
Acordei feliz, porém com vontade de caminhar sozinha. Deixei que todos saíssem um pouco antes de mim. Segui caminhando, até encontrar uma bifurcação. Na saída de Villafranca, havia duas alternativas para chegar ao Cebreiro: pela trilha dos peregrinos ou pela estrada de asfalto. A trilha era mais difícil, a subida muito íngreme e também mais longa. Pela facilidade, acabei escolhendo a estrada. Arrependi-me amargamente! Era grande o fluxo de carros e caminhões. Para completar, encontrei, muito a contragosto, uma companhia para aquele dia. Era uma peregrina da África do Sul. Lembrei-me da Carla, minha grande amiga. Apesar de não sentir-me tão à vontade com ela, fomos ajudando-nos, mutuamente, durante todo o percurso. Andávamos pelo acostamento, que era minúsculo, e sempre que algum veículo passava por nós, quase éramos lançadas para fora da estrada, devido ao deslocamento de ar. Não conseguia relaxar um minuto sequer e fiquei pensando no que as pessoas pensariam se soubessem do risco que eu estava correndo naquela hora. Imaginei minha família recebendo a notícia da minha morte numa estrada da Espanha! A notícia estampada nos jornais sensacionalistas do Brasil: “Peregrina brasileira atropelada no Caminho de Santiago de Compostela”. Graças a Santiago, nada disso aconteceu!
Após longas horas enfrentando a ventania provocada pelos carros na estrada, encontramos um bar em Trabadelo. Que felicidade! Senti saudade do Chico! Lembrei do nosso ‘projeto’ de escrever o livro “No Caminho de Santiago de bar em bar.” Claro que isso não passava de uma grande piada, mas era nosso jeito particular de rir da preguiça que tomava conta de nós. Depois dele, não encontrei outro companheiro para os cafés-com-leite. Enfim, tinha que seguir e o jeito era dar-me a chance de fazer novos amigos. Paramos um pouco, até que avistamos outros peregrinos chegando. Todos, sem exceção, reclamavam da estrada. A vontade era unânime: pedir carona ao primeiro que passasse. Estava triste, furiosa e estressada, o que me rendeu uma bela dor de cabeça. Pensei até em dormir em algum albergue antes de chegar ao Cebreiro, mas lembrei que minha mochila já tinha ido de carro (Jesus Jato leva as mochilas dos peregrinos, para que possam enfrentar a subida sem peso nas costas) e não teria roupas, tampouco saco de dormir. Não tive escolha. Era subir ou subir! Lembrei das palavras do Acácio:
— “Para alcançar a sabedoria, você experimentará muita dor e tempestade! Crescer é difícil”.
Depois de enrolarmos um bocado no bar, talvez adiando o confronto com a temida subida ao Cebreiro, juntamos os cacos e seguimos. Afinal, para chegar em Santiago, era preciso vencer um dia após o outro, um desafio de cada vez!
A paisagem do Caminho começou a mudar desde então. Saímos da estrada e entramos em um vale lindo, cheio de árvores e bichos. Vaquinhas gordinhas, cavalos lindos e pássaros que cantavam o tempo todo. Por um momento, esqueci da subida que estava por vir. De repente, havia outra bifurcação. Esta separava o Caminho dos peregrinos e dos ciclistas. Novamente a escolha: a trilha ou a estrada. Resolvi contrariar tudo e todos e fui por onde vão os ciclistas. Era uma ótima chance de ficar sozinha na assustadora subida ao Cebreiro. No início, senti um alívio grande em não dividir com ninguém aquele momento. Logo depois, uma angústia igual a que experimentei no primeiro dia de Caminho se repetiu. Olhei para os lados e não vi viva alma. Não ouvi um barulhinho sequer! Aquilo me apavorou de tal forma, que comecei a perder as forças. Parei e comecei a chorar. Foi um choro longo, intenso. E então vi que, por mais que gostasse de estar sozinha, ainda sentia medo da solidão, porque ela me colocou frente a frente comigo mesma e era insuportável admitir que não era perfeita. Essa reflexão me fez ver que eu sempre fugi dos meus problemas, tentando resolver os dos outros. Senti como se estivesse saindo de um casulo. Foi ali que descobri quem eu realmente era, minha verdadeira essência, minhas preferências, medos, amores e dissabores. De uma hora para outra, senti-me pronta para enfrentar a subida. Parecia que tudo ao meu redor havia se transformado. Comecei a perceber o céu, o ar puro e a paisagem maravilhosa que tinha deixado passar desapercebida até então. Quando cheguei ao Cebreiro, parei diante daquele imenso vale e gritei como uma louca. Eram gritos de raiva, de dever cumprido, de satisfação e de alegria. Sentimentos que não conseguia entender direito, mas tinha uma única certeza: a felicidade de ser livre! Quebrei a casca e estava pronta para enfrentar a vida de frente!
Naquela noite no Cebreiro, tive muitos pesadelos e acordei várias vezes. Numa delas, resolvi dar uma olhada pela janela e o que vi foi assustador! As árvores balançando com o forte vento, chuva de gelo e vultos por toda a parte. Havia também um barulho ensurdecedor, que teimava em deixar meus ouvidos em paz. Vários rostos se formavam diante de mim. Resolvi fechar os olhos e dizer a mim mesma que tudo não passava de uma bobagem da minha cabeça. Concentrei-me na energia divina e, ao abrir os olhos, vi que a noite estava linda, com o céu estrelado, exatamente como o significado da palavra Compostela: um grande campo de estrelas. Preparei um café, saí, fumei meu cigarro e fiquei curtindo a solidão, que já não me amedrontava. Aliás, nada mais me incomodava, nem mesmo o fato de estar frio pra chuchu ali fora.
Amanheceu com muito frio e chuva. Em outra ocasião isso seria uma tragédia, mas meu espírito estava mais calmo, mais sereno e foi um dia maravilhoso! Só lamentei não ter visto a Galícia lá de cima e sentir-me dona do mundo de novo, como em El Acebo, porque as nuvens estavam encobrindo tudo. Quando a chuva apertou, ficou difícil caminhar. Os pingos chegavam a doer quando batiam em meu rosto, o vento forte desequilibrava-me o tempo todo e a visibilidade era quase nula. Já sentia na pele, literalmente, o clima louco da Galícia. Andei sozinha por muito tempo, até que ouvi vozes. Era um casal de peregrinos. Vinham batendo papo e rindo. Despertaram-me da fase ermitã que eu estava vivendo. Ambos eram espanhóis. A mulher chamava-se Gema e o homem, Gabriel. Juntei-me aos dois e entrei na conversa. Foi bom! Pude rever os conceitos de amizade e dependência outra vez mais.
Foram muitas horas de Caminho, sem nenhum lugar para descansar. O jeito foi segurar a vontade de ir ao banheiro e seguir. Já na descida, paramos para comer em um pueblo simpático, na metade da etapa até Triacastela. Foi uma boa idéia. Matamos a fome, mas a preguiça que sempre batia depois do almoço, foi fatal. Minha vontade era de ficar por ali até o final dos tempos. Depois de tanto comer e beber vinho, já não tinha mais vontade de andar. Acho que os espanhóis estão certíssimos em dar uma paradinha após o almoço! E viva a siesta!
Difícil mesmo foi reunir forças para levantar daquela mesa e continuar andando! Em frente e avante, seguimos nossos Caminhos! Gabriel seguia calado, enquanto eu conversava com a Gema. Falamos sobre ficarmos em silêncio em alguns momentos da vida. Ela tinha dificuldades em escutar a sua intuição e a si própria. Achei que devia contar-lhe o que aprendi:
— “Às vezes, precisamos parar de fazer tudo e prestar atenção ao que está a nossa volta. Devido à correria da vida, muitas vezes isso se torna quase que impossível. Por isso, é tão difícil estar conectado a essa grande energia que nos rodeia e, por isso, deixamos escapar alguns sentimentos e pessoas, que seriam de grande importância para nós. Quantas vezes paramos para prestar atenção ao simples fato de escovar os dentes? Quase nunca! Nessa hora, já estamos pensando no que será servido para o café da manhã. Na hora de comer, já estamos preocupados com o trânsito que nos espera. E assim, nunca vivemos os momentos em sua plenitude! Estamos sempre pensando no que está por vir. Muitas vezes, deixei de ouvir a minha consciência, pelo medo de enfrentar os obstáculos, sinal de insegurança e dependência, por isso, é mais fácil resolver a vida alheia.”
Olhou-me espantada.
— “Você está me dizendo que sou insegura?” - disse-me com certa indignação.
— “Sim! Exatamente como eu!” - respondi.
Acho que a deixei um pouco chateada, mas já não era mais um problema meu. Tinha muita coisa dentro de mim para consertar.
Quando vimos, já estávamos chegando em Triacastela. Como sempre, a primeira coisa que se faz ao chegar em um albergue é encostar a mochila ao lado de alguma cama e tomar um bom banho. Em alguns albergues do Caminho, como foi o caso desse, não existem torneiras. Para a água sair, temos que apertar um botão com uma das mãos. É ridículo, pois chega uma hora em que não sabemos se nos ensaboamos ou se apertamos o botão! Uma mão aqui e outra ali, o sabão caindo nos olhos e, quando tentamos nos enxaguar, a água pára até que, de olhos fechados, achemos o tal botão. Acho que fizeram assim de propósito! Para agradecermos a Deus o fato de termos as duas mãos! Talvez devesse mudar de opinião e mudar o nome do livro que escreveria com meu amigo Chico: “De bar em bar” para: “Manual prático de como tomar banho com uma só mão no Caminho de Santiago”!
Depois do regenerador banho de uma mão só, fomos comer. Resolvi ligar para casa e reparei que meu pai insistia em saber detalhes de onde eu estava. Quando dei minha direção, ele descreveu tudo o que havia perto de Triacastela. Quando o indaguei de onde ele tinha tirado tantas informações, disse-me que estava com um mapa da Espanha nas mãos. Engraçado como são as coisas, ele estava fazendo o Caminho junto comigo! E logo o meu pai, que sempre jurou não acreditar nessas coisas “místicas”!
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