quinta-feira, 3 de dezembro de 2015

A mudança

Tempo-mudança-tempo.
É preciso dar um tempo para que se perceba a necessidade da mudança. E para que a mudança aconteça, é preciso tempo. Desde que voltei do Caminho, me permiti um tempo para digerir as vivências. Sabia que alguma grande mudança estava por vir. Ao contrario da peregrina de 2001, que podia se dar ao luxo de seguir a vida sem muito planejamento, a peregrina de 2015 precisava de um plano muito bem traçado para não perder as rédeas do seu caminho, pois não havia mais tempo a perder. Minha vida profissional estava parada para me dedicar aos filhos pequenos. Tinha sido muito lindo e gratificante participar ativamente da educação deles, mas não era mais o suficiente para me sentir realizada. Precisava retomar minha identidade e voltar a realizar meus próprios sonhos. Voltar ao Caminho seria o primeiro grande passo para a minha nova fase.

A preparação para a minha viagem mexeu bastante com todos da família. Eu fui fazendo com que as crianças dependessem cada vez menos de mim nas tarefas do dia a dia, treinando meu corpo, revendo prioridades para as compras dos equipamentos, pois o euro estava nas alturas e eu precisaria economizar o máximo para não depender de cartão do crédito. Tive que entender que eu não era imprescindível em casa e, o mais difícil, aceitar isso. Mesmo sem perceber, eu agia como se fosse a única pessoa capaz de dar conta da casa e dos filhos. Descobri em mim uma parte prepotente que aflorou sem minha consciência. Talvez à partir do rótulo que a sociedade impõem às pessoas, silenciosamente. Fui questionada várias vezes e por diversas pessoas "quem ficaria com meus filhos?", "porque eu viajaria sozinha e não com a família?", "porque eu tinha que sair de casa, deixando filhos pequenos para me aventurar pelo caminho?", entre outras. Confesso que senti raiva de ter sido julgada, afinal, eu tinha o direito de escolher fazer o que eu quisesse da vida e ser mãe não poderia ser algo impeditivo. Muito pelo contrário! Um amigo meu escreveu um texto lindo sobre isso (Vide link ao final do texto).  A tecnologia, através das redes sociais, nos trouxe a falsa impressão de que podemos julgar as pessoas. Porém, minha família estava me apoiando e isso não me fez desistir de ir ao Caminho de novo!

Quando estive no Caminho de Santiago pela primeira vez, não existia ferramentas tecnológicas, albergues, bares e restaurantes em abundância como atualmente. Nossa opção era carregar um guia impresso, anotar o telefone do albergue seguinte e caminhar a distancia que separava um povoado do outro. E ponto! Quando muito, tínhamos alguns lugares para um café ou uma maquina de refrigerante. Os albergues serviam café da manhã farto, cheio de opções de frutas, cereais, leite, pães e frios. Isso nos permitia pegar frutas e fazer um lanche que nos salvaria no meio do dia. A comunicação com os familiares no Brasil era feita por telefone público e e-mail nos cyber cafés que encontrávamos pelo caminho. Alguns albergues e restaurantes tinham um computador que ficava à disposição do peregrino. Alguns cobravam por isso, outros não. Alguns poucos "alienígenas" possuíam um aparelhinho que tocava em algum ponto mais urbano do Caminho. Eram bem poucos e certamente, abastados (as ligações de celular eram cobradas nas chamadas efetuadas e também recebidas).  Isso sempre me fez pensar que seria maravilhoso o dia em que pudéssemos fazer o Caminho de forma interativa com quem não podia estar lá. A tecnologia teve, tem e ainda terá uma importância imensa para o Caminho. Ao mesmo tempo, é motivo de preocupação. O Caminho era o lugar perfeito para quem queria dar um tempo da vida estressante e viajar aberto a conhecer pessoas de todo o mundo e trocar experiências. Agora, está repleto de gente querendo saber a senha do wifi. Assim, fechados em seus mundos virtuais, deixam de aproveitar plenamente as vivências transformadoras que desejavam quando buscaram o Caminho.

Outra grande mudança que percebi foi a grande quantidade de estabelecimentos comerciais. As cidades do Caminho de Santiago não sofreram muito com a crise na Espanha e, consequentemente, muita gente resolveu investir no Caminho. Ao mesmo tempo, como a peregrinação é uma maneira relativamente barata de viajar, surgiram os turistas! Muitos deles desconhecem o significado de receber. Eles só exigem, pois estão pagando por isso. E o fazem muito bem, mesmo quando o serviço prestado é feito através de donativo.Muitas ofertas de lugares para comer e pernoitar, fez com que os peregrinos não tivessem mais o mesmo companheirismo de antes. Naquela época, sabíamos que teríamos que percorrer certa distância para chegarmos a um povoado e, no final do dia, nos encontraríamos no albergue e comeríamos no restaurante em frente. Hoje em dia, temos muitas escolhas. E essa grande quantidade de opções afasta os peregrinos uns dos outros. Está muito mais difícil ter uma relação de companheirismo no Caminho. Percebi poucas pessoas se unindo para o jantar comunitário, menos gestos de gentileza, conversas mais breves e superficiais. Claro que minha percepção foi diferente, pois eu estava peregrinando com um grupo. Tínhamos a liberdade de escolhermos nossos caminhos, mas também era confortável ter a companhia de alguém conhecido. Posso ter caminhado menos aberta a novas amizades desta vez e a comparação entre meus dois caminhos, a princípio, resultou em um certo descontentamento. É por isso que descobrimos que o Caminho começa quando chegamos à Catedral. Dali em diante, quando voltamos à realidade é que entendemos o nosso Caminho! E cada um tem o seu! O que serve pra mim, pode não servir para você. O importante é percebermos e respeitarmos a individualidade de cada peregrino. E, claro, desejarmos que tenham um "buen camino"!

E sim, as mudanças na minha vida, depois de ter percorrido o Caminho serão muitas. Voltar para a faculdade, depois de 20 anos é uma delas. As demais, virão com o tempo. Portando, mamães de plantão, não se sintam incapazes de correr atras de seus sonhos e resgatar suas identidades e voltar a ter as rédeas de suas vidas!

Na próxima semana, contarei um pouco dos meus preparativos para ir ao Caminho. Quem sabe alguma dica seja de grande valia para um futuro peregrino. 😉👣
Link para a minha postagem e o texto do meu amigo sobre mães:
 http://www.tiencamino.com.br/2015/10/sentimentos-em-conflito.html

sexta-feira, 27 de novembro de 2015

O Tempo


"De jangada leva uma eternidade,
De saveiro leva uma encarnação
De avião o tempo de uma saudade..."
Gilberto Gil - Parabolicamará

O Tempo

"De jangada leva uma eternidade,
De saveiro leva uma encarnação
De avião o tempo de uma saudade..."
Gilberto Gil - Parabolicamará

Percebi essa diferença de tempo-espaço, quando em 2001, após caminhar mais de oito horas para percorrer os quilômetros até Villafranca, aceitei o convite do hospitaleiro Jesus Jato para acompanhá-lo até Ponferrada de carro, seguindo o trajeto no sentido contrário. Achei que seria divertido e interessante saber quanto tempo demoraríamos para fazer de carro o mesmo percurso que eu havia acabado de vencer à pé. E foi! A mesma paisagem passou rapidamente diante dos meus olhos e eu percebi que meu olhar sobre o Caminho tinha mudado por causa do tempo despendido. À partir dali, entendi que o mais importante não era a chegada e sim o próprio Caminho.

A Natureza é sábia! Tudo tem seu tempo. Nós é que estamos sempre inventando coisas para chegar mais cedo, lavar mais rápido, numa corrida frenética para realizar o maior numero de tarefas no menor espaço de tempo possível. E o dia anda mais curto, claro! Passamos por ele (ou ele é que passa por nós) sem percebermos o que está à nossa volta. E o tempo corre. E nós corremos atrás dele! E reclamamos que o tempo passa rápido, que um dia não é mais suficiente! Quando foi que deixamos de perceber o trajeto? De sentir o gosto das coisas? Eu senti muito isso no Caminho. Porque eu corri pra chegar no albergue? Porque eu não parei pra descansar os pés deitada na grama? Porque eu caminhei fora do meu ritmo só para acompanhar um grupo? Porque eu subi aquela montanha correndo para chegar logo ao topo? Porque não comi mais frutas no pé? Porque não senti mais os aromas das flores? Porque não tirei mais fotos? Porque não conversei mais com as senhorinhas? O tempo não para mesmo! Temos que saber domá-lo para não nos tornarmos escravos dele.

E o Caminho? O que mudou no Caminho com o passar do tempo? Muitas coisas. Voltei de lá achando que o espírito peregrino tinha se perdido. Que os inúmeros albergues, bares e restaurantes tinham mudado a cara do Caminho. Me decepcionei bastante por causa disso. Cheguei a afirmar que escreveria sobre as mudanças do Caminho de 2001 e o de 2015, em tom de crítica, dizendo que o Caminho não era mais o mesmo. E um peregrino me escreveu que o meu olhar sobre o Caminho é que estava diferente. Sim! Ele estava certo! Com o tempo, o Caminho mudou e eu também mudei! Cabe a mim agora decidir se eu quero lembrar do Caminho com saudosismo ou com gratidão por ter tido a oportunidade de percorrê-lo.

Então meus amigos, aproveitem o tempo que antecede seu Caminho. Curtam bastante o friozinho na barriga. Treinem, visualizem o Caminho, pesquisem bastante sobre os lugares. Tenham um pré-roteiro do que vocês querem ver no Caminho, sem deixar de estarem abertos às circunstancias que os levarão a conhecer o novo. Abram seus corações e mentes para sentir o Caminho. Esqueçam o tempo! Esqueçam as distâncias! Apenas vivam o momento! Porque não haverá tempo para arrependimento! O que passou, passou. Não voltará mais!

É como disse uma vez Lulu Santos: "Nada do que foi será de novo do jeito que já foi um dia. Tudo passa, tudo sempre passará..."

Agora que já percebi a minha mudança, poderei escrever sobre as mudanças do Caminho. Fica para o próximo texto.

Ultreia y Suseya!







sábado, 10 de outubro de 2015

Sentimentos em conflito

3 dias!

As noites já não me servem mais para dormir. A cabeça não para de pensar! Tanto tempo esperando para realizar esse sonho, tanta torcida para que passasse rápido e, quando chego perto do dia de embarcar, me pego pedindo para que os dias sejam mais longos, quem sabe se ele desse só uma paradinha, para eu aproveitar um pouco mais os meus pequenos. Consigo sentir saudade, mesmo estando junto deles. Nem sabia que isso era possível!

Eu os vejo tentando se ajustar aos novos sentimentos. Ora cheios de amor, grudados em mim, ora me enfrentando, sentindo uma raiva danada! O que será que se passa na cabecinha deles? Queria muito poder estar por perto e ajudá-los a superar a primeira separação da mãe. Pera lá! Eu sou a mãe! Preciso desse tempo! Ele será fundamental para que nossa relação seja saudavel. Sem amarras! Sem dependências emocionais, sem chantagem, sem firulas.

Dois amigos meus me escreveram palavras que me tocaram. Uma amiga me disse que é ótimo que os filhos vejam a mãe lutar pelos seus sonhos. Que eles iriam me admirar e entender que esse é o proposito maior de estarmos vivos! IR EM BUSCA DOS SONHOS!!!
E um amigo escreveu um texto contando como ele, filho, via a mãe. Um texto tão profundo que gostaria de dividir com vocês:

"Acabo de dar uma resposta para uma amiga que está tirando férias da função de mãe, realizando um sonho seu. Não porque ela não goste dos filhos e muito menos porque não é uma boa mãe ou esposa, justamente pelo contrário. Na minha opinião ela vai voltar muito mais consciente - e ajudar aos seus filhos de se tornarem mais conscientes também - depois de ficar 3 semanas afastada da família:
Você mais a grande maioria das mulheres fica no automatismo da culpa, porque parece que o direito à vida individual e de ser mulher termina quando tem filhos. Sempre achei isso um absurdo. A maioria me ataca e rotula como machista quando faço criticas severas à mulher; mas do outro lado não sinto a mesma "paixão" na reação das mulheres portanto, quando eu as defendo como faço agora, porque parece que existe um verdadeiro apego à culpa. Acho que a mulher não nasceu apenas para ser apenas mãe. Pelo contrário, se tem ou não tem filhos, se decide ter ou não ter, não mudam seu valor inerente como mulher. Algumas coisas simplesmente são convenientes - você as chamou de automatismo - porque assim caminha junto com a manada sem pensar muito. Mas a questão é: Existe o perigo de chegar no final da vida e pensar que apenas atendeu as expectativas dos outros que esperavam de você filhos, sobrinhos, netos, etc?"
Quando eu rompo esse automatismo para fazer pensar, incomodo e muito. A maioria tem a necessidade absurda de colocar as pessoas em caixas. Quando a mulher em geral é criticada por um homem, é mais fácil de rotulá-lo como machista, do que se atentar primeiro se a critica tem ou não tem fundamento, ainda que sejam desagradáveis de ouvir... Ou então usa o argumento mais tosco de
todos: "Você fala isso porque não tem filhos."
Sim, de fato não tenho. Mas eu fui filho e eu vi a frustração da minha mãe em determinados momentos por ter se abandonada, ou seja, abriu a mão das coisas que gostava. E não fui eu que exigi isso, pelo contrário, as vezes eu teria ficado contente se me desse mais espaço!
Ela fora sempre uma boa mãe, mas hoje se eu olhar para trás, posso dizer que se ela não estivesse aberto a mão das suas coisas, poderia ter sido uma mãe melhor ainda. Quantas mães se perdem em cobranças absurdas, parecendo verdadeiras vampiras que sugam os filhos, como se fosse a sua principal fonte de energia para continuar se sentindo vivas? Na minha opinião definitivamente não é saudável abrir excessivamente a mão das suas coisas e do seu individualismo?
Nenhum homem quer transar com uma mãe, na hora H, ele quer uma mulher. É muito mais fácil dizer que a mulher engordou porque seu corpo mudou ou porque não tem mais tempo para si, do que assumir que a gordura adquirida ao longo dos anos é um escudo de proteção para não ser mais desejada como antigamente, tanto dentro de casa, quanto na rua.
Ouso dizer que nenhum filho fica feliz ao ver sua mãe desistir de ser aquilo que ela fora antes dele
nascer: uma mulher!
Aquele que reduz a mulher a uma única condição - ainda que seja o filho - certamente é muito mais machista que eu.
Uma certa liberdade - poder dizer sim e não - deve fazer parte de qualquer ser humano, independentemente do seu gênero..."


Enquanto o dia não chega, sigo com meus sentimentos em conflito. Torcendo para estar no Caminho e, ao mesmo tempo, querendo que demore mais um pouquinho. E sempre agradecendo pela familia que tenho, meu marido e meus filhos, pois entenderam que este é o MEU momento e estão me apoiando para que eu vá em busca dos meus sonhos!
















5 dias!!!

É o tempo que falta até o dia do meu embarque. Cinco dias para voltar a realizar um sonho. Cinco dias para um tempo só meu. Muita gente não entende o motivo de eu deixar minha familia, meus filhos pequenos e viajar sozinha pra caminhar 20/30 km por dia, do outro lado do oceano.  
Simples: a mamãe vai tirar férias!

Num primeiro momento, essa ideia parecia distante, coisas de sonho mesmo, daqueles que a gente acha que dificilmente realizará. Eu estive tão envolvida com a maternidade, que esqueci de mim mesma. Esqueci da minha individualidade, dos meus anseios, da minha vida profissional, do meu caminho a seguir.

Depois, senti que o meu EU queria aflorar, mostrar de novo sua cara. Eu tinha vontade de ganhar o mundo, produzir algo novo, voltar a ser a Tilara! Não só carregar comigo o rótulo de mãe de alguém.
Comecei a trabalhar em casa, vendendo tortas artesanais. Iria juntar o dinheiro aos poucos para voltar ao Caminho de Santiago em 2016. Eu estava decidida e precisava dividir essa ideia com minha familia. Meu marido foi fundamental para a realização deste sonho. Ele sentia que eu realmente precisava deste tempo para reorganizar as ideias e a minha vida.
E ele me disse: "Porque não agora? Já? Eu te ajudo!"

Agarrei com unhas e dentes aquela proposta e aqui estou a apenas 5 dias do embarque!
Já não consigo dormir uma noite inteira, planejando cada parte e me preparando para o momento em que vou enfrentar o maior desafio da minha vida: ficar longe da minha familia! E me veio à cabeça a figura de uma mulher que gostaria de levar todos eles dentro da mochila. Porém, esta mochila deve ser leve para que eu tenha sucesso nessa jornada.

É com alegria que dividirei com vocês um pouco da minha experiência no Caminho!
Hora da contagem regressiva!!!
5 dias!!!!




terça-feira, 6 de outubro de 2015

Uma semana

Uma semana...

Esse é o tempo que falta para o dia do meu embarque rumo ao Caminho de Santiago. Uma semana é o tempo que falta para o tempo só comigo, o encontro comigo mesma e com minha essência. Essa, meio perdida desde que deixei de ser Tilara para ser mãe. Posso ter exagerado um pouco, poderia ter dividido melhor a mulher da mãe, mas está feito. O que preciso é de um break, um tempo.
Coincidentemente, ou não, minha viagem que seria de 20 dias, se transformou em 21, devido ao longo tempo entre a conexão em roma na volta. Com isso, ganhei um dia. E, por isso, minha viagem terá uma pitada especial, pois é esse o tempo exato para a limpeza completa de todos os chakras.

Acredito que todas as pessoas deveriam tirar uns dias para estarem em contato consigo mesmas. Na correria do dia a dia, esquecemos de ouvir nosso corpo, de dar atenção aos nossos sonhos, entender que caminho seguir. Afinal, estamos aqui para vivermos! De que adianta uma vida de sofrimentos, de reclamações, de amarguras? Isso significa viver?


quarta-feira, 16 de setembro de 2015

Visão feminina do Caminho - Cuidados

Estava há pouco conversando com o Acacio da Paz, um amigo que é hospitaleiro no Caminho de Santiago (Refugio Acacio & Orietta - Calle Nueva, 6, 09259 - Villoria de Rioja, Burgos, Espanha) sobre os cuidado no Caminho.

Então, decidi escrever sobre os cuidados que as mulheres devem ter ao viajaem para o Caminho sozinhas. Esta é uma visão minha. Fiz o Caminho de Santiago em abril de 2001 e farei novamente em  outubro deste ano (2015). Comparando com a outra peregrinação que fiz, vou listando os cuidados que terei nesta nova viagem:

1 - Não vou achar que o Caminho de Santiago é um lugar de fadas, elfos, anjos, deuses e gnomos (ou qualquer outra divindade ou santidade). O Caminho não é um lugar que só existem coisas boas. Não! O Caminho de Santiago fica localizado na Espanha, um país europeu, dentro do planeta Terra e, portanto, habitado por seres humanos. Sabendo disso, vou ao Caminho com olhos abertos e muito atenta.
2 - Pode parecer muito machista da minha parte escrever isso, mas serei discreta nas minhas roupas. Normalmente já sou, mas serei mais ainda. Por favor, não me venham com papo de que somos o que somos e as pessoas tem que engolir isso! O motivo de estar escrevendo isso é: caminharei centenas de quilometros, passando por muitas vilas antigas e, em muitas delas, os moradores nunca sairam de lá. Já conversaram com os seus avôs e bisavôs para entenderem como eles viam as mulheres?
Pois então contarei uma passagem que vivi nos Passos de Anchieta (2011): vinha eu filmando a ultima etapa dos Passos de Anchieta, quando avistei o Sr. Virgilio, um peregrino brasileiro super conhecido por ter feito diversos caminhos, sentado num banco. Ao me aproximar dele, notei que ele estava tirando a camiseta e por ser algo muito comum nos dias de hoje, continuei filmando. Ao chegar bem perto dele, o chamei e disse que estava feliz por ele ter conseguido completar mais um caminho. E ele ficou muito bravo comigo. Eu não entendi o motivo até que ele me disse: "desliga esse negocio aí menina, porque eu estou pelado!"
Pois bem, encontraremos muitos senhores que pensam dessa forma. Que é um desrespeito alguns tipos de trajes mais curtos e também algumas atitudes.
Entendam, estarei em outro país, em lugares onde os costumes continuam os mesmos. Eu devo respeitar isso!

domingo, 13 de setembro de 2015

1 Mês!

É o tempo que falta para o dia do meu embarque. Estou pronta! Mochila pronta e com peso ideal. Treinando cada dia mais, porém, sem forçar o corpo (nunca se está preparado emocional e fisicamente para o Caminho). Tinha tanta coisa para escrever! Mas, só penso na peregrina Denise Thiem!

Como eu gostaria que o final dessa história fosse outro! Gostaria de que ela tivesse chegado ao Monte do Gozo e visto lá de cima as torres da Catedral ao longe e pensado: "Tô chegando! Falta Pouco!" Queria que ela tivesse caminhado mais uma horinha e chegado a Santiago com seus amigos, ao som da gaita de foles, sentindo o coração transbordar de alegria, a emoção da conquista e o abraço coletivo dos seus amigos. Ah, como eu queria que ela tivesse visto a beleza da Missa do peregrino, sentido o perfume lançado através do Botafumeiro e abraçado o Apóstolo do altar!

 Mas, ela o fará através de cada um de nós, peregrinos que vão passar pelo Caminho e levar Denise Thiem no coração, numa oração! Ela será eterna peregrina! E estará conosco nessa jornada!
Tenho certeza de que falo por cada um de nós, peregrinos e amigos, que acompanharam desde abril o desfecho deste triste acontecimento.

Que sua morte não seja em vão!
Que Denise Thiem siga seu Caminho em paz! E que ele seja lindo!