
Nos dois dias seguintes, a alegria era, mais do que nunca, minha marca registrada. Mesmo quando enfrentei uma chuva forte na saída de Astorga, estava feliz e sorridente. Passei cantando e dançando pelos pequenos pueblos, arrancando risadas das pessoas. Foi batendo um quê de brasilidade em mim. Assobiei músicas brasileiras de todo o tipo, de samba à MPB. Com o decorrer do dia, a paisagem ia mostrando-se cada vez mais bela. Notei que estava andando por entre campos e cidades no topo de uma cadeia de montanhas. Por conta disso, senti muito frio. Aos pouquinhos, o tempo foi melhorando.
Estava ansiosa para chegar ao famoso Bar Cowboy de El Ganso, que vi numa foto, no guia de um peregrino. Ao chegar, para minha surpresa, encontrei uma pequena bandeira do Brasil pendurada na entrada. O dono recebeu-me com um certo receio. Era um pouco reservado demais para o que eu esperava. Fui puxando conversa e ele foi ficando mais à vontade. Disse-me que não costumava ver mulheres jovens como eu, sozinhas no Caminho. Sempre estavam acompanhadas de alguém. Ah...como fazia falta uma cara metade! Disse-me ainda que queria muito conhecer o Brasil, pois o povo era alegre e hospitaleiro. Fiquei feliz ao lembrar que apesar de todas as dificuldades que nós brasileiros enfrentamos todos os dias, continuamos alegres. É um povo que deixa marcas eternas no coração de todos. Tenho certeza que a minha marquinha ficou por lá.

Continuei minha marcha, distraída, cantarolando músicas do Gil. Por conta disso, quase fui atropelada por um peregrino de bicicleta. Dei um grito tão alto, que deve ter sido ouvido pelos quatro cantos do mundo! Eu e “meu Gilberto Gil” quase acabamos assustando o pobre coitado, que quase caiu.
Mais à frente, avistei uma placa escrito: Rabanal del Camino. Para meu espanto, havia um par de botas na ponta da madeira que a sustentava. Lembrei-me das minhas botas, esperando-me ansiosamente nos correios de Santiago. Agora era uma questão de honra! Eu tinha que chegar lá para resgatar aquelas que um dia, foram meu maior incentivo para fazê-lo. Lembrei da peregrinação às lojas de calçados, das pesquisas de preço e a compra da bota ideal, que me acompanharia nessa doce loucura. Foi paixão à primeira vista. Até dei um nome para ela: Kimberly. Meio americanizado, mas era o mais próximo do nome da marca. Minha mochila era a Tika. Seríamos três mulheres no Caminho de Santiago, mas fui traída por Kimberly, que pegou muito no meu pé. Tive que substituí-la por um tênis, que apelidei de Pluma, mais um trocadilho com o nome da marca, que ao mesmo tempo dava a idéia de ser muito leve. Loucuras da minha cabeça! Delírios...

Enfim cruzei a entrada de Rabanal. Um pueblo medieval muito simpático. Havia dois albergues. Por sorte escolhi o Gaucelmo. Era lindo! Bem ao lado da igrejinha local. Um casal de holandeses muito alegre recepcionou-me. Eu era a peregrina de número 4.999 a ficar lá naquele ano. Um peregrino venezuelano, que estava fazendo o Caminho pela quarta vez, recebeu a medalhinha do peregrino de número 5.000. Foi uma festa! Tinha uma planilha na parede com a quantidade de peregrinos de cada país. Nós brasileiros ocupávamos o quarto lugar, atrás apenas dos espanhóis, dos franceses e dos italianos. Uma bela colocação para um povo que vive do outro lado do mundo. Logo, o hospitaleiro informou-me sobre os horários e normas do albergue. O que me deixou mais feliz foi saber que às 7:00h, um belo café da manhã seria servido a todos os peregrinos. Para variar, estava sempre pensando em comida!
Tomei um banho maravilhoso e fui jantar em um restaurante perto dali. Senti-me mais uma vez, em um filme antigo, comendo e bebendo naquela taberna, toda em pedra, escura e aconchegante. Imaginei até a trilha sonora. Um violão ou coisa parecida, as pessoas cantando e dançando em torno dele, batendo palmas alegremente. Para que meu “filme” parecesse mais verdadeiro, comi como louca. Só faltou ter devorado as coxas de galinha com as mãos e limpá-las na própria roupa.
O próximo passo era descansar bastante para, no dia seguinte, chegar bem à Cruz de Ferro. É um dos pontos mais especiais de toda a rota, e um dos mais altos também. Está situada a 1.504 metros de altitude. Só perde para uma antena de comunicações, que fica logo depois. Dizem que a Cruz de Ferro foi instalada em cima de um altar romano dedicado a Mercúrio, Deus dos caminhos. Coincidência ou não, Mercúrio é o planeta regente do meu signo solar, Virgem. Na manhã seguinte eu estaria reverenciando o deus do meu signo e também depositando ali todas as pedrinhas que porventura tenham atravessado os caminhos da minha vida.
RELATO DE 2015, NO LINK ABAIXO:
http://www.tiencamino.com.br/2016/04/18102015-de-astorga-rabanal.html


Um comentário:
Amor da minha vida,
Feliz Dia Das Mães !!!
Além de pessoa sonhadora, alegre, bondosa, batalhadora, e de peregrina determinada, obsevadora, interativa e apaixonada, nós te descobrimos uma mãe amorosa, dedicada, encantada e maravilhosa !!!
É muito gostoso poder aprender com você e sobre você a cada dia. Seu Blog está o máximo !! Parabéns por mais esta realização !! Parece que o projeto "Caminho de Santiago" nunca irá te abandonar. A individualidade é necessária na vida e no relacionamento. E é o que te faz mais encantadora e adorável...
Aliás, parabéns ao cubo pelo seu projeto de vida !! Eu, a Inaê e o nosso mais novo companheiro eterno, amamos você ! Muito !! Obrigado por fazer parte, e por ser o grande porto seguro de nossas vidas.
Siga seu caminho...
Te amo.
Dani
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