segunda-feira, 28 de abril de 2008

Poucos km, muito tempo - o segundo dia.

A chuva nos esperava impacientemente naquele dia. Não sei o que foi pior: chuva no primeiro dia, para irmos nos acostumando, finíssima, preparada para nos dar um banho daqueles! Visibilidade zero! Temperatura, a meu ver, também! Antes de sair do albergue, deixei algumas coisas de lado, pois , ou no dia seguinte, com os músculos doendo e cansados pra chuchu! Ela estava lá, imponente minha mochila estava muita pesada. Imagem vocês que a louca aqui levou ao Caminho um guia que tinha ganhado de presente! Pois é, ainda bem que tinha discernimento para escolher o que era dispensável logo no segundo dia! Além do guia, ficaram também, o xampu, o creme hidratante e um moletom. Depois do pequeno desapego era hora de seguir em frente.

Chico e eu, os “lanterninhas solitários do Caminho”, paramos em uma padaria maravilhosa (para variar!!!) e tomei um dos cafés da manhã mais saborosos de toda a minha vida! Café com leite acompanhado de um croissant generosamente recheado de chocolate. Um não! Dois, porque eu não sou boba!!! Assim, devidamente alimentados, voltamos para nossa “rotina”. À medida que íamos caminhando, víamos o quanto seria mesmo impossível ter seguido até Larrasoaña na tarde anterior. Demos graças a Deus por termos dormido em Zubiri! Com a chuva, a dificuldade aumentava. Meus pés afundavam na lama, escorregavam a toda hora. Ainda tinha que equilibrar o corpo para não rolar uma ribanceira e cair dentro do rio. E havia também o “põe e tira capa de chuva” constantemente. Seria um passeio maravilhoso sem dúvida, e sem chuva, é claro!


Quando chegamos a Larrasoaña...bar aberto...parada na certa!!! O senhor que nos atendeu conversou muito conosco sobre o Brasil. Disse-nos ser Zangalo, primo de uma “cantante brasileira de Bahia”. Nada mais, nada menos que Ivete Sangalo (Aí Ivete: tens um primo no Caminho e aposto que você não sabia! Ou sabia?). Dessa vez não era o famoso Paulo Coelho o assunto da conversa. O homem era tão gentil e amoroso, que perdemos a noção do tempo (o que já era comum para nós) e ficamos enrolando, curtindo a preguiça.


Seguindo em frente, minutos depois, lembrei-me das rodovias de São Paulo, ao deparar com uma imensa área de descanso na beira da estrada. Algumas mesinhas e cadeiras, churrasqueira e até banheiro! Perfeito! A única diferença é que, aparentemente, na Espanha é seguro parar ali, já no Brasil... Vi alguns motoristas chegando com seus lanches e parando para comer. O café da manhã já estava fazendo efeito e deu-me uma dor de barriga daquelas! Não sou muito fã dos banheiros públicos, mas tive que apelar. Fiz todo aquele ritual: forrar bem o vaso com papel higiênico, sentar-me confortavelmente, acender um cigarrinho (que ajuda bastante!!!) e se tivesse um gibi, teria sido perfeito. Na falta de algo interessante para ler, concentrei-me nas mensagens deixadas na porta do banheiro e acabei encontrando uma assinatura do Calixto. Comecei a gritar como uma louca lá de dentro. O Chico foi correndo, apavorado, achando que eu estava em apuros. E eu, sentada no “trono”, dizia para o Chico:
- “Caramba, você não imagina o que eu estou vendo aqui dentro! Estou diante da assinatura do Calixto!
Coisa mais doida para se fazer em um lugar tão místico... Sentar-se na privada e ficar de conversa fiada com uma pessoa do lado de fora do banheiro, sobre a simples assinatura de um outro peregrino. Era intimidade demais para poucos dias de convivência. Só faltava abrir a porta para que ele entrasse e visse os rabiscos com os próprios olhos, enquanto eu fazia um “descarrego”. Como diz uma amiga minha: “A intimidade é um caminho sem volta”! Voltando à assinatura: fiquei feliz em saber que Calixto estava bem. Ele havia sofrido uma cirurgia nos dois joelhos, pouco antes de ir ao Caminho. Ainda devia estar em fase de recuperação. Achei que ele estava cometendo uma loucura, mas cada um sabe de si. Não podia julgá-lo, mesmo porque, eu também não estava em plena forma física, era fumante e estava lá no Caminho firme e forte.

Ponte na entrada de Trinidad de Arre

Quando chegamos à Trinidad de Arre, uma extensão da cidade de Pamplona (aquela do aeroporto cheio de executivos onde desembarcamos), não resistimos aos apelos daquele simpático albergue junto à ponte. Resolvemos bater na porta e entrar para dar uma olhadinha. Um padre apareceu e nos disse que o albergue ainda estava fechado, só abriria em 15 minutos. Esperamos um pouco ali por perto e voltamos. O mesmo padre nos recebeu. Perguntou de onde tínhamos vindo e ao responder que havíamos passado a noite anterior em Zubiri, (que ficava a apenas 16km dali) deu boas risadas e até nos chamou de preguiçosos! Disfarçamos um pouco, dizendo que íamos só descansar um pouquinho, mas acho que o padre não acreditou na gente. O conforto do albergue não nos deixou dúvidas, era tudo muito acolhedor e super equipado! Máquina disso, máquina daquilo, água quente à vontade...
...Altamente tentador! Resolvemos ficar, é claro! Voltamos para a recepção e o padre riu de novo, já desconfiando que iríamos pedir para ficar. Que vexame! Pelo andar da carruagem, levaríamos mais de um ano para chegar a Santiago.


Mais uma vez estávamos a sós. Conseguimos lavar as roupas cheias de barro, descansar, tomar chá, café, salgadinhos, curtir um banho bem quente e demorado, com direito a canções debaixo do chuveiro; tudo sem sair do albergue. Para completar a noite de regalias, resolvemos jantar dignamente em um restaurante. Exageramos um pouco na comida. A fartura era tanta que voltei para o albergue em “slow motion”. O peso da mochila era fichinha! O Chico deu muitas risadas quando eu disse que havia trocado a mochila pela “panchete”, mistura de pança com pochete. Estava feliz em ter encontrado um amigo especial como ele! Estávamos compartilhando tudo: os medos, a companhia, a alegria, os sonhos e a esperança.


Ficamos sentados na sala de estar, conversando sobre os dois dias de Caminho, o que buscávamos e os motivos que nos levaram a estar ali. Foi quando parei para ler as mensagens no caderno do albergue (quase todos os albergues têm um livro de mensagens). Gosto muito de ler essas coisas! Em casa, costumo ler cartas antigas de amigos e elas me fazem viajar no tempo e, em muitas vezes, enxergar melhor a vida. Esse caderno me fez ver que aquele sofrimento não era só meu e, apesar de toda e qualquer dificuldade, estar no Caminho era um grande prazer. Cada um que passava por ali contava o seu dia, seus sentimentos, deixava um alô para os amigos do mesmo país, desenhavam algo ou agradeciam a Deus e a Santiago por tudo.
Neste mesmo caderno li uma mensagem que dizia: “Não podemos evitar a dor, mas podemos ter uma atitude diferente perante ela.” É verdade! Podemos deixar que ela nos derrube ou simplesmente podemos ignorá-la e seguir adiante. E a vida é assim mesmo. Os problemas sempre estarão presentes, só nos resta mudar a maneira de encará-los. Para mim, era importantíssimo refletir sobre essa questão, pois sou a rainha da ansiedade. Meus problemas ficam muito maiores do que realmente são e acabo sendo a pessoa mais chata do mundo. Meu amigo Chico que o diga...


Depois da leitura, fomos dormir. Foi uma noite agradável e de muitos sonhos. Os pesadelos haviam me deixado em paz. Já não existia mais medo e sentia-me segura ao lado do Chico.
Trinidad de Arre

3 comentários:

Nina disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Anônimo disse...

Firme aí, Ti, que estamos lendo todos os relatos daqui.
Obrigado,
Abraços,
Artur

Vanira disse...

Que bom que aproveitaram tudo por onde passaram!