quarta-feira, 30 de abril de 2008

Rumo ao Perdão - 4º dia

Por ter dormido muito mal, com medo dos ratos e dos roncos, acabei levantando cedo. Estava escuro e eu ainda tinha que pegar minhas roupas no varal, em um anexo do albergue. O Chico falou-me para esperar a hospitaleira acordar, pois ouvira dizer que havia um cachorro enorme naquele terreno. Mais uma vez, dominei meu medo e fui em busca de minhas roupas. Voltei carregando-as como se fossem troféus. E até hoje não sei se havia mesmo um cachorro ou se novamente meu amigo havia delirado.


AMANHECER EM CIZUR

Para meu desespero, a etapa seria mais difícil do que eu pensava. Além da forte subida ao Alto do Perdão, seriam 15 km sem fonte de água ou lugares para comer. E pelo amanhecer, o sol nos acompanharia o dia inteiro. Enchi meu cantil, tomei coragem e segui. Quase todos saíram ao mesmo tempo e caminhamos uma boa parte em grupo. Depois de alguns quilômetros, separei-me do Chico. Eu andava bem mais rápido que ele e pedi licença para seguir meu ritmo. E também queria testar a minha mais nova aquisição: meu CD player. Eu achava que era a peregrina mais “high tech” do Caminho, por estar usando um aparelhinho de som dos mais modernos, até que ouvi o toque de um celular. Pareceu-me tão fora de contexto! Imagina só: você fazendo o Caminho de Santiago, uma rota milenar, super mística e religiosa; um lugar para refletir, ver e analisar e, de repente, você acorda de seus pensamentos com aquela musiquinha chata que todo celular tem! Caminhando ao seu lado, uma pessoa atende com a maior naturalidade:
— “Estou aqui em Cizur...É Cizur, logo saindo de Pamplona...O que eu estou fazendo aqui?...Não cara!...É que estou caminhando...é...fazendo o Caminho de Santiago...isso mesmo!...Ah, você não sabe o que é isso? Não, não é no Chile! É um Caminho na Espanha que leva ao túmulo do Apóstolo Tiago...Não sabe? Deixa pra lá...Olha, resolve esse negócio aí, vê se eles fazem um desconto...você sabe...dá uma pechinchada e seja duro!...Daqui a algumas horas eu chego em uma cidade maior e te ligo de um hotel...”
Loucura, não? E que mal então meu toca CD’s poderia fazer? Pelo menos no meu caso, as pessoas não seriam incomodadas com algum barulho esquisito. Minto! Às vezes, eu me empolgava com as músicas que ouvia e soltava a voz...

SUBIDA AO ALTO DO PERDÃO - AO FUNDO CIZUR

A subida era forte, mas não tão íngreme como imaginei. Atravessei facilmente os pueblos em direção o monumento do Alto do Perdão. Ao chegar, parei por mais ou menos meia hora. Foi a primeira vez que chorei de emoção. Fiquei olhando o quanto havia caminhado para chegar até ali e tive a sensação da vitória, do dever cumprido. O Alto do Perdão é uma das partes mais famosas do Caminho. Existem fotos desse monumento em todos os guias do Caminho de Santiago. São vários peregrinos e seus animais de carga, esculpidos em ferro, no alto de uma montanha. De longe, parecem verdadeiros. E eu estava lá!!! Não era uma foto em um livro, era eu mesma!!! O que sentia era indescritível. Um momento único em minha vida.


ALTO DO PERDÃO

Depois de algum tempo curtindo a solidão, vi surgir meu amigo Chico. Estava emocionado também. Tiramos fotos e contamos nossas experiências daquelas horas que ficamos separados. Como ele sabia muito sobre cada parte do Caminho, explicou-me que aquele lugar era onde deveríamos pedir perdão, perdoar-se e perdoar. Deixaríamos todas as pendências para trás. Foi o que fiz. Ainda hoje, sinto dificuldade em perdoar-me, e cada vez que tenho que fazê-lo, penso naquele momento e aí, tudo fica mais fácil.


A descida foi a pior parte!!! Haviam muitas pedras soltas e um tombo era quase certo, se não tomássemos muito cuidado. Chico foi maravilhoso comigo. Apesar de sua dificuldade em descer a ladeira com todas as dores que sentia, emprestou-me seu cajado e acompanhou-me por todo o percurso. Em uma das cercas que passamos, encontramos, mais uma vez, uma marca deixada por nosso amigo Calixto, dizendo-nos para ter força e fé. Mais uma vez, lá estava ele! Sempre preocupado em nos deixar uma mensagem positiva!


Já na parte plana, paramos em mais um bar. Rimos bastante daquela nossa maneira particular de fazer o Caminho: “de bar em bar”. Sentamos um pouco do lado de fora, para sentir o calor do sol em nossos rostos. Era um dia maravilhoso de primavera e podíamos ver as flores desabrochando. Não havia uma nuvenzinha sequer no céu. Bebemos nossos refrigerantes e cafezinhos, fumei meu cigarro (eu e meu vício! Conseguiria largá-lo?) e seguimos juntos por um longo tempo. Passamos por um casal que apelidamos de “casal feiúra”. Cada vez que encontrava com eles, não podia olhar diretamente em seus olhos, que logo vinha uma vontade enorme de rir. E volta e meia, o casal passava por nós e acenava. Eu parava de andar, sentava-me no chão e dava gargalhadas! Nenhum dos dois podia imaginar o quanto era de mau gosto a nossa brincadeira. Estávamos julgando duas pessoas sem ao menos conhecê-las. No fundo, ao olhar para eles, de certa forma, eu os invejava. Senti falta de um companheiro que dividisse comigo aqueles momentos maravilhosos que eu estava vivendo. E afinal de contas, o que é a beleza? O embrulho não é a parte mais importante de um presente, por exemplo. Às vezes, até nos confunde um pouco, disfarçando um conteúdo não muito interessante. Os conceitos variam de pessoa para pessoa e acho que o mais importante é o que cada um tem de especial dentro de si. E logo eu, que muitas vezes na vida fiquei chateada porque as pessoas só olhavam o que eu tinha por fora; estava rindo de uma coisa supérflua, que é essa beleza imposta pela sociedade em que vivemos. Que dádiva de Deus eles estarem fazendo o Caminho juntos! Que presente poderem contar com o amor, o respeito, a amizade e o companheirismo um do outro!


Em Murazabal, aborreci-me com o Chico. Eu queria continuar e ele queria parar de novo. Eu comprei umas bananas e comi de pé mesmo, para não deixar o corpo esfriar. Ele queria ficar ali mais um pouco e disse-me que daquele jeito eu não completaria o Caminho, meu joelho iria estourar, etc... Aí quem estourou fui eu!
— “Você quer ficar? Então, tá! Eu vou seguir em frente, não estou com vontade de parar mais uma vez! Dane-se se meus joelhos não agüentarem! Eu sou forte e vou chegar até Santiago, mesmo que seja de muletas!” — gritei, sob o olhar espantado dos demais peregrinos.
Virei as costas e saí mancando, com um cigarro na boca, mas a cabeça erguida. A cena foi hilária! Quem visse saberia que o Chico tinha toda razão do mundo em alertar-me! Mas eu era cabeça dura e não queria dar o braço a torcer. Não era por ele, mas por mim! Eu não admitia perder! Por isso fui do jeito que deu. Logo depois a dor voltou e chorei muito, mas não deixei de dar um passo sequer. Por um lado foi bom, pois havia chegado a hora da separação. Aconteceria mais cedo ou mais tarde. Eu e o Chico tínhamos Caminhos diferentes pela frente! Tentar seguir juntos seria um erro fatal e eu não estava disposta a perder um grande amigo.


Segui caminhando, aos trancos e barrancos e passei como um cometa pela pequena cidade de Óbanos. Vi ao longe, a Ermita de Santa Maria de Eunate, cenário de uma importante e bonita história do Caminho. Diz a lenda que, Felícia e seu irmão Guillén, filhos de reis franceses; fizeram a peregrinação à Compostela. Ao voltarem, Felícia resolveu ficar trabalhando no Caminho como uma mera serviçal. Seu irmão continuou viagem até a corte e foi severamente advertido por seus pais, que ainda o obrigaram a buscá-la. Sua missão não foi bem sucedida, porque Felícia estava disposta a continuar seu trabalho, que já era reconhecido pelo povo local e considerado trabalho santo. No meio da discussão entre os dois, Guillén foi invadido por um sentimento de raiva incontrolável e golpeou a irmã com uma adaga, ocasionando sua morte. Arrependido, voltou a fazer o Caminho e na volta decidiu dar continuidade ao trabalho de Felícia. Ainda guardou o túmulo de sua irmã até os últimos momentos de sua vida. Tornou-se santo e seu crânio está guardado em um relicário de prata e só é retirado de lá, durante uma festa anual, onde o povo de Óbanos representa a lenda. Durante esta festa, o padre local oferece vinho aos peregrinos, não sem antes derramá-lo no crânio santo para consagrá-lo. Segundo a crença, este vinho tinha o poder de curar doenças. Eunate foi erguida no século XII pelos Templários, seguindo o desenho do templo de Jerusalém.

Se as condições físicas fossem diferentes, optaria por caminhar os dois km para visitá-la. O problema era que, para ir até lá, eu demoraria mais de uma hora caminhando e meus joelhos não agüentariam. A dor era insuportável. Eu mal conseguia caminhar. Novamente tirei forças não sei de onde e cheguei em Puente la Reina. Esta cidade é o ponto de encontro dos Caminhos Aragonês, que se inicia em Somport, e o Francês (o mais tradicional e o que eu estava percorrendo). O albergue estava fechado e havia uma reunião de peregrinos na porta decidindo o que fazer. Eu não estava disposta a pagar um hotel e não tinha condições de ir até a próxima cidade. Resolvi ficar e esperar para ver o que iria acontecer. Alguns diziam que o albergue abriria, outros, que haveria quartos extras em um hotel perto dali a preços populares. Fiquei descansando em meu colchonete até que as coisas se resolvessem. Um tempo depois, apareceu meu amigo Chico, acompanhado de um espanhol muito simpático chamado Enrique. Aproveitei para desculpar-me por ter sido tão mal educada com ele. Contei-lhes o que se passava e os dois resolveram seguir para uma pousada. Convidaram-me para seguir com eles, mas preferi esperar com os outros peregrinos. Foi uma tortura! Odeio esperar! Parece que cada minuto é uma eternidade. Comecei a ficar inquieta e voltou aquela sensação ruim de medo. Eu olhava para aquelas pessoas à minha volta e vinha à minha cabeça os mais loucos pensamentos. Quem eram aquelas pessoas? Será que eu podia confiar nelas? E que raios eu estava fazendo ali? Podia estar no Brasil dando uma voltinha no meu carro novo, fazendo algum teste para um comercial, dormindo na minha cama, saindo com os amigos, sei lá! O que me agoniava era a sensação de solidão, mesmo estando acompanhada. Resolvi levantar e sair um pouco. Ficar ali esperando, definitivamente não era a melhor solução.

PUENTE LA REINA

Dei uma volta pela cidade para comprar um cajado e antiinflamatórios. No início, julguei ser desnecessário caminhar com um cajado, mas logo vieram as dores e percebi que sem ele não poderia prosseguir. Alguns peregrinos compram o seu cajado em lojas, ou então, de artesãos que os vendem nos povoados por onde passamos; outros, procuram o cajado no próprio Caminho, aproveitando galhos secos que estão no chão. Não entendia muito bem o porquê de tanta fantasia em torno de um simples pedaço de madeira, mas ao entrar em uma lojinha, demorei mais de meia hora para escolher o meu. O vendedor mostrou-me inúmeros cajados, de diversas formas e tamanhos, mas nunca achava algum que tivesse a minha cara (“cara de pau” – brincadeirinha...). Quando já estava quase desistindo e seguindo rumo à uma outra loja, vi um cajado pendurado no canto da vitrine. Pensei comigo mesma “Lá está ele, meu companheiro, meu porto seguro! Passei por ele e não o vi! Que distração a minha!” Precisei perder um tempo enorme procurando-o, enquanto ele estava mais perto do que eu imaginava! Era ele! Com ele, nada me impediria!!! Chegaria até Santiago!!! Comecei a tomar gosto pelo meu sonho. Visualizei cada etapa, cada pedacinho, cada obstáculo a vencer.


Fomos juntos, eu e meu cajado, à farmácia comprar o antiinflamatório. Já estava pronta para seguir, sem medo até Santiago! Voltei mais estimulada para o albergue e encontrei um verdadeiro “acampamento” na porta. Os peregrinos foram chegando e abrindo suas mochilas ali mesmo. Juntei-me a eles, fiz massagem no joelho e esperei até às 19:00h, quando, enfim, liberaram um quarto extra no hotel ao lado. Era a certeza de que o albergue não abriria suas portas naquele dia. Apesar de improvisado, foi um ótimo lugar para pernoitar, com todo o conforto que um hotel pode oferecer. Tínhamos banho super quente, banheiros individuais e camas boas e limpas.


Fui para o restaurante jantar. Um brasileiro, Odair, fez-me companhia. Na mesa ao lado estava o “Trio Cometa” e mais um peregrino alemão: Björn. Não sei explicar, mas senti uma energia boa entre nós dois. Tentamos conversar um pouco, mas havia a dificuldade do idioma. Nenhum de nós falava muito bem inglês e, em algumas vezes, tivemos que apelar para a mímica. Quando acabei de jantar, chegou um pedaço enorme de pudim. Eu já não tinha mais espaço em meu estômago e deixei-o de lado. Percebi que Björn não desgrudava os olhos da minha sobremesa. Resolvi oferecê-la a ele. Ficou um pouco constrangido, mas depois aceitou o pudim e o devorou em questão de segundos. Rimos bastante de tudo aquilo, pois eu fiquei com receio de parecer mal educada em oferecer e ele ficou sem graça em aceitar o polêmico pudim. No final das contas, tudo se resolveu e ficamos muito amigos a partir daquele momento. Foi engraçado, parecia que eu já o conhecia há muito tempo!

2 comentários:

Anônimo disse...

Oi, Tilara.
Muito bom o seu blog. Está até me fazendo mudar de idéia e voltar a caminhar de novo desde Roncesvalles ou SJPP. É que eu estou fazendo o Caminho por partes, como os meus pés permitem. No ano passado fui até Santo Domingo de la Calçada e pretendo voltar em setembro próximo para continuar a partir de lá. Mas vc está fazendo eu ter muitas saudades do começo do Caminho e estou começando a pensar em começar de novo.
Tenho certeza que esse seu blog vai virar um livro, está ótimo.
Parabéns.
Carlos - Sorocaba

Anônimo disse...

Oi Tilara, to amando seu blog, todo dia quero ler o que vc escreve.
Estou fazendo o caminho da fé por partes (minha primeira experiência como peregrina) e já vi que vai ser difícil parar. E como ainda pretendo um dia fazer o Caminho de Santiago, estou saboreando o que vc relata e sonhando um dia passar também.
Como vi que vc pesquisou bastante antes de ir, poderia me indicar os melhores livros.
Obrigada por dividir essa maravilhosa experiência que teve.
Bjos
Sônia - Garça/sp