quinta-feira, 8 de maio de 2008

A MORTE, O PERDÃO E A RESSURREIÇÃO


ALBERGUE DE BURGOS



Burgos. Fui a primeira a deixar o albergue. Saí sem comer nada, andei meio sem rumo em direção à cidade. Era uma manhã diferente. Havia algo estranho no ar, mas nada mais me amedrontava. Continuei caminhando, ainda meio sem rumo, para o lado oposto do Caminho. Estava sendo levada para aquela direção. De repente, ouvi uma voz chamando meu nome. Olhei em volta e não vi ninguém. A voz continuava chamando e era cada vez mais forte. Procurei de novo e nada. Até que senti uma tontura, um arrepio, tudo rodou e caí. Ainda ouvi o som das pessoas aglomerando-se para me ajudar. Fiquei desacordada por muito tempo. Perdi o contato com o mundo e uma sensação de paz invadiu meu corpo. Imaginei ter tido um ataque fulminante do coração e alegrava-me a idéia da morte ser tão tranqüila. Então, ouvi a mesma voz chamando-me de novo. Voltei a sentir o corpo. Estava leve como uma pluma. Aos poucos, fui despertando e abri os olhos. Para minha surpresa, dei de cara com um campo infinitamente florido. O céu era de um azul muito claro, mas de intensidade forte. Meus sentidos estavam mais aguçados que o normal. Ouvia com mais facilidade e via tudo com mais cor. Meu corpo parecia bailar no ar. Meus pés não tocavam o chão. Ouvi mais uma vez aquela voz chamando-me. Olhei para trás e vi Tuiv.


Tuiv era o nome que eu dava para meu anjo protetor dos joelhos. Quando criança, toda vez que precisava correr, eu punha as mãos no joelho e dizia:
— “Tuiv, meu anjo protetor dos joelhos, faz eu correr mais rápido que um cometa! Em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo. Amém.”
E lá ia eu, cortando o espaço! Às vezes, antes de dormir, eu colocava uma música e ficava dançando no escuro do quarto com meus amigos imaginários. Eram todos anjos. E agora Tuiv estava ali ao meu lado. Não era uma criatura humana, mas sim um vulto, uma luz. Dentro de mim, sabia que era ele. Tantas vezes senti sua força! Senti meu corpo sendo abraçado, tomado por ele. Tornei-me tão grande e forte que pude ver o mundo lá de cima. E na velocidade do pensamento, voei. Era um cometa finalmente! Voei por sobre montanhas e desertos. Atravessei oceanos. A rapidez dos movimentos me fascinava. Tuiv começou a explicar-me o motivo de sua vinda. Trazia consigo minhas culpas e mágoas do passado, conseqüentes de coisas mal resolvidas, inacabadas. Algumas delas, ficaram tão enraizadas em meu interior, que fui incapaz de lembrá-las. E a vinda de Tuiv era a chance de resolvê-las.


Fomos viajando por lugares e momentos importantes da minha vida, onde ficaram os ressentimentos. Aterrissei em uma casa onde morava quando tinha dois anos apenas. Ficava em Pelotas, Rio Grande do Sul, terra natal da dos meus pais. Fiquei intrigada com a riqueza de detalhes dessa época, sempre presentes na minha memória e nos meus sonhos. A entrada da casa, o corredor, o quartinho onde ficava o berço do meu irmão recém-nascido. Lá estava eu, ajudando minha mãe a cuidar do bebê. Como eu ainda era muito pequena e fraquinha, ela nunca me deixava carregá-lo no colo. Com toda razão! Esse foi o motivo de uma de minhas culpas. Eu o peguei no colo, escondida da minha mãe, e ele caiu no chão. O pior foi que, mesmo com a queda, aquela criança, gordinha e calma, continuou calada. Foi como se ele estivesse acobertando meu erro, cúmplice da besteira que fiz. Acabei não sendo castigada por minha mãe, porque ela nunca soube o que aconteceu ali. O peso na consciência foi o maior castigo que eu poderia ter tido. Tuiv perguntou-me se eu estava arrependida. Respondi que sim.
— “Se estás arrependida do fundo do seu coração, então estás perdoada. Perdoe-se!”
Mais à frente lembrei da minha avó. Ela me escrevia cartas mesmo quando ainda estava no útero da minha mãe. Tenho todas essas cartas guardadas. Quando comecei a escrever, minha maior diversão era mandar cartas para ela. E quando chegava aquele envelope branquinho, com listras verdes e amarelas na borda, endereçados a mim, era a maior felicidade! Conforme os anos se passaram, fui descobrindo outras coisas na vida e deixei as cartas de lado. Ainda lembro dela falando que estava triste porque eu não escrevia com a mesma freqüência de antes. Era a mais pura verdade! E hoje, arrependo-me de tê-la deixado tão sozinha. Fiquei pensando no tempo que perdi, sem compartilhar com ela as alegrias de minha vida.


E fomos voando para outros lugares. Aterrissei em um estúdio de TV. Estava fazendo um teste para um comercial de refrigerante. Havia muitas crianças. Eu estava dentro do perfil que procuravam para o trabalho. Estava fascinada com tudo! As pessoas correndo de um lado para outro, as luzes, as câmeras. Quando chamaram meu nome, senti um frio na barriga. Entrei para o estúdio e gravei uma, duas, dezenas de vezes. Pude notar que gostavam da minha atuação. Fui aprovada na hora! Fizeram-me esperar um pouco, pois queriam gravar o comercial naquele momento. Era minha primeira grande conquista! Demorou um pouco até começarmos a filmagem. Já havia feito umas três vezes a mesma cena, quando adentrou o estúdio uma famosa atriz e sua filha. Depois disso, ouvi minha mãe chamar-me para irmos embora. Ela estava nervosa e revoltada. Em minha cabeça tudo estava confuso. Continuava feliz com tudo o que tinha acontecido e não havia me dado conta da real situação. Um dia, perguntei a ela porque tinha saído do estúdio tão chateada. A realidade caiu sobre mim como uma bomba! A tal menina, filha de pais influentes, havia roubado minha cena. Foi difícil admitir que fui aprovada no teste e tive que abandonar a filmagem, por causa de uma indicação.

Os anos se passaram e surgiu um teste para um programa de televisão. Fui aprovada! O medo da rejeição, que eu havia experimentado quando pequena, foi vencido. Cheguei em casa com o contrato para minha mãe assinar. Ela nem sabia do teste e ficou surpresa. Eu tinha apenas treze anos. Foi essa a maneira que encontrei de superar o episódio vivido ainda criança e dizer:
— “Consegui! E sem a ajuda de ninguém! Sou boa mesmo!”
Precisava provar para mim mesma que era capaz. Envolvi-me naquele meio tão diferente, cheio de vaidades. Era um trabalho duro, sem hora para acabar. Muitas vezes voltei para casa sozinha, de ônibus, morrendo de medo, mas feliz! Dizia para minha mãe que voltava de carona. Tinha pena de acordá-la no meio da madrugada para buscar-me. Eu era a mais nova de todos do elenco e fui muito bem acolhida. Trabalhei neste programa durante cinco anos. Pude ver as múltiplas faces do mundo artístico. Aprendi muito e também tive decepções. O trabalho, a separação dos meus pais, a falta de grana, a árdua tarefa de ajudar minha mãe e ainda, servir de exemplo aos meus irmãos menores, fizeram-me amadurecer muito rápido. Foi uma época com os pés fincados no chão e a cabeça nas nuvens. E com a velocidade de um cometa, deixei a infância e a adolescência.


Ouvi a voz de Tuiv chamando-me de volta ao Caminho. Antes de tudo, disse-me que eu teria que fazer um exercício de perdão. Refletir esses acontecimentos e identificar todas as pessoas que, de alguma forma, fizeram-me sofrer e então, perdoá-las. E acima de tudo, perdoar a mim mesma. Deveria aceitar minhas condições de ser humano imperfeito e tirar de minhas costas, toda e qualquer idéia de culpa. Eu não era a salvadora do mundo. Meus limites deveriam ser respeitados! Levou-me para o campo florido, onde passei dias e noites meditando isolada. Tuiv abraçou-me com suas asas e disse-me:
— “Chore, ponha para fora todos esses ressentimentos. Você não precisa provar nada para ninguém e também não tem a obrigação de consertar o mundo. Livre-se desse peso. Ele não é seu, nunca foi! Perdoe-se e perdoe sua família. Só assim uma nova vida surgirá para você!”
Quando já estava com tudo resolvido no fundo de minha alma, adormeci. Estava pronta para voltar com ele para o Caminho...


Senti meu corpo pesado novamente e comecei a despertar. Abri os olhos e havia um homem ao meu lado. Estava dentro de um carro. Perguntou-me se eu estava bem e o que havia acontecido. Disse-lhe que havia desmaiado na saída do albergue em Burgos e passado muitos dias em um lugar florido e isolado. Olhou-me com estranheza e falou:
— “Impossível! Eu vi quando você desmaiou. Você acordou com o olhar distante, falando León, León o tempo todo. Você agarrou o meu braço e falou de novo o mesmo nome León. Foi aí que achei que você queria ajuda para chegar até aqui. Desde então, você não falou mais nada. Entrou no carro, quase em transe. Durante toda a viagem permaneceu de olhos arregalados e fixos, sem falar mais.”
Fiquei sem reação! O que havia acontecido? Quem seria aquele homem ao meu lado falando absurdos? Olhei em volta e vi a placa: albergue de León. O homem ajudou-me a sair do carro, pois estava em estado de choque! Não podia acreditar no que me havia acontecido!


O bom homem perguntou-me se eu queria ir até um hospital. Eu disse que não, já estava mais calma. Como agradecimento, convidei-o para um café. Contei-lhe o que lembrava antes do desmaio e tudo sobre a viagem com meu anjo. Aquele homem olhava-me com ar de serenidade e paz. Sua voz era doce e sua aparência familiar. Despedimos-nos com um abraço caloroso e demorado e cada um seguiu para seu lado. Lembrei-me então, de que eu ainda não sabia seu nome. Quando virei-me para chamá-lo, ele ainda estava lá, parado, olhando para mim. Sorriu e perguntou-me:
— “Qual é o seu nome?”
— “Tilara” - respondi. — “E o seu?”
— “Muito bonito o seu nome Tilara! O meu é Tuiv.”

Um comentário:

Vanira disse...

Projeção astral e constelação familiar.Parece_me que foi isso que aconteceu nesse dia.Que lindo!