sexta-feira, 25 de abril de 2008

PONTO DE PARTIDA

Dormi como um anjo no vôo até Pamplona. Não havia ninguém ao meu lado para deixar a mão boba escorregar por entre minhas pernas. Estava tão cansada que nem percebi o avião aterrissar. Pegamos nossas mochilas e fomos para o ponto de táxi. Estava um dia maravilhoso! Muito sol e um friozinho delicioso. Como eu adoro dias frios ensolarados! Perfeito!


Tivemos que esperar bastante por um táxi em uma fila enorme. Foi uma estranha sensação. Senti-me na ponte aérea Rio – São Paulo. Os homens de terno e gravata e suas malas de James Bond, as mulheres arrumadíssimas em seus saltos “agulha” e todos, sem exceção, muito apressados! E nós três, Chico, Calixto e eu, de mochila nas costas, cara amassada, remela nos olhos e totalmente tranqüilos. Eu, particularmente, já tinha adotado a idéia de abandonar a vaidade. Já tinha passado a vida inteira me preocupando com a aparência e, a partir do momento em que embarquei para o Caminho, levei essa história muito a sério, a ponto de desembarcar com os cabelos em pé e assustar quem estava à minha volta. Enfim, destoávamos das pessoas. Todos nos olhavam espantados, como se fôssemos seres de outro planeta. E aos olhos deles, deveríamos ser mesmo! Fazer o quê? Não tínhamos horários para cumprir ou problemas para serem resolvidos. Nosso negócio era pensar na vida!


O táxi passou por alguns povoados (em espanhol: pueblos) do Caminho. No dia seguinte, atravessaríamos aquelas ruas. Fiquei calada quase toda a viagem, imaginando cada cantinho daquelas cidadelas, sentindo-me na idade média. Viajei no tempo, sonhando com os vestidos, os cavalos, as tabernas repletas de mulheres da vida e homens bêbados. Enquanto isso, o Calixto perguntava tudo ao motorista. Como era o Caminho, como eram as pessoas, quantas horas de caminhada de um povoado ao outro, se o taxista já havia feito o Caminho, se tinham muitos peregrinos nessa época, etc... E é claro que escutamos a mais famosa pergunta feita a nós brasileiros: “Brasil! Paulo Coelho...Vocês conhecem o Paulo Coelho?”


Todos os espanhóis deviam ter a idéia de que o Brasil era uma pequena vila, ou algo parecido, porque ao dizer que conhecíamos o Paulo Coelho (claro! E quem nunca ouviu falar nele?), todos achavam que ele era nosso amigo mais íntimo! E quando eu não queria estender a conversa, dizia que não conhecia o Paulo Coelho. De nada adiantava. Olhavam-me com reprovação dizendo: “Não conheces o Paulo Coelho? O escritor, o peregrino?” Diante de uma resposta negativa, acabavam contando-me tudo sobre ele. No final das contas, ainda hoje, não sei qual seria a melhor coisa para se dizer diante de tal pergunta. De uma forma ou de outra, Paulo Coelho, Ronaldo, Guga ou qualquer outro brasileiro ilustre, era sempre um pretexto para um longo bate-papo.


Durante a viagem de carro do aeroporto até nosso ponto de partida, eu ainda tinha dúvida de onde começaria o meu Caminho. Chico e Calixto tinham decidido começar de Roncesvalles. Havia boatos de que nevaria na próxima noite. Por insegurança, resolvi continuar grudada nos dois e não seguir até Saint Jean para enfrentar os Pireneus[1] sozinha. Este foi o primeiro dos erros que cometi. Ainda voltaria a cometê-los muitas vezes durante o Caminho. Um dia eu aprenderia a ter coragem de tomar minhas decisões sem depender de ninguém.


Ao chegarmos em Roncesvalles, não acreditei no que vi! Senti-me um pouco decepcionada, esperava ao menos uma cidadezinha um pouco mais animada. Era apenas um simples povoado, com uma igreja, um edifício baixo com alguns apartamentos, onde era também o albergue, uma lojinha e duas pequenas pousadas. Íamos passar o dia sem ter o que fazer e sem disposição o bastante para iniciar o Caminho! Foi um verdadeiro desafio controlar a ansiedade e o pânico que tomaram conta de mim. Circulei pela cidadezinha várias vezes, tomei inúmeros cafés e o tempo não passava. O albergue só abria às 15:00h. A pousada só tinha quartos após às 12:00h, e ainda tinha a famosa siesta[2]! Um horror! Acho que foi o dia mais longo da minha vida!


Quando soou o sino da pequena igreja, anunciando que já era meio-dia, fomos para a pousada. Muito a contragosto, pois eu não queria dormir em hotéis durante o Caminho. Em primeiro lugar, porque o espírito do Caminho era dormir nos albergues; em segundo lugar, porque não queria gastar meu dinheiro. Pão duro é pão duro em qualquer lugar do mundo! O Calixto ofereceu-se para pagar minha diária. Não quis aceitar, mas eles me fizeram uma proposta irrecusável: ele e o Chico dividiriam um quarto e eu ficaria em outro. O total dos dois quartos seria rachado entre nós três. Pareceu-me injusto, mas os dois insistiram e eu aceitei.


Achei que teria um tempo para descansar. Enganei-me! O que aconteceu comigo, deixou-me completamente pasma! Uma sensação muito ruim tomou conta de mim. Meu corpo não respondia aos meus comandos. Acho que fiquei tão ansiosa com tudo, que entrei em pânico. Meu coração disparou, meus olhos ficaram arregalados, um nó apertava a garganta, tinha vontade de sair e voltar para casa, mas não conseguia me mexer. Foram poucos minutos que mais pareceram uma eternidade. A cabeça girava, girava e meu corpo ali, imóvel. Imagino que seja assim quando uma pessoa fica em estado de choque.


Reuni forças e fui tomar um banho. Estava tonta e não conseguia manter-me de pé. Quase desmaiei. Sentei-me no chão do box, deixei a água bater suavemente em meu corpo e aos poucos fui “acordando”. Depois, deitei um pouco e as lágrimas desceram sem que eu tivesse um motivo concreto para chorar. Fiquei pensando o que estaria me fazendo ficar naquele estado. Meu sonho sendo realizado e eu não conseguia estar feliz! Parecia uma força maligna impedindo-me de ir em frente. Eu acredito que isso realmente tenha acontecido. Já estudei alguma coisa sobre assédio. Tenho certeza de que fui altamente assediada a não fazer o Caminho. Concentrei-me na imagem que tenho de Deus e comecei a meditar. Para mim, Deus é uma energia universal e cada um de nós é uma minúscula parte dessa energia. Libertei meus pensamentos e deixe-me levar por essa energia divina, e assim, em total união com Deus, voltei a viver meu sonho.


Quando me senti mais aliviada e calma, desci para a Missa dos peregrinos. A igreja era simples e pequena, mas aconchegante. Senti muita paz ali! Parecia que a Missa seria o marco inicial do meu Caminho. De repente, um homem sentou-se no banco ao lado e começou a rezar em voz alta. Depois, levantou-se e saiu para o fundo da igreja. Quando voltou, estava com roupa de padre. Não percebi, mas a Missa já havia começado naquela oração que ele fez. Assisti a tudo aquilo emocionada. Fomos abençoados em vários idiomas, inclusive em português. Foi ali que percebi que realmente estava lá, no Caminho de Santiago. Não era um sonho! Era a mais pura realidade!


Depois da Missa, o jantar! Foi uma festa! Era o primeiro de muitos do Caminho. Lá, as pessoas se reuniam em torno da mesa e ceiavam alegremente, dividindo com os companheiros as experiências e emoções vividas durante a caminhada daquele dia. A comida era farta e engordurada também. Não foi à toa que engordei uns quilinhos. Havia salada ou sopa de entrada, carne ou frango acompanhados de batatas fritas como prato principal, pudim de sobremesa e o melhor de tudo: água, pão e vinho à vontade!


Hora de descansar! O primeiro dia era aguardado ansiosamente por todos os peregrinos. Íamos pisar o chão sagrado. Com medo de passar por todo aquele temor novamente, estiquei ao máximo minha estada no hall da pousada. O tempo passou rapidamente e chegava a hora de enfrentar meus medos. E eles eram enormes, profundos e apavorantes. Não sabia o porquê de nenhum deles, mas estavam ali, atormentando minha alma. Passei a noite praticamente em claro. Nos poucos cochilos que dei, tive pesadelos horrorosos. Sonhei com guerras, tiros, sangue. Eu fugia de alguma coisa o tempo todo. Meus amigos morriam ao meu lado e sentia-me culpada por isso. Mais uma vez, não pude desfrutar de uma boa noite de descanso.


Ainda era madrugada em Roncesvalles e pela cor do céu, o dia prometia ser de muito sol. Nada como começar o Caminho com uma dificuldade a menos! Levantei-me e fui espiar o dia amanhecendo da janela do meu quarto. Alguns peregrinos já estavam na rua. É incrível como tem gente que adora acordar antes mesmo do sol! Imagine se eu ia começar a caminhar por entre os bosques naquela escuridão! Mesmo porque ainda continuava muito assustada com meus pesadelos. O coração voltava a bater descompassado, eu tinha que fazer alguma coisa para me distrair. Pensei em escrever no diário todos os acontecimentos que vivi desde o embarque, mas não conseguia me concentrar. A ansiedade era grande! Pensei então, que um bom banho seria perfeito para relaxar, mas lembrei-me de que os peregrinos mais experientes me aconselharam a não molhar os pés antes de caminhar, porque a pele ficaria sensível e haveria maior probabilidade de surgirem bolhas. Então, restou-me arrumar a mochila o mais devagar possível, para que o tempo passasse mais rápido e minha cabeça ficasse ocupada.


Ouvi barulho no quarto ao lado e fiquei um pouco mais aliviada ao constatar que meus amigos já estavam acordando. Desci e fiquei aguardando por eles no bar, fumando meu cigarro. Quem fuma sabe muito bem o que é ficar sentado esperando! Conforme o tempo passava, eu tentava aliviar a ansiedade aspirando aquela fumaça cinzenta. Lembrei da minha irmã dizendo que fumar era uma total falta de vergonha na cara, porque a gente só fuma quando não tem nada para fazer. Ela conseguiu deixar o cigarro e eu estava jogando todas as minhas esperanças no Caminho. Acontece que o Caminho não tira vícios. Quem os tira somos nós mesmos. Aprenderia com o tempo.


[1] Pireneus: Cadeia de Montanhas na fronteira da França e Espanha.
[2] Siesta – em português: Sesta – segundo o dicionário Aurélio: hora em que se descansa ou dorme após o almoço.



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