terça-feira, 6 de maio de 2008

Bumbum de “bebêbada” - 9º DIA


Saindo de Belorado

Acordamos todos bem cedo. Carla e eu distribuímos os sanduíches. Sabíamos que seria um dia muito puxado, cheio de subidas e sem lugares onde pudéssemos comprar comida ou descansar. Fiquei feliz em poder retribuir os jantares com os singelos lanches que havíamos preparado. Seria uma grande ajuda! Guardamos nossos sanduíches na mochila e partimos.


Era o mesmo grupo do dia anterior: Carla, Fresia, o menino Juan Andrés e eu. Os outros seguiram na frente. O dia estava bonito, mas, como sempre, o tempo por lá era imprevisível. E mais uma vez, a chuva nos pegou de surpresa! A cada momento, éramos colocados à prova. Chuva, barro, frio, sol forte, horas a fio sem comer, subidas horrorosas... Fomos em frente, persistentes! Paramos enfim, depois de muitas horas de uma longa e difícil caminhada. Conseguimos achar um bar recém aberto ao longo da jornada. Incrível como o caminho havia mudado de um ano para o outro! Os bares parecem brotar da terra já prevendo o lucro certo. Tiramos os sapatos e sentamos confortavelmente. Sem que percebêssemos, um cheiro horroroso foi tomando conta do lugar. Parecia queijo estragado. Depois de algum tempo reclamando e tentando descobrir de onde vinha o mau cheiro, Juan Andrés falou baixinho em meu ouvido:
- “Acho que esse cheiro está vindo dos nossos pés”.
Soltei uma indiscreta gargalhada. Ele estava certo. Nossos pés estavam realmente fedidos. Era uma mistura de chulé e suor insuportáveis. Resolvemos calçar os sapatos e sair de fininho para que ninguém percebesse que éramos os responsáveis pelo “quase-homicídio” por asfixia de todo o pessoal presente no bar. Mesmo que ninguém tivesse notado a “poluição”, minha cara delatou a culpa: mais vermelha que ela, só mesmo uma Ferrari.


Enquanto seguíamos, conversando alegremente, uma cobra passou rente ao meu pé. Carla disse-me que as cobras simbolizam a sabedoria. Tudo que sempre li sobre a simbologia das cobras, dizia exatamente o contrário, mas preferi ver o lado positivo e acreditar que pudessem representar realmente a sabedoria. E porque não? De vez em quando, precisamos de um estímulo externo para acreditar e lutar por certas coisas. Eu buscava justamente isso: sabedoria para uma vida mais serena. Apostei no que ela me dizia e sabia que chegaria o momento de mudar e tomar rumos diferentes em minha vida. E a sabedoria viria trazendo tranqüilidade para enfrentar os obstáculos que me seriam impostos. Mesmo assim, rezei para não encontrar a progenitora da pequena cobrinha. Não era bom arriscar tanto...

Ermita Virgen La Peña

Enfrentamos uma subida muito íngreme. Lembrei-me da mensagem, encontrada em um caderno de albergue, que dizia para termos uma atitude diferente diante da dor. Nada mais me pareceu tão difícil, justamente por não estar mais preocupada com os obstáculos que estavam por vir. Teria que superá-los de qualquer forma. Então, para quê a ansiedade? Tudo ficava tão mais simples quando tínhamos serenidade, paz, alegria. Deixar as dificuldades nos vencerem antes mesmo de enfrentá-las, definitivamente não era a melhor forma de viver a vida. O aprendizado do Caminho está exatamente nisso: simplesmente viver a vida, da melhor forma possível, sem se preocupar com o amanhã. Às vezes, ficamos tão cegos que não nos é possível enxergar a melhor saída, por isso, o melhor mesmo era confiar no destino e viver o presente. Era isso o que eu mais precisava aprender! Talvez esse tenha sido um dos maiores motivos da minha ida ao Caminho.


Encontramos o Jarc fazendo um pequeno piquenique no topo de uma montanha. Veio em nossa direção com lágrimas nos olhos agradecer o sanduíche que preparamos. Disse-nos que sem ele, teria ficado com fome até o final do dia. Este é o melhor presente que podemos ganhar na vida: a alegria no rosto de alguém que ajudamos! Muitas vezes, fazia algo por alguém, não pelo simples fato de fazer o bem, mas sim, para receber esse sorriso em troca, mesmo ficando incomodada por parecer uma forma de ostentação. Ajudar o próximo também faz bem ao nosso ego! E eu não seria hipócrita em afirmar que não gosto de sentir esse orgulho, pois tudo na vida é uma troca. Importante apenas que seja feita com amor e sem cobranças.


A chuva, que já tinha dado lugar ao sol, veio novamente atrapalhar nosso dia. Parecia estar sempre me perseguindo! O meu maior desejo no Caminho era descansar ao sol, deitada no campo. Nunca consegui! Achei que poderia ficar descansando um pouco no mesmo lugar onde encontrei meu amigo Jarc. Eu tinha acabado de tirar a mochila, estender uma canga em um gramado, sob a sombra de uma grande árvore. Abri o papel que embrulhava o sanduíche e bem na hora que eu ia comer o primeiro pedaço, senti uma gota de chuva enorme caindo no meu rosto. Fiquei sem reação por uns dois segundos, com cara de idiota, pensando se voltava a embrulhar o sanduíche e seguir em frente, ou se continuava comendo, mesmo debaixo de chuva. Como de costume, preferi sucumbir à gula. E assim, comi prazerosamente aquele sanduíche de atum. E estava delicioso! Nunca um sanduíche de atum foi tão gostoso! A verdade era que eu estava faminta e nessas horas qualquer comida é bem-vinda, mesmo com molho de chuva.


Naquele dia, quase todos os peregrinos estavam reclamando de bolhas nos pés. Agradeci a Deus por não ter tido uma bolha sequer até então. Sem esquecer, é claro, de pedir para continuar sem tê-las até Santiago. Já me bastavam as dores nos joelhos! Peguei uma estrada de terra rodeada de árvores altas e muito verdes. Estava feliz, pois sabia que a cidade de San Juan de Ortega estava logo no final desta estrada. Acho que andei por mais de uma hora e a danada da estrada nunca chegava ao fim. Aquilo foi me dando uma irritação danada! Foi quando me perguntei (de novo!) o que estava fazendo ali. Coisa doida! Há poucas horas estava amando o Caminho e, de repente, comecei a achar que tudo aquilo era loucura! Tive vontade de jogar tudo para o alto e passear pelas ruas de Madri, fazer compras, gastar o cartão de crédito até não ter mais limite e viajar pela Europa. Que Caminho, que nada! Coisa mais sem graça passar dificuldade, sofrer de dores nos joelhos e andar o dia inteiro até o corpo pedir socorro! Eu queria o glamour de volta! Onde estavam os holofotes, os maquiadores, as câmeras e a correria do dia a dia? Senti saudade até mesmo da falsidade do mundo da moda, das frases feitas, dos sorrisos hipócritas, seguidos de um:
— “Oi querida! Como você está bonita!”.
Aí era demais! Não podia estar sentindo falta das coisas que mais me irritavam neste mundo! É a mesma coisa que cantar aquela música que você mais odeia, mas nunca sai da sua cabeça! Não estava certo! Eu tinha que fazer alguma coisa para me livrar daqueles pensamentos. Graças a Santiago, encontrei alguns peregrinos logo à frente e puxei conversa para distrair a mente. Em poucos instantes eu já estava integrada novamente ao Caminho.


Quase tive um ataque de riso quando avistei, ao longe, a pequena igreja de San Juan. Sabe quando ficamos tão felizes que o nervosismo toma conta e não nos conseguimos nos controlar? Não sabia se ria ou chorava, enfim, era o fim daquela estrada que parecia interminável! Claro que nem tudo na vida é perfeito. O lugar resumia-se a uma igreja, um albergue, um bar e algumas casinhas que podíamos contar nos dedos das mãos. O refúgio não era nada confortável. Para piorar não havia água quente e estava um frio de rachar! Confesso que enforquei o banho neste dia. Dei uma “disfarçada básica” com as toalhinhas umedecidas. Pode parecer meio porco, mas foi o único jeito que encontrei de fazer a higiene do dia. Senti-me como bumbum de nenê. Literalmente!!!


Como de costume, fui conhecer o povoado e encontrei dois peregrinos brasileiros. Um deles, era o mesmo que conheci no primeiro dia, Harrison. O outro eu já havia encontrado em Cizur Menor. Sentei-me com eles no banquinho da praça em frente ao albergue para comemorar o encontro em verde e amarelo, regado a muito vinho!

Sopa de alho no albergue - no fundo da foto, a peregrina que vos escreve, sob a luz do sol.

Fomos chamados para provar a famosa sopa de alho, preparada pelo Padre José Maria, uma tradição de San Juan de Ortega. A sopa não é nenhum primor da culinária internacional, mas o importante era a reunião dos peregrinos para festejar. O Padre serviu todos, perguntou os nomes e países de cada um. Neste dia, havia pessoas de treze diferentes nacionalidades. Na verdade eram doze, mas o menino Juan Andrés disse que era do Nepal, arrancando gargalhadas dos demais peregrinos. De onde será que ele tirou a idéia de ser nepalês?


A sopa não matou minha fome de leão e fui para o bar com os brasileiros. Depois de me esbaldar, soube que um amigo de um dos peregrinos vinha vindo de Burgos, com comida para todos. Seria também a despedida dos meus amigos franceses Jarc, Emilie e Yolande. Voltei correndo para o refeitório da igreja e fartei-me com os maravilhosos frios, muito vinho e Orujo (um tipo de cachaça). Bebemos tanto, que fomos delicadamente expulsos pelo Padre. Já passavam de dez da noite e estávamos todos ligadíssimos e um pouco “alegres”. Tivemos uns contratempos por conta disso, porque aquele era o primeiro albergue onde tínhamos a companhia de outros peregrinos que não pertenciam ao nosso grupo e ninguém entendia nossa euforia. Naquela noite, os roncos deram lugar às risadas esporádicas de um lado e outro do quarto. Risos quase sem graça, abafados. Sempre acompanhados de um shshshshs...

Yolande, eu e Jarc

A vingança veio a cavalo. Antes mesmo de o sol nascer, os “estranhos” nos acordaram fazendo um barulho infernal com os saquinhos plásticos. Aliás, esse é um assunto interessante. Até hoje não descobri porquê levamos tudo separado em saquinhos plásticos. Uns diziam que é para proteger da chuva, mas havia a capa de chuva; outros diziam que era para separar a roupa suja da roupa limpa, mas, em geral, as mochilas são repletas de compartimentos. Acho que servem mesmo é para acordar os beberrões como nós.

2 comentários:

valsanches disse...

Ti, as mochilas não são impermeáveis, são somente resistentes a água. Se vc vai de anorak e a capa da mochila, a chuva escorre entre as costas e mochila podendo molhar algum ítem importante, como o saco de dormir, por exemplo. Por isto, tudo tem q ser ensacado. Estou adorando seu relato.
Beijinhos,
Val Sanches

Vanira disse...

"Deixar as dificuldades nos vencerem antes mesmo de enfrenta-las..."é verdadeiramente uma
grande derrota.