Chegar ao Cebreiro já é algo muito especial. Mas, naquele dia, foi ainda melhor! Por ter atravessado aquele lindo bosque, por ter meus amigos por perto, por ter trocado a estrada asfaltada (que escolhi em 2001, quando percorri o caminho pela primeira vez), por ter subido num lindo dia de sol, por voltar ao albergue ou simplesmente por estar ali.
No Cebreiro tem uma lenda de Santo Graal. Meu amigo Walter, que me entregou a primeira credencial para ir ao Caminho, a descreve neste site: http://www.caminhodesantiago.com.br/walter/lendas/cebreiro.htm
Voltando ao relato....Caminhei por aquele chão de pedras, encantada! Passei pela igrejinha, me espantei com a quantidade de comércios que abriram durante os 14 anos entre meu primeiro caminho e o segundo. Descendo uma ruazinha, avistei o albergue ao longe. Ele continuava o mesmo! Foi um ir e vir entre minhas memórias e o momento presente. Fui entrando, carimbando a credencial e a hospitaleira me mandou para o quarto. Era o mesmo! Fui pensando que seria muito legal dormir na mesma cama e para minha surpresa, no quarto já quase lotado, ela estava lá, no cantinho direito, pertinho da janela, me esperando. Fiquei muito feliz! Estava vivendo e revivendo o caminho simultaneamente.
Deixei minha mochila, peguei minhas coisas e fui para o banho, lavei minhas roupas e fui passear pela cidade, afinal, tinha lojinhas para conhecer! Encontrei meus amigos, fiz uma chamada de vídeo para minha família ( a tecnologia nessas horas é sensacional!), assisti à Missa e depois fomos em "caravana" saborear o famoso "queso con miel". É realmente dos deuses! O queijo fresco era super cremoso e combinava com o mel. E com o vinho. E com o pão. E eu nem jantei por causa disso!
Como ainda estava claro, a Thayse sugeriu que fossemos até a Cruz do Cebreiro. Eu nem sabia da existência dela. Tivemos que caminhar mais alguns minutos, subindo por uma pequena trilha. Foi um pouco penoso, porque o corpo já estava frio e relaxado após comer o queso con miel, mas eu encarei o desafio! E valeu a pena! É a mais linda vista do Caminho! Lá de cima se vê o pueblo, toda a cadeia de montanhas da qual o bosque que subimos faz parte e todo o outro lado, onde fica o Caminho que seguiríamos no dia seguinte até Triacastela. Aos que vão ao Caminho, aproveitem essa dica e não deixem de ir visitar a Cruz do Cebreiro. Ali a gente faz uma oração, deixa uma moeda e aprecia a paisagem, numa comunhão com o Universo e uma paz indescritível! A trilha começa atrás do albergue.

Depois das fotos, segui para o albergue, me preparei para dormir e fui pra cama. Olhei pela janela e desejei ter uma noite mais tranquila do que a que tive em 2001, mas alguns pensamentos me atormentavam. Eram alguns assuntos mal resolvidos que eu tinha deixado num cantinho do meu coração. Lembrei de cada atitude minha que pensei que poderia mudar quando voltasse. Um desses assuntos era sobre uma pessoa que avaliei de forma errada e tomei uma atitude infantil. Antes mesmo de chegar ao Caminho, quando eu ainda estava em Barcelona passeando pelo Parc Guell, surgiram na minha frente várias mensagens através das lindas obras de Gaudi. Uma delas dizia Salve Jorge. E tive a certeza de que eu deveria resolver esse assunto na volta ao Brasil, assim como está escrito na Oração do Cebreiro, que diz mais ou menos assim: "Ainda que eu tenha compartilhado todos os meus bens com gente de outra língua e cultura, feito amizade com peregrinos de mil trilhas ou compartilhado albergue com santos e príncipes; se não sou capaz de perdoar amanhã o meu vizinho (meu próximo), não terei chegado a lugar algum."
Aquela foi uma noite de reflexões. Muito particulares e que eu não contarei aqui. Apesar de eu ter ficado acordada por um bom tempo, ocupada com meus pensamentos, me senti segura, não tive pesadelos e consegui dormir tranquila e descansar para a jornada do dia seguinte. E o Cebreiro sempre sendo especial.
Deixo para você que está lendo meu relato este presente:
ORACIÓN DE O´CEBREIRO
Aunque hubiera recorrido todos los caminos,
cruzando montañas y valles,
desde Oriente a Occidente;
Si no he descubierto la libertad de ser yo mismo,
No he llegado a ningún sitio.
Aunque hubiera compartido todos mis bienes,
con gente de otra lengua y cultura,
hecho amistad con peregrinos de mil senderos
o compartido albergue con santos y príncipes;
Si no soy capaz de perdonar mañana a mi vecino,
No he llegado a ningún sitio.
Aunque hubiera cargado mi mochila desde principio a fin
y esperado por cada peregrino necesitado de mi ánimo;
O cedido mi cama a quien llegó después
y regalado mi botellín de agua a cambio de nada;
Si de regreso a mi casa y mi trabajo no soy capaz
de crear fraternidad y poner alegría, paz y unidad,
No he llegado a ningún sitio.
Aunque hubiera tenido agua cada día
y disfrutado de techo y ducha todas las noches,
o hubiera sido bien atendido de mis heridas;
Si no he descubierto en todo ello el amor de Dios,
No he llegado a ningún sitio.
Aunque hubiera visto todos los monumentos
y contemplado las mejores puestas de sol,
o probado el agua limpia de todas las fuentes;
Si no he descubierto quien es el autor
de tanta belleza gratuita y de tanta paz,
No he llegado a ningún sitio.
Si a partir de hoy no sigo caminando en tus caminos,
buscando y viviendo según lo aprendido;
Si a partir de hoy no veo en cada persona,
amigo y enemigo, un compañero de camino;
Si a partir de hoy no reconozco a Dios,
el Dios de Jesús de Nazaret, como el único Dios de mi vida,
No he llegado a ningún sitio.









































