sábado, 4 de outubro de 2008

MOMBUCA – CLUBE ARAPONGAS – 8º DIA

Pela manhã, fomos acordados ao som de uma música suave e aroma de incenso. Tudo muito delicado, ao estilo da hospitaleira Kátia. Arrumei a mochila, preparei o agasalho, pois estava com cara de bastante frio na rua. Subi a rampa em direção à cozinha para saborear o café da manhã. Kátia havia preparado pequenos potes de iogurte com frutas e cereais, café e pão com manteiga e queijo. Tudo muito caprichado e separado em embalagens individuais. Alguns resolveram comer ali mesmo, outros, seguiram em frente e guardaram tudo para um lanche no meio do trajeto. Eu não agüentava sair sem tomar um bom café da manhã! Era capaz de suportar um dia inteiro sem comida, mas nunca sair de casa sem comer como uma rainha. Despedi-me de Kátia e segui caminho.

Havia uma neblina forte na saída de Mombuca, o que me fez lembrar da descida do Cebreiro. Segui sozinha por um bom tempo. Sempre com o pensamento em Santiago. Já estava um pouco mais conformada, até porque, ao conversar com a Kátia, vi que ainda não estava preparada para voltar a Compostela. Ela me pareceu mais apaixonada e disposta a largar sua vida no Brasil e viver em prol do Caminho. Eu ainda tinha vaidades a serem superadas e o Caminho do Sol estava me ajudando a percebê-las. Só iria consertá-las com o tempo e ao reviver o Caminho do Sol e conviver com seus peregrinos, iria descobrir muitos outros defeitos e aprender a lidar da melhor forma possível com eles. Aquele dia foi o mais cruel para mim. A neblina foi embora e a paisagem era dura, pois a cana estava alta e não via nada pela frente a não ser estrada de terra e poeira. Além disso, o dia estava extremamente quente e, eu percebia por vezes que o sol ora batia de frente, ora de lado e, às vezes nas minhas costas. Tentava de todo o jeito entender porque estava dando voltas pela cana e não simplesmente seguindo para a mesma direção. Aquilo foi me deixando num estado de raiva e indignação tamanha, que comecei a pensar que se seguisse uma reta, chegaria em Arapongas em cinco minutos. Para completar, minha água estava acabando e o pouco que restava mais parecia um chá quente. Ao longo do dia, minha raiva foi aumentando e quando, enfim encontrei os demais peregrinos do meu grupo, pude descarregar meus pensamentos. Acho que acabei contagiando todos com aqueles pensamentos e o clima ficou mais quente. Ao caminhar, quando sentíamos a mudança da direção do sol, ficávamos bem tensos.

Lá pela metade do dia, um carro aproximou-se de nós. Era um rapaz trazendo água e dizendo que ainda faltavam uns 10 quilômetros até Arapongas. Perguntou se alguém queria carona ou que levasse a mochila e, juro que pensei em pular na caçamba daquele carro! Tentei conter meus desejos, porque queria cumprir todas as etapas com a mochila nas costas e sem pegar caronas. Devia isso a mim mesma, devido à culpa que sentia por ter “burlado” a peregrinação em Santiago. O que me deixou mais p. da vida foi a resposta que o rapaz em deu ao perguntar por que estávamos andando em círculos:
— “Acho que para a etapa poder ter a quilometragem ideal para o caminho”.
Como assim?! — pensei. Quer dizer que realmente Arapongas era mais perto e estávamos andando em círculos só para que a etapa tivesse X quilômetros? Nossa! Como fiquei macha naquela hora! Comecei a gritar um monte de palavrões, achei tudo aquilo um absurdo, comecei a desferir ofensas para todo o lado. Eu estava morta de sede, cansaço e caminhando horas no meio do matagal (porque aquela cana para mim era um mato sem fim!) à toa? A única coisa boa daquele episódio todo foi que apertei o passo de um jeito, que cheguei no albergue super rápido. Para completar o dia, Arapongas era um clube de campo de bocha e a escola que ficava apegada à sede era o lugar onde dormiríamos. Estava tudo muito bagunçado! Um monte de colchões no chão, mesas e cadeiras espalhadas por toda a sala e para completar o chuveiro que funcionava estava no banheiro do lado de fora da escola. Tomei um banho super rápido, pois estava ficando frio e a água que caía não dava conta de esquentar o corpo.

As coisas só melhoraram para o meu lado quando sentei para jantar. O casal hospitaleiro foi muito simpático e nos recebeu com muita alegria. A comida estava maravilhosa e eu até tomei umas cervejinhas para relaxar. De resto, a noite que nos esperava era de muito frio e dormi muito mal.
1- Hoje em dia, Arapongas deixou de ser escola e graças a um grupo maravilhosos conhecido por Anjos do Caminho, tornou-se um lugar aconchegante de pouso no caminho do Sol.

2 comentários:

Anônimo disse...

Oba!!!
Post novo!!!!

bjo!
Ana - mãe da Alice

Anônimo disse...

Ehhhhhhh!!!! Viva!!!!!!! Saimos de Mombuca!!!! A bem da verdade, não se caminha em linha reta neste trecho por conta dos muitos riachos e ribeirões existentes em meio ao canavial, o que obriga os caminhantes a contorná-los, passando pelas pontes existentes, Por outro lado, não é demais lembrar que os carreadores de cana por onde caminhamos foram feitos e servem aos interesses dos canavieiros, sendo muitas vezes (quase sempre) muito diferentes dos interesses dos caminhantes (rsrsrsrs).
Realmente Arapongas passou por grande transformação por conta do trabalho de voluntários que se dedicaram e se dedicam ao albergue e ao riso (rsrsrs). Não é o melhor lugar do mundo, mas é o melhor que se conseguiu fazer.
Abraços,
Artur