas. Sempre tínhamos um pé atrás

A porta do carro se abriu, um homem saiu de dentro dele e veio me minha direção. Fiquei tensa! Já estava preparada para gritar quando percebi que aquele semblante me era familiar. Acacio!!! Meu querido amigo, peregrino, hospitaleiro voluntário. Amigo de tantos caminhos! Que alegria! Não esperava grata suspresa naquele dia, muito menos no meio daquele toró! Nos abraçamos, nos emocionamos! Há anos não nos encontrávamos! Eu tive noticia de que ele estaria em Santigo naqueles dias, mas não pensei que fosse vê-lo antes de terminar meu caminho. Logo, os demais brasileiros perceberam que era ele e vieram todos confraternizar. Pena que foi muito rápido. Ele estava voltando pra casa e nós não podíamos ficar ali parados ou congelaríamos!


Pés na estrada novamente. A descida era forte e interminável! Curva pra cá, curva pra lá, fui ficando apertada para fazer xixi. O Caminho estava cheio de peregrinos, estávamos caminhando pela estrada. Não sabia que horas eu teria uma brecha para ir ao matinho. Não tinha outro jeito! Era o matinho ou fazia nas calças. A vontade foi ficando cada vez maior. Até que vi uma placa que sinalizava 3km para El Acebo. Imaginei que isso deveria ser uns 15 minutos de caminhada. No máximo, 20! Ah, mas a vontade era teimosa! Foi me vencendo, me torturando até que eu resolvi ficar um pouco para trás do grupo de peregrinos para entrar no mato. Entre um grupo e outro, vai dar tempo - pensei. E "záz"! Lá fui eu! Tinha que ser rápida! O mato era baixo e podiam me ver. E fui fazendo xixi com a máxima rapidez possível, só que com a força que fiz, soltei junto um pum. Não um pum qualquer! Um pum digno! Aqueles escandalosos, que se ouve "lá da esquina".
- Putz, e agora? Dá tempo Tilara! Dá tempo de sair daí sem ninguém te ver! Rápido! - conversei eu e eu mesmo.
Vesti a calça e saltei de trás do monte (não confundam com Trás-os-Montes!), certa de que ninguém me flagraria naquela situação vexatória. Foi tarde demais! Já ouvia os risos de um grupo de peregrinos. Não tinha pra onde correr. Viram a minha cara! Minha cara ficaria marcada para sempre na memória deles! Que vexame! Felizmente, levo essas coisas na esportiva. Ri de mim mesmo! Ainda falei pra eles que ali era um bom lugar para um xixi. Foi quando um deles me falou:
- "Você estava mesmo com vontade de ir ao banheiro ou não sabia que El Acebo está logo depois daquela curva?"
Pois é, assim foi minha chegada triunfal a El Acebo.

E logo depois daquela curva estava o Artur. Pálido, tremendo de frio, me esperando. Disse-me que havia chamado um taxi. Não aguentava mais o frio. Ele, Camilla e a maioria dos peregrinos tinham chegado ao limite. Resolvi que iria com eles. O dia já tinha sido muito difícil pra mim também. Estava doida para chegar na Casa Rural San Nicholas, em Molinaseca e conhecer a Mara. E assim seria: a la Angelica - Vou de taxi, você sabe...

Artur me falou que iríamos dividir o taxi com um casal. Para minha surpresa eram os donos do cachorro. Eles me agradeceram muito por ter cuidado do bichinho e resolveram poupá-lo de ficar mais tempo no frio. Enfim, minhas intervenções surtiram efeito! E nossa carona para Molinaseca ficou mais leve. E a chegada também.  Mara e sua familia nos recebram com bolo,  café  quentinho e muito amor! No jantar, arroz e feijão preto.  Ne lembro o que tinha de acompanhamento! Estava uma delícia!

E meu dia dificil parecia não acabar! Depois do jantar, desci para escovar os dentes e escorreguei. Levei um tombo. Não um tombo qualquer! Um super tombo. Teria quebrado o cox se não fosse o bumbum avantajado! Fiquei tensa! Achei que meu caminho tinha acabado! Felizmente, sou uma peregrina de muita sorte mesmo! Estava de meias e chinelo de dedo. Espero que você que está lendo isso agora, não se arrisque a descer uma escadaria de chinelo e meias!!!  Um erro!



RELATO DE 2001: RABANAL - EL ACEBO:
http://www.tiencamino.com.br/2008/05/acordei-com-aquele-delicioso-aroma-de.html



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