segunda-feira, 12 de maio de 2008

RUMO A CRUZ DE FERRO - 13º DIA



Acordei com aquele delicioso aroma de café invadindo o quarto. Ainda era noite lá fora. Um frio de lascar! Deu-me vontade de comer e voltar para a cama, ficar ali dias e dias, comendo e dormindo. Hibernando, literalmente! Felizmente, eu era uma peregrina e tive que espantar a preguiça e escrever minha história. Quando saí do albergue, tive mais uma linda surpresa: ouvi o cantar de uma caturrita igual ao assovio do meu pai. Ele sempre me chamava com um assovio especial e lá no Caminho, senti que ele estava me chamando. mnResolvi voltar e telefonar para casa. Coitadinho! Acordei-o no meio da madrugada para dizer que estava ouvindo o cantar de um passarinho. Se bem o conheço, ficou todo bobo, acordado a noite toda pensando nisso. E mais: no dia seguinte, deve ter contado para todo mundo. Pai coruja é assim mesmo...


Saindo de Rabanal, senti tanto frio que tive a sensação de que meu nariz congelaria a qualquer momento e que um leve toque o partiria em pedaços. Passei a manhã toda cobrindo-o com as mãos. De vez em quando, um carro passava na direção contrária, sempre com aqueles acenos, incentivando-me. As montanhas ao redor estavam cobertas de neve, que refletiam a luz do sol, fazendo com que tudo ficasse com mais brilho. Era uma aquarela! O céu era de um azul vibrante e contrastava com o branco das nuvens, que mais pareciam algodão. O orvalho nas folhas das plantas à beira da estrada havia se transformado em gelo, deixando tudo branquinho, branquinho. Agradeci a Deus por ter saúde e por poder ver e apreciar aquela pintura.

RUÍNAS DE FONCEBADÓN

Subindo a estrada, cheguei à cidade que todos acreditavam ser mal assombrada, Foncebadón. Foi ali que o escritor Paulo Coelho, em seu livro, diz ter sido atacado por cães. A maioria dos peregrinos temia atravessar aquele lugar sozinhos. Para mim foi muito tranqüilo. Nenhum sinal de cachorros por ali, muito menos, das tais assombrações; pelo contrário, era tudo muito bonito e cheio de vibrações boas. As ruínas remeteram-me para aquela época longínqua dos filmes da idade média. Entrei nas casas (ou no que restava delas!), debrucei-me nas janelas e tirei muitas fotos. Pena que esteja tudo tão abandonado! É um lugar maravilhoso para curtir uma casinha com lareira, um bom vinho, um livro, enfim, aquelas coisinhas que desejamos para um inesquecível final de semana a dois.


Depois de contornar algumas curvas da estrada, pude ver ao longe a montanha de pedras aos pés da Cruz de Ferro. Era enorme! Imaginei a quantidade de peregrinos que havia passado por ali durante os muitos séculos de peregrinação. E eu era um deles! Contribuiria com mais uma pedrinha, ajudando a erguer um monumento sagrado. Meus olhos encheram-se de lágrimas! Eu havia vencido as barreiras da dor e do desânimo, enfrentado o frio e a solidão e estava escrevendo um novo e feliz capítulo da minha vida.


Fiquei admirando a Cruz por muito tempo antes de escalar o monte de pedras e deixar ali minha pedrinha. Vi também muitos peregrinos passarem, quase direto, parando apenas para tirar uma foto. Outros juntaram-se a mim e admiraram tudo o que aquela Cruz simbolizava, emocionados. Quando subi o monte, deu-me vontade de assinar meu nome no poste da cruz. Foi o que fiz! Enfim, encontrei uma utilidade para o canivete suíço que tanto pesava em minha pochete! No início, achei que seria pecado, mas quando me deparei com outras assinaturas, não tive dúvida! Cravei meu nome eternamente na história do Caminho.


Continuei alegremente meu Caminho, mergulhada em meus pensamentos. Só acordei ao ouvir o toque de um sino, vindo do albergue de Manjarín, do famoso hospitaleiro Thomás. Na entrada, uma placa indicava as distâncias dali até os muitos lugares sagrados em todo o mundo. É um albergue muito simples. Não havia calefação ou banheiros, só um mezanino com vários colchões velhos e, apesar da simplicidade, Thomás e seus companheiros nos receberam de braços abertos para um café e tocavam o sino para cada peregrino que passava diante de sua porta. Falou-me com muito orgulho de seus objetivos e da sua luta pela paz no mundo. Recebi carimbos do albergue e da Ordem dos Cavaleiros Templários. Essa Ordem foi muito importante na época das Cruzadas, pois eram guerreiros que defendiam com o próprio sangue o Cristianismo e os peregrinos.

MANJARÍN

Fui convidada a participar da oração do meio dia. É um ritual muito bonito! A oração é feita com as espadas dos Templários e todos virados na direção do sol. Thomás contou-me a história de uma peregrina muito bonita, que em um dia de muito frio, abrigou-se em seu albergue. Era de uma beleza divina. Apesar de estar caminhando descalça, seus pés eram lisos e macios. Muitos anos depois, recebeu de presente um quadro, onde estava a imagem de uma Santa. Para seu espanto, a imagem que estava no quadro era a mesma da tal peregrina. Seria mais uma lenda do caminho? Lenda ou não, o que importava era a felicidade no rosto de Thomás ao contar-me aquela história. Era o tão esperado brilho nos olhos que eu tanto sonhava encontrar!


A descida até El Acebo era muito forte. Senti novamente aquela dorzinha chata no dedão do pé. Troquei o tênis pela papete, mas não adiantou muito. Com certa dificuldade, cheguei ao pequeno pueblo. Lembro-me como se fosse hoje do pôr do sol daquelas terras da Espanha e ainda sinto o prazer daqueles que foram os melhores dias sobre o “chão sagrado”. Eu estava no pequeno povoado, cansada, quase sem forças. Parei para um descanso, ainda em dúvidas sobre continuar ou não até Molinaseca ou Ponferrada. Aquele lugar parecia me chamar, pedir para que eu ficasse. Deixei-me levar pela intuição. Havia algo a aprender ali.

RUÍNAS EM EL ACEBO

Após um longo banho, saí para curtir um pouco mais o fim de tarde. Desci pela rua principal do pueblo em direção a um bar. Havia uma ruazinha que desembocava em uma espécie de mirante, de onde tive a sensação de ser dona daquele mundão lá embaixo. De repente, um cachorro enorme veio correndo em minha direção. Tinha cara de poucos amigos e latia raivosamente. Minha primeira reação foi congelar e dar as costas para aquele monstro. Rezei muito durante o que eu julgava ser os últimos segundos de vida que me restavam. Imaginei meu lindo corpinho, no auto dos seus quinze aninhos, sendo devorado vorazmente por aquele monstro. Apesar de estar perto do bar, os latidos ensurdecedores do cão não chamaram a atenção de ninguém. Senti seus dentes mordiscando minhas pernas, ao mesmo tempo em que babava e rosnava para mim. Concentrei-me na imagem daquele cachorro indo embora e perdoando-me por ter invadido seu território. Deu certo! A fera entrou em sua casa, deitou-se no chão e fechou os olhos, como se nada tivesse acontecido. Normalmente eu sairia dali e nunca mais voltaria, mas resolvi enfrentar meu medo.


Analisei a situação e resolvi dar a volta. Entrei em uma rua paralela e cheguei no bar. Perguntei de quem era aquela “gracinha” de cachorro. O dono prontamente identificou-se. Aí, “rodei a baiana”! Dei uma bela bronca no homem, deixando-o sem reação. Tudo o que dizia-me era que o cão era mansinho e nunca havia atacado ninguém. Quanto mais repetia isso, mais revoltada eu ficava! Eu tinha acabado de sofrer uma “tentativa de assassinato” e o dono do bicho não conseguia ter uma atitude digna de um homem! De repente, ele começou a bater no cachorro! Fiquei com pena do pobre bichinho e percebi o quanto minha raiva o influenciou a fazer aquilo. Pedi que parasse e que me apresentasse ao cachorro.
— “Como assim? Não compreendo, você é maluca?!” - falou.
— “Não! Pensei melhor e vi que a raiva e a violência não ajudarão em nada! Quero que ele me conheça e seja meu amigo” – respondi, em um momento de total insanidade.
E o monstro transformou-se em um cachorrinho dócil e carente. Deitou-se no chão com as patas para cima, pedindo-me carinho, sob o olhar admirado de todos. Só então, pude tomar meu café com leite tranqüila, na companhia de meu mais novo amigo.


Passei o final de noite assistindo futebol na TV com meus amigos do bar. Igualzinho a um homem! Queria sentir o que era ficar em frente a televisão assistindo onze homens correrem atrás de uma bola. Até que foi engraçado! Eles são um pouco grosseiros e barulhentos, mas diverti-me bastante. Estranho foi o fato de terem aceitado tão facilmente a presença de uma mulher compartilhando com eles um momento verdadeiramente masculino. Talvez por eu ser de um outro país, e esse país ser o berço do futebol. A Espanha é um país, pelo menos nas regiões em que passei, extremamente machista, pois as mulheres, em sua maioria, estão sempre na cozinha, nos campos ou arrumando a casa, enquanto os homens fumavam seus cigarros sentados na calçada. Acho que consegui romper as regras daquele lugar. Talvez El Acebo nunca mais seja a mesma. Ao menos para mim.

2 comentários:

Anônimo disse...

Belo e emociomante relato de sua passagem pela cruz de ferro, me emocionei muito, estou indo agora em setembro fazer o caminho, mas precisamente estou indo deixar uma uma doença muita rara de meu filho,lá e com fé e certeza por lá ficará sem que seja entregue a mais ninguem,te desejo toda a sorte do mundo, com luz e proteção. DEUS TE ABENÇÕE.
Luiz Cláudio Pereira - Rj

Atriz, Apresentadora e Mestre de cerimônias. disse...

Luiz,
Obrigada pela mensagem!!! Espero que encontres toda a felicidade desse mundo no seu caminhar, seja ele no Caminho ou na volta, que é quando começa realmente o Caminho.
Uma ótima viagem, muita saúde para seu filho, muita paz e luz e buen Camino amigo!