terça-feira, 29 de abril de 2008

TOUROS, RATOS E DEVANEIOS - 3º DIA

Acordamos decididos a fazer algo por nossos corpos. Eu comprei uma tornozeleira e o Chico “pegou emprestado” algumas pomadas que estavam largadas no albergue. Nos dois dias de Caminho, devido à dor no dedão, apoiei meu pé de forma errada ao caminhar e aí, a dor resolveu mudar de lugar e foi parar no tornozelo. O Chico estava todo dolorido, cada hora uma dor diferente, em um lugar diferente, mas nenhuma tão intensa quanto a minha. Voltamos para tomar café no albergue e encontramos o mesmo padre que havia nos recebido. Disse para deixarmos de ser preguiçosos e fazermos o possível para andar mais do que no dia anterior. Saímos rindo daquela “gafe”. Éramos os peregrinos mais descansados do Caminho!


Não contava que fosse ficar tão impaciente com o Chico a partir daquele dia. Não que ele fosse chato ou inconveniente, mas porque eu já estava em outro estado de espírito. Cada um de nós tinha uma prioridade. Eu queria parar em uma loja para comprar um cd player (levei vários cds do Brasil escolhidos a dedo) e ele queria tomar seu café com leite. Acabei cedendo e fomos comer. Teria que tomar uma decisão rápida. Não podia mais aceitar depender de uma outra pessoa para fazer as coisas. Afinal de contas, eu escolhi fazer o Caminho sozinha! Havia deixado tudo e todos no Brasil, justamente para conhecer a mim mesma. Estava deixando de fazer minhas coisas por alguém e no final eu é que estava infeliz. Foi ali que percebi o quanto estava sendo dependente do Chico e ele de mim. Precisávamos nos separar, mas ainda não tinha coragem de deixar meu amigo e seguir sem ele.



Muralhas rodeavam Pamplona. Para entrarmos na cidade, tivemos que contorná-las, como se tivéssemos seguindo as paredes de um labirinto. Eram incrivelmente altas e belas! Uma das coisas mais lindas que já vi. Logo depois, subimos uma ladeira de pedras, não muito íngreme, cruzamos uma espécie de portal e entramos em Pamplona. Paramos um pouco para admirar a paisagem lá de cima e um senhor veio em nossa direção. Conversamos um pouco. Aquelas perguntas de praxe “De onde vocês são? Onde começaram o Caminho?”... Ouvíamos isso em todos os lugares por onde passávamos. Perguntamos onde ficava a catedral e o senhor fez questão de nos acompanhar. Mostrou-nos a igreja, os museus, os palácios do governo local. Contou-nos que naquelas ruas o povo faz corridas de touros em maio. A manada corre atrás de um bando de malucos dispostos a fugir dos ferozes animais! Fiquei imaginando como seria fugir de um touro arisco e nada simpático por aquelas ruelas e, ainda por cima, com uma mochila nas costas. Ainda bem que estávamos em abril!


Realmente Pamplona é uma cidade incrivelmente bela. Em volta da Plaza del Castillo, a principal da cidade, vários “cafés” onde as pessoas jogavam conversa fora ou simplesmente sentavam-se tranqüilamente para ler um jornal. Era tudo muito colorido, apesar do tempo nublado. Talvez fossem meus olhos que simpatizavam com aquele lugar, pois as árvores que rodeavam a praça estavam todas desfolhadas e com uma cor acinzentada. Eu já via magia e beleza em tudo! Todos muitos bem arrumados, com seus sobretudos e casacos de pele e, apesar de todo o frio, era quase impossível não encontrar alguém com um sorvete nas mãos. Tive a sorte de encontrar meu doce favorito: Gofres. É uma espécie de waffle, um pouco mais adocicado e crocante que o nosso, coberto com uma generosa porção de chantilly e calda de chocolate quente. Um manjar dos deuses!


Pedi licença ao meu amigo Chico e fui em busca de um novo companheiro de Caminho: um tênis! Tinha cismado com as botas e precisava de um calçado mais maleável. Havia muitas lojas ali perto e não foi muito difícil encontrá-lo. Mais uma vez tive sorte, porque depois de encontrar meu doce favorito, encontrei o calçado perfeito a um preço bem mais acessível. Consegui livrar-me de mais um problema e estava feliz.


Podemos enviar coisas para Santiago em nosso próprio nome e pegá-las na agência central dos correios no local de destino. Tinha que arranjar uma caixa onde pudesse colocar minhas botas e enviá-las para Santiago. Achei que estava bem familiarizada com a língua local e tentei, inúmeras vezes, comprar a bendita caixa. Tudo em vão! Então, pensei em pedir ajuda ao senhor que nos acompanhou pelas ruas da cidade quando chegamos. Consegui encontrá-lo no mesmo lugar, parado, talvez à espera de outros peregrinos. É claro que não encontraria mais ninguém, pois pelo jeito eu e o Chico éramos os últimos a passar por ali naquele dia. Imagina se a dupla mais boêmia e preguiçosa deixaria a “lanterna” para outros andarilhos! Pedi que me acompanhasse e ajudou-me com prazer a despachar as botas para Santiago e não deixou-me pagar a conta da papelaria, onde comprei a pequena caixa. Até hoje não sei seu nome, mas no fundo do coração eu o agradeço por sua amabilidade. Só faltava o meu cd player! Era impossível imaginar-me mais um dia sem minha “trilha sonora”.


Voltei à praça para encontrar o Chico e partirmos rumo à Cizur Menor, que é na outra extremidade de Pamplona. Passamos pelo campus da Universidade de Navarra, onde as pessoas se exercitavam e passeavam com seus filhos. Num desses lugares, vimos três peregrinos de cabelos brancos. Aqueles que julgávamos ser mais frágeis por serem mais velhos, eram justamente os que caminhavam mais rapidamente, nos fazendo comer poeira!!! Aquele trio nos acompanharia durante alguns dias. Foi o maior exemplo de força e determinação que tive no Caminho. Eram de uma solidariedade singular e super amorosos! Fico emocionada só de lembrá-los! Por não saber seus nomes, apelidei-os de “Trio Cometa”.


Quase chegando a Cizur, muitos peregrinos iam juntando-se à nossa marcha. A maioria deles era de algum lugar da Europa e estava começando o Caminho ali em Pamplona. O grupo foi crescendo e minha preocupação também. Durante a primeira semana, quase não curti o Caminho, com medo de não ter lugar para dormir nos albergues. Isso foi estragando a minha viagem, porque eu andava no ritmo das outras pessoas. Desde então, a dor no tornozelo passou para os dois joelhos com uma intensidade tão grande, que quase me impediu de continuar. Não imaginava ter tanta força para transpor aqueles obstáculos tão duros e que eu própria havia criado. Percebi que na vida, a maior parte de nossos problemas são criados por nós mesmos. Uma bela lição, mas difícil de ser seguida no nosso dia a dia.


Ao chegarmos no albergue, Chico, eu e uma peregrina escocesa, ocupamos as três últimas vagas existentes. O que me corroeu foi ver o “Trio Cometa” bater de cara na porta. Talvez por nossa culpa, talvez não. Aprendi então outra lição, um pouco cruel, é verdade, mas é a lei da vida, a lei do mais forte, do mais rápido. Mesmo assim, não me senti bem com todo o esforço que fiz para garantir uma vaga em um albergue. Será que valeu a pena ter corrido tanto? Meu corpo disse-me que não. E minha consciência concordou. Não era só o fato de três peregrinos terem ficado sem lugar para dormir, mas também o fato de não ter a mínima importância um lugar para dormir, se comparado a tudo que deixei passar em branco durante o percurso. Eu poderia ter seguido para um hotel ou até ter dormido no jardim do albergue. Foi ali que percebi o que geralmente buscava, erradamente, a vida inteira: chegar na frente, ser a melhor, ser perfeita. Ganhei a “corrida” daquele dia. Em compensação, meu dia poderia ter sido mais alegre e sem dores.


O albergue era particular e a hospitaleira um pouco rude. Bem diferente do espírito do Caminho de Santiago. Senti-me em um hotel, pagando caro e recebendo as chaves de meu quarto, se é que posso chamar aquilo de quarto! Mesmo assim, encontrei algo que valia a pena: um belo jardim, onde pude descansar, sentindo o sol em meu rosto.


No fim da tarde, depois de lavar as roupas do dia, resolvi voltar à cidade para comprar o meu CD player. Andei quase 5 km e a dor era insuportável. Valeu a pena! De quebra, achei uma lojinha com internet e escrevi para os meus amigos no Brasil. Voltei mancando muito, mas toda feliz porque, enfim, estava ouvindo minhas músicas. De certa forma, elas distraíam minha cabeça e eu acabava esquecendo as dores nos joelhos. Cheguei ao albergue com um sorrisão no rosto. Não encontrei ninguém. Todos os peregrinos já haviam saído para jantar. Segui então para o restaurante, na esperança de encontrá-los. Por sorte, só havia um lugar para comer ali perto e jantei com meu amigo Chico e um casal de argentinos.


Devidamente alimentados, voltamos para o albergue e fomos dormir, pois o dia seguinte seria muito duro, com uma subida forte ao Alto do Perdão. Nossa noite foi pavorosa!!! Difícil saber quem roncava mais naquele pequeno quarto. No meio da madrugada, deu-me vontade de ir ao banheiro e o Chico quase me matou de susto, dizendo que havia um rato circulando pelo chão. A vontade foi mais forte que o medo, e nada me aconteceu. Até hoje, eu não sei ao certo, se realmente havia um rato no quarto, ou se foi um devaneio do meu amigo.


Um comentário:

Anônimo disse...

Em Cisur Menor e já com tantas dores... Tisc, tisc, tisc...
Não quero nem pensar se isto fosse comigo.

Beijo.
Leon.