Ainda era noite quando acordamos com o barulho dos saquinhos plásticos que os peregrinos levam para guardar as roupas sujas. Ai, como eu queria dormir até meio-dia! O único incentivo para sair da cama era o delicioso cheirinho de café vindo da cozinha. Foi o primeiro albergue que nos ofereceu café da manhã. É claro que não desperdicei nem um pouquinho! O maior desafio para mim era deixar aquela mesa, mas tinha que sair e continuar meu Caminho. Fazer o quê?
Éramos quatro caminhando perto um do outro: Chico, Enrique, Björn e eu. Fui ficando um pouco para trás, pois as dores no joelho estavam voltando. Acho que com o frio ficavam piores. Fiquei poupando meu corpo e mandei que seguissem. O Enrique vinha logo depois de mim. Não demorou muito para que ele me alcançasse e continuássemos juntos por um tempo, conversando sobre as nossas dificuldades. De repente, deparamo-nos com uma bifurcação. Uma seta apontava para a direita e outra para a esquerda. Pelo jeito, qualquer uma delas, nos levaria à próxima cidade: Los Arcos. Eu teria seguido minha intuição e ido pela direita, mas surgiu um camponês, dizendo-nos que o certo era irmos pelo lado esquerdo. O Enrique parou para descansar e eu fui em frente, na direção apontada pelo camponês.
A fonte de Irache, onde podemos beber vinho à vontade, era um dos momentos mais aguardados por mim. Ficava logo na saída de Ayegui, um pueblo situado a 2 km de Estella. Estava doida para beber naquela fonte desde que comecei a pesquisar sobre o Caminho. Estranhei ao ver que já havia avançado mais de duas horas e nunca chegava lá. Passei por lugares de mata bem fechada, estradas de terra com muita lama e poucas setas, acompanhada de uma forte chuva. Não achava nunca a tal fonte, só terra e muito barro. Sabia que poderia estar perdida, mas já não tinha medo. Pensei comigo mesma que, o máximo que poderia acontecer se eu estivesse realmente perdida, era andar um pouco mais e, em algum momento, eu chegaria à uma cidade qualquer. Se esta cidade estava no roteiro do Caminho ou não, era irrelevante. No pior das hipóteses, eu gastaria um dinheiro extra com um táxi. Enfim, já não vestia mais a máscara fantasiosa de heroína e começava a ser uma pessoa normal novamente, simples e com os pés no chão.
Éramos quatro caminhando perto um do outro: Chico, Enrique, Björn e eu. Fui ficando um pouco para trás, pois as dores no joelho estavam voltando. Acho que com o frio ficavam piores. Fiquei poupando meu corpo e mandei que seguissem. O Enrique vinha logo depois de mim. Não demorou muito para que ele me alcançasse e continuássemos juntos por um tempo, conversando sobre as nossas dificuldades. De repente, deparamo-nos com uma bifurcação. Uma seta apontava para a direita e outra para a esquerda. Pelo jeito, qualquer uma delas, nos levaria à próxima cidade: Los Arcos. Eu teria seguido minha intuição e ido pela direita, mas surgiu um camponês, dizendo-nos que o certo era irmos pelo lado esquerdo. O Enrique parou para descansar e eu fui em frente, na direção apontada pelo camponês.
A fonte de Irache, onde podemos beber vinho à vontade, era um dos momentos mais aguardados por mim. Ficava logo na saída de Ayegui, um pueblo situado a 2 km de Estella. Estava doida para beber naquela fonte desde que comecei a pesquisar sobre o Caminho. Estranhei ao ver que já havia avançado mais de duas horas e nunca chegava lá. Passei por lugares de mata bem fechada, estradas de terra com muita lama e poucas setas, acompanhada de uma forte chuva. Não achava nunca a tal fonte, só terra e muito barro. Sabia que poderia estar perdida, mas já não tinha medo. Pensei comigo mesma que, o máximo que poderia acontecer se eu estivesse realmente perdida, era andar um pouco mais e, em algum momento, eu chegaria à uma cidade qualquer. Se esta cidade estava no roteiro do Caminho ou não, era irrelevante. No pior das hipóteses, eu gastaria um dinheiro extra com um táxi. Enfim, já não vestia mais a máscara fantasiosa de heroína e começava a ser uma pessoa normal novamente, simples e com os pés no chão.

Novamente passei por todas as estações do ano em um mesmo dia. Peguei sol, chuva, frio, vento, calor... A natureza pareceu ter percebido que estava sendo dura demais comigo e presenteou-me com um belo arco-íris. Eu o vi ao longe, no horizonte, colorindo o céu acinzentado. Lembrei-me das histórias que ouvia quando criança, onde no final de cada arco-íris havia um pote cheio de ouro! Aquela visão trouxe de volta toda uma pureza de sentimentos que deixei para trás junto com minha infância.

Àquela altura eu já sabia que estava perdida e segui então rumo ao tesouro no final do arco-íris. E ele não me enganou! Seguindo naquela direção, encontrei um pueblo. Parei para comer umas bananas e descansar em frente à igreja. Neste momento, ouvi alguém me chamar. Era o meu amigo Chico acompanhado de Björn. Os dois vinham felizes e acenando com garrafinhas cheias de vinho. Não acreditei! Onde estava a famosa fonte? Passei e não vi? E como foi que eles chegaram depois de mim, se eu estava bem atrás deles? Constatei que havia ido pela trilha errada. Puxa vida! Já havia me perdido no dia anterior, mas nem havia ficado chateada, mas deixar de provar aquele vinho... Me deu vontade de caminhar tudo de volta! Que pena! Talvez eu não estivesse preparada para beber...
Fiquei uns quinze minutos reclamando de tudo aquilo e os dois rindo de mim. Foi engraçado! Logo depois, chegou Enrique perguntando pela fonte. Acabei rindo também! Achei que tivesse sido a única perdida do dia, mas ele também havia seguido o mesmo trajeto maluco que eu. Estávamos confusos com o que tinha nos acontecido. Porque não encontramos a famosa fonte de Irache? Porque nos foi “tirado” o prazer de degustar o vinho que revigora os peregrinos? No meu caso, acabei entendendo que precisava enfrentar uma trilha sozinha, com todas as dificuldades que um peregrino poderia encontrar, tais como: chuva forte, os pés pesados, conseqüência do chão de terra molhada; e o mais temível de todos: a solidão. Descobri ainda, que eu havia seguido por uma variante do Caminho, por isso não encontrei a tal fonte de Irache. Por sorte, nossos amigos eram generosos e dividiram conosco o vinho.
Dali, continuei sozinha. Só encontrei o Chico já na entrada de Villamayor de Monjardin, metade da etapa prevista para aquele dia. Ainda teríamos três horas de um longo percurso sem infra-estrutura, ou seja: nada de fontes de água ou bares. Para esquecer a fome, comecei a cantar e dançar. O Chico ria muito de mim, mas depois entrou na minha onda. Mais a frente, juntamo-nos ao Björn que nos olhava com espanto, pois não entendia nada do que cantávamos. Ainda assim, arriscou umas notas de “Amor i love you...” Foi engraçado ouvir aquele alemão cantando, ou tentando, cantar Marisa Monte. E lá fomos nós, cantando e dançando no meio do nada.
Só havia a estrada de terra e uma imensa plantação de trigo ao nosso redor. O sol nos queimava com toda sua força e o vento era forte. Tão forte que quase me carregava. Isso fez com que eu forçasse mais ainda meu joelho. Tentei me desligar da dor, imaginando as pessoas na idade média atravessando aquele campo, com aquelas roupas pesadas, enfrentando o frio e o calor. De repente, senti uma energia diferente em mim. Eu me sentia como um guerreiro. Senti meu corpo altivo, forte, meus cabelos voando com o vento. Minhas roupas eram duras como uma armadura e ouvia o galopar dos cavalos ao meu lado. Uma voz me dizia para continuar:
“Tenha coragem, tudo ficará bem, na Santa paz de Deus, nosso pai. Você é um guerreiro e conseguirá vencer o medo e o Caminho.”
Era uma voz feminina. Olhei para os lados assustada para ver de onde ela vinha. Para minha surpresa, não havia ninguém. Tentei, em vão, conseguir uma explicação plausível para o que estava acontecendo. Quando parei de julgar o que acontecia comigo, comecei a sentir de verdade aquela energia que todos falavam sobre o Caminho. Não havia a barreira do tempo, era como se meu corpo e minha alma estivessem mesclados com alguma energia do passado. Talvez, a energia de alguém que fui em uma outra vida. O que sei, é que tudo aquilo me deu forças para continuar sem dores e com muito amor e felicidade no coração. Sem perceber, tinha atravessado a estrada, deixado Chico e Björn para trás e já estava em Los Arcos.
Continuei em frente, andando pelas estreitas ruas da cidade, meio fora do ar, sem saber direito o que fazer ou para onde seguir. Eis que surgiu, como havia acontecido anteriormente, “saltando” aos meus olhos, uma seta amarela. Ao lado dela, havia uma placa que dizia: Albergue de Los Arcos – massagem para peregrinos. Era tudo o que eu mais desejava ler naquela hora! Que reconfortante saber que a poucos metros dali, encontraria o merecido descanso e ainda por cima uma massagem!
Fiquei uns quinze minutos reclamando de tudo aquilo e os dois rindo de mim. Foi engraçado! Logo depois, chegou Enrique perguntando pela fonte. Acabei rindo também! Achei que tivesse sido a única perdida do dia, mas ele também havia seguido o mesmo trajeto maluco que eu. Estávamos confusos com o que tinha nos acontecido. Porque não encontramos a famosa fonte de Irache? Porque nos foi “tirado” o prazer de degustar o vinho que revigora os peregrinos? No meu caso, acabei entendendo que precisava enfrentar uma trilha sozinha, com todas as dificuldades que um peregrino poderia encontrar, tais como: chuva forte, os pés pesados, conseqüência do chão de terra molhada; e o mais temível de todos: a solidão. Descobri ainda, que eu havia seguido por uma variante do Caminho, por isso não encontrei a tal fonte de Irache. Por sorte, nossos amigos eram generosos e dividiram conosco o vinho.
Dali, continuei sozinha. Só encontrei o Chico já na entrada de Villamayor de Monjardin, metade da etapa prevista para aquele dia. Ainda teríamos três horas de um longo percurso sem infra-estrutura, ou seja: nada de fontes de água ou bares. Para esquecer a fome, comecei a cantar e dançar. O Chico ria muito de mim, mas depois entrou na minha onda. Mais a frente, juntamo-nos ao Björn que nos olhava com espanto, pois não entendia nada do que cantávamos. Ainda assim, arriscou umas notas de “Amor i love you...” Foi engraçado ouvir aquele alemão cantando, ou tentando, cantar Marisa Monte. E lá fomos nós, cantando e dançando no meio do nada.
Só havia a estrada de terra e uma imensa plantação de trigo ao nosso redor. O sol nos queimava com toda sua força e o vento era forte. Tão forte que quase me carregava. Isso fez com que eu forçasse mais ainda meu joelho. Tentei me desligar da dor, imaginando as pessoas na idade média atravessando aquele campo, com aquelas roupas pesadas, enfrentando o frio e o calor. De repente, senti uma energia diferente em mim. Eu me sentia como um guerreiro. Senti meu corpo altivo, forte, meus cabelos voando com o vento. Minhas roupas eram duras como uma armadura e ouvia o galopar dos cavalos ao meu lado. Uma voz me dizia para continuar:
“Tenha coragem, tudo ficará bem, na Santa paz de Deus, nosso pai. Você é um guerreiro e conseguirá vencer o medo e o Caminho.”
Era uma voz feminina. Olhei para os lados assustada para ver de onde ela vinha. Para minha surpresa, não havia ninguém. Tentei, em vão, conseguir uma explicação plausível para o que estava acontecendo. Quando parei de julgar o que acontecia comigo, comecei a sentir de verdade aquela energia que todos falavam sobre o Caminho. Não havia a barreira do tempo, era como se meu corpo e minha alma estivessem mesclados com alguma energia do passado. Talvez, a energia de alguém que fui em uma outra vida. O que sei, é que tudo aquilo me deu forças para continuar sem dores e com muito amor e felicidade no coração. Sem perceber, tinha atravessado a estrada, deixado Chico e Björn para trás e já estava em Los Arcos.
Continuei em frente, andando pelas estreitas ruas da cidade, meio fora do ar, sem saber direito o que fazer ou para onde seguir. Eis que surgiu, como havia acontecido anteriormente, “saltando” aos meus olhos, uma seta amarela. Ao lado dela, havia uma placa que dizia: Albergue de Los Arcos – massagem para peregrinos. Era tudo o que eu mais desejava ler naquela hora! Que reconfortante saber que a poucos metros dali, encontraria o merecido descanso e ainda por cima uma massagem!

Ao virar uma esquina, dei de cara com a linda Catedral de Los Arcos e pertinho dali, o albergue. Cheguei chorando muito e em frangalhos. Acho que se eu tivesse que dar mais um passo, cairia dura no chão. Um casal de holandeses fazia as honras da casa. Muito alegres e falantes. Receberam-me com todo o carinho do mundo e fizeram massagem no meu joelho. Ah, a maravilhosa massagem! Ofereceram-me ainda, hospedagem por uns dias, até que meu joelho melhorasse. Gostavam muito de brasileiros e disseram-me que o Calixto havia dormido lá no dia anterior. Fiquei feliz em saber que meu amigo estava conseguindo vencer. Toda vez que tinha notícias dele era um incentivo a mais para que eu não desistisse.
Limpei meus tênis e os coloquei para “dormir” ao lado de vários pares de bota. Era o único par de tênis do albergue. Deu uma saudade danada das minhas botas! Enquanto estava mergulhada em meus pensamentos, em meus amigos, Chico e Björn chegaram. Eu já tinha reservado duas camas, bem perto da minha para os dois. Contei ao Chico as notícias de Calixto e também, que estava com uma idéia louca na cabeça: resolvi que, no dia seguinte, pularia uma parte de ônibus. Meus joelhos estavam inchados e eu temia não chegar a tempo em Santiago se parasse por uns dias. Sua reação foi de total espanto! Não entendeu o motivo de tudo aquilo, mas respeitou minha decisão.
Foi uma decisão difícil, porque eu estaria matando o verdadeiro espírito peregrino ao embarcar em um ônibus e isso era imperdoável! Seria também uma grande oportunidade de aprender a não julgar-me com tanto rigor. Era importante que eu quebrasse as regras, assim deixaria de ser tão exigente comigo mesma! A vida toda sofri porque achava que tinha que salvar o mundo ou corrigir as pessoas. Que presunção a minha! Quem eu pensava que era para julgar ou dizer para os outros o que era certo ou errado? E quem foi que disse que pular um pedaço do Caminho de ônibus era pecado? Regras, regras e regras! Estava de saco cheio de tudo aquilo! Era hora de sair um pouco do convencional, do certinho. E seria duríssimo para mim, aceitar conscientemente, sem arrependimento e sem culpas, não seguir as “regras”. Novamente estava me colocando diante da situação conflitante de ser ou não heroína e isso seria decisivo para minha vida.
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