
— “O mais rápido possível! O restaurante vai fechar para a siesta!”
Segui fielmente a ordem e fui encontrá-los no restaurante para acompanhá-los no almoço, mas a ansiedade impedia-me de comer. A emoção de estar tão perto de Santiago era forte demais para que eu pensasse em outra coisa, que não fosse a chegada. Pedi licença e voltei para o albergue aos prantos. Ao entrar no quarto, dei de cara com David, meu amigo inglês. Aí mesmo é que desatei a chorar! Contei que não estava mais conseguindo controlar a emoção. Abraçou-me com carinho e acalmou-me. Respirei fundo e parei de chorar. Só então conseguimos conversar um pouco. Já refeita da crise de choro, pedi licença e saí para tomar banho. Ele então me disse uma frase linda, que jamais esquecerei:
— “Vá ao segundo andar! Tem um banheiro individual, com uma banheira enorme e bastante água quente. Você poderá acalmar seu coração.”
É ou não é uma frase maravilhosa para se ouvir depois de quase trinta dias tomando banhos com uma só mão, banhos mornos, banhos de lencinhos umedecidos, banhos de gato, enfim, todo o tipo de banho?
Me senti uma princesa! Acendi uma vela, um incenso e coloquei o restinho do meu xampu na água. Não fez espuma como esperava, mas, para mim, aquele foi o banho mais gostoso de toda minha vida! Fiquei horas dentro da banheira! Só saí de lá quando minha pele murchou. Parecia uma uva passa ambulante! Neste banho, resolvi que faria a próxima etapa durante a noite. Se minha família aqui no Brasil sonhasse com tal possibilidade, certamente hoje estaria internada em algum manicômio! Loucura sair perambulando sozinha no meio da madrugada? Talvez sim, mas já não ficava mais incomodada com minhas loucuras. Eu era livre e feliz! Estava prestes a concretizar meu sonho e cheia de esperança em uma nova vida! Isso era o mais importante!
Esperei um pouco na porta do albergue, para ver se minha amiga Mônica chegava e nada! Nem sinal da danadinha! Com certeza, devia estar caminhando ao lado de Irene, devagar, quase parando. Sentia falta dela, sempre me chamando de “véio do rio”. Estava doida que ela aparecesse logo, para mostrá-la a banheira que havia no segundo andar do albergue. Ela não ia acreditar! Já até ouvia sua voz dizendo:
— “Véio do rio, conseguiu descobrir uma banheira neste albergue? Tô boba! Por isso é que eu não desgrudo ”de ocê”! Na minha próxima viagem, te levarei junto! Mas só se você se comportar direitinho! Com essa descoberta você ganha um pontinho...”
Saudade também do meu amigo Chico. Ele iria adorar a banheira. Se eu soubesse da existência dela antes, teria deixado um recado em algum albergue para que ele usufruísse daquele pequeno paraíso. Onde será que ele estaria? Talvez em algum bar, bebendo seu café com leite, acompanhado de seu amigo Enrique.
Na ausência dos meus dois melhores amigos do Caminho, resolvi fazer uma surpresa para os demais, que mereciam um agrado. Fui ao mercado e comprei bastante comida e vinho. Fui para a cozinha e comecei a preparar o jantar e lá estava David, fazendo uns tremoços apimentados! Quando viu a quantidade de comida que eu trazia, perguntou se haveria um banquete. Eu respondi que sim, mas que ainda era uma surpresa. Então, propôs-me juntarmos nossas comidas. O pedido foi aceito na hora! Aos poucos, guiados pelo cheirinho vindo da cozinha, foram aparecendo os outros peregrinos. Contei que estávamos preparando um jantar de despedida. Logo, cada um foi contribuindo da sua maneira. Uns fizeram a salada, outros compraram a sobremesa e o pão.

Foi nossa última ceia. Todos pareciam estar sentindo o mesmo que eu. A tristeza estava visível no rosto de cada um. Tenho certeza de que se pudéssemos escolher, pararíamos o tempo ali e viveríamos este sonho por toda a eternidade! O Caminho de Santiago não é apenas uma estrada a seguir, não é apenas um lugar cheio de monumentos. É um chão realmente sagrado! Uma escola de vida! É onde aprendemos a ser verdadeiros, amorosos, caridosos, disciplinados e, acima de tudo, felizes e em paz com o mundo. Não seria exagero dizer que está no espírito do Caminho, o segredo do mundo perfeito. Quem o percorreu sabe muito bem o que estou dizendo! Infelizmente, é difícil explicar para as pessoas o que sentimos lá. Eles sempre pensarão que somos doidos por andar à pé quase 800km, com uma mochila nas costas. E, ao voltar para a vida “real”, o Caminho estará lá presente em nossas ações. Tentaremos pôr em prática a caridade, o não julgamento, a simplicidade, o amor e a paz. Essa é a grande lição do Caminho! Eu acabara de descobrir que ele estava apenas começando. O Caminho de Santiago era eterno e ninguém nunca o roubaria de mim! Bendita hora em que troquei o carro novo pela aventura!

Da Esquerda par direita: Klaus, Diego, Luis Miguel, Diego, Harrison, Michaela e David
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