REENCONTRO COM JESUS
Chegando em Villafranca, o taxi foi passando pelas ruelas estreitas da cidade. Não me recordava delas. Em minha memória havia ficado o albergue de Jesus e sua família, a recepção, a companhia que fiz a ele e ao Acacio ao voltar de Kombi até Ponferrada e a Queimada (link abaixo - Que todo sea luz). Estava cansada, mas feliz pela oportunidade de voltar ao Caminho e rever todos aqueles lugares que me fizeram mudar o modo de ver a vida. E Villafranca foi um dos lugares mais especiais do meu Caminho de 2001.
Pensei em dormir novamente no albergue Ave Fênix de Jesus Jato. Desisti, porque Isabel já tinha chegado e reservado meu lugar em outro local - Albergue do Léo. Sei que quando desistimos na última hora, eles deixam de receber por aquela cama e dificilmente conseguiriam outra pessoa para se hospedar no meu lugar. Já estava ficando tarde e a maioria dos peregrinos já tinha chegado.
Subi as escadas do albergue. Era bem novo, com calefação, cozinha, banheiros limpos e muito confortável. Ficamos em um quarto só de mulheres: Isabel, Thayse, Sonia e eu. Depois de alguns dias dormindo em quartos privativos, o albergue me vez voltar no tempo e reviver o banho no banheiro coletivo, enxugar o corpo na canga após o banho, ir ao banheiro de lanterna no meio da madrugada, acordar com o barulho dos saquinhos dos outros peregrinos...
Depois do banho, saí para passear pela cidade. Aproveitar o sol, a praça, beber uma cerveja, conversar com outros peregrinos e visitar Jesus. Ao sair do albergue, recebi uma mensagem do Artur e da Camila. Estavam na praça almoçando. Resolvi fazer companhia antes de seguir para o Albergue de Jesus. Sentei, pedi uma cerveja e comi umas fritas. Bem coisa de boteco mesmo! Artur e Camila foram descansar e se despediram dizendo que iriam dormir cedo e nos encontraríamos na manhã seguinte. Thayse chegou logo depois e juntou-se a mim. Ficamos batendo papo um tempão. Quando percebi que estava ficando tontinha, paguei a conta! Do contrário, me perderia por aquelas ruelas de Villafranca. E, de fato, foi o que aconteceu. Dei tantas voltas, subi tantas ladeiras, me peguei dando círculos, que pensei que seria melhor parar e perguntar pra que lado eu deveria seguir. E não tinha ninguém pra perguntar, nenhuma flecha amarela para eu seguir ao contrário, pois o Ave Fênix fica na entrada da cidade, nada!
Fiquei ali, tirando fotos, esperando a "alegria" passar, até que pensei em usar o celular! Ora bolas! Com tanta tecnologia e eu perdida! Fui de waze até a rua do albergue! Que coisa, não?! Cheguei tão feliz, com tantas expectativas, mas Jesus não estava. Perguntei ao rapaz que se apresentou como hospitaleiro voluntário e ele simplesmente me disse que ele não estava e ponto! Fiquei sem saber se ele voltaria e o que fazer depois disso. Sentar e esperar ou voltar pro albergue, jantar e ligar antes de subir me perdendo pelas ruelas, tudo de novo. Resolvi que iria embora. Não queria deixar de curtir aquele final de tarde.
Voltei capengando pelas ladeirinhas estreitinhas de Villafranca até a praça. Resolvi comprar pão e vinho, afinal, assim se faz o caminho. Completei com jamón, queijos e salada e desci com meu piquenique pro albergue do Léo, onde eu estava hospedada. Encontrei os brasileiros sentados diante da lareira, bebendo vinho e tocando violão. Dividi meus queijos e vinhos, fiquei um pouco ali com eles, quando meu celular tocou. Era Fatima que tinha mandado mensagem dizendo que estava com Jesus no Ave Fênix. Toca eu de novo subir aquilo tudo, alegrinha e perdidinha. E Thayse a tiracolo!
Foi tão bom encontrá-lo ali na cozinha, preparando o jantar, já dizendo para a gente ajudar a descascar as batatas, cortar pão, colocar a mesa. No início, achei que ele não tinha se lembrado de mim, nem que tinha se hospedado em minha casa no Rio, quando foram ao 1º Encontro Internacional de Peregrinos. Fui conversando com ele, contando as histórias da cura com as mãos que eu tinha feito com ele em 2001, da kombi e dos peregrinos espanhóis que tinham ido junto com ele e Acacio ao Brasil, até que ele se lembrou. Creio que não foi tudo, mas pelo menos sabia quem eu era.
Combinamos que ficaríamos para jantar. E lá estava eu! Novamente sentada naquelas mesas, confraternizando com os outros peregrinos e esperando a Queimada, que infelizmente ele não realizou. Senti que ele estava um pouco cansado de tudo aquilo. Havia passado por uma cirurgia nas pernas. As noticias que nos chegaram eram muito desanimadoras. Uns diziam que ele tinha amputado uma das pernas, outros contavam que ele tinha problemas de coração. Fato é que ele está ficando velhinho e eu fiquei muito feliz em vê-lo novamente.
Após o jantar, ele nos convidou para subirmos e conhecermos as instalações novas do albergue. As camas estavam todas forradas com proteção contra os chinches (bedbugs ou percevejos de camas), os banheiros haviam sido reformados e ele nos perguntou porque não estávamos hospedadas lá. Confesso que fiquei sem graça em não ter ficado lá, mas não pude deixar outro hospitaleiro na mão, já que tinham reservado outro lugar pra mim. Não sei se ele ficou muito contente com isso, mas entendeu que era assim mesmo que eu deveria agir, pois as pessoas costumam reservar o albergue e mudam de idéia sem avisar, deixando a cama inutilizada.
(http://www.tiencamino.com.br/2008/05/que-tudo-seja-luz-15-dia.html)






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