A mudança
Tempo-mudança-tempo.
É preciso dar um tempo para que se perceba a necessidade da mudança. E para que a mudança aconteça, é preciso tempo. Desde que voltei do Caminho, me permiti um tempo para digerir as vivências. Sabia que alguma grande mudança estava por vir. Ao contrario da peregrina de 2001, que podia se dar ao luxo de seguir a vida sem muito planejamento, a peregrina de 2015 precisava de um plano muito bem traçado para não perder as rédeas do seu caminho, pois não havia mais tempo a perder. Minha vida profissional estava parada para me dedicar aos filhos pequenos. Tinha sido muito lindo e gratificante participar ativamente da educação deles, mas não era mais o suficiente para me sentir realizada. Precisava retomar minha identidade e voltar a realizar meus próprios sonhos. Voltar ao Caminho seria o primeiro grande passo para a minha nova fase.
A preparação para a minha viagem mexeu bastante com todos da família. Eu fui fazendo com que as crianças dependessem cada vez menos de mim nas tarefas do dia a dia, treinando meu corpo, revendo prioridades para as compras dos equipamentos, pois o euro estava nas alturas e eu precisaria economizar o máximo para não depender de cartão do crédito. Tive que entender que eu não era imprescindível em casa e, o mais difícil, aceitar isso. Mesmo sem perceber, eu agia como se fosse a única pessoa capaz de dar conta da casa e dos filhos. Descobri em mim uma parte prepotente que aflorou sem minha consciência. Talvez à partir do rótulo que a sociedade impõem às pessoas, silenciosamente. Fui questionada várias vezes e por diversas pessoas "quem ficaria com meus filhos?", "porque eu viajaria sozinha e não com a família?", "porque eu tinha que sair de casa, deixando filhos pequenos para me aventurar pelo caminho?", entre outras. Confesso que senti raiva de ter sido julgada, afinal, eu tinha o direito de escolher fazer o que eu quisesse da vida e ser mãe não poderia ser algo impeditivo. Muito pelo contrário! Um amigo meu escreveu um texto lindo sobre isso (Vide link ao final do texto). A tecnologia, através das redes sociais, nos trouxe a falsa impressão de que podemos julgar as pessoas. Porém, minha família estava me apoiando e isso não me fez desistir de ir ao Caminho de novo!
Quando estive no Caminho de Santiago pela primeira vez, não existia ferramentas tecnológicas, albergues, bares e restaurantes em abundância como atualmente. Nossa opção era carregar um guia impresso, anotar o telefone do albergue seguinte e caminhar a distancia que separava um povoado do outro. E ponto! Quando muito, tínhamos alguns lugares para um café ou uma maquina de refrigerante. Os albergues serviam café da manhã farto, cheio de opções de frutas, cereais, leite, pães e frios. Isso nos permitia pegar frutas e fazer um lanche que nos salvaria no meio do dia. A comunicação com os familiares no Brasil era feita por telefone público e e-mail nos cyber cafés que encontrávamos pelo caminho. Alguns albergues e restaurantes tinham um computador que ficava à disposição do peregrino. Alguns cobravam por isso, outros não. Alguns poucos "alienígenas" possuíam um aparelhinho que tocava em algum ponto mais urbano do Caminho. Eram bem poucos e certamente, abastados (as ligações de celular eram cobradas nas chamadas efetuadas e também recebidas). Isso sempre me fez pensar que seria maravilhoso o dia em que pudéssemos fazer o Caminho de forma interativa com quem não podia estar lá. A tecnologia teve, tem e ainda terá uma importância imensa para o Caminho. Ao mesmo tempo, é motivo de preocupação. O Caminho era o lugar perfeito para quem queria dar um tempo da vida estressante e viajar aberto a conhecer pessoas de todo o mundo e trocar experiências. Agora, está repleto de gente querendo saber a senha do wifi. Assim, fechados em seus mundos virtuais, deixam de aproveitar plenamente as vivências transformadoras que desejavam quando buscaram o Caminho.
Outra grande mudança que percebi foi a grande quantidade de estabelecimentos comerciais. As cidades do Caminho de Santiago não sofreram muito com a crise na Espanha e, consequentemente, muita gente resolveu investir no Caminho. Ao mesmo tempo, como a peregrinação é uma maneira relativamente barata de viajar, surgiram os turistas! Muitos deles desconhecem o significado de receber. Eles só exigem, pois estão pagando por isso. E o fazem muito bem, mesmo quando o serviço prestado é feito através de donativo.Muitas ofertas de lugares para comer e pernoitar, fez com que os peregrinos não tivessem mais o mesmo companheirismo de antes. Naquela época, sabíamos que teríamos que percorrer certa distância para chegarmos a um povoado e, no final do dia, nos encontraríamos no albergue e comeríamos no restaurante em frente. Hoje em dia, temos muitas escolhas. E essa grande quantidade de opções afasta os peregrinos uns dos outros. Está muito mais difícil ter uma relação de companheirismo no Caminho. Percebi poucas pessoas se unindo para o jantar comunitário, menos gestos de gentileza, conversas mais breves e superficiais. Claro que minha percepção foi diferente, pois eu estava peregrinando com um grupo. Tínhamos a liberdade de escolhermos nossos caminhos, mas também era confortável ter a companhia de alguém conhecido. Posso ter caminhado menos aberta a novas amizades desta vez e a comparação entre meus dois caminhos, a princípio, resultou em um certo descontentamento. É por isso que descobrimos que o Caminho começa quando chegamos à Catedral. Dali em diante, quando voltamos à realidade é que entendemos o nosso Caminho! E cada um tem o seu! O que serve pra mim, pode não servir para você. O importante é percebermos e respeitarmos a individualidade de cada peregrino. E, claro, desejarmos que tenham um "buen camino"!
E sim, as mudanças na minha vida, depois de ter percorrido o Caminho serão muitas. Voltar para a faculdade, depois de 20 anos é uma delas. As demais, virão com o tempo. Portando, mamães de plantão, não se sintam incapazes de correr atras de seus sonhos e resgatar suas identidades e voltar a ter as rédeas de suas vidas!
Na próxima semana, contarei um pouco dos meus preparativos para ir ao Caminho. Quem sabe alguma dica seja de grande valia para um futuro peregrino. 😉👣
Link para a minha postagem e o texto do meu amigo sobre mães:
http://www.tiencamino.com.br/2015/10/sentimentos-em-conflito.html
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