sexta-feira, 23 de maio de 2008

UMA LINDA SURPRESA - 21º DIA


Mônica e eu, continuamos nossa rotina peregrina. Café da manhã reforçado e pé na estrada. Logo na saída de Portomarin, entramos em uma mata fechada. Parei para ajeitar meu cd player e disse para Monica que seguir na frente. De repente, uma mão tocou meu ombro. Levei um enorme susto! Para minha sorte, era um peregrino. Para minha má sorte, era um cara bem chato! Perguntou-me se eu tinha algum problema e respondi que não, mas ficou parado, esperando até que eu continuasse a andar. Eu, doida para ficar sozinha um pouco, curtindo minhas músicas e o danado falava sem parar! Inocentemente, ainda abri a boca para falar que era brasileira. Pronto! Estava feita a besteira! Era o motivo que ele queria para puxar assunto! Ser brasileiro no Caminho rende muita história. Ele começou a falar da feijoada, das namoradas brasileiras que colecionou e que nós éramos as mulheres mais quentes do mundo.




— “Era tudo o que esperava ouvir nesse momento!” — pensei com meus botões...




Vi que não tinha escapatória e desisti. Deixei que falasse à vontade. De vez em quando, eu respondia com monossílabos ‘não’ e ‘sim’! Sabia que não devia julgar as pessoas. Devia tentar perceber o que cada uma delas tinha a me acrescentar, mas não aprendi nada de especial com aquela conversa, pelo contrário, só me fez perder o humor. Vai ver ele só apareceu para exercitar minha paciência...



Agradeci a Deus quando encontrei a Mônica mais à frente. Ela percebeu o que estava acontecendo, mas também não agüentou o papo e saiu em disparada. Era a vingança dela pela noite do gato! Talvez o homem tenha servido para dar uma forcinha ao seu caminhar (risos). Um tempo depois, chegamos a uma cidadezinha. O irmão do tagarela estava à sua espera em frente ao albergue. Foi aí que notei que não trazia consigo nenhuma mochila. Era um peregrino com carro de apoio, em busca de sua Compostelana[1]. Entrou no carro e seguiu seu Caminho. Com minha total aprovação, é claro! Fazia qualquer coisa para ver o rapaz bem longe de mim! Descansei os ouvidos e segui viagem.






Com passos largos, acabei alcançando Mônica um pouco mais adiante. Paramos em um bar, a 12 km de Palas de Rei, onde dormiríamos. Um a um, foram chegando nossos amigos. Eu ainda estava com aquele sentimento confuso de final de sonho e fui tomada por uma nostalgia misturada com angústia. Resolvi telefonar para o Brasil novamente. Liguei para toda minha família, para alguns amigos, mas nada me fazia ficar completamente feliz.




Àquela altura, os demais peregrinos já tinham voltado ao caminho e eu continuava ali, sem saber o que fazer com meus sentimentos, preparando o astral para continuar, quando ouvi vozes se aproximando. Era meu amigo Diego, o italiano que fazia parte do grupo que conheci em Sto. Domingo. Estava acompanhado de dois peregrinos. Um deles era o brasileiro Harrison, que já havia encontrado duas outras vezes, e o outro era um alemão chamado Klaus. Meu coração encheu-se de alegria! Uma surpresa maravilhosa!


Enfim, meu desejo de reencontrar “minha família”, ou parte dela, seria realizado, não fosse um pequeno detalhe: eles estavam vindo de Ferreiros, ou seja, já haviam percorrido quase 25 km e deviam estar muito cansados para seguir até Palas de Rei. Com meu irresistível charme, modéstia à parte, consegui convencê-los a caminhar uns quilômetros a mais. Aos poucos, fomos juntando os amigos para chegarmos juntos a Santiago.


O albergue de Palas de Rei transformou-se em uma festa! Eu com meus amigos, Mônica com os dela, e mais um batalhão de peregrinos, lotamos todos os leitos e acabamos com a água quente! Os boxes não tinham cortinas, mas isso não importava. Não havia maldade entre nós. Enquanto eu tomava meu banho, alguns peregrinos circulavam pelo banheiro e até me cumprimentavam. Era uma bagunça total! Claro que algumas mulheres ainda não estavam à vontade, então improvisei uma cortina com o meu poderoso “varal”, feito com um extensor (aquele elástico que usamos nos racks dos carros) e a canga de praia. Tudo na maior normalidade. Pelo menos para mim.


Durante o jantar, cada um cantou uma música de seu país. Foi divertidíssimo ouvir as mais estranhas músicas, nas mais estranhas línguas. Algumas eu já conhecia, como “Sole mio”, cantada em italiano por Diego; mas imaginem como foi ouvir a música mais popular da Alemanha! Depois de algumas taças de vinho, arrisquei cantar “Aquarela do Brasil” e outras canções brasileiras não tão populares para eles. Enfim, era como eu sonhava! Uma grande família dividindo alegrias e tristezas.
[1] Certificado de conclusão do Caminho de Santiago.

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