domingo, 25 de maio de 2008

QUASE LÁ - 22 E 23º DIA


De Palas de Rei em diante, caminhei quase o tempo todo sozinha, envolvida em meus pensamentos, segura em saber que tinha minha “família peregrina” por perto. Nas horas de descanso, todos se reuniam e cantavam, dividiam experiências e ajudavam uns aos outros. Num desses encontros, senti a falta da minha amiga Mônica. Esperei um pouco, mas nada dela chegar! Decidi continuar sem ela. Certamente a veria no albergue de Árzua. Mas, ao encontrar meus amigos em um bar, um pouco mais adiante, Harrison e Diego disseram-me que seria melhor ficarmos em Ribadiso da Baixo. O que eu faria? Seguiria com o grupo que no dia anterior andou mais que o previsto só para me acompanhar, ou esperaria por minha amiga que estava junto comigo há dias? Fiquei no bar meditando um pouco a respeito, enquanto meus amigos seguiam viagem. Cheguei à conclusão de que cometeria o mesmo erro do início do Caminho, se retardasse meu ritmo para esperar a Mônica. Era hora de seguir meu rumo, sem amarras, sem dependências. Segui, portanto, em direção à Ribadiso da Baixo.

No meio da natureza exuberante, segui meu caminho, meditando. Parecia um filme! Minha vida toda passou diante dos meus pensamentos. A trilha sonora do dia era o cantar dos passarinhos. De repente, ouvi o que parecia ser batidas na madeira. Quando olhei para a árvore ao lado, vi um pica-pau. Que maravilha! Achei que nunca veria um pássaro desses ao vivo. Pensei no desenho animado, que eu acho um tanto cruel e achei que o bichinho não merecia levar a fama de espertinho. Mais à frente, adentrei um pueblo, onde tinha uma simpática igreja. Desde Roncesavalles, eu havia entrado em poucas durante o Caminho, mas aquela me chamou a atenção. Ainda bem que entrei! Foi a imagem de Jesus mais bonita que vi na vida. O nome do pueblo era Leboreiro e crucificado na cruz, aquele Jesus parecia estender a mão direita aos peregrinos. Muito interessante.



Logo depois, parei para descansar em uma pedra à beira de um rio. Senti uma picadinha entre os dedos mindinhos e “seu vizinho” do pé esquerdo. Tirei o tênis para ver o que era. Parecia picada de formiga, mas acabei me deparando com a minha primeira bolha! Ah, eu tinha que perder a virgindade, né?! Sorte minha, ela era bem pequena, fiz um curativo e continuei sem problemas.


Na descida para Ribadiso, avistei Harrison e Klaus sentados à beira do rio, com os pés dentro d’água. Uma cena incomum até aquele momento. Que delícia passar o resto do dia descansando os pés na água de um rio! Juntei-me a eles e passamos ali o final de tarde, assistindo o espetáculo do pôr do sol, na mais santa paz. Fiquei esperando pela passagem da minha amiga Mônica, mas ela deve ter parado para dormir em Melide. Mais tarde, já ao cair da noite, juntamos a comida que cada um trazia consigo e fizemos um grande jantar. Tudo se transformou em uma grande festa novamente! As canções, os brindes, as histórias, as risadas, a felicidade. Diferentes nacionalidades, diferentes idiomas e um só objetivo: confraternizar, celebrar a paz e o amor. Este era o espírito do Caminho!


No dia seguinte, saímos bem cedo, logo ao amanhecer. Tirei várias fotos do nascer do sol e deixei-me contagiar por sua energia. O céu tinha cor alaranjada e os primeiros raios solares acariciavam meu rosto. Apesar do sono, conseguíamos manter a alegria e seguíamos cantando. Como boa brasileira, arrisquei até uns passos de samba, meio desequilibrados, devido ao peso da mochila em minhas costas. Tudo era motivo para que um sorriso tomasse conta de nossos rostos.

Já em Árzua, paramos para o café da manhã. Dali em diante, o grupo se separou. Tive meus momentos de solidão, de alegria, de tristeza. As emoções estavam à flor da pele. Era o penúltimo dia da jornada de um mês. O que encontraria em Santiago? Será que todo o esforço teria valido a pena? A minha vontade era de parar o tempo ou de começar tudo de novo. Talvez porque eu não tenha vivido plenamente o caminho ou porque o caminho é infinito? Mil perguntas povoavam meus pensamentos. Não queria que meu sonho terminasse. Eu ainda nem tinha outro sonho para buscar! Sentei no meio da trilha e chorei. Era um choro diferente, um mix de sentimentos: saudade, vontade de chegar a Santiago, nenhuma vontade de chegar a Santiago. Mesmo assim continuei, afinal, o caminho é para ser trilhado e tudo na vida tem início, meio e fim.

A paisagem era linda e me reconfortava. Aos poucos, voltei a curtir minha peregrinação, sem pensar na chegada. Realmente, a Galícia é a parte mais bonita do caminho. Passei por lugares encantados, saídos de conto de fadas. De repente, comecei a ouvir vozes e risos. Depois de uma curva, surgiu uma pequena cabana, onde estavam lanchando Mônica, Irene, Marc e os demais. Ah, nunca pensei que reencontraria a minha amiga antes de Santiago. Certamente ela deve ter dormido em Árzua, ou seja, a danada havia caminhado mais do que eu no dia anterior. Novamente foi uma festa! Combinamos, eu e Mônica, de dormir no Monte do Gozo, para chegarmos juntas a Santiago. Para variar, saí na frente deles e segui viagem sozinha novamente.

Marc, Mônica, eu e Irene

3 comentários:

Anônimo disse...

Estou torcendo para você NÃO chegar para pdermos ler mais alguns dias de relato (rsrsrsrsrs).
Abraços, Artur

sibelas disse...

Tilara
Dou-lhe os meus parabéns!
Na Páscoa fiz o pequeno Caminho de Santiago e fiquei maravilhado. Passo as noites ao computador a escrevinhar os meus sentimentos. Gostava de escrever qualquer um livro, uma web page, um blog (vou pensar!)
Você deu-me um alento especial, acho que vou tentar um blog(guinho).
Novamente parabéns e não acaba jamais o seu relato fico à espera de muito mais
Beijo
Emídio (PORTUGAL)

JANILDO disse...

Parabéns Tilara pelos seus relatos. Estou ansioso para saber se você reencontrou o Chico. Vamos aguardar os próximos relatos.
sds.
Janildo de Lima v