Após um longo dia de muito sol na cabeça e poucas paisagens bonitas para se ver, cheguei a Villafranca del Bierzo. Fui recepcionada por uma Kombi, na pequena estrada de terra que leva à cidade. Dentro dela, havia dois senhores. Um deles, muito atencioso, disse-me:
— “Olá, boa tarde! Creio que você dormirá nesta cidade. Neste caso, você poderá escolher, pois existem dois albergues aqui em Villafranca. O albergue Municipal fica no final dessa estrada à esquerda, e o da família Jato, à direita. A escolha é sua! Os dois são bons. Mesmo que você escolha ficar no albergue Municipal, sugiro que vá ao albergue da família Jato à noite, acompanhar o ritual da Queimada.”
Despediu-se e seguiu em frente.
Era claro para mim que não havia nenhuma possibilidade de eu ficar em outro lugar, que não fosse o albergue de Jesus. Todos no Brasil falaram-me muito dele. Diziam que era um homem especial e que seu albergue, era um dos mais tradicionais, fundado por sua falecida mãe. Não poderia dizer não à tradição e muito menos deixar de conhecê-lo. Lembro-me que quando adentrei o albergue, ansiosa para conhecer Jesus, e um senhor veio em minha direção. Para minha surpresa, era o mesmo que estava dirigindo a Kombi. Aproximou-se, colocou suas mãos sobre meus ombros e disse-me:
— “Calma! Você já chegou.”
Foi como um transe, fiquei completamente sem ação, sentindo a energia daquele senhor. Sabe quando sentimos um peso grande nas costas e não há massagem ou terapia que resolva? Pois era assim que eu estava me sentindo! Em questão de segundos, com o leve toque de suas mãos, meu coração acalmou-se e minha ansiedade foi embora de vez! O caridoso senhor era Jesus Jato em pessoa. O mais digno de sua parte foi não ter influenciado na minha escolha anteriormente. Ele poderia tê-lo feito, mas indicou-me os dois albergues e convidou-me para a Queimada. Realmente uma pessoa de bom coração, dessas que só encontramos no Caminho de Santiago.
Era um lugar simples. Notava-se que a casa ainda estava inacabada. A escada de madeira, com degraus irregulares, conduziam ao pequeno quarto, repleto de beliches. O teto era baixo, as telhas aparentes e nas laterais havia duas pequenas janelas de vidro. O chão era de tábuas corridas, bem velhas e descascadas. Em um canto perto da escada havia uma árvore, já sem galhos, que servia de “cabide” para um rolo de papel higiênico. Escolhi um beliche junto à janela, para dormir olhando as mesmas estrelas que um dia guiaram o peregrino Pelayo¹ até o corpo do apóstolo Tiago.
Depois de tantos dias sozinha, precisava mesmo sentir-me em casa. E o ar rústico do lugar deixou-me à vontade. Um homem aproximou-se para ajudar-me com a mochila. Era Acácio, um brasileiro que vive no Caminho de Santiago. Foi um momento especial para mim, porque estava conhecendo duas das mais importantes pessoas do Caminho. Fiquei mais feliz ao saber que Acácio já me aguardava naquela tarde (a peregrina com o chapéu do Brasil)! Tive a sensação, ao entrar naquele albergue, que estava em família. Arriscaria dizer até que era um reencontro, com amigos de outras vidas. A maioria das pessoas não acredita nisso, mas foi o que senti.

Um cheirinho de arroz e feijão vinha da cozinha. Pensei que poderia ser um devaneio meu, achando que já estava sentindo o aroma de comida caseira tipicamente brasileira. Para minha felicidade, eu estava certa! Preciso dizer que devorei uns três pratos? Nada contra a culinária espanhola, tampouco aos “Menus peregrinos”, mas depois de quase um mês de “bocadillos” e “tortillas”, não havia nada melhor no mundo que saborear nosso bom e velho arroz com feijão! Almoçamos alegremente. Eu então? Nem se fala... Estava nas nuvens!
Já refeita do pecado da gula, sentei-me do lado de fora do albergue para conversar com Acácio. Contei todas as passagens que tive durante o Caminho e as emoções que senti. Contou-me que o Caminho podia ser comparado às nossas vidas, com quatro fases diferentes, que correspondiam à nossa infância, adolescência, fase adulta e a sabedoria. Eu já havia trilhado as três primeiras. Por isso, sempre encontrava crianças recepcionando-me em quase todas as cidades entre Roncesvalles e Logroño. Houve também um roubo dos doces que levava em minha mochila em Zubiri, as cercas que lembraram-me da minha infância no primeiro dia, o arco-íris entre Puente la Reina e Estella. De lá até Burgos, seria a passagem da infância para a adolescência. Exatamente como na vida, foi uma fase que não vivi plenamente. Isso explica meus “delírios” com o anjo Tuiv e as mágoas que ainda estavam presas ao meu coração. De León até o Cebreiro, significava a fase adulta, a qual estava vivendo com certa dificuldade, mas sempre alegre e serena. O que eu poderia então, esperar do Cebreiro em diante? Qual seria o grande segredo para alcançar a sabedoria plena?
Fui convidada a acompanhar Acácio e a filha de Jesus até Ponferrada, para resolver alguns assuntos de ordem burocrática do albergue. De carro, demoramos somente quinze minutos para atravessar a mesma etapa que me custou um dia inteiro! Isso me deixou muito confusa! A rota pareceu-me totalmente diferente e, ao mesmo tempo, era a mesma! Meu “amigo” Gilberto Gil soube expressar o que senti maravilhosamente bem, quando disse:
“De jangada leva uma eternidade, de saveiro leva uma encarnação...
... de avião, o tempo de uma saudade...”
Hoje o mundo está em um ritmo tão alucinado, que não nos permitimos perder um minuto sequer de nossas vidas, para apreciar o que nos rodeia. O tempo para nós é sempre curto, nunca dá para resolver nada e estamos sempre correndo de um lado para o outro, fazendo uma coisa, já pensando em outra. Mas, o que significa o tempo? Depende da forma como você o enxerga. E era justamente esse tempo que eu havia perdido. Como dizia minha professora de expressão corporal, era o “tempo de olhar, ver e enxergar”.
Quando voltei para o albergue, Jesus estava massageando os peregrinos. Suas mãos eram tão mágicas e especiais, que bastava um simples toque para a pessoa sentir-se melhor. E não era só isso! A experiência que adquiriu em tantos anos como hospitaleiro, observando os peregrinos, misturada a um raro dom de premonição, Jesus conseguia até dizer o motivo de cada dor. Fiquei admirada com esse presente de Deus. Estava envolta em meus pensamentos, quando ele me chamou:
— “Suba comigo ao meu quarto.” – disse ele.
Estranhei o convite, olhei para o Acácio, sem graça, que logo falou:
— “Vai menina, ele está te chamando! Deve ensinar-te alguma coisa.”
Subimos. Jesus, uma peregrina alemã e eu. Lá chegando, deitou a moça em um colchão e a pediu que fechasse os olhos. Cobriu-a com um cobertor, dos pés à cabeça. Olhou-me e disse:
— “Coloque suas mãos direcionadas para o lugar onde você acha que ela sente dores. Concentre-se em uma luz branca de amor, fluindo através de seu corpo e seguindo em direção às suas mãos. Não pense em nada, deixe sua mente livre.”
Obedeci. Inexplicavelmente, ou não, senti necessidade de colocar minhas mãos na direção do estômago da peregrina. Uma onda de calor invadiu meu corpo. Minhas mãos tremiam muito e às vezes, faziam movimentos circulares. Pensei comigo mesma:
— “Que estranho! Será que estou fazendo tudo certinho?”
Aí, ouvi Jesus falar:
— “Pare de pensar! Deixe a energia fluir sem julgamentos. Siga sua intuição!”
Fiquei maravilhada com tudo aquilo! Eu o estava ajudando a melhorar o sofrimento alheio e isso enchia meu coração de alegria. Fizemos isso por mais de meia hora. Quando acabamos, a peregrina estava dormindo como uma criança. Deixamo-na descansando e descemos silenciosamente.
Eu estava em êxtase! Sentia-me leve. Quando cheguei ao saguão, encontrei Acácio sorrindo para mim.
— “Viu sua boba! Eu sabia que você tinha algo especial a aprender! Seus olhos estão brilhando! Você está irradiando energia!”
Logo formou-se uma roda de peregrinos curiosos, tentando arrancar alguma informação do que havia acontecido lá em cima. Fiquei um pouco zonza, perdida em meio a tantas pessoas. Para completar, depois de massagear todos os peregrinos, Jesus pediu-me para limpá-lo espiritualmente.
— “Mas eu nem sei como se faz isso!” – disse eu.
— “Da mesma maneira como fizestes lá no quarto” – foi a resposta.
Novamente, concentrei-me na luz branca de amor e deixei minhas mãos passearem por sobre seu corpo, sob o olhar atento dos demais peregrinos. Naquele momento, ouvi a voz de Acácio dizendo:
— “Agora você já está pronta.”
Senti-me honrada! Era uma ocasião especial e única!
Na hora da Queimada[1] ainda estava excitadíssima com tudo que tinha acontecido, olhar perdido e a cabeça totalmente fora dali. Sentia-me leve e realizada! Não conseguia tirar do rosto o sorriso, a expressão de leveza e satisfação. Participei do ritual quase que flutuando. Ainda sentia a energia entrando em meu coração, exorcizando tudo de ruim de dentro da minha alma! As luzes se apagaram, Jesus misturou vários ingredientes em seu caldeirão e pôs fogo, enquanto dizia as palavras “mágicas”. Era mais ou menos assim:
“Peregrinos que andam ao engano, procurando refúgios de sauna, piscina e banho. Auuuuuuuuu... (uma vaia, repetida por todos nós)
Peregrinos que montam aos montes em um carro de apoio. Auuuuuuuuu...
Peregrinos que chegam ao Cebreiro, frescos e descansados, sem saber onde fica La Faba[2]. Auuuuuuuuu...
O ônibus sai às cinco e meia da manhã. Auuuuuuuuu...
‘Ciclogrinos’ pelo Caminho de Santiago. Auuuuuuuuu...
Peregrinos com bolhites[3]... Auuuuuuuuu...
Peregrinos com tendinites... Auuuuuuuuu...
Peregrinos tontos que vão à pé, havendo ônibus, carros e trem... Auuuuuuuuu...
Forças do ar, da Terra, do Mar, e da Lua, se é verdade que tem tanto poder como tantos humanos dizem, façam com que todos os amigos que estão fora, se unam conosco nesta Queimada, mas só em espírito, porque se vierem todos, nos deixam sem nada! E que tudo seja luz!”
Depois serviu a bebida a todos e fizemos um brinde. Foi a noite mais especial de toda a minha vida.
[1] Queimada – bebida típica da Galícia, feita em um caldeirão durante um ritual para as forças da Natureza.
[2] La Faba – Pueblo situado entre Villafranca del Bierzo e o Cebreiro.
[3] Bolhites – muitas bolhas - Um trocadilho com a palavra tendinites, para que o texto tenha rima.


Um comentário:
Que experiências fantástico!
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