sexta-feira, 27 de novembro de 2015

O Tempo


"De jangada leva uma eternidade,
De saveiro leva uma encarnação
De avião o tempo de uma saudade..."
Gilberto Gil - Parabolicamará

O Tempo

"De jangada leva uma eternidade,
De saveiro leva uma encarnação
De avião o tempo de uma saudade..."
Gilberto Gil - Parabolicamará

Percebi essa diferença de tempo-espaço, quando em 2001, após caminhar mais de oito horas para percorrer os quilômetros até Villafranca, aceitei o convite do hospitaleiro Jesus Jato para acompanhá-lo até Ponferrada de carro, seguindo o trajeto no sentido contrário. Achei que seria divertido e interessante saber quanto tempo demoraríamos para fazer de carro o mesmo percurso que eu havia acabado de vencer à pé. E foi! A mesma paisagem passou rapidamente diante dos meus olhos e eu percebi que meu olhar sobre o Caminho tinha mudado por causa do tempo despendido. À partir dali, entendi que o mais importante não era a chegada e sim o próprio Caminho.

A Natureza é sábia! Tudo tem seu tempo. Nós é que estamos sempre inventando coisas para chegar mais cedo, lavar mais rápido, numa corrida frenética para realizar o maior numero de tarefas no menor espaço de tempo possível. E o dia anda mais curto, claro! Passamos por ele (ou ele é que passa por nós) sem percebermos o que está à nossa volta. E o tempo corre. E nós corremos atrás dele! E reclamamos que o tempo passa rápido, que um dia não é mais suficiente! Quando foi que deixamos de perceber o trajeto? De sentir o gosto das coisas? Eu senti muito isso no Caminho. Porque eu corri pra chegar no albergue? Porque eu não parei pra descansar os pés deitada na grama? Porque eu caminhei fora do meu ritmo só para acompanhar um grupo? Porque eu subi aquela montanha correndo para chegar logo ao topo? Porque não comi mais frutas no pé? Porque não senti mais os aromas das flores? Porque não tirei mais fotos? Porque não conversei mais com as senhorinhas? O tempo não para mesmo! Temos que saber domá-lo para não nos tornarmos escravos dele.

E o Caminho? O que mudou no Caminho com o passar do tempo? Muitas coisas. Voltei de lá achando que o espírito peregrino tinha se perdido. Que os inúmeros albergues, bares e restaurantes tinham mudado a cara do Caminho. Me decepcionei bastante por causa disso. Cheguei a afirmar que escreveria sobre as mudanças do Caminho de 2001 e o de 2015, em tom de crítica, dizendo que o Caminho não era mais o mesmo. E um peregrino me escreveu que o meu olhar sobre o Caminho é que estava diferente. Sim! Ele estava certo! Com o tempo, o Caminho mudou e eu também mudei! Cabe a mim agora decidir se eu quero lembrar do Caminho com saudosismo ou com gratidão por ter tido a oportunidade de percorrê-lo.

Então meus amigos, aproveitem o tempo que antecede seu Caminho. Curtam bastante o friozinho na barriga. Treinem, visualizem o Caminho, pesquisem bastante sobre os lugares. Tenham um pré-roteiro do que vocês querem ver no Caminho, sem deixar de estarem abertos às circunstancias que os levarão a conhecer o novo. Abram seus corações e mentes para sentir o Caminho. Esqueçam o tempo! Esqueçam as distâncias! Apenas vivam o momento! Porque não haverá tempo para arrependimento! O que passou, passou. Não voltará mais!

É como disse uma vez Lulu Santos: "Nada do que foi será de novo do jeito que já foi um dia. Tudo passa, tudo sempre passará..."

Agora que já percebi a minha mudança, poderei escrever sobre as mudanças do Caminho. Fica para o próximo texto.

Ultreia y Suseya!