sábado, 16 de abril de 2016

18/10/2015 - De Astorga a Rabanal

Ainda era noite em Astorga, quando acordamos e começamos aquele movimento típico dos peregrinos: guardar o saco de dormir e as roupas limpas, lavar o rosto, escovar os dentes, esperar a vez de ir ao banheiro, cuidar dos pés, calçar as botas, pegar cajado, café da manhã e colocar os pés na estrada. Meu café com leite, acompanhado de uma madalena foi em homenagem ao amigo Chico, que me acompanhou nos primeiros passos de 2001. Lembrei muito dele naquele momento. Impossível não comparar minhas duas peregrinações, mas eu faria um esforço. Cada caminho é único e pessoal. O meu caminho de um ano não será igual ao outro. Meu caminho não será igual ao seu, mesmo que façamos juntos! 


Estava muito feliz! Reencontrar amigos que eu não via há anos, conhecer pessoalmente os que eu já me identificava pela internet, estar acompanhada de gente tão especial era uma dádiva! Aos poucos, fomos nos juntando na porta do hotel. Abraços, murmurinhos que foram ficando mais animados e uma bronca do pessoal do hotel. Estávamos acordando a cidade! 


Tiramos nossas fotos e seguimos. Fazia bastante frio e uma garoa fina nos acompanhava. Fui olhando tudo atentamente, tentando lembrar daquelas ruas na saída da cidade. Parecia tudo novo. Fomos avançando por entre os pueblos e trilhas. Achei que algo estava diferente. O trecho em 2001 me parecia mais fechado e atualmente beirava a pequena estrada de asfalto. Eu não reconhecia aquele pedaço do Caminho. Soube depois que havia sido desviado. 



Nosso grupo havia combinado o encontro em Astorga para seguirmos até o local onde Denise Thiem desapareceu. Ali faríamos nossas orações e seguiríamos o caminho que ela não pode completar. Conforme fui caminhando, senti que não queria chegar perto daquele local. Não era a minha missão ali. Decidi que continuaria meu caminho até Rabanal, com meus sentimentos, minhas orações e homenagens particulares. Rezaria não só por ela, mas também por minha família e amigos. 

E lá fui eu, cantando e dançando, curtindo meu caminho. Parei para um lanche, conversei com outros peregrinos e me distanciei do grupo. Me peguei sozinha durante vários momentos do dia. Em outros, estava na trilha numa fila indiana em meio a outros peregrinos. Todos muito reservados em seus mundos particulares. Eu mesma estava mergulhada em minha músicas e fotografando tudo! A praticidade de ter uma câmera no celular ajudava muito, mas também atrapalhava. Eu o usei para fazer muitos vídeos ao vivo. Queria dividir o Caminho com o mundo. Em alguns vídeos, conversei com gente da Rússia e México. Muitos seguidores me acompanharam diariamente. Achei muito interessante dividir com as pessoas, em tempo real, a minha peregrinação.


Já no final do percurso, reencontrei Artur e Camilla e chegamos juntos em Rabanal. Escolhemos dividir um quarto privativo do albergue, pois estava muito frio e queríamos descansar com mais privacidade. O dia seguinte seria puxado, pois a previsão era de muita chuva e frio. Tomamos banho e ficamos conversando na mesa do bar. Pedi um vinho e fomos puxando papo com umas moças do Rio. Conversa vai, conversa vem, descobrimos que uma delas era amiga da Fabiana Passos, nossa super companheira de Caminho do Sol. Mais uma vez o Caminho juntando os bons amigos.


Rabanal é um pueblo muito interessante. Em 2001 era um lugar calmo, sem muitas opções de restaurantes ou albergue. Se não me falha a memória, havia o albergue Gaucelmo e mais um. Lembrava bastante da igrejinha de pedra, pequena e com os bancos de madeira. E ali, assisti à uma linda Missa, com canto gregoriano. Me emocionei por estar ali novamente e poder reviver aquele sentimento de paz interior e felicidade plena. Pensei muito na minha família, no meu marido e, principalmente nos meus filhos. Queria que eles estivessem ali comigo e pudessem vivenciar e conhecer aquele lugar fantástico.

Depois fui jantar com o grupo de brasileiros. Me contaram aos risos que todos se perderam e não chegaram à Castrillo de los Polvazares (lugar onde Denise teria ido no dia de seu desaparecimento). Inclusive, o José que fora de taxi embora, pediu que o motorista desviasse para poder chegar ao povoado e, mesmo com GPS, eles não chegaram. Tudo parecia conspirar para que não fossemos até lá. As orações para Denise Thiem tinha sido em Santa Catalina.

Após o jantar, seguimos para o albergue. Estava um clima perfeito para descansar. O barulhinho da chuva, um friozinho gostoso e o meu saco de dormir. E assim foi meu primeiro dia no Caminho...


quinta-feira, 14 de abril de 2016

17/10/2015 - Chegada à Astorga e o encontro com os peregrinos brasileiros

Fui para a Espanha acompanhada de uma grande amiga: Camilla. Ela foi peregrina no Caminho do Sol e depois hospitaleira e voluntária. Encontramos em Barcelona o nosso Chefanjo, apelido carinhoso recebido pelo Artur, líder da turma de "anjos" do Caminho do Sol, responsáveis pelas "nuvens" de lanches e carinho no meio do canavial. 

Chegamos por Barcelona e seguimos de carro até Zaragoza (vale a visita), Burgos e León. De lá, seguimos de ônibus até Astorga. Eu estava em êxtase, vendo pela janela o caminho que havia percorrido em abril de 2001, relembrando os passos entre León - Villadango - Astorga. Parecia que tudo havia ficado da mesma forma: as flechas amarelas, as vieiras, os peregrinos que iam passando, os acenos, os sorrisos. A exceção era a quantidade enorme de placas indicando bares e albergues. Eram muitas!

Pelo meu celular, ia acompanhando a nossa localização no mapa. Era a última curva e já entraríamos em Astorga. Reconheci a escadaria que subi à pé 15 anos atrás, as muralhas, o Palacio Gaudi...
Chegamos! Enfim! Desci do ônibus, mochilas nas costas e coração nas mãos. Fomos caminhando em direção à parte alta da cidade. Subimos por trás do Palacio. Ficaríamos hospedados no Hotel Gaudi, onde combinamos o encontro com vários peregrinos brasileiros que fariam o Caminho em homenagem à peregrina Denise Thiem, cuja vida foi tirada violentamente, em abril de 2015. Tudo nos levou para aquela cidade, naquela data. Fomos conversando pela internet. Alguns já estariam no caminho, outros chegariam depois e eu ainda nem sabia que ia. De repente, tudo foi se encaixando para que pudéssemos começar nosso caminho em Astorga, dia 17 de outubro de 2015.

Entramos no hotel e fizemos nosso check in. Eu não cabia em mim. Pedi licença ao Artur e à Camilla e fui ao encontro dos amigos no albergue. Não aguentei esperar que eles fossem até lá. Vários deles estavam no Caminho. Isabel e a filha vindo da Via de la Plata, Fatima, Karina e Adriana chegando em Astorga naquele dia. cada uma vinha de um ponto do Caminho.

Fui percorrendo as ruas de Astorga, fazendo o percurso contrário ao que os peregrinos seguem ao sair da cidade em direção a Rabanal. Reconhecia cada pedacinho daquele chão. Parecia que eu havia voltado no tempo. É uma sensação indescritível! Ao adentrar o albergue, perguntei à hospitaleira pelas meninas brasileiras. Ela me indicou a escada que ia ao segundo andar e apontou para um homem que estava sentado em um banco da recepção: "Este é o marido da Marilene."
"Não é possível!" - pensei. "Será que é minha amiga Marilene? A mesma que me esperou no final do Caminho do Sol?"

Subi como um raio! Era muita gente boa para abraçar! Nas escadas já escutei umas conversas em português, sabia que estavam ali! Entrei no banheiro e dei boa tarde! Nem lembro que eu abracei primeiro. Sei que a Fatima estava no chuveiro e gritava que não podia sair dali pra me abraçar. Depois entrei no quarto e encontrei a Marilene. Que abraço gostoso! Mais de 10 anos que eu não a via! Sabia que ela estava morando em Ponferrada e estava conversando com ela para visitá-la quando chegasse lá. Que linda suspresa!!! Depois abracei Karina, Adriana, Isabel, Thayse...
Minutos depois, quando já estávamos nos recuperando da emoção, Fatima entra no quarto, me abraça, choramos juntas, rimos juntas, foi uma festa!

O encontro estava marcado para as 19h no hotel. Pedi licença e voltei pra tomar um banho e recuperar um pouco as forças da viagem de carro. Havia 3 dias que estávamos, Camilla, Artur e eu em um ritmo frenético de passeio e estradas desde Barcelona. Ao chegar na recepção do hotel, encontrei Marcia e Wilma, que chegavam de Madri. Mais uma vez aquela festa, um monte de abraços, sorrisos e espírito peregrino.

Depois do banho, desci para o encontro. Aos poucos, as meninas que estavam no albergue foram chegando, Artur e Camilla desceram meio tímidos, pois não participaram das conversas que resultaram naquele encontro. Apenas aceitaram um convite louco, postado no grupo do Caminho do Sol. Camilla ainda me perguntou para saber se era pra valer o convite. E eu disse: "Claro que é!" E assim, eles se juntaram a mim e, consequentemente, ao grupo de peregrinos.

E ali estávamos nós: Marcia, Wilma, Fatima, Karina, Adriana, José, Thayse, Moacir e Isabel, Artur, Camilla e eu. E tantos outros que se juntaram a nós nos dias que se seguiram. Foi uma grande confraternização, coroada com um belo jantar. Regado a pão e vinho, como manda a tradição: "Con pan y vino se hace el camino!"