
Saída de El Acebo
Ainda estava escuro quando acordei. Fazia tanto frio quanto no dia anterior. Agasalhei-me bem e desci para mais um belo café da manhã. Acho que a minha maior curtição no Caminho foram as comidas. Talvez por isso, eu tenha sido uma das poucas pessoas que voltaram para o Brasil, um pouco mais “fofinha”. Foi muito bom para que eu aprendesse a lidar com a vaidade. Na minha profissão a aparência é tudo e no Caminho, tive que deixá-la de lado e ser eu mesma. Voltando à comida...devidamente alimentada e saciada, me despedi dos fanáticos por futebol e segui caminho.
Passei por lugares maravilhosos, bosques tão encantados quanto os que vi nos primeiros dias, pueblos com jardins repletos de flores e um grande rio que acompanhava a trilha. Para dar seqüência ao maravilhoso dia anterior, deixei de lado todo e qualquer tipo de preconceito e abri o coração, entrando totalmente em contato com a paisagem. As montanhas cobertas de neve ainda estavam lá para enfeitar o horizonte. Aos poucos, o frio foi dando lugar ao calor intenso e o dia foi ficando cada vez mais bonito. Ia descendo em direção a região de El Bierzo, onde encontraria em Ponferrada o Castelo dos Templários; em seguida, Villafranca e o albergue de Jesus Jato (o “bruxo” do Caminho) e logo depois, a temida subida ao Cebreiro.
Vinha caminhando por entre as montanhas, quando avistei um senhor sentado em uma pedra, numa planície bem abaixo de onde eu passava. No Caminho, costumamos cumprimentar a todos:
— “Buenos dias, señor! Buenos dias, señora!”
Lá de cima, acenei para ele. Enquanto descia, notei que estava chegando cada vez mais perto do solitário homem. Meu Caminho cruzaria o dele. Senti algo estranho, uma energia que não pude identificar. Não era uma energia ruim, mas senti um certo receio de encontrar aquele homem.
Realmente nossos caminhos se cruzaram. Quando estava passando ao seu lado, ele me parou. Lançou-me um olhar enigmático e perguntou-me como estava a dor no joelho esquerdo. — “Puxa vida, ele acertou na mosca! Que coisa mais estranha!” – pensei.
Não sabia ao certo se devia confiar nele, mas resolvi arriscar. Contei tudo o que havia acontecido desde o início e todas as dores que senti. Ele então pediu-me que levantasse a calça e começou a massagear meu joelho. Chorei de tanta dor! Depois fui relaxando e esqueci-me de tudo. Quando percebi, a dor havia ido embora. Seu nome era Balbino. Fazia isso sem cobrar nada, em nome da solidariedade.
- “Um dia todos temos que retribuir.” – falou.
Resolvi fotografar aquele momento também mágico. Para minha surpresa, ao revelar o filme, Balbino não aparece em minha foto. Foi a única das minhas 400 fotos que queimou. Só aparece um vulto envolto por uma luz branca. Não serei sensacionalista em acreditar que tenha sido um ser de outro planeta ou coisa parecida. Acho apenas que era um homem de aura brilhante e alma boa. Prefiro acreditar que sua luz era tão intensa, que não pôde ser captada por minha máquina. Para mim, ele foi um anjo que curou minhas dores, meus receios e acalmou meu coração para que eu seguisse em paz.
Continuei pela trilha por entre as montanhas. Tudo parecia ter surgido de um sonho bom. O sol forte, as árvores, os pássaros, tudo! Olhava aquelas árvores e sentia-me parte delas. Eu sou um pouco como elas, pés fincados no chão e cabeça nas nuvens. Tive vontade de ficar ali, enraizada para sempre, ser parte fundamental do Caminho; porém, era preciso continuar. Santiago me aguardava! Aos poucos, fui deixando a floresta para trás e entrando de novo no asfalto. Já estava quase chegando em Molinaseca e ainda pensava naquele bom e velho homem. Tenho certeza de que um dia, todos nós seremos como ele, trabalhando por uma só causa: o amor ao próximo. Então, haverá paz na Terra e viveremos em eterna alegria.

Árvore da bruxa (veja se vc consegue ver o rosto de uma bruxa nessa árvore)
Na minha parada em Molinaseca, depois de um refrigerante ao sol e um sorriso eterno no rosto, fui abordada por um casal. Eram os hospitaleiros do albergue da cidade. Convidaram-me para beber uma limonada. Já tinha visto em quase todos os bares daquela região, placas dizendo: “Hay limonada”. Imaginei que fosse um mero suco de limão e nunca parei para experimentar. Sorte a minha aceitar o convite, pois tive a chance de degustar um delicioso preparado com vinho, limão e outras frutas cítricas. Parecia ser uma bebida inofensiva, mas, depois de alguns goles, fui ficando “alegre”. Conversei um pouco com o hospitaleiro e enquanto andávamos, mostrou-me a cidade. Conheci o lindo albergue, tive vontade de ficar, mas meu destino era mesmo Ponferrada, a terra do Castelo dos Templários.
De lá até Ponferrada foram apenas 6 km. Encontrei um albergue grande e confortável, que mais parecia um hotel. Michel, o hospitaleiro, era muito simpático e atencioso. Recebeu-me com lanche e muito carinho. Conversamos bastante e quando perguntei sobre as dificuldades da subida ao Cebreiro, falou-me:
— “O Cebreiro está lá e você terá que atravessá-lo para chegar a Santiago, então para quê pensar no que está por vir? Você não poderá mudar o futuro, então não tenha medo e enfrente os obstáculos da vida da melhor maneira possível, tentando extrair desses momentos o máximo de lições que puder.”
Mais uma vez vi que, apesar ter aprendido que devia controlar minha ansiedade, ainda havia resquícios dela em mim e confesso ter dormido preocupada com o Cebreiro[1].
Detalhe importante desse capítulo. Ao perguntar a Michel sobre Balbino, ele me respondeu nunca ter ouvido falar sobre ele. Outros peregrinos não o encontraram na planície naquele dia e muitos amigos que já tinham feito o Caminho também desconheciam o homem.
[1] Cebreiro – Localidade situada a 1.300 m de altura. Uma das etapas mais comentadas do Caminho de Santiago, devido ao grande grau de dificuldade. Existem lugares, como a Cruz de Ferro e a antena de comunicações, situados a mais de 1500 m de altura; mas como subimos gradativamente, não sentimos tanto o esforço. Depois desses locais, descemos até Ponferrada e continuamos andando por dois dias em lugares planos. Só na etapa que nos leva ao Cebreiro enfrentamos uma subida tão abrupta, por isso ela é considerada a etapa mais difícil.

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