sexta-feira, 16 de maio de 2008

O CEBREIRO - 16º e 17º DIAS



Acordei feliz, porém com vontade de caminhar sozinha. Deixei que todos saíssem um pouco antes de mim. Segui caminhando, até encontrar uma bifurcação. Na saída de Villafranca, havia duas alternativas para chegar ao Cebreiro: pela trilha dos peregrinos ou pela estrada de asfalto. A trilha era mais difícil, a subida muito íngreme e também mais longa. Pela facilidade, acabei escolhendo a estrada. Arrependi-me amargamente! Era grande o fluxo de carros e caminhões. Para completar, encontrei, muito a contragosto, uma companhia para aquele dia. Era uma peregrina da África do Sul. Lembrei-me da Carla, minha grande amiga. Apesar de não sentir-me tão à vontade com ela, fomos ajudando-nos, mutuamente, durante todo o percurso. Andávamos pelo acostamento, que era minúsculo, e sempre que algum veículo passava por nós, quase éramos lançadas para fora da estrada, devido ao deslocamento de ar. Não conseguia relaxar um minuto sequer e fiquei pensando no que as pessoas pensariam se soubessem do risco que eu estava correndo naquela hora. Imaginei minha família recebendo a notícia da minha morte numa estrada da Espanha! A notícia estampada nos jornais sensacionalistas do Brasil: “Peregrina brasileira atropelada no Caminho de Santiago de Compostela”. Graças a Santiago, nada disso aconteceu!


Após longas horas enfrentando a ventania provocada pelos carros na estrada, encontramos um bar em Trabadelo. Que felicidade! Senti saudade do Chico! Lembrei do nosso ‘projeto’ de escrever o livro “No Caminho de Santiago de bar em bar.” Claro que isso não passava de uma grande piada, mas era nosso jeito particular de rir da preguiça que tomava conta de nós. Depois dele, não encontrei outro companheiro para os cafés-com-leite. Enfim, tinha que seguir e o jeito era dar-me a chance de fazer novos amigos. Paramos um pouco, até que avistamos outros peregrinos chegando. Todos, sem exceção, reclamavam da estrada. A vontade era unânime: pedir carona ao primeiro que passasse. Estava triste, furiosa e estressada, o que me rendeu uma bela dor de cabeça. Pensei até em dormir em algum albergue antes de chegar ao Cebreiro, mas lembrei que minha mochila já tinha ido de carro (Jesus Jato leva as mochilas dos peregrinos, para que possam enfrentar a subida sem peso nas costas) e não teria roupas, tampouco saco de dormir. Não tive escolha. Era subir ou subir! Lembrei das palavras do Acácio:
— “Para alcançar a sabedoria, você experimentará muita dor e tempestade! Crescer é difícil”.
Depois de enrolarmos um bocado no bar, talvez adiando o confronto com a temida subida ao Cebreiro, juntamos os cacos e seguimos. Afinal, para chegar em Santiago, era preciso vencer um dia após o outro, um desafio de cada vez!


A paisagem do Caminho começou a mudar desde então. Saímos da estrada e entramos em um vale lindo, cheio de árvores e bichos. Vaquinhas gordinhas, cavalos lindos e pássaros que cantavam o tempo todo. Por um momento, esqueci da subida que estava por vir. De repente, havia outra bifurcação. Esta separava o Caminho dos peregrinos e dos ciclistas. Novamente a escolha: a trilha ou a estrada. Resolvi contrariar tudo e todos e fui por onde vão os ciclistas. Era uma ótima chance de ficar sozinha na assustadora subida ao Cebreiro. No início, senti um alívio grande em não dividir com ninguém aquele momento. Logo depois, uma angústia igual a que experimentei no primeiro dia de Caminho se repetiu. Olhei para os lados e não vi viva alma. Não ouvi um barulhinho sequer! Aquilo me apavorou de tal forma, que comecei a perder as forças. Parei e comecei a chorar. Foi um choro longo, intenso. E então vi que, por mais que gostasse de estar sozinha, ainda sentia medo da solidão, porque ela me colocou frente a frente comigo mesma e era insuportável admitir que não era perfeita. Essa reflexão me fez ver que eu sempre fugi dos meus problemas, tentando resolver os dos outros. Senti como se estivesse saindo de um casulo. Foi ali que descobri quem eu realmente era, minha verdadeira essência, minhas preferências, medos, amores e dissabores. De uma hora para outra, senti-me pronta para enfrentar a subida. Parecia que tudo ao meu redor havia se transformado. Comecei a perceber o céu, o ar puro e a paisagem maravilhosa que tinha deixado passar desapercebida até então. Quando cheguei ao Cebreiro, parei diante daquele imenso vale e gritei como uma louca. Eram gritos de raiva, de dever cumprido, de satisfação e de alegria. Sentimentos que não conseguia entender direito, mas tinha uma única certeza: a felicidade de ser livre! Quebrei a casca e estava pronta para enfrentar a vida de frente!


Naquela noite no Cebreiro, tive muitos pesadelos e acordei várias vezes. Numa delas, resolvi dar uma olhada pela janela e o que vi foi assustador! As árvores balançando com o forte vento, chuva de gelo e vultos por toda a parte. Havia também um barulho ensurdecedor, que teimava em deixar meus ouvidos em paz. Vários rostos se formavam diante de mim. Resolvi fechar os olhos e dizer a mim mesma que tudo não passava de uma bobagem da minha cabeça. Concentrei-me na energia divina e, ao abrir os olhos, vi que a noite estava linda, com o céu estrelado, exatamente como o significado da palavra Compostela: um grande campo de estrelas. Preparei um café, saí, fumei meu cigarro e fiquei curtindo a solidão, que já não me amedrontava. Aliás, nada mais me incomodava, nem mesmo o fato de estar frio pra chuchu ali fora.


Amanheceu com muito frio e chuva. Em outra ocasião isso seria uma tragédia, mas meu espírito estava mais calmo, mais sereno e foi um dia maravilhoso! Só lamentei não ter visto a Galícia lá de cima e sentir-me dona do mundo de novo, como em El Acebo, porque as nuvens estavam encobrindo tudo. Quando a chuva apertou, ficou difícil caminhar. Os pingos chegavam a doer quando batiam em meu rosto, o vento forte desequilibrava-me o tempo todo e a visibilidade era quase nula. Já sentia na pele, literalmente, o clima louco da Galícia. Andei sozinha por muito tempo, até que ouvi vozes. Era um casal de peregrinos. Vinham batendo papo e rindo. Despertaram-me da fase ermitã que eu estava vivendo. Ambos eram espanhóis. A mulher chamava-se Gema e o homem, Gabriel. Juntei-me aos dois e entrei na conversa. Foi bom! Pude rever os conceitos de amizade e dependência outra vez mais.


Foram muitas horas de Caminho, sem nenhum lugar para descansar. O jeito foi segurar a vontade de ir ao banheiro e seguir. Já na descida, paramos para comer em um pueblo simpático, na metade da etapa até Triacastela. Foi uma boa idéia. Matamos a fome, mas a preguiça que sempre batia depois do almoço, foi fatal. Minha vontade era de ficar por ali até o final dos tempos. Depois de tanto comer e beber vinho, já não tinha mais vontade de andar. Acho que os espanhóis estão certíssimos em dar uma paradinha após o almoço! E viva a siesta!


Difícil mesmo foi reunir forças para levantar daquela mesa e continuar andando! Em frente e avante, seguimos nossos Caminhos! Gabriel seguia calado, enquanto eu conversava com a Gema. Falamos sobre ficarmos em silêncio em alguns momentos da vida. Ela tinha dificuldades em escutar a sua intuição e a si própria. Achei que devia contar-lhe o que aprendi:
— “Às vezes, precisamos parar de fazer tudo e prestar atenção ao que está a nossa volta. Devido à correria da vida, muitas vezes isso se torna quase que impossível. Por isso, é tão difícil estar conectado a essa grande energia que nos rodeia e, por isso, deixamos escapar alguns sentimentos e pessoas, que seriam de grande importância para nós. Quantas vezes paramos para prestar atenção ao simples fato de escovar os dentes? Quase nunca! Nessa hora, já estamos pensando no que será servido para o café da manhã. Na hora de comer, já estamos preocupados com o trânsito que nos espera. E assim, nunca vivemos os momentos em sua plenitude! Estamos sempre pensando no que está por vir. Muitas vezes, deixei de ouvir a minha consciência, pelo medo de enfrentar os obstáculos, sinal de insegurança e dependência, por isso, é mais fácil resolver a vida alheia.”
Olhou-me espantada.
— “Você está me dizendo que sou insegura?” - disse-me com certa indignação.
— “Sim! Exatamente como eu!” - respondi.
Acho que a deixei um pouco chateada, mas já não era mais um problema meu. Tinha muita coisa dentro de mim para consertar.


Quando vimos, já estávamos chegando em Triacastela. Como sempre, a primeira coisa que se faz ao chegar em um albergue é encostar a mochila ao lado de alguma cama e tomar um bom banho. Em alguns albergues do Caminho, como foi o caso desse, não existem torneiras. Para a água sair, temos que apertar um botão com uma das mãos. É ridículo, pois chega uma hora em que não sabemos se nos ensaboamos ou se apertamos o botão! Uma mão aqui e outra ali, o sabão caindo nos olhos e, quando tentamos nos enxaguar, a água pára até que, de olhos fechados, achemos o tal botão. Acho que fizeram assim de propósito! Para agradecermos a Deus o fato de termos as duas mãos! Talvez devesse mudar de opinião e mudar o nome do livro que escreveria com meu amigo Chico: “De bar em bar” para: “Manual prático de como tomar banho com uma só mão no Caminho de Santiago”!


Depois do regenerador banho de uma mão só, fomos comer. Resolvi ligar para casa e reparei que meu pai insistia em saber detalhes de onde eu estava. Quando dei minha direção, ele descreveu tudo o que havia perto de Triacastela. Quando o indaguei de onde ele tinha tirado tantas informações, disse-me que estava com um mapa da Espanha nas mãos. Engraçado como são as coisas, ele estava fazendo o Caminho junto comigo! E logo o meu pai, que sempre jurou não acreditar nessas coisas “místicas”!

quarta-feira, 14 de maio de 2008

QUE TUDO SEJA LUZ - 15º DIA


Após um longo dia de muito sol na cabeça e poucas paisagens bonitas para se ver, cheguei a Villafranca del Bierzo. Fui recepcionada por uma Kombi, na pequena estrada de terra que leva à cidade. Dentro dela, havia dois senhores. Um deles, muito atencioso, disse-me:
— “Olá, boa tarde! Creio que você dormirá nesta cidade. Neste caso, você poderá escolher, pois existem dois albergues aqui em Villafranca. O albergue Municipal fica no final dessa estrada à esquerda, e o da família Jato, à direita. A escolha é sua! Os dois são bons. Mesmo que você escolha ficar no albergue Municipal, sugiro que vá ao albergue da família Jato à noite, acompanhar o ritual da Queimada.”
Despediu-se e seguiu em frente.


Era claro para mim que não havia nenhuma possibilidade de eu ficar em outro lugar, que não fosse o albergue de Jesus. Todos no Brasil falaram-me muito dele. Diziam que era um homem especial e que seu albergue, era um dos mais tradicionais, fundado por sua falecida mãe. Não poderia dizer não à tradição e muito menos deixar de conhecê-lo. Lembro-me que quando adentrei o albergue, ansiosa para conhecer Jesus, e um senhor veio em minha direção. Para minha surpresa, era o mesmo que estava dirigindo a Kombi. Aproximou-se, colocou suas mãos sobre meus ombros e disse-me:
— “Calma! Você já chegou.”
Foi como um transe, fiquei completamente sem ação, sentindo a energia daquele senhor. Sabe quando sentimos um peso grande nas costas e não há massagem ou terapia que resolva? Pois era assim que eu estava me sentindo! Em questão de segundos, com o leve toque de suas mãos, meu coração acalmou-se e minha ansiedade foi embora de vez! O caridoso senhor era Jesus Jato em pessoa. O mais digno de sua parte foi não ter influenciado na minha escolha anteriormente. Ele poderia tê-lo feito, mas indicou-me os dois albergues e convidou-me para a Queimada. Realmente uma pessoa de bom coração, dessas que só encontramos no Caminho de Santiago.


Era um lugar simples. Notava-se que a casa ainda estava inacabada. A escada de madeira, com degraus irregulares, conduziam ao pequeno quarto, repleto de beliches. O teto era baixo, as telhas aparentes e nas laterais havia duas pequenas janelas de vidro. O chão era de tábuas corridas, bem velhas e descascadas. Em um canto perto da escada havia uma árvore, já sem galhos, que servia de “cabide” para um rolo de papel higiênico. Escolhi um beliche junto à janela, para dormir olhando as mesmas estrelas que um dia guiaram o peregrino Pelayo¹ até o corpo do apóstolo Tiago.


Depois de tantos dias sozinha, precisava mesmo sentir-me em casa. E o ar rústico do lugar deixou-me à vontade. Um homem aproximou-se para ajudar-me com a mochila. Era Acácio, um brasileiro que vive no Caminho de Santiago. Foi um momento especial para mim, porque estava conhecendo duas das mais importantes pessoas do Caminho. Fiquei mais feliz ao saber que Acácio já me aguardava naquela tarde (a peregrina com o chapéu do Brasil)! Tive a sensação, ao entrar naquele albergue, que estava em família. Arriscaria dizer até que era um reencontro, com amigos de outras vidas. A maioria das pessoas não acredita nisso, mas foi o que senti.


Um cheirinho de arroz e feijão vinha da cozinha. Pensei que poderia ser um devaneio meu, achando que já estava sentindo o aroma de comida caseira tipicamente brasileira. Para minha felicidade, eu estava certa! Preciso dizer que devorei uns três pratos? Nada contra a culinária espanhola, tampouco aos “Menus peregrinos”, mas depois de quase um mês de “bocadillos” e “tortillas”, não havia nada melhor no mundo que saborear nosso bom e velho arroz com feijão! Almoçamos alegremente. Eu então? Nem se fala... Estava nas nuvens!


Já refeita do pecado da gula, sentei-me do lado de fora do albergue para conversar com Acácio. Contei todas as passagens que tive durante o Caminho e as emoções que senti. Contou-me que o Caminho podia ser comparado às nossas vidas, com quatro fases diferentes, que correspondiam à nossa infância, adolescência, fase adulta e a sabedoria. Eu já havia trilhado as três primeiras. Por isso, sempre encontrava crianças recepcionando-me em quase todas as cidades entre Roncesvalles e Logroño. Houve também um roubo dos doces que levava em minha mochila em Zubiri, as cercas que lembraram-me da minha infância no primeiro dia, o arco-íris entre Puente la Reina e Estella. De lá até Burgos, seria a passagem da infância para a adolescência. Exatamente como na vida, foi uma fase que não vivi plenamente. Isso explica meus “delírios” com o anjo Tuiv e as mágoas que ainda estavam presas ao meu coração. De León até o Cebreiro, significava a fase adulta, a qual estava vivendo com certa dificuldade, mas sempre alegre e serena. O que eu poderia então, esperar do Cebreiro em diante? Qual seria o grande segredo para alcançar a sabedoria plena?


Fui convidada a acompanhar Acácio e a filha de Jesus até Ponferrada, para resolver alguns assuntos de ordem burocrática do albergue. De carro, demoramos somente quinze minutos para atravessar a mesma etapa que me custou um dia inteiro! Isso me deixou muito confusa! A rota pareceu-me totalmente diferente e, ao mesmo tempo, era a mesma! Meu “amigo” Gilberto Gil soube expressar o que senti maravilhosamente bem, quando disse:
“De jangada leva uma eternidade, de saveiro leva uma encarnação...
... de avião, o tempo de uma saudade...”
Hoje o mundo está em um ritmo tão alucinado, que não nos permitimos perder um minuto sequer de nossas vidas, para apreciar o que nos rodeia. O tempo para nós é sempre curto, nunca dá para resolver nada e estamos sempre correndo de um lado para o outro, fazendo uma coisa, já pensando em outra. Mas, o que significa o tempo? Depende da forma como você o enxerga. E era justamente esse tempo que eu havia perdido. Como dizia minha professora de expressão corporal, era o “tempo de olhar, ver e enxergar”.


Quando voltei para o albergue, Jesus estava massageando os peregrinos. Suas mãos eram tão mágicas e especiais, que bastava um simples toque para a pessoa sentir-se melhor. E não era só isso! A experiência que adquiriu em tantos anos como hospitaleiro, observando os peregrinos, misturada a um raro dom de premonição, Jesus conseguia até dizer o motivo de cada dor. Fiquei admirada com esse presente de Deus. Estava envolta em meus pensamentos, quando ele me chamou:
— “Suba comigo ao meu quarto.” – disse ele.
Estranhei o convite, olhei para o Acácio, sem graça, que logo falou:
— “Vai menina, ele está te chamando! Deve ensinar-te alguma coisa.”


Subimos. Jesus, uma peregrina alemã e eu. Lá chegando, deitou a moça em um colchão e a pediu que fechasse os olhos. Cobriu-a com um cobertor, dos pés à cabeça. Olhou-me e disse:
— “Coloque suas mãos direcionadas para o lugar onde você acha que ela sente dores. Concentre-se em uma luz branca de amor, fluindo através de seu corpo e seguindo em direção às suas mãos. Não pense em nada, deixe sua mente livre.”
Obedeci. Inexplicavelmente, ou não, senti necessidade de colocar minhas mãos na direção do estômago da peregrina. Uma onda de calor invadiu meu corpo. Minhas mãos tremiam muito e às vezes, faziam movimentos circulares. Pensei comigo mesma:
— “Que estranho! Será que estou fazendo tudo certinho?”
Aí, ouvi Jesus falar:
— “Pare de pensar! Deixe a energia fluir sem julgamentos. Siga sua intuição!”
Fiquei maravilhada com tudo aquilo! Eu o estava ajudando a melhorar o sofrimento alheio e isso enchia meu coração de alegria. Fizemos isso por mais de meia hora. Quando acabamos, a peregrina estava dormindo como uma criança. Deixamo-na descansando e descemos silenciosamente.


Eu estava em êxtase! Sentia-me leve. Quando cheguei ao saguão, encontrei Acácio sorrindo para mim.
— “Viu sua boba! Eu sabia que você tinha algo especial a aprender! Seus olhos estão brilhando! Você está irradiando energia!”

Logo formou-se uma roda de peregrinos curiosos, tentando arrancar alguma informação do que havia acontecido lá em cima. Fiquei um pouco zonza, perdida em meio a tantas pessoas. Para completar, depois de massagear todos os peregrinos, Jesus pediu-me para limpá-lo espiritualmente.
— “Mas eu nem sei como se faz isso!” – disse eu.
— “Da mesma maneira como fizestes lá no quarto” – foi a resposta.
Novamente, concentrei-me na luz branca de amor e deixei minhas mãos passearem por sobre seu corpo, sob o olhar atento dos demais peregrinos. Naquele momento, ouvi a voz de Acácio dizendo:
— “Agora você já está pronta.”
Senti-me honrada! Era uma ocasião especial e única!

Na hora da Queimada[1] ainda estava excitadíssima com tudo que tinha acontecido, olhar perdido e a cabeça totalmente fora dali. Sentia-me leve e realizada! Não conseguia tirar do rosto o sorriso, a expressão de leveza e satisfação. Participei do ritual quase que flutuando. Ainda sentia a energia entrando em meu coração, exorcizando tudo de ruim de dentro da minha alma! As luzes se apagaram, Jesus misturou vários ingredientes em seu caldeirão e pôs fogo, enquanto dizia as palavras “mágicas”. Era mais ou menos assim:



“Peregrinos que andam ao engano, procurando refúgios de sauna, piscina e banho. Auuuuuuuuu... (uma vaia, repetida por todos nós)
Peregrinos que montam aos montes em um carro de apoio. Auuuuuuuuu...
Peregrinos que chegam ao Cebreiro, frescos e descansados, sem saber onde fica La Faba[2]. Auuuuuuuuu...
O ônibus sai às cinco e meia da manhã. Auuuuuuuuu...
‘Ciclogrinos’ pelo Caminho de Santiago. Auuuuuuuuu...
Peregrinos com bolhites[3]... Auuuuuuuuu...
Peregrinos com tendinites... Auuuuuuuuu...
Peregrinos tontos que vão à pé, havendo ônibus, carros e trem... Auuuuuuuuu...
Forças do ar, da Terra, do Mar, e da Lua, se é verdade que tem tanto poder como tantos humanos dizem, façam com que todos os amigos que estão fora, se unam conosco nesta Queimada, mas só em espírito, porque se vierem todos, nos deixam sem nada! E que tudo seja luz!”

Depois serviu a bebida a todos e fizemos um brinde. Foi a noite mais especial de toda a minha vida.




[1] Queimada – bebida típica da Galícia, feita em um caldeirão durante um ritual para as forças da Natureza.
[2] La Faba – Pueblo situado entre Villafranca del Bierzo e o Cebreiro.
[3] Bolhites – muitas bolhas - Um trocadilho com a palavra tendinites, para que o texto tenha rima.

terça-feira, 13 de maio de 2008

UM ANJO NO CAMINHO - 14º DIA


Saída de El Acebo


Ainda estava escuro quando acordei. Fazia tanto frio quanto no dia anterior. Agasalhei-me bem e desci para mais um belo café da manhã. Acho que a minha maior curtição no Caminho foram as comidas. Talvez por isso, eu tenha sido uma das poucas pessoas que voltaram para o Brasil, um pouco mais “fofinha”. Foi muito bom para que eu aprendesse a lidar com a vaidade. Na minha profissão a aparência é tudo e no Caminho, tive que deixá-la de lado e ser eu mesma. Voltando à comida...devidamente alimentada e saciada, me despedi dos fanáticos por futebol e segui caminho.


Passei por lugares maravilhosos, bosques tão encantados quanto os que vi nos primeiros dias, pueblos com jardins repletos de flores e um grande rio que acompanhava a trilha. Para dar seqüência ao maravilhoso dia anterior, deixei de lado todo e qualquer tipo de preconceito e abri o coração, entrando totalmente em contato com a paisagem. As montanhas cobertas de neve ainda estavam lá para enfeitar o horizonte. Aos poucos, o frio foi dando lugar ao calor intenso e o dia foi ficando cada vez mais bonito. Ia descendo em direção a região de El Bierzo, onde encontraria em Ponferrada o Castelo dos Templários; em seguida, Villafranca e o albergue de Jesus Jato (o “bruxo” do Caminho) e logo depois, a temida subida ao Cebreiro.


Vinha caminhando por entre as montanhas, quando avistei um senhor sentado em uma pedra, numa planície bem abaixo de onde eu passava. No Caminho, costumamos cumprimentar a todos:
— “Buenos dias, señor! Buenos dias, señora!”
Lá de cima, acenei para ele. Enquanto descia, notei que estava chegando cada vez mais perto do solitário homem. Meu Caminho cruzaria o dele. Senti algo estranho, uma energia que não pude identificar. Não era uma energia ruim, mas senti um certo receio de encontrar aquele homem.


Realmente nossos caminhos se cruzaram. Quando estava passando ao seu lado, ele me parou. Lançou-me um olhar enigmático e perguntou-me como estava a dor no joelho esquerdo. — “Puxa vida, ele acertou na mosca! Que coisa mais estranha!” – pensei.
Não sabia ao certo se devia confiar nele, mas resolvi arriscar. Contei tudo o que havia acontecido desde o início e todas as dores que senti. Ele então pediu-me que levantasse a calça e começou a massagear meu joelho. Chorei de tanta dor! Depois fui relaxando e esqueci-me de tudo. Quando percebi, a dor havia ido embora. Seu nome era Balbino. Fazia isso sem cobrar nada, em nome da solidariedade.
- “Um dia todos temos que retribuir.” – falou.
Resolvi fotografar aquele momento também mágico. Para minha surpresa, ao revelar o filme, Balbino não aparece em minha foto. Foi a única das minhas 400 fotos que queimou. Só aparece um vulto envolto por uma luz branca. Não serei sensacionalista em acreditar que tenha sido um ser de outro planeta ou coisa parecida. Acho apenas que era um homem de aura brilhante e alma boa. Prefiro acreditar que sua luz era tão intensa, que não pôde ser captada por minha máquina. Para mim, ele foi um anjo que curou minhas dores, meus receios e acalmou meu coração para que eu seguisse em paz.


Coisa linda!!!

Continuei pela trilha por entre as montanhas. Tudo parecia ter surgido de um sonho bom. O sol forte, as árvores, os pássaros, tudo! Olhava aquelas árvores e sentia-me parte delas. Eu sou um pouco como elas, pés fincados no chão e cabeça nas nuvens. Tive vontade de ficar ali, enraizada para sempre, ser parte fundamental do Caminho; porém, era preciso continuar. Santiago me aguardava! Aos poucos, fui deixando a floresta para trás e entrando de novo no asfalto. Já estava quase chegando em Molinaseca e ainda pensava naquele bom e velho homem. Tenho certeza de que um dia, todos nós seremos como ele, trabalhando por uma só causa: o amor ao próximo. Então, haverá paz na Terra e viveremos em eterna alegria.

Árvore da bruxa (veja se vc consegue ver o rosto de uma bruxa nessa árvore)


Na minha parada em Molinaseca, depois de um refrigerante ao sol e um sorriso eterno no rosto, fui abordada por um casal. Eram os hospitaleiros do albergue da cidade. Convidaram-me para beber uma limonada. Já tinha visto em quase todos os bares daquela região, placas dizendo: “Hay limonada”. Imaginei que fosse um mero suco de limão e nunca parei para experimentar. Sorte a minha aceitar o convite, pois tive a chance de degustar um delicioso preparado com vinho, limão e outras frutas cítricas. Parecia ser uma bebida inofensiva, mas, depois de alguns goles, fui ficando “alegre”. Conversei um pouco com o hospitaleiro e enquanto andávamos, mostrou-me a cidade. Conheci o lindo albergue, tive vontade de ficar, mas meu destino era mesmo Ponferrada, a terra do Castelo dos Templários.


De lá até Ponferrada foram apenas 6 km. Encontrei um albergue grande e confortável, que mais parecia um hotel. Michel, o hospitaleiro, era muito simpático e atencioso. Recebeu-me com lanche e muito carinho. Conversamos bastante e quando perguntei sobre as dificuldades da subida ao Cebreiro, falou-me:
— “O Cebreiro está lá e você terá que atravessá-lo para chegar a Santiago, então para quê pensar no que está por vir? Você não poderá mudar o futuro, então não tenha medo e enfrente os obstáculos da vida da melhor maneira possível, tentando extrair desses momentos o máximo de lições que puder.”

Mais uma vez vi que, apesar ter aprendido que devia controlar minha ansiedade, ainda havia resquícios dela em mim e confesso ter dormido preocupada com o Cebreiro[1].
Detalhe importante desse capítulo. Ao perguntar a Michel sobre Balbino, ele me respondeu nunca ter ouvido falar sobre ele. Outros peregrinos não o encontraram na planície naquele dia e muitos amigos que já tinham feito o Caminho também desconheciam o homem.


[1] Cebreiro – Localidade situada a 1.300 m de altura. Uma das etapas mais comentadas do Caminho de Santiago, devido ao grande grau de dificuldade. Existem lugares, como a Cruz de Ferro e a antena de comunicações, situados a mais de 1500 m de altura; mas como subimos gradativamente, não sentimos tanto o esforço. Depois desses locais, descemos até Ponferrada e continuamos andando por dois dias em lugares planos. Só na etapa que nos leva ao Cebreiro enfrentamos uma subida tão abrupta, por isso ela é considerada a etapa mais difícil.

segunda-feira, 12 de maio de 2008

RUMO A CRUZ DE FERRO - 13º DIA



Acordei com aquele delicioso aroma de café invadindo o quarto. Ainda era noite lá fora. Um frio de lascar! Deu-me vontade de comer e voltar para a cama, ficar ali dias e dias, comendo e dormindo. Hibernando, literalmente! Felizmente, eu era uma peregrina e tive que espantar a preguiça e escrever minha história. Quando saí do albergue, tive mais uma linda surpresa: ouvi o cantar de uma caturrita igual ao assovio do meu pai. Ele sempre me chamava com um assovio especial e lá no Caminho, senti que ele estava me chamando. mnResolvi voltar e telefonar para casa. Coitadinho! Acordei-o no meio da madrugada para dizer que estava ouvindo o cantar de um passarinho. Se bem o conheço, ficou todo bobo, acordado a noite toda pensando nisso. E mais: no dia seguinte, deve ter contado para todo mundo. Pai coruja é assim mesmo...


Saindo de Rabanal, senti tanto frio que tive a sensação de que meu nariz congelaria a qualquer momento e que um leve toque o partiria em pedaços. Passei a manhã toda cobrindo-o com as mãos. De vez em quando, um carro passava na direção contrária, sempre com aqueles acenos, incentivando-me. As montanhas ao redor estavam cobertas de neve, que refletiam a luz do sol, fazendo com que tudo ficasse com mais brilho. Era uma aquarela! O céu era de um azul vibrante e contrastava com o branco das nuvens, que mais pareciam algodão. O orvalho nas folhas das plantas à beira da estrada havia se transformado em gelo, deixando tudo branquinho, branquinho. Agradeci a Deus por ter saúde e por poder ver e apreciar aquela pintura.

RUÍNAS DE FONCEBADÓN

Subindo a estrada, cheguei à cidade que todos acreditavam ser mal assombrada, Foncebadón. Foi ali que o escritor Paulo Coelho, em seu livro, diz ter sido atacado por cães. A maioria dos peregrinos temia atravessar aquele lugar sozinhos. Para mim foi muito tranqüilo. Nenhum sinal de cachorros por ali, muito menos, das tais assombrações; pelo contrário, era tudo muito bonito e cheio de vibrações boas. As ruínas remeteram-me para aquela época longínqua dos filmes da idade média. Entrei nas casas (ou no que restava delas!), debrucei-me nas janelas e tirei muitas fotos. Pena que esteja tudo tão abandonado! É um lugar maravilhoso para curtir uma casinha com lareira, um bom vinho, um livro, enfim, aquelas coisinhas que desejamos para um inesquecível final de semana a dois.


Depois de contornar algumas curvas da estrada, pude ver ao longe a montanha de pedras aos pés da Cruz de Ferro. Era enorme! Imaginei a quantidade de peregrinos que havia passado por ali durante os muitos séculos de peregrinação. E eu era um deles! Contribuiria com mais uma pedrinha, ajudando a erguer um monumento sagrado. Meus olhos encheram-se de lágrimas! Eu havia vencido as barreiras da dor e do desânimo, enfrentado o frio e a solidão e estava escrevendo um novo e feliz capítulo da minha vida.


Fiquei admirando a Cruz por muito tempo antes de escalar o monte de pedras e deixar ali minha pedrinha. Vi também muitos peregrinos passarem, quase direto, parando apenas para tirar uma foto. Outros juntaram-se a mim e admiraram tudo o que aquela Cruz simbolizava, emocionados. Quando subi o monte, deu-me vontade de assinar meu nome no poste da cruz. Foi o que fiz! Enfim, encontrei uma utilidade para o canivete suíço que tanto pesava em minha pochete! No início, achei que seria pecado, mas quando me deparei com outras assinaturas, não tive dúvida! Cravei meu nome eternamente na história do Caminho.


Continuei alegremente meu Caminho, mergulhada em meus pensamentos. Só acordei ao ouvir o toque de um sino, vindo do albergue de Manjarín, do famoso hospitaleiro Thomás. Na entrada, uma placa indicava as distâncias dali até os muitos lugares sagrados em todo o mundo. É um albergue muito simples. Não havia calefação ou banheiros, só um mezanino com vários colchões velhos e, apesar da simplicidade, Thomás e seus companheiros nos receberam de braços abertos para um café e tocavam o sino para cada peregrino que passava diante de sua porta. Falou-me com muito orgulho de seus objetivos e da sua luta pela paz no mundo. Recebi carimbos do albergue e da Ordem dos Cavaleiros Templários. Essa Ordem foi muito importante na época das Cruzadas, pois eram guerreiros que defendiam com o próprio sangue o Cristianismo e os peregrinos.

MANJARÍN

Fui convidada a participar da oração do meio dia. É um ritual muito bonito! A oração é feita com as espadas dos Templários e todos virados na direção do sol. Thomás contou-me a história de uma peregrina muito bonita, que em um dia de muito frio, abrigou-se em seu albergue. Era de uma beleza divina. Apesar de estar caminhando descalça, seus pés eram lisos e macios. Muitos anos depois, recebeu de presente um quadro, onde estava a imagem de uma Santa. Para seu espanto, a imagem que estava no quadro era a mesma da tal peregrina. Seria mais uma lenda do caminho? Lenda ou não, o que importava era a felicidade no rosto de Thomás ao contar-me aquela história. Era o tão esperado brilho nos olhos que eu tanto sonhava encontrar!


A descida até El Acebo era muito forte. Senti novamente aquela dorzinha chata no dedão do pé. Troquei o tênis pela papete, mas não adiantou muito. Com certa dificuldade, cheguei ao pequeno pueblo. Lembro-me como se fosse hoje do pôr do sol daquelas terras da Espanha e ainda sinto o prazer daqueles que foram os melhores dias sobre o “chão sagrado”. Eu estava no pequeno povoado, cansada, quase sem forças. Parei para um descanso, ainda em dúvidas sobre continuar ou não até Molinaseca ou Ponferrada. Aquele lugar parecia me chamar, pedir para que eu ficasse. Deixei-me levar pela intuição. Havia algo a aprender ali.

RUÍNAS EM EL ACEBO

Após um longo banho, saí para curtir um pouco mais o fim de tarde. Desci pela rua principal do pueblo em direção a um bar. Havia uma ruazinha que desembocava em uma espécie de mirante, de onde tive a sensação de ser dona daquele mundão lá embaixo. De repente, um cachorro enorme veio correndo em minha direção. Tinha cara de poucos amigos e latia raivosamente. Minha primeira reação foi congelar e dar as costas para aquele monstro. Rezei muito durante o que eu julgava ser os últimos segundos de vida que me restavam. Imaginei meu lindo corpinho, no auto dos seus quinze aninhos, sendo devorado vorazmente por aquele monstro. Apesar de estar perto do bar, os latidos ensurdecedores do cão não chamaram a atenção de ninguém. Senti seus dentes mordiscando minhas pernas, ao mesmo tempo em que babava e rosnava para mim. Concentrei-me na imagem daquele cachorro indo embora e perdoando-me por ter invadido seu território. Deu certo! A fera entrou em sua casa, deitou-se no chão e fechou os olhos, como se nada tivesse acontecido. Normalmente eu sairia dali e nunca mais voltaria, mas resolvi enfrentar meu medo.


Analisei a situação e resolvi dar a volta. Entrei em uma rua paralela e cheguei no bar. Perguntei de quem era aquela “gracinha” de cachorro. O dono prontamente identificou-se. Aí, “rodei a baiana”! Dei uma bela bronca no homem, deixando-o sem reação. Tudo o que dizia-me era que o cão era mansinho e nunca havia atacado ninguém. Quanto mais repetia isso, mais revoltada eu ficava! Eu tinha acabado de sofrer uma “tentativa de assassinato” e o dono do bicho não conseguia ter uma atitude digna de um homem! De repente, ele começou a bater no cachorro! Fiquei com pena do pobre bichinho e percebi o quanto minha raiva o influenciou a fazer aquilo. Pedi que parasse e que me apresentasse ao cachorro.
— “Como assim? Não compreendo, você é maluca?!” - falou.
— “Não! Pensei melhor e vi que a raiva e a violência não ajudarão em nada! Quero que ele me conheça e seja meu amigo” – respondi, em um momento de total insanidade.
E o monstro transformou-se em um cachorrinho dócil e carente. Deitou-se no chão com as patas para cima, pedindo-me carinho, sob o olhar admirado de todos. Só então, pude tomar meu café com leite tranqüila, na companhia de meu mais novo amigo.


Passei o final de noite assistindo futebol na TV com meus amigos do bar. Igualzinho a um homem! Queria sentir o que era ficar em frente a televisão assistindo onze homens correrem atrás de uma bola. Até que foi engraçado! Eles são um pouco grosseiros e barulhentos, mas diverti-me bastante. Estranho foi o fato de terem aceitado tão facilmente a presença de uma mulher compartilhando com eles um momento verdadeiramente masculino. Talvez por eu ser de um outro país, e esse país ser o berço do futebol. A Espanha é um país, pelo menos nas regiões em que passei, extremamente machista, pois as mulheres, em sua maioria, estão sempre na cozinha, nos campos ou arrumando a casa, enquanto os homens fumavam seus cigarros sentados na calçada. Acho que consegui romper as regras daquele lugar. Talvez El Acebo nunca mais seja a mesma. Ao menos para mim.