Não demorou muito até que Chico e Calixto aparecessem para o café. Chico e eu combinamos desayunar[1] tranquilamente adiando, talvez, a hora do confronto. Calixto resolveu partir na frente, pois queria começar o Caminho sozinho. Antes, deixou-me seu maço de cigarros, dizendo que dali para frente não fumaria mais. Mesmo assim, resolvi guardá-lo em minha mochila, caso houvesse uma recaída da parte dele. Despediu-se de nós e caiu na estrada.
Depois de muito enrolar naquela mesa de café da manhã, Chico e eu tomamos coragem, ajustamos nossas mochilas e partimos. Minhas previsões estavam certas, realmente fomos presenteados com um dia de muito sol e com isso a paisagem mostrava-se bem mais bonita que no dia anterior. Passamos por cavalo branco “estacionado” em frente à outra pousada. Parecia o cavalo de um príncipe! Achei que pertencia a um homem do povoado, mas depois descobri que era de um peregrino. Ele estava fazendo o Caminho com seu cavalo, que já era bem velho, e essa talvez fosse a última viagem do fiel animal. Sem dúvida, uma despedida especial.
Ovelhinhas no pasto, árvores cheias de galhos secos e a névoa do amanhecer me faziam lembrar do filme “As brumas de Avalon”. Por um momento esqueci de que estava ali para caminhar e enfrentar uma etapa difícil, com longos trechos e subidas fortes. Fomos avançando floresta adentro, respirando o ar puro e gelado das montanhas Navarras. Eu estava acostumada com o clima tropical do Rio de Janeiro e aquele ar gelado fazia arder minhas narinas. Apesar de bem agasalhada, ao respirar, meu corpo todo parecia congelar e o frio corroía os ossos. Mesmo assim, estava feliz! Caminhamos por entre árvores enormes, que jogavam sobre nós suas folhas secas, tal qual uma chuva de confetes, como se estivessem nos saudando por estar entre elas.
Íamos encontrando, ao longo do Caminho, pequenas cercas que dividiam as fazendas da região. Lembrei da minha infância, quando ia com meus pais visitar meus avós na fazenda. A todo momento, tínhamos que descer do carro e abrir as porteiras da estradinha de terra para chegar em sua casa. Foi meu primeiro momento de nostalgia! Ao passar por uma delas, vi que muitos peregrinos haviam cravado seus nomes na madeira. Eram tantos rabiscos, alguns mais recentes, outros mais apagados, que não vi problema em acrescentar mais uma assinatura! Não poderia deixar de colocar minha marca! Era a forma de dizer para meus avós que lembrei dos dois. E de onde eles estivessem, no “Céu”, na “Terra do Verão”, no “Paraíso”, ou em outra “Dimensão”, estariam compartilhando aquelas memórias comigo.
Caminhamos até Zubiri. Fiquei fascinada com os pueblos que íamos passando. Já os tínhamos visto, quando fomos de táxi para Roncesvalles, mas entrar em um pueblo antigo foi uma experiência incrível! Caminhando, podíamos ver todos os detalhes, falar com as pessoas, sentir o perfume das flores e absorver a energia do lugar. O presente misturava-se ao passado. Nós representávamos o presente. Buscávamos a renovação da alma, no mesmo chão que os Celtas, os Templários, Carlos Magno e os seguidores de Santiago Apóstolo um dia pisaram. E isso era mágico!
O primeiro pueblo por onde passamos, chamava-se Burguete. Foi o mais bonito que vi naquele dia. Suas ruas eram estreitas e suas calçadas, pequeninas. Mal dava para andar com minha enorme mochila. Tudo muito organizado e limpo. Ao passar pela igreja local, encontramos dois peregrinos lanchando: Harrison e Paco. Um brasileiro e um Mexicano. Acenamos para eles, conversamos um pouco e fomos adiante. O segundo pueblo chamava-se Espinal. Não era tão bonito como o primeiro, mas também tinha seu encanto. Fizemos então, nossa primeira parada em um bar. Tive uma vontade enorme de beber um refrigerante e fumar um cigarro. Pelo visto o Caminho não resolveria vício, e eu ainda não percebia que a solução estava dentro de mim mesma. O Chico ficou no seu café com leite. Toda vez que parávamos era assim: eu e meus vícios e Chico e seus cafés com leite. Até brinquei com ele que deveríamos escrever um livro chamado “Guia do Caminho de Santiago de bar em bar”. Seria engraçado!
Para dar mais credibilidade ao “futuro livro”, teríamos que parar em todos os bares do Caminho. Foi exatamente o que fizemos no pueblo seguinte, Viscarret. Paramos em um bar e matamos a fome com um bocadillo[2]. Foi uma longa parada. Até então, não imaginávamos que as paradas deveriam ser breves, para que nossos músculos não esfriassem. Ao levantar da cadeira, quase caí. As pernas estavam bambas e doloridas. Não aguentava mais caminhar! E ainda nem tínhamos chegado na metade da etapa prevista para aquele dia. O pouco que andamos, pareceu-me uma eternidade. Foi a primeira vez que me perguntei o motivo de estar ali. Estava experimentando o mesmo sofrimento dos peregrinos que vi na TV, mas ainda não havia encontrado a minha fé, por isso o Caminho não era tão mágico quanto eu esperava. Queria a fantasia e o que encontrei foi uma grande dose de esforço físico, dores e o peso da mochila em minhas costas. Nada que justificasse ter atravessado o oceano. Espantei os maus pensamentos e segui buscando a magia.
Voltando para o campo, uma música nos fez parar. Olhamos em volta e não víamos ninguém. De onde viria a música? Seria um ermitão, um peregrino? Que instrumento teria aquele som tão gostoso? Acabamos descobrindo mais à frente. Eram apenas indefesas ovelhinhas no pasto, com sininhos no pescoço para afugentar os lobos. Já estávamos imaginando poder ser um homem, descrente na vida e desiludido no amor que havia abandonando sua casa e família e havia se isolado na floresta, tocando seu instrumento, símbolo de seu lamento; ou talvez, um ser de outra dimensão, um elfo ou uma fada. Não era nada disso! Tão simples! Nós é que buscávamos o lado encantado em tudo.
Um pouco antes da subida ao Alto de Erro, minha dor no dedão voltou (a mesma que senti no treinamento no Rio). Não acreditei que meu sonho estava ameaçado! Logo no primeiro dia? Fiquei arrependida de não ter investido em outra bota, mas já era tarde. Eu estava no Caminho e teria que resolver o problema de qualquer maneira e continuar a jornada. Felizmente, tive a louca ideia de colocar um protetor de calo no local da dor. Deu certo! É claro que ainda doía muito, mas dava para suportar. Logo depois, tive que enfrentar uma forte subida. Achei que não aguentaria chegar até Larrasoaña. Tirei forças não sei de onde, não sei como, mas o resultado foi que consegui enfrentar os obstáculos daquele dia. Experimentei pela primeira vez a tal fé inabalável que um dia inspirou-me a buscar aquela aventura. Essa era a verdadeira mágica do Caminho!
Quando chegamos ao Alto do Erro, encontramos uma casa abandonada. Era da época medieval. Defronte a casa, havia uma espécie de platô, de onde se via toda a cadeia de montanhas por onde passa o Caminho. Na falta de bares, tivemos que abrir uma exceção e descansar em um lugar alternativo. Paramos ali mesmo e deitados na grama e comemos o que restou dos lanches anteriores. De repente, o Chico ficou paralisado e gritou de dor. Marinheiro de primeira viagem, teve sua primeira câimbra. Por sorte eu estava ali para socorrê-lo!
Estiquei sua perna e depois massageei com uma pomada relaxante. Ficamos deitados ali durante muito tempo, olhando para o céu, calados, mergulhados em nossos pensamentos. Fiquei viajando, olhando as nuvens encobrindo o céu azul, imaginando mil formas para elas. Ficamos tanto tempo ali que não sentimos as horas passarem. Os músculos esfriaram e, consequentemente, senti novamente a dor no dedão do pé. Nesses momentos de dor e cansaço, vinha-me novamente a “famosa pergunta que não queria calar”: o que eu estava fazendo ali? Ainda era o primeiro dia. Seria assim durante todos os outros?
Um súbito mau humor tomou conta de mim. Àquela altura do campeonato, eu já não aguentava mais ouvir o Chico que vinha sempre andando devagar. Era um grande companheiro, uma pessoa maravilhosa. Raro encontrar amigo tão fiel quanto ele! Só que eu queria chegar, andar rápido e acabar com aquele tormento em que havia se transformado aquele dia. E o Chico foi vítima da minha impaciência. Apertei o passo, forçando-o a acompanhar-me. Para piorar, o tempo foi fechando, nuvens carregadas surgiram no céu e, a chuva, que antes era só uma ameaça, começou a cair sobre nós com toda força. A minha inexperiência com a capa de chuva fez com que eu ficasse totalmente ensopada e aí mesmo é que eu queria descarregar todo meu mau humor no primeiro que cruzasse minha frente. Imaginem quem foi...
Avançamos calados por um bom tempo. Já havíamos andado na chuva, no barro, subindo, descendo e nem sinal de Zubiri, muito menos de Larrasoaña. Ouvimos vozes de crianças ao longe e, de repente, as dores, o mau humor e as dificuldades sumiram. Que alegria! Ouvir as crianças ao longe nos dava a certeza de que estávamos, enfim, chegando a algum lugar habitado. O Chico fez uma observação feliz: se as crianças estavam ali para nos recepcionar, era sinal de boa sorte. E ele estava certo! Elas nos viram, vieram ao nosso encontro e nos acompanharam até o albergue.
Zubiri não era exatamente o lugar que eu sonhava para passar minha segunda noite, mas estava muito cansada para continuar e a chuva continuava com força total. Resolvemos ficar. O prédio onde estava o refúgio ficava junto à uma escola. Dentro, havia uns beliches velhos e bem sujos, uma mesa enorme e alguns objetos deixados por outros peregrinos. O banheiro ficava do lado de fora do quarto e não tinha cortina nos boxes. A água quente seria ligada naquela hora. Um verdadeiro pesadelo! Nos meus sonhos tudo era tão bonito e fácil... A única coisa boa foi que só estávamos eu e o Chico. Teríamos um pouco mais privacidade para tomar um longo banho quente e lavar as roupas. Depois disso, era alongar um pouco o corpo e cama! Mas, e a fome? "Ah não! Levantar e andar 1 km até o restaurante?"
Foi a única solução...
Cheguei no restaurante pedindo um "franguito". O garçom não me entendeu, eu repeti "franquito" e ele nada! Gesticulei, imitei uma galinha, mas ele não me entendeu. Foi aí que lembrei que tinha levado um dicionário. Lá se foi um mico! Frango na Espanha é Pollo. A gente pensa que espanhol se parece com português e passa essas vergonhas! Depois, ficamos conversando sobre as pessoas do Caminho e do meu mau humor. Dei boas risadas com o Chico me zoando. Aproveitei para pedir desculpas. E ficamos ali, rindo de nós mesmos lembrando que estávamos sozinhos naquele albergue (distante 1 km dali, diga-se de passagem!), porque éramos os mais lentos de todos os peregrinos.
Saímos do restaurante e voltamos para o albergue quase rastejando. Passos de formiguinha! Acho que demoramos mais tempo para ir do restaurante ao albergue, do que de Roncesvalles até Zubiri! O peso da mochila ainda parecia estar nas minhas costas. Os músculos teimavam em obedecer ao meu cérebro. No final das contas, apesar de moída, era a pessoa mais feliz do mundo!
Depois de muito enrolar naquela mesa de café da manhã, Chico e eu tomamos coragem, ajustamos nossas mochilas e partimos. Minhas previsões estavam certas, realmente fomos presenteados com um dia de muito sol e com isso a paisagem mostrava-se bem mais bonita que no dia anterior. Passamos por cavalo branco “estacionado” em frente à outra pousada. Parecia o cavalo de um príncipe! Achei que pertencia a um homem do povoado, mas depois descobri que era de um peregrino. Ele estava fazendo o Caminho com seu cavalo, que já era bem velho, e essa talvez fosse a última viagem do fiel animal. Sem dúvida, uma despedida especial.
Ovelhinhas no pasto, árvores cheias de galhos secos e a névoa do amanhecer me faziam lembrar do filme “As brumas de Avalon”. Por um momento esqueci de que estava ali para caminhar e enfrentar uma etapa difícil, com longos trechos e subidas fortes. Fomos avançando floresta adentro, respirando o ar puro e gelado das montanhas Navarras. Eu estava acostumada com o clima tropical do Rio de Janeiro e aquele ar gelado fazia arder minhas narinas. Apesar de bem agasalhada, ao respirar, meu corpo todo parecia congelar e o frio corroía os ossos. Mesmo assim, estava feliz! Caminhamos por entre árvores enormes, que jogavam sobre nós suas folhas secas, tal qual uma chuva de confetes, como se estivessem nos saudando por estar entre elas.
Íamos encontrando, ao longo do Caminho, pequenas cercas que dividiam as fazendas da região. Lembrei da minha infância, quando ia com meus pais visitar meus avós na fazenda. A todo momento, tínhamos que descer do carro e abrir as porteiras da estradinha de terra para chegar em sua casa. Foi meu primeiro momento de nostalgia! Ao passar por uma delas, vi que muitos peregrinos haviam cravado seus nomes na madeira. Eram tantos rabiscos, alguns mais recentes, outros mais apagados, que não vi problema em acrescentar mais uma assinatura! Não poderia deixar de colocar minha marca! Era a forma de dizer para meus avós que lembrei dos dois. E de onde eles estivessem, no “Céu”, na “Terra do Verão”, no “Paraíso”, ou em outra “Dimensão”, estariam compartilhando aquelas memórias comigo.
Caminhamos até Zubiri. Fiquei fascinada com os pueblos que íamos passando. Já os tínhamos visto, quando fomos de táxi para Roncesvalles, mas entrar em um pueblo antigo foi uma experiência incrível! Caminhando, podíamos ver todos os detalhes, falar com as pessoas, sentir o perfume das flores e absorver a energia do lugar. O presente misturava-se ao passado. Nós representávamos o presente. Buscávamos a renovação da alma, no mesmo chão que os Celtas, os Templários, Carlos Magno e os seguidores de Santiago Apóstolo um dia pisaram. E isso era mágico!
O primeiro pueblo por onde passamos, chamava-se Burguete. Foi o mais bonito que vi naquele dia. Suas ruas eram estreitas e suas calçadas, pequeninas. Mal dava para andar com minha enorme mochila. Tudo muito organizado e limpo. Ao passar pela igreja local, encontramos dois peregrinos lanchando: Harrison e Paco. Um brasileiro e um Mexicano. Acenamos para eles, conversamos um pouco e fomos adiante. O segundo pueblo chamava-se Espinal. Não era tão bonito como o primeiro, mas também tinha seu encanto. Fizemos então, nossa primeira parada em um bar. Tive uma vontade enorme de beber um refrigerante e fumar um cigarro. Pelo visto o Caminho não resolveria vício, e eu ainda não percebia que a solução estava dentro de mim mesma. O Chico ficou no seu café com leite. Toda vez que parávamos era assim: eu e meus vícios e Chico e seus cafés com leite. Até brinquei com ele que deveríamos escrever um livro chamado “Guia do Caminho de Santiago de bar em bar”. Seria engraçado!
Para dar mais credibilidade ao “futuro livro”, teríamos que parar em todos os bares do Caminho. Foi exatamente o que fizemos no pueblo seguinte, Viscarret. Paramos em um bar e matamos a fome com um bocadillo[2]. Foi uma longa parada. Até então, não imaginávamos que as paradas deveriam ser breves, para que nossos músculos não esfriassem. Ao levantar da cadeira, quase caí. As pernas estavam bambas e doloridas. Não aguentava mais caminhar! E ainda nem tínhamos chegado na metade da etapa prevista para aquele dia. O pouco que andamos, pareceu-me uma eternidade. Foi a primeira vez que me perguntei o motivo de estar ali. Estava experimentando o mesmo sofrimento dos peregrinos que vi na TV, mas ainda não havia encontrado a minha fé, por isso o Caminho não era tão mágico quanto eu esperava. Queria a fantasia e o que encontrei foi uma grande dose de esforço físico, dores e o peso da mochila em minhas costas. Nada que justificasse ter atravessado o oceano. Espantei os maus pensamentos e segui buscando a magia.
Voltando para o campo, uma música nos fez parar. Olhamos em volta e não víamos ninguém. De onde viria a música? Seria um ermitão, um peregrino? Que instrumento teria aquele som tão gostoso? Acabamos descobrindo mais à frente. Eram apenas indefesas ovelhinhas no pasto, com sininhos no pescoço para afugentar os lobos. Já estávamos imaginando poder ser um homem, descrente na vida e desiludido no amor que havia abandonando sua casa e família e havia se isolado na floresta, tocando seu instrumento, símbolo de seu lamento; ou talvez, um ser de outra dimensão, um elfo ou uma fada. Não era nada disso! Tão simples! Nós é que buscávamos o lado encantado em tudo.
Um pouco antes da subida ao Alto de Erro, minha dor no dedão voltou (a mesma que senti no treinamento no Rio). Não acreditei que meu sonho estava ameaçado! Logo no primeiro dia? Fiquei arrependida de não ter investido em outra bota, mas já era tarde. Eu estava no Caminho e teria que resolver o problema de qualquer maneira e continuar a jornada. Felizmente, tive a louca ideia de colocar um protetor de calo no local da dor. Deu certo! É claro que ainda doía muito, mas dava para suportar. Logo depois, tive que enfrentar uma forte subida. Achei que não aguentaria chegar até Larrasoaña. Tirei forças não sei de onde, não sei como, mas o resultado foi que consegui enfrentar os obstáculos daquele dia. Experimentei pela primeira vez a tal fé inabalável que um dia inspirou-me a buscar aquela aventura. Essa era a verdadeira mágica do Caminho!
Quando chegamos ao Alto do Erro, encontramos uma casa abandonada. Era da época medieval. Defronte a casa, havia uma espécie de platô, de onde se via toda a cadeia de montanhas por onde passa o Caminho. Na falta de bares, tivemos que abrir uma exceção e descansar em um lugar alternativo. Paramos ali mesmo e deitados na grama e comemos o que restou dos lanches anteriores. De repente, o Chico ficou paralisado e gritou de dor. Marinheiro de primeira viagem, teve sua primeira câimbra. Por sorte eu estava ali para socorrê-lo!
Estiquei sua perna e depois massageei com uma pomada relaxante. Ficamos deitados ali durante muito tempo, olhando para o céu, calados, mergulhados em nossos pensamentos. Fiquei viajando, olhando as nuvens encobrindo o céu azul, imaginando mil formas para elas. Ficamos tanto tempo ali que não sentimos as horas passarem. Os músculos esfriaram e, consequentemente, senti novamente a dor no dedão do pé. Nesses momentos de dor e cansaço, vinha-me novamente a “famosa pergunta que não queria calar”: o que eu estava fazendo ali? Ainda era o primeiro dia. Seria assim durante todos os outros?
Um súbito mau humor tomou conta de mim. Àquela altura do campeonato, eu já não aguentava mais ouvir o Chico que vinha sempre andando devagar. Era um grande companheiro, uma pessoa maravilhosa. Raro encontrar amigo tão fiel quanto ele! Só que eu queria chegar, andar rápido e acabar com aquele tormento em que havia se transformado aquele dia. E o Chico foi vítima da minha impaciência. Apertei o passo, forçando-o a acompanhar-me. Para piorar, o tempo foi fechando, nuvens carregadas surgiram no céu e, a chuva, que antes era só uma ameaça, começou a cair sobre nós com toda força. A minha inexperiência com a capa de chuva fez com que eu ficasse totalmente ensopada e aí mesmo é que eu queria descarregar todo meu mau humor no primeiro que cruzasse minha frente. Imaginem quem foi...
Avançamos calados por um bom tempo. Já havíamos andado na chuva, no barro, subindo, descendo e nem sinal de Zubiri, muito menos de Larrasoaña. Ouvimos vozes de crianças ao longe e, de repente, as dores, o mau humor e as dificuldades sumiram. Que alegria! Ouvir as crianças ao longe nos dava a certeza de que estávamos, enfim, chegando a algum lugar habitado. O Chico fez uma observação feliz: se as crianças estavam ali para nos recepcionar, era sinal de boa sorte. E ele estava certo! Elas nos viram, vieram ao nosso encontro e nos acompanharam até o albergue.
Zubiri não era exatamente o lugar que eu sonhava para passar minha segunda noite, mas estava muito cansada para continuar e a chuva continuava com força total. Resolvemos ficar. O prédio onde estava o refúgio ficava junto à uma escola. Dentro, havia uns beliches velhos e bem sujos, uma mesa enorme e alguns objetos deixados por outros peregrinos. O banheiro ficava do lado de fora do quarto e não tinha cortina nos boxes. A água quente seria ligada naquela hora. Um verdadeiro pesadelo! Nos meus sonhos tudo era tão bonito e fácil... A única coisa boa foi que só estávamos eu e o Chico. Teríamos um pouco mais privacidade para tomar um longo banho quente e lavar as roupas. Depois disso, era alongar um pouco o corpo e cama! Mas, e a fome? "Ah não! Levantar e andar 1 km até o restaurante?"
Foi a única solução...
Cheguei no restaurante pedindo um "franguito". O garçom não me entendeu, eu repeti "franquito" e ele nada! Gesticulei, imitei uma galinha, mas ele não me entendeu. Foi aí que lembrei que tinha levado um dicionário. Lá se foi um mico! Frango na Espanha é Pollo. A gente pensa que espanhol se parece com português e passa essas vergonhas! Depois, ficamos conversando sobre as pessoas do Caminho e do meu mau humor. Dei boas risadas com o Chico me zoando. Aproveitei para pedir desculpas. E ficamos ali, rindo de nós mesmos lembrando que estávamos sozinhos naquele albergue (distante 1 km dali, diga-se de passagem!), porque éramos os mais lentos de todos os peregrinos.
Saímos do restaurante e voltamos para o albergue quase rastejando. Passos de formiguinha! Acho que demoramos mais tempo para ir do restaurante ao albergue, do que de Roncesvalles até Zubiri! O peso da mochila ainda parecia estar nas minhas costas. Os músculos teimavam em obedecer ao meu cérebro. No final das contas, apesar de moída, era a pessoa mais feliz do mundo!
[1] Desayuno – café da manhã. Desayunar – tomar café da manhã.[2] Bocadillo – sanduíche.
EU E MINHA CAPA DE CHUVA NA ENTRADA DE ZUBIRI

MEU GRANDE AMIGO E COMPANHEIRO CHICO E EU.
Um comentário:
Descompromissados com o tempo.Que tempo?Ele é real?
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