Ainda era noite em Astorga, quando acordamos e começamos aquele movimento típico dos peregrinos: guardar o saco de dormir e as roupas limpas, lavar o rosto, escovar os dentes, esperar a vez de ir ao banheiro, cuidar dos pés, calçar as botas, pegar cajado, café da manhã e colocar os pés na estrada. Meu café com leite, acompanhado de uma madalena foi em homenagem ao amigo Chico, que me acompanhou nos primeiros passos de 2001. Lembrei muito dele naquele momento. Impossível não comparar minhas duas peregrinações, mas eu faria um esforço. Cada caminho é único e pessoal. O meu caminho de um ano não será igual ao outro. Meu caminho não será igual ao seu, mesmo que façamos juntos!
Nosso grupo havia combinado o encontro em Astorga para seguirmos até o local onde Denise Thiem desapareceu. Ali faríamos nossas orações e seguiríamos o caminho que ela não pode completar. Conforme fui caminhando, senti que não queria chegar perto daquele local. Não era a minha missão ali. Decidi que continuaria meu caminho até Rabanal, com meus sentimentos, minhas orações e homenagens particulares. Rezaria não só por ela, mas também por minha família e amigos.
E lá fui eu, cantando e dançando, curtindo meu caminho. Parei para um lanche, conversei com outros peregrinos e me distanciei do grupo. Me peguei sozinha durante vários momentos do dia. Em outros, estava na trilha numa fila indiana em meio a outros peregrinos. Todos muito reservados em seus mundos particulares. Eu mesma estava mergulhada em minha músicas e fotografando tudo! A praticidade de ter uma câmera no celular ajudava muito, mas também atrapalhava. Eu o usei para fazer muitos vídeos ao vivo. Queria dividir o Caminho com o mundo. Em alguns vídeos, conversei com gente da Rússia e México. Muitos seguidores me acompanharam diariamente. Achei muito interessante dividir com as pessoas, em tempo real, a minha peregrinação.
Já no final do percurso, reencontrei Artur e Camilla e chegamos juntos em Rabanal. Escolhemos dividir um quarto privativo do albergue, pois estava muito frio e queríamos descansar com mais privacidade. O dia seguinte seria puxado, pois a previsão era de muita chuva e frio. Tomamos banho e ficamos conversando na mesa do bar. Pedi um vinho e fomos puxando papo com umas moças do Rio. Conversa vai, conversa vem, descobrimos que uma delas era amiga da Fabiana Passos, nossa super companheira de Caminho do Sol. Mais uma vez o Caminho juntando os bons amigos.
Rabanal é um pueblo muito interessante. Em 2001 era um lugar calmo, sem muitas opções de restaurantes ou albergue. Se não me falha a memória, havia o albergue Gaucelmo e mais um. Lembrava bastante da igrejinha de pedra, pequena e com os bancos de madeira. E ali, assisti à uma linda Missa, com canto gregoriano. Me emocionei por estar ali novamente e poder reviver aquele sentimento de paz interior e felicidade plena. Pensei muito na minha família, no meu marido e, principalmente nos meus filhos. Queria que eles estivessem ali comigo e pudessem vivenciar e conhecer aquele lugar fantástico.
Depois fui jantar com o grupo de brasileiros. Me contaram aos risos que todos se perderam e não chegaram à Castrillo de los Polvazares (lugar onde Denise teria ido no dia de seu desaparecimento). Inclusive, o José que fora de taxi embora, pediu que o motorista desviasse para poder chegar ao povoado e, mesmo com GPS, eles não chegaram. Tudo parecia conspirar para que não fossemos até lá. As orações para Denise Thiem tinha sido em Santa Catalina.
Após o jantar, seguimos para o albergue. Estava um clima perfeito para descansar. O barulhinho da chuva, um friozinho gostoso e o meu saco de dormir. E assim foi meu primeiro dia no Caminho...




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