terça-feira, 6 de maio de 2008

FAMÍLIA PEREGRINA - 8º DIA

O grupo de peregrinos estava andando junto há dois dias e era muito unido e feliz. Haviam se conhecido ali mesmo, no Caminho, e já eram como uma família. Eu e Carla fazíamos parte dela agora. Era uma alegria constante. Cada um andava no seu ritmo, mas todos ficavam sempre atentos a seus companheiros. Sempre marcavam de encontrar-se no pueblo seguinte e ver se estavam todos bem. Saindo de Sto. Domingo, andamos juntos por algum tempo, e depois o grupo foi se separando. Quando cheguei no lugar marcado para a primeira parada, estava ardendo em febre e meus amigos me socorreram. Esperaram até que eu melhorasse um pouco para depois continuar a jornada. Fiquei emocionada com tudo aquilo. Senti-me amparada. Encontrei naquele grupo a força, o companheirismo, o real espírito da peregrinação. E o sonho pareceu-me muito mais colorido, mais vivo.


Um desses peregrinos era um menino de onze anos, chamado Juan Andrés e fazia o Caminho com uma amiga de sua mãe, Fresia. Ela, uma chilena muito politizada, culta e amorosa. Ele, muito calado e distante, mas quando deixava de lado a falsa timidez, mostrava sabedoria em suas frases. Tinha perdido o pai há pouco tempo e sua força me surpreendeu. Dificilmente um garoto da sua idade estaria tão inteiro, diante de uma situação difícil como a morte. Fiquei impressionada ao saber que ele próprio escolhera passar suas férias no Caminho de Santiago. Era realmente um menino especial.


A caminhada até Belorado foi alegre. Conversamos bastante sobre a situação de nossos países e dos motivos de peregrinação de cada um. Fazia sol e ao nosso redor podíamos ver as montanhas cobertas de neve, o que para mim foi uma novidade e tanto! Passando pelos pueblos, comecei a perceber novamente o mundo que estava à minha volta. O Caminho começava a despertar um interesse diferente em mim. Estranho dizer isso, mas deixei-me conhecer muito mais facilmente naquele momento. Com a companhia de gente tão especial, senti-me confortável em dar e receber carinho. Sou uma pessoa um tanto reservada e aprendi a doar-me sem preconceitos, sem desconfiança. A conversa fluía com naturalidade e os idiomas não atrapalhavam. A diversidade de objetivos, o poder, o dinheiro e a individualidade do ser humano, não existiam naquela utopia que estávamos experimentando.


Quando chegamos ao albergue, a hospitaleira nos esperava com uma mesa farta e um sorriso amigo no rosto. Tudo começava a fluir e fazer sentido para mim. Sentia-me à vontade e em família. Os amigos chegando, cheios de alegria, reunindo-se para providenciar um jantar para os demais. Fiquei um pouco constrangida quando não aceitaram minha colaboração. Eu me sentia na obrigação de agradecer todo o carinho e, de certa forma, me redimir da gafe do dia anterior, quando ofereci minha comida esperando que ninguém a aceitasse. Então, propus à Carla que fizéssemos lanches para o dia seguinte. Compramos pão, atum e queijo. Preparamos mais de vinte sanduíches. Embalamos tudo e guardamos na geladeira.


Mais uma vez, o jantar foi uma festa! Uma maravilhosa confraternização. Diego, um peregrino italiano, foi o responsável pela melhor massa que comi em minha vida. Costumes e nacionalidades diferentes interagiam entre si, com uma facilidade incomum. A exemplo da noite anterior, conversamos até tarde. Foi divertidíssimo! Cada um cantou uma música de seu país, contamos piadas e brindamos com muito vinho a felicidade de estarmos ali. Depois, deitei-me e dormi sob a luz do luar, que iluminava minha cama, através da janela.

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