
Minha despedida resumia-se a duas palavras: felicidade e medo. Estava feliz como nunca havia estado antes, porque era delicioso realizar um sonho com seu próprio esforço, mas ao mesmo tempo, estava apavorada! O que me deixava apreensiva era a mudança que estava por vir. Outro país, outra cultura, outra língua. Era preciso estar aberta a tudo e, de certa forma, havia em mim um bloqueio para enfrentar uma nova realidade. O que fazia tantas pessoas, inclusive eu, largarem tudo aqui no Brasil, atravessar o oceano para caminharem durante um mês? O que haveria de tão mágico naquele “Caminho Sagrado”? O que aconteceria na minha cabeça? E a volta? Será que o Caminho me ensinaria um jeito melhor de levar a vida? Ou será que eu voltaria mais confusa do que já estava? Sabia que era a minha hora de ir ao Caminho. Já estava tudo pronto e minha única opção era encarar com coragem o desafio que estava por vir.
Eu ainda não havia decidido se começaria o Caminho na França ou já na Espanha. Em Saint Jean ou Roncesvalles? Eram muitas dúvidas e isso me deixava cada vez com mais receio de levar a ideia do Caminho adiante. Quase desisti de tudo quando cheguei ao aeroporto, já na hora de embarcar. Minhas pernas tremiam e chorei como uma criança. Medo, alegria, desespero, ansiedade, vontade de fugir dali, enfim, uma mistura de sentimentos, bons e ruins, difíceis de controlar. Se eu tivesse ficado mais um minuto parada em frente ao portão de embarque, tenho certeza de que teriam me internado! Em questão de segundos, eu passava do choro intenso ao ataque de riso. Parecia uma doida varrida! E num impulso louco, entrei correndo como um furacão para a sala de espera. Era a melhor forma de tentar fugir da possibilidade de desistir!
Na antessala, encontrei um homem que aparentava ser um peregrino. Aproximou-se de mim e perguntou exatamente a mesma coisa que eu tinha em mente:
- “Você vai para o Caminho de Santiago?”
Que alívio encontrá-lo! Muito bom saber que eu não era a única maluca que estava embarcando para um mês de caminhada na Espanha! Seu nome era Calixto e estava indo fazer o Caminho sozinho, exatamente como eu. Fiquei olhando para ele, calada, até que ele perguntou de novo:
- “Então, você também vai para o Caminho de Santiago?”
Respondi que sim e já fiquei grudada nele. Foi a maneira que encontrei de sentir-me um pouco menos insegura. Se é que isso é possível quando estamos prestes a pular num abismo desconhecido! Pior foi que aquele homem enorme também aparentava estar morrendo de medo. O jeito era ficar apoiado um no outro, como dois bêbados saindo de um bar, e seguir em frente. Um tempo depois, chegou outro peregrino. Esse eu já conhecia! Era Chico, um doce de pessoa. Já o havia encontrado na Associação dos amigos do Caminho de Santiago, no dia em que peguei minha credencial de peregrino. Que alívio! Quanto mais peregrinos por perto, melhor!
Embarcamos. No voo, ao meu lado, sentou-se um senhor português. No início, foi muito simpático comigo, perguntava sobre o Caminho de Santiago, se eu estava indo sozinha, porque eu havia escolhido esse modo tão estranho de refletir na vida, contou-me histórias da família toda...
...enfim, era um tagarela! Mas, o pior ainda estava por vir! Ele comia de boca aberta, falava de boca cheia, abria os braços sem deixar espaço suficiente para eu comer e ainda ficou um pouco bêbado. Meu Deus! Como era inconveniente!
Após o jantar, escovei os dentes e voltei para a poltrona. Arrumei a melhor posição para descansar e cobri meu corpo, sempre rezando para que o velho não continuasse tagarelando no meu ouvido. Quando já estava quase dormindo, ainda naquele estado em que não sabemos direito o que é sonho e o que é realidade, senti um toque em minha perna. Não acreditei no que estava acontecendo!
"Será que ele seria tão abusado?" - pensei.
Simulei uma espreguiçada e recolhi-me um pouco, tirando minha perna do seu raio de ação. Não queria julgar o pobre. Ele devia estar dormindo e sua mão escorregou. Ledo engano. Senti de novo aquela mão peluda e gosmenta tirando proveito da minha coxa indefesa. Ah, em outra época, eu teria esbofeteado sua cara ou feito um escândalo! Mas, o Caminho já estava em mim e achei que devia ser compreensiva e relevar. Respirei fundo, contei até mil e levantei para um café. Passaria a noite toda em pé, enchendo o corpo de cafeína se fosse preciso! Tudo para não explodir de raiva e indignação!
Quando tudo parecia calmo, tentei voltar para a poltrona, mas ao chegar pertinho do meu santo lugar, o velho virou-se, quase caindo no corredor do avião, chamando-me com pinta de marido machão, fazendo caras e bocas como ninguém. Ah, não ia prestar! Eu já estava me preparando pra fazer um escândalo e, eis que surgiu uma mão segurando meu braço por trás. Já ia colocar na conta também! Ia virar e começar a gritar para esta pessoa também! Alivio quando vi que era o Calixto, o peregrino que eu conheci no aeroporto, antes de embarcar. Disse-me que havia percebido algo estranho, mas como eu não havia dado sinais de que estava em apuros, ficou só na moita esperando, um ato mais audacioso do velho para se manifestar. Enfim, teria uma noite de descanso! Se é que podemos descansar bem em aviões...
Já no aeroporto de Madrid, enquanto esperávamos o voo para Pamplona, paramos para um café e lá estava ele! O velho tarado português! Já tentando cercar sua próxima vítima. A vontade que me deu foi de ir até lá e falar poucas e boas para aquele velho! Encher a cara dele de tapas! Novamente respirei fundo e me segurei! Acho que foi uma das grandes lições que aprendi na vida! Respirar, recuar e ver outra maneira de resolver um problema. Mas, confesso, aqui só pra vocês, que me arrependi de não ter dado uns bons sopapos naquele velho sem vergonha!
Um comentário:
Confesso que teria dado um bofete nesse tarado.
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