Despertamos ao som de Ave Maria. Eu já havia sido informada que no albergue Pequeno Potala, teríamos uma surpresa ai acordar, mas não achei que fosse me emocionar tanto. Eu não sigo nenhuma religião, quase não entro em Igrejas e raramente assisto uma Missa. Mas aquela Ave Maria me tocou profundamente. Me fez voltar no tempo e sentir o Caminho novamente. Em sua plenitude, pureza, inspiração. Foi mais do que acordar com o barulhos dos demais peregrinos, mais do que perceber que mesmo lá, seguimos uma rotina. Deliciosa por sinal, mas continua sendo rotina. E, por isso mesmo, o Caminho nos serve de espelho, nos coloca frente a frente com tudo de bom e ruim que temos em nós e na nossa vida.
Naquele dia foi como acordar no céu. Leve. Linda. Feliz! Ainda era noite, fazia muito frio e teríamos pela frente a difícil, porém magnifica, subida ao Cebreiro. Viria a fronteira com a Galícia, a terra das Meigas, das Bruxas, da magia. Era o reencontro com o meu lugar, com o misticismo e com minha fase adulta. Em 2001, o Acacio me contou que o Caminho podia ser comparado às nossas vidas, com quatro fases diferentes, que correspondiam à nossa infância, adolescência, fase adulta e a sabedoria. E eu havia começado na parte relacionada à minha ida para São Paulo, com 18 anos. Final da adolescência e fase adulta. Eu já estou mais adulta que outrora, muito diferente da outra vez e, ao mesmo tempo, concordando que era hora de dar uma nova guinada na vida. De novo, o Caminho estava sendo um divisor de aguas para mim. Desta vez, depois de largar minha cidade natal, minha carreira e dedicar-me aos filhos e à casa, era chegada a hora de buscar uma nova identidade e uma nova profissão. Essa era a única certeza que eu tinha naquele momento. A outra era: viva o aqui e agora! E assim fiz!
Tomamos um delicioso café e, com o coração apertado, me despedi de Carlos e seu albergue Pequeno "Gigante" Potala. Seguimos, Camilla, Arthur e eu, pela mesma estradinha que tinha nos levado a Ruitellan. Ainda estava escuro e eu fui de lanternas acessas novamente. E o céu nos presenteou com outro amanhecer inspirador. Nenhuma nuvem. A noite dando lugar ao dia. Nuance de cores, ar gelado entrando frescamente em nossos corpos, o cheiro da terra, do bosque, o barulhinho das folhas secas no chão e uma máquina de lavar abandonada. Sim! Isso mesmo que você leu! Uma máquina de lavar roupas abandonada. Me fez pensar nas coisas mais inusitadas que nos acontecem na vida. Ela estava ali representando isso.
Continuamos nosso Caminho. O sol já dava o ar de sua graça, iluminando aqueles bosques que pareciam ter saído de um quadro de Monet. E caminhando e subindo e caminhando e subindo até que encontramos aquela plaquinha na bifurcação entre o bosque e a estrada de asfalto, que diz: "Por aqui solo para los fuertes". E eu fui forte. Dessa vez, escolhi o bosque.
Foram dias e caminhadas completamente diferentes. A começar pelo cenário: pelo bosque era estrada de terra, com pedras, muita umidade, cheiro de mato. Pela estrada, quando subi ao Cebreiro em 2001, era eu e o Universo. Nenhum carro, sol a pino e a imensidão do vale. Ambos lindos e ambos me ensinaram coisas importantes. A estrada me ensinou a lidar com a solidão. O bosque me ensinou a ver a beleza da vida. E ambos me ensinaram a aproveitar o dia de hoje.
E fomos avançando, subindo e admirando aquele bosque. Nessas horas a gente percebe o quanto somos míseros insetos diante da beleza e grandeza da Natureza e do Universo. O bosque é bem fechado. Mesmo com o sol, sua umidade penetra na gente, nos mescla com a mata e nos faz sentir a plenitude de estarmos vivos e pulsantes, sendo parte principal da vida. É uma sensação inexplicável! Nenhuma palavra, nenhuma imagem, nenhum relato traduz a subida ao Cebreiro. Só indo conferir pessoalmente e se deixar envolver por tão mágica energia.

Consegui transmitir um vídeo de lá de dentro da mata fechada, trilha acima. Muita gente critica os peregrinos que fazem o caminho conectados à internet. Eu já acho que se a pessoa se dispõe a compartilhar essa vivência através das redes sociais, pode levar inspiração e alegria a quem não tem a oportunidade de estar lá. Para mim, foi maravilhoso manter o contato com amigos que me assistiam no Brasil e pessoas de vários países que viveram comigo através da tela do computador aqueles momentos. Pessoas de vários países, como: Russia, México e até China conversaram comigo e viram online etapas maravilhosas do Caminho. Muitos me agradeceram imensamente por reviver isso. Outros me agradeceram por compartilhar essa experiência. E muitos me acompanhavam diariamente. Usei o aplicativo Periscope para fazer esses videos ao vivo e o chip da Vodafone de 1giga.
Seguindo o bosque, passei por uma placa, pintada à mão, com uma frase muito simbólica, que escreverei adiante. Depois de um banho de beleza e natureza, respirar ar puríssimo e sentir a umidade daquele bosque, chegamos a um pequeno pueblo e paramos para comer. Estava faminta! Pedi um tortilla de batatas....hummm.....estava com saudade! Ia pedir um um refrigerante, mas ao sentar-me numa mesinha ao sol, resolvi trocar por uma cerveja! Eu estava ali para me divertir! Não fui fazer o caminho por punição, nem por promessa ou por religião. Fui de peito aberto para viver, ser feliz e compartilhar isso com quem quisesse me acompanhar! Fui sozinha sim! Deixei minha família em casa sim! Tirei umas férias para mim, sim! Meu tempo, minha vida, minha identidade! E bebi por isso! E bebi por minha família que me apoiou! E bebi pelos amigos peregrinos de 2001, pelos que ficaram no Brasil e por todos que me acompanharam através da internet! É aí que entra a frase da placa que tinha visto horas antes: "La felicidad no és un destino. La felicidad és la actitúd con que se mira la vida!"

Consegui transmitir um vídeo de lá de dentro da mata fechada, trilha acima. Muita gente critica os peregrinos que fazem o caminho conectados à internet. Eu já acho que se a pessoa se dispõe a compartilhar essa vivência através das redes sociais, pode levar inspiração e alegria a quem não tem a oportunidade de estar lá. Para mim, foi maravilhoso manter o contato com amigos que me assistiam no Brasil e pessoas de vários países que viveram comigo através da tela do computador aqueles momentos. Pessoas de vários países, como: Russia, México e até China conversaram comigo e viram online etapas maravilhosas do Caminho. Muitos me agradeceram imensamente por reviver isso. Outros me agradeceram por compartilhar essa experiência. E muitos me acompanhavam diariamente. Usei o aplicativo Periscope para fazer esses videos ao vivo e o chip da Vodafone de 1giga.
Seguindo o bosque, passei por uma placa, pintada à mão, com uma frase muito simbólica, que escreverei adiante. Depois de um banho de beleza e natureza, respirar ar puríssimo e sentir a umidade daquele bosque, chegamos a um pequeno pueblo e paramos para comer. Estava faminta! Pedi um tortilla de batatas....hummm.....estava com saudade! Ia pedir um um refrigerante, mas ao sentar-me numa mesinha ao sol, resolvi trocar por uma cerveja! Eu estava ali para me divertir! Não fui fazer o caminho por punição, nem por promessa ou por religião. Fui de peito aberto para viver, ser feliz e compartilhar isso com quem quisesse me acompanhar! Fui sozinha sim! Deixei minha família em casa sim! Tirei umas férias para mim, sim! Meu tempo, minha vida, minha identidade! E bebi por isso! E bebi por minha família que me apoiou! E bebi pelos amigos peregrinos de 2001, pelos que ficaram no Brasil e por todos que me acompanharam através da internet! É aí que entra a frase da placa que tinha visto horas antes: "La felicidad no és un destino. La felicidad és la actitúd con que se mira la vida!"
Isto feito, segui meu rumo! Fui subindo e admirando a paisagem, conversando com os demais peregrinos que passavam, me emocionando por estar ali novamente e vivendo o momento! Fui no meu ritmo, curtindo tudo o que me invadia o ser: o sol, o ar fresco, o calor, as músicas que ouvia no celular, as palavras de quem passava, os "buen camino", e o verde do vale lá embaixo. Passei pela divisa de El Bierzo e Galícia. Era a última região da minha peregrinação. Terra das bruxas e do misticismo!!! A subida ao Cebreiro é algo inenarrável! Vale ir, mesmo que seja para fazer somente este trecho. Se eu morasse por lá, certamente aquele bosque seria meu parque, meu clube.
Depois de um longo dia de caminhada, a trilha foi chegando ao fim. Já pude ver um muro de pedras à minha direita, os cavalos que antes passaram por mim e por fim, a estrada que anos antes havia sido minha companheira. Enfim, o Cebreiro! Um lugar mágico! Um lugar que dizem guardar o Santo Graal. Um pueblinho medieval situado no topo da montanha. Parecia ter saído de um filme da Távola Redonda! E o passado se mesclou com o presente. Me vi de novo ali! Me vi vencendo aquela bela e dura etapa! E gritei a plenos pulmões: CHEGUEI!!!
Postagem de 2001, etapa Villafranca del Bierzo - Cebreiro:
http://www.tiencamino.com.br/2008/05/acordei-feliz-porm-com-vontade-de.html
http://www.tiencamino.com.br/2008/05/acordei-feliz-porm-com-vontade-de.html










