
DESFILE DE PÁSCOA EM LEÓN
Entrei num albergue comum. Queria experimentar dormir num lugar sem peregrinos, conhecer pessoas novas, bater um papo diferente. Apesar da Páscoa, o albergue estava vazio e eu era a única peregrina do dia. Me colocaram num quarto especial, com todo o conforto. O banho era bem quente e a água farta. Troquei de roupa e fui conhecer a cidade. Era linda! Sua catedral era a mais bonita até então. A cidade estava repleta de gente e havia um desfile de Páscoa. Na volta ao albergue resolvi parar em um restaurante chinês. Me presenteei com um jantar bem chique! Afinal de contas, estava renascendo uma nova Tilara. Fechei minha noite com chave de ouro, com uma boa noite de sono e comecei meu dia com um maravilhoso café da manhã. Pronta para uma nova etapa no Caminho e na vida, reiniciei minha caminhada rumo a Santiago. A cidade de León era meu novo ponto de partida, como se o Caminho estivesse começando ali. Sem culpas e sem pressa. Tinha toda uma vida pela frente. Aprendi a aceitar melhor os momentos de solidão e estava gostando de conviver comigo mesma a cada passo, cada dia. Conseguia perceber melhor meu corpo e minha alma. Não havia máscaras. Era a versão mais verdadeira de mim mesma. Uma Tilara que eu desconhecia.
CATEDRAL DE LEÓN
A saída da cidade era longa, feia e vazia. Passei por bairros de periferia sem nada de interessante a oferecer. Mesmo assim, ainda consegui ver beleza nas pedras e na poeira da estrada. Nas coisas mais simples estava toda a essência do Caminho: nos acenos dos pedestres, nas buzinas dos motoristas, no gesto de incentivo daquelas pessoas, em cada etapa vencida, cada quilômetro andado. A mochila, os amigos do Caminho, o saco de dormir, os roncos, as dores; tudo me levava a ver a vida por um ângulo diferente, enchendo-me de satisfação.
Cheguei à Villadangos del Paramo bem cedo. Já haviam peregrinos deitados no gramado em frente ao albergue. Eram pessoas que eu ainda não tinha encontrado no Caminho. Seriam meus novos companheiros desde Burgos. Quanto ao albergue, não precisava ter chegado em um lugar tão feio e sujo. Foi o que estragou um pouco o meu dia. A hospitaleira nos recebeu rudemente. Cobrou-nos a “diária” e foi embora. Tudo estava conspirando para que eu mudasse de humor, mas a alegria era a minha marca registrada. Nem mesmo a falta de água quente, o pêlo branco misturado aos de tom marrom em minha sobrancelha ou o novo apelo aos lencinhos umedecidos deixavam-me chateada. Um banho a menos... um pêlo a mais... O importante era o reencontro comigo mesma.
Comprei pão, leite e café numa tenda próxima, mas esqueci o açúcar. O único jeito era ir até a casa da hospitaleira. Imaginei que ela me cobraria cada grão, mas acabei descobrindo que ela era uma mulher bondosa, porém triste. Não parecia a mesma pessoa que nos recepcionou. Contou-me que o marido era aposentado e vivia conversando com os amigos na rua. Seus filhos estavam casados e moravam em outra cidade. O albergue era sua única distração e os peregrinos, sua única companhia. No fundo, era uma mulher solitária e ao me ver, convidou-me para um chá. Quando percebi, tinha passado o resto da tarde divertindo-me bastante ouvindo suas histórias. Agradeci a Deus por ter esquecido de comprar o bendito açúcar, só assim pude notar que ainda tinha muito a aprender.
Apesar de pernoitar em um albergue cheio de problemas, tive um sono tranqüilo. Acordei bem cedinho e já coloquei o pé na estrada. Eu me prometera andar só 15 ou 16 km, dormir em alguma cidade que ficasse entre Villandangos e Astorga, pois essa distância era de mais ou menos 32 km. Achei que não agüentaria, ou talvez, não quisesse agüentar percorrê-la. Costumamos subestimar nossa força e eu o fiz naquele dia. Antes mesmo de chegar ao final da etapa, já estava convencida de que não conseguiria vencê-la. O engraçado, é que eu nunca havia me dado conta de que estava sempre duvidando de mim mesma. Já estava enraizado no subconsciente. Eu tinha arranjado um monte de desculpas para mascarar o medo de não conseguir vencer a etapa, mas meu corpo me traiu. Conforme ia avançando, percebi que queria mais e mais, tanto que andei 15 km em apenas três horas! Muito rápido, se comparado à minha média dos dias anteriores. Ainda eram dez da manhã, quando cheguei em Hospital de Órbigo, metade do percurso. Era mais uma lição do Caminho.
Era um pueblo lindo! Na entrada, havia uma ponte medieval, talvez a mais bonita de todo o Caminho. Essa ponte era especial e foi cenário de mais uma lenda:
“Dom Suero de Quiñones, desafiou para um torneio, todo e qualquer homem que quisesse passar por aquela ponte, devido à palavra que deu à uma dama. Durante um mês, Dom Suero e nove ajudantes lutaram contra 300 homens. Depois de terminada a luta, peregrinaram todos juntos a Santiago, para agradecer a vitória. Dom Suero ofereceu um bracelete de ouro de sua amada como oferenda ao Santo”. Ah, o amor...
Depois de passar por um lugar tão especialmente romântico, pensei em quanto gostaria de poder ter vivido uma história de amor e honra como aquela. Inspirada em minhas músicas, atravessei várias plantações de milho em um ritmo alucinante, imaginando-me uma personagem daquela lenda. Sou uma pessoa sonhadora. Eu poderia ter sido um dos guerreiros de Dom Suero ou até mesmo a mulher que ele amava tanto. Ia imaginando as cenas, tentando descobrir o que levava um homem a arriscar a própria vida em nome de um grande amor. Alguma vez já lhe ocorreu poder viver uma história como essa? Talvez sim! Eu sempre tenho essas idéias malucas, principalmente quando saio de uma sessão de cinema. Às vezes, demoro um pouco para voltar à realidade. Fico sonhando com um final feliz para minha vida, uma música romântica embalando minhas paixões e no final, subindo na tela, os nomes das pessoas que fizeram parte da minha história. Exatamente como nos filmes! Às vezes acho que sou maluca! No duro!
Depois de algumas horas, finalmente cheguei a Astorga. Fui carinhosamente recebida por Jus, o hospitaleiro. Ele parecia ter algum tipo de deficiência nas pernas e mãos, mas mesmo com suas dificuldades, levou-me para conhecer sua cidade, sua gente, a Igreja e sua fé. Falava-me de tudo com muito orgulho! Gosto quando as pessoas têm prazer em falar das suas origens. Quando me abraçam carinhosamente, sem preconceito e sem esperar nada em troca. Passeamos um pouco pela cidade. Conheci lugares fabulosos, inclusive um palácio episcopal, projetado por Gaudi[1] que abriga hoje um Museu do Caminho. Visitamos também a Catedral de Santa Maria, que demorou 300 anos para ser construída. Suas torres podem ser vistas à distância. Enfim, eu não sabia se estava mais feliz por conhecer uma pessoa linda como Jus ou pela oportunidade de admirar aquelas maravilhas.

PALÁCIO EPISCOPAL PROJETADO POR GAUDÍ.

MENSAGEM DO CAMINHO:
"PEREGRINO,
QUE O CANSAÇO DO CAMINHO NUNCA TE IMPEÇA DE PENSAR. O MAIS IMPORTANTE É A META?
NÃO SERÁ, ACASO, O ENCONTRO COM O MONTE, O RIO, COM O RUMO QUE PERDESTES...
...COM O MESMO DEUS QUIÇÁ?"
[1] Gaudi – famoso arquiteto espanhol, criador de obras geniais, como a Igreja da Sagrada Família, Casa Millá (La Pedrera), Parque Güel ( todas em Barcelona ), entre outras.


4 comentários:
Hummmmmm, seinão, seinão, ficar 30 dias combatendo com 300 homens como forma de demonstração de amor e ainda oferecer um bracelete de ouro ao Santo (!!!!?????), não sei se isso tem muito a ver com romantismo e muito menos com inteligência. Certamente, nada a ver com fraternidade, humanismo, peregrinação, etc...
Há de se dar um passo adiante nesta história, ainda que com fantasia.
Não pude deixar de notar que esta sua caminhada teve forte conotação gastronômica (rsrsrsrsrsrs).
Abraços,
Artur
Amiga!!Hoje recebi o convite para acompanhar seu blog e não pude deixar de fazê-lo! Fiquei muito feliz! Depois de ouvir vc falar tantas vezes no passado sobre o projeto do livro, por fim posso acompanhar toda sua jornada! Li tudo de uma vez durante a tarde de hoje e anseio por mais capítulos!
Sinto nos meus joelhos toda vez que vc menciona suas dores! Me emociono com suas superações!Parabéns pela garra! Sei que vc é guerreira! Te adoro! Agradeço a vida por termos nos reencontrado quando voltei do Chile, e nos tornado grandes amigas! E comadres!Hehehe!
Beijossssss na família crescente!!!
E feliz dia das mães!!!!
Fabi.
Viajo como nos filmes com vc.
Muito obrigada pelo carinho Vanira!
Beijos
Tilara
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