quinta-feira, 1 de maio de 2008

Vai, volta, reviravolta. Perdida, moída e feliz! - 5º dia

Acordei de bom humor!!! Tomei meu café da manhã, no meu ritmo, vi as notícias da tv e saí. Tinha apenas a companhia de minhas músicas, do sol, da natureza, da brisa gelada que insistia em acariciar meu rosto e, claro, do meu cajado! Durante muitas horas estive sozinha. Não havia ninguém ao meu lado para ditar o ritmo ou para interromper meus pensamentos. Sem o Chico, não havia também a companhia amiga e nem ajuda do seu guia e aí, em algumas vezes, julgava estar perdida, quando incrivelmente as setas amarelas pareciam saltar aos meus olhos.


Atravessei uma calçada romana muito conhecida por lá: Cirauqui (pronuncia-se “tiráuqui”), que significa ninho de víboras. Dias depois, este seria meu apelido. Não que eu seja uma víbora, mas este foi o jeito mais fácil encontrado por meu amigo francês, Jarc, de pronunciar meu nome (Tilara). Realmente, tenho que concordar com ele, pois meu nome é um pouco incomum. Antigamente eu ficava bem chateada quando alguém me chamava de Filara, Silara, Tiara e outras tantas “laras” que já não lembro mais. Eu perdia um tempo enorme tentando convencer as pessoas que meu nome era Tilara, repetindo-o por várias vezes, mas não adiantava. Acabava entregando os pontos e dizendo que me chamava Patricia e ponto final! Hoje dou boas risadas ao lembrar da minha criatividade. Mas, voltando ao Caminho, Cirauqui já era um recorde para mim! De Puente la Reina até lá, foram quase 8 km andando sem parar, mas meus joelhos começaram a sentir a esticada. Tentava esquecer a dor olhando a linda paisagem e ouvindo minhas músicas. Naquele dia minha trilha sonora era bem clássica. No repertório, Vivaldi. Nada mais perfeito para representar o clima totalmente imprevisível da Espanha do que “As Quatro Estações”.

CALÇADA ROMANA DE CIRAUQUI

Encontrei o “Trio cometa” fazendo um piquenique. Uma jovem alemã os fazia companhia. Acenei e desejei-lhes um bom Caminho. Alguns minutos depois, encontrei uma enorme escadaria. Parei diante daquele que seria meu maior desafio do dia. Respirei fundo e escolhi qual seria o joelho que pouparia de um esforço maior na descida. Não adiantou! A dor veio com tanta força, que quase desmaiei. Estava enraizada, parecia esmagar meus nervos. Não conseguia ficar de pé! Dei um grito de dor que deve ter sido ouvido aqui no Brasil. Sentei-me no chão e pus-me a chorar! Não havia o que fazer. Tinha que esperar a dor passar, para seguir adiante. Pensei em descer devagar até a beira da estrada e pedir uma carona, mas não consegui. A dor foi mais forte do que a vontade de lutar!


Meus amigos do “Trio cometa” vinham vindo e um deles até brincou comigo, perguntando se eu estava sentada ali admirando a paisagem e pensando em Copacabana. Quando viram meu sofrimento, pararam na hora! Deram-me remédios, fizeram massagem nos meus joelhos, perguntaram-me se eu queria continuar ou se queria um carro para ir ao hospital. Foram muito caridosos. Nunca esquecerei!!! Dispensei a idéia do carro e disse que podiam seguir seus Caminhos. Eu ficaria ali descansando e iria até onde meu corpo agüentasse.


A sensação era de total impotência. Só restava-me rezar para que a dor fosse embora, do contrário, meu Caminho estaria definitivamente ameaçado. Fiquei sentada ali por um bom tempo. Novamente vieram os pensamentos ruins. Eu já me via em um hospital, toda engessada e depois voltando para o Brasil sem completar o Caminho. Era o que eu precisava para levantar e seguir em frente! Imagine se eu me daria por vencida! Levantei em um impulso e desci gritando aos quatro ventos que nada me impediria de chegar, mesmo que fosse de muletas! E lá ia eu, mancando e gritando com ar de heroína! Ainda tinha muito que aprender...


Continuei andando mais preocupada com as dores do que com as setas amarelas que indicavam o Caminho. Quando percebi, estava perdida. Olhei para um lado e outro e nada de setas. Resolvi seguir em frente assim mesmo. Mais à frente, quando olhei para o outro lado da rua, em uma mureta, havia uma flecha apontando para o sentido oposto. Pronto!!! Estava perdida, andando em círculos, sozinha e, ainda por cima, começava a chover (o que seria péssimo para meus joelhos pois, com o barro, os pés ficavam mais pesados e o risco de torção aumentaria). Dei a volta e, alguns minutos depois, encontrei a jovem alemã que estava no piquenique com o “Trio cometa”. Ela parecia não ter forças para andar e ardia em febre. Era a minha vez de ser solidária. Como Deus faz tudo certinho! Acho que a dor me fez retardar a caminhada justamente para encontrá-la. Dei-lhe um antitérmico, vitamina C e prometi acompanhá-la até o albergue de Estella.


Ainda teríamos que achar o Caminho, pois estávamos perdidas. Ela conferiu seu guia e constatou que eu estava na direção certa e não sabia porque eu tinha voltado. Seguimos de acordo com o mapa e fiquei espantada ao ver que não havia seta amarela na mureta. Muito menos apontando para o sentido oposto, como eu vira antes. Teria sido alucinação? Prefiro acreditar que Deus colocou aquela seta ali, para que eu pudesse retribuir a ajuda recebida antes. Agradeci por ter tido a chance de ajudar alguém.


O dia nos surpreendia a cada instante. Ora chovia, ora o cansaço tomava conta de nossos corpos e às vezes, era o sol que teimava em queimar nossos rostos com toda sua força. A toda hora, eu pedia para dar uma olhada no guia da alemãzinha e via que, apesar de nossos esforços, havíamos avançado poucos km. Fiquei surpresa com a força de vontade daquela que, há poucos instantes, dependia de mim para continuar. Era um incentivo mútuo.


Fomos juntas até um pueblo a poucos km de Estella. Ela já estava cansada e não conseguia mais andar. Aproveitei para descansar junto com ela. Sentamos no banquinho da pracinha e ficamos mergulhadas em nossos pensamentos. De repente, uma buzina ensurdecedora acordou-nos. Olhamos em volta e vimos surgir um pequeno furgão, adentrando a rua da praça. Ele parou a poucos metros de nós e um homem saiu, abriu as janelas laterais do carro e nos convidou para provar o sorvete mais gostoso das redondezas. Àquela altura do campeonato, o calor já havia dado lugar ao frio, mas eu nem me importei. Comprei um sorvete enorme, com várias bolas coloridas, de sabores diferentes. Lambuzei-me inteira! Aos poucos, minha camiseta branca foi ganhando cores e ficou parecendo uma obra de arte. Eu estava feliz novamente! Voltava aos tempos de criança, onde os pipoqueiros, os sorveteiros, os vendedores de cuscuz e outras guloseimas passavam buzinando na porta da minha casa. Logo as dores foram esquecidas e eu já me sentia em condições de voltar ao caminho. A alemã percebeu que eu estava querendo seguir viagem e disse-me:
— “Siga seu Caminho. Já estou melhor e agradeço sua ajuda. Nos encontraremos em Estella.”
Foi quando nos separamos. Ela já estava sem febre, bem melhor e achei que poderia seguir tranqüila. Continuei marchando rumo à Estella. Não sem antes enfrentar mais uma daquelas horrorosas descidas. Até pensei em rolar morro abaixo, como um barril de cerveja. Já estava parecendo uma bola mesmo, depois de tanto sorvete!

IGREJA DE SAN PEDRO DE LA RUA

Alguns minutos depois, já estava na cidade de Estella! Venci mais um dia! Foi a segunda vez que senti a emoção da vitória. Muito parecido com o que senti ao chegar no Alto do Perdão, só que com uma diferença: Estella era o final de uma etapa. Era a sensação de vitória, misturada à emoção da chegada. Difícil explicar, mas é como alcançar um objetivo que, a principio, me parecia impossível. O Caminho é assim: cada dia é um obstáculo a ser superado, um sonho a ser conquistado.


O albergue era grande, bonito e limpo. Realmente muito acolhedor. Fui recepcionada pelo “Trio cometa”! Fizeram a maior festa quando cheguei! Ficaram espantados, porque não imaginaram que eu conseguiria andar até lá. Quando cheguei, cambaleando de tão cansada, os três já estavam arrumados e prontos para sair pela cidade. Eram realmente cheios de vida! Uma prova concreta de que as aparências enganam e a força de vontade independe da idade.


PONTE EM ESTELLA

Depois de um banho regenerador, fui dar um passeio pela cidade. O pôr do sol era magnífico. Cobria as casas de um tom pastel, quase como uma obra de arte. Havia uma ponte antiga cruzando o rio, onde parei para meditar. Fiquei ali admirando a paisagem e pensando em como estava feliz por ter superado sozinha a etapa do dia! Mas minha maior alegria daquele fim de tarde, ainda estava por vir. Senti muita falta do meu amigo Chico e, enquanto estava analisando meu dia sem ele, ouvi uma voz dizendo:
— “Tilara já está agitando a cidade!!!”
Olhei para trás e o vi chegando com seu amigo Enrique. Fiz a maior festa! Corri em sua direção e dei-lhe um abraço forte. Enchi-o de perguntas! Acho que ficou até tonto de tanto que eu falei! Estava extremamente feliz porque, de certa forma, era a minha “família” que estava chegando!

ENRIQUE E CHICO CHEGANDO EM ESTELLA

No Caminho, cada peregrino que passa acaba sendo parte de você, parte de sua história. Na vida é assim, são pessoas que passam e ficam por poucos minutos, outras ficam por mais tempo e aquelas que ficam para sempre. A diferença está na facilidade que temos no Caminho de virarmos amigos íntimos dos outros. É como se fôssemos parte de uma grande família, todos com o mesmo objetivo. Não havia motivo para discórdia, muito pelo contrário, havia motivação para a caridade, amor e união. A impressão que tive foi que, se um de nós falhasse na busca desse mundo utópico, todos os outros também falhariam. Era visível como um torcia pela vitória do outro e isso me enchia de segurança e paz.


Jantamos em um restaurante com mais dois peregrinos: Carla e Björn. Ela, uma sul-africana muito simpática e delicada. Reencontrar Björn seria a chance de descobrir o porquê da empatia mútua entre nós dois. Foi um jantar alegre! Eu, meu eterno amigo Chico e os dois peregrinos estrangeiros. Enfim, o Caminho começava a mostrar-me uma nova cara, cheia de vida e alegria!

Um comentário:

Anônimo disse...

Ti, gostaria de sugerir a inclusão de um link para o seu blog na página do Caminho do Sol. Aguardo sua aprovação para que possa sugerir. Abraços, Artur.